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sexta-feira, 16 de outubro de 2015

29º domingo do Tempo Comum


1ª Leitura - Is 53,10-11
Salmo - Sl 32,4-5.18-19.20 e 22 (R.22)
2ª Leitura - Hb 4,14-16
Evangelho - Mc 10,35-45

Naquele tempo:
Tiago e João, filhos de Zebedeu,
foram a Jesus e lhe disseram:
'Mestre, queremos que faças por nós o que vamos pedir'.
Ele perguntou:
'O que quereis que eu vos faça?'
Eles responderam:
'Deixa-nos sentar um 
à tua direita e outro à tua esquerda,
quando estiveres na tua glória!'
Jesus então lhes disse:
'Vós não sabeis o que pedis.
Por acaso podeis beber o cálice que eu vou beber?
Podeis ser batizados com o batismo
com que vou ser batizado?'
Eles responderam: 'Podemos'.
E ele lhes disse:
'Vós bebereis o cálice que eu devo beber,
e sereis batizados com o batismo
com que eu devo ser batizado.
Mas não depende de mim conceder
o lugar à minha direita ou à minha esquerda.
É para aqueles a quem foi reservado'.
Quando os outros dez discípulos ouviram isso,
indignaram-se com Tiago e João.
Jesus os chamou e disse:
'Vós sabeis que os chefes das nações as oprimem
e os grandes as tiranizam.
43Mas, entre vós, não deve ser assim:
em quiser ser grande, seja vosso servo;
e quem quiser ser o primeiro, seja o escravo de todos.
Porque o Filho do Homem não veio para ser servido,
mas para servir
e dar a sua vida como resgate para muitos'.
Palavra da Salvação.

O Poder que faz o outro crescer – Pe. João Batista Libânio

Nesse evangelho Jesus vive uma experiência humana que atravessa toda a história da humanidade. Quando alguém se desponta no poder, logo todos querem cercá-lo para ocupar os lugares mais relevantes. Jesus começa a aparecer como profeta, como Messias, como alguém que tinha poder, que podia fazer milagres, e os olhos dos doze discípulos começaram a faiscar: quem será o primeiro dentre nós? Estes dois tomaram a iniciativa: João e Tiago, que ainda eram discípulos verdes. Jesus vai dizer que eles não sabiam o que estavam pedindo. Ele não dá as razões, mas eu vou lhe pedir licença para fazê-lo. Grande pretensão minha! 

Eu acho que as duas razões são as seguintes: em primeiro lugar, o poder é muito perigoso, ao mesmo tempo em que é difícil. Qual de vocês daria a um filho alguma coisa perigosa? Nunca. Ninguém coloca uma faca nas mãos de uma criança pequena. Não exporia um filho, uma filha a uma situação de perigo. Nenhum pai faz isso. Jesus alerta os discípulos de que o poder é perigoso, e eu cito um autor inglês, que viria muito depois de Jesus: o famoso Lorde Acton, que disse que todo o poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente. 

O poder nos assedia, nos seduz, quer que sucumbamos de qualquer maneira, à custa de qualquer sacrifício, de qualquer ética. Jesus nos avisa do perigo de entrarmos por esse caminho. Quando a pessoa não tem conteúdo, quando é vazia, quando só tem a casca, precisa de poder para encher sua vacuidade. Essa é a razão! Quando a pessoa é cheia de riqueza interior, não precisa de poder, porque ela é o poder. Mas, quando não é, quando simplesmente é um arrivista, chega lá em cima, quer arrebanhar o poder a toda força, quer passar por cima de tudo, porque não tem consistência interior. Busca o poder para que ele possa dar-lhe o que ela mesma não tem. Toda vez que uma pessoa não vale nada, é ela quem mais ambiciona o poder, porque precisa que alguma coisa lhe preencha o vazio. 

Ninguém vale pelo diploma, pelos títulos, mas porque existe. Vale porque vive, porque é bom, porque lutou. O poder é algo externo, escorre da pessoa e não entra dentro dela. Por isso, Jesus diz que é perigoso. Para Ele, não era, porque os próprios judeus já reconheciam que Ele falava como quem tinha autoridade. Não precisava se impor pela autoridade, porque era a própria autoridade. 

Quando uma pessoa fala com consistência, logo notamos sua honestidade, sua sabedoria. Um bom professor, quando dá aulas, podemos sentir que ele tem autoridade, tem riqueza. Os professores mais medíocres são os mais arrogantes, os que dão as piores notas, vivem gritando, batendo na mesa. Mas, quando um professor vale, preenche a vida de tantos alunos. Eu conheci vários deles! Esses não precisam fazer chamada nenhuma, reprovar aluno nenhum. Essa é a autoridade, o poder de que fala Jesus. 

Tenho ainda uma segunda razão. Jesus cita os poderosos que querem dominar o mundo. Quando tenho poder sobre o outro e disponho dele, não sei usá-lo. O outro, como ser humano, é infinito e dele eu não posso dispor como coisa. Das coisas podemos dispor despoticamente. Mas dispor de uma pessoa, de uma liberdade, de uma consciência, de uma transcendência, por menor que seja, é impossível, porque ela é infinita. Por isso Jesus alerta que é perigoso quando se tem a pretensão de tratar as pessoas como propriedade: faça isso, não faça aquilo, como se elas fossem marionetes que comandamos por cordõezinhos. Temos que olhar para qualquer pessoa, sabendo que ali está o infinito. Quanto respeito ela merece! Qualquer pessoa que vemos, por mais degradada que esteja, é infinita. É isso que Jesus diz e afirma que é difícil. Muitas vezes nos sentimos mais dotados, e às vezes somos mesmo. Não é isso que é pecado, orgulho, vaidade. Tivemos família, tivemos oportunidades, sorrisos lindos, límpidos, transparentes. São dons que recebemos de presente, mas que só existem para fazer com que os outros cresçam. É preciso que nós desçamos. Quanto mais tivermos, mais poderemos descer para levantar. Guardem esta frase: quanto menos tenho, mais quero subir; quanto mais tenho, mais posso descer. E podendo descer, podemos levantar os outros. 

O verdadeiro poder é exatamente quando eu me despojo de todo poder. É quando me coloco pequeno ao lado do outro, quando sou capaz de encontrar uma palavra bonita para tocar o coração de uma pessoa, quando eu consigo fazer alguém crescer, sair de baixo. Este é o grande poder: ajudar as pessoas a crescerem, a melhorarem, a serem mais felizes, a se valorizarem. Poder não é sentar-se à direita ou à esquerda, não é subir a rampa do Planalto. Todos esses são poderes passageiros. 

Aí está a força do evangelho: que entre nós não seja assim! Não sejamos aquele que quer subir para dominar, mas que, subindo, desce. Exatamente como o Verbo Divino eternamente desce e assume a humanidade em seu nível mais baixo, que é morrer pregado numa cruz, totalmente despido como escravo. Desceu ao mais baixo para levantar toda a humanidade. Essa é a razão! Não desceu apenas por descer, não subiu para humilhar-nos – isso é maniqueu. 

Se descermos, é porque queremos que as pessoas se levantem. É como qualquer mãe com seu filhinho pequeno, que se abaixa para carregá-lo. Uma das coisas mais lindas, que eu gosto tanto de ver, são os pais carregando seus filhos nos ombros para que eles vejam alto. É esse o gesto de Jesus. O pai é alto e carrega o filho para que ele fique mais alto ainda. Esse é o símbolo do poder para o cristão: fazer com que os pequenos subam, os grandes se abaixem. Amém. 

Pe. João Batista Libânio, sj – Um outro olhar, vol. 7

Confira a reflexão de Frei Alvaci Mendes da Luz, OFM para este 29º domingo do Tempo Comum: