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sábado, 31 de outubro de 2015

Santo do dia: Santo Afonso Rodriguez



Afonso Rodriguez exerceu a princípio a profissão de mercador de tecidos na cidade de Segóvia, onde nasceu no dia 25 de julho de 1531. Deus, porém, que o chamava a uma vida mais perfeita, permitiu-lhe padecer uma série de provações, destinadas a desapegá-lo completamente do mundo.

Sofreu alguns prejuízos consideráveis no negócio, depois que a morte lhe levou a esposa e uma filha, às quais amava ternamente. Contudo, restava-lhe um filho, poderoso consolo para tão aflito coração; mas este morreu pouco tempo depois de sua mãe e de sua irmã.

Afonso, adorando a mão de Deus que o feria, desde então se dedicou totalmente às obras de mortificação cristã, e entregou-se à prática de grandes austeridades. Assim passou três anos, consultando Deus e suplicando-lhe que lhe desse a conhecer a sua vontade. Foi então que se decidiu pela Companhia de Jesus, na qual entrou no ano de 1509, e pronunciou os votos finais em 5 de abril de 1585.

Seus superiores confiaram-lhe o cargo de porteiro do colégio de Maiorca, humilde função que o santo religioso desempenhou até o fim de sua vida, durante numerosos anos. Foi neste posto, aparentemente tão insignificante, que se elevou à mais alta santidade, conservando a ideia de Deus continuamente presente no seu espírito, vivendo em permanente mortificação, obedecendo com humildade perfeita aos seus superiores, e dando provas de uma ilimitada caridade, de uma complacência e uma mansuetude inalteráveis, fosse em relação a seus irmãos, fosse em relação aos alunos e aos estrangeiros que frequentavam o colégio.

Várias vezes, viram-no arrebatado em êxtase enquanto orava, mas os dons de Deus não lhe enchiam de vaidade o coração. Afonso Rodriguez considerava-se o maior dos pecadores e os favores que recebia do Senhor só serviam para incutir nele sentimentos da mais profunda humildade.

Esse santo religioso morreu no dia 31 de outubro de 1617, com a idade de oitenta e seis anos, e foi considerado objeto de uma veneração toda especial, tanto por parte do povo do lugar, como por parte de seus irmãos. No ano de 1627, o Papa Urbano VIII começou a informar-se sobre as suas virtudes.

Foi beatificado por Leão XII, em 20 de setembro de 1828, e canonizado por Pio IX.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Caminhos do Evangelho - Solenidade de Todos os Santos

Liturgia: Solenidade de Todos os Santos

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1ª Leitura - Ap 7,2-4.9-14
Salmo - Sl 23(24),1-2.3-4ab.5-6 (R. cf. 6)
2ª Leitura - 1Jo 3,1-3
Evangelho - Mt 5, 1-12a

Naquele tempo:
Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e sentou-se.
Os discípulos aproximaram-se,
e Jesus começou a ensiná-los:
'Bem-aventurados os pobres em espírito,
porque deles é o Reino dos Céus.
Bem-aventurados os aflitos,
porque serão consolados.
Bem-aventurados os mansos,
porque possuirão a terra.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça,
porque serão saciados.
Bem-aventurados os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração,
porque verão a Deus.
Bem-aventurados os que promovem a paz,
porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os que são perseguidos
por causa da justiça,
porque deles é o Reino dos Céus.
Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem
e perseguirem, e mentindo,
disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim.
Alegrai-vos e exultai,
porque será grande a vossa recompensa nos céus.
Palavra da Salvação.

A santidade ao alcance de cada um – Pe. João Batista Libânio, sj

A Festa de Todos os Santos abarca não apenas os santos que estão no céu, mas também um pouquinho de cada um de nós que está aqui na terra. Hoje, a liturgia nos apresenta três retratos diferentes sobre que coisa é ser santo.

O primeiro é um retrato glorioso, mostrado por um discípulo de João que escreveu o Apocalipse. Ele fecha os olhos, e sua imaginação começa a funcionar. Imagina o trono esplendoroso de Deus, o grande Javé, o Deus maior, ao lado de seu Filho, na forma de Cordeiro, não mais sangrando na cruz, mas já glorioso, e o Espírito Santo – a corte divina, tendo ao lado quatro anciãos, que podemos imaginar como sendo os quatro evangelistas. A ideia de ancião não se mede pela idade, pois há muito velho caduco querendo parecer jovem, e muito jovem envelhecido por ter perdido o gosto pela vida. Nós, sacerdotes, somos anciãos, mesmo os que ainda são jovens, pois estamos junto às comunidades para ajudar.

Presbyteros/presbyter em grego e em latim, significa presbítero – sacerdotes, padres. Para a Escritura, o que interessa é aquele que carrega a experiência, a vida, o amor, o encanto, aquele que sabe comunicar-se, passar alegria e entusiasmo para quem dele necessita. E todos nós, jovens e velhos, deveríamos ter um pouco desse ancião, um pouquinho dessa beleza, dessa transparência, para passar para os outros alguma coisa que os faça crescer. As pessoas estão muito sofridas, muito cortadas, podadas, necessitando de vigor, de uma força interior que as faça erguer. Vocês, jovens, precisam de mestres em suas vidas! Vocês têm desorientadores demais, sites inconvenientes aos bilhões, e falta-lhes alguém que lhes aponte o caminho do bem, da beleza e da verdade.

João continua apresentando uma multidão gigantesca – cento e quarenta e quatro mil pessoas, evidentemente, um número que simboliza as doze tribos de Israel –, todo o povo de Israel salvo diante do trono, pois, para a Bíblia, mil significa o infinito inumerável. Todos vestem uma túnica branca, símbolo da vitória sobre as batalhas da existência, todas as dores e sofrimentos por que passamos aqui. O Cordeiro olha para aquelas túnicas e vê que, paradoxalmente, elas haviam sido alvejadas no seu próprio sangue. É um sangue vermelho, mas que purifica a todos nós. Era uma multidão gigantesca de todos os que haviam morrido em Cristo. Nesse primeiro quadro dos santos, imagino os nossos pais, avós, todas as pessoas que já morreram e estão nesse grande cortejo.

Num segundo retrato, São João olha para dentro de nós, que não temos consciência da glória que trazemos em nosso interior. Tudo aquilo que o Apocalipse descreveu está dentro de nós, só que oculto, mas um dia há de se revelar. É a glória, a beleza, a santidade que está oculta no coração de cada um de vocês que está aqui, e que será revelado, quando um dia nos encontrarmos no esplendor da glória celeste. É a santidade chegando mais perto. Se conseguíssemos ver a beleza que existe dentro de cada um de nós, ficaríamos cegos, pois os nossos olhos são pequenos.

O terceiro retrato mira mais longe ainda e não vê apenas os cristãos que, pelo batismo, já trazem a presença de Jesus dentro de si. É uma santidade que vê até mesmo aqueles que nem foram batizados, nem chegaram a conhecer Jesus, como um Gandhi (*), por exemplo. Sabem que no Oriente vivem mais de um bilhão de pessoas que nunca ouviram falar em Jesus? Mas entre elas há pessoas que trabalham pela justiça, pela paz, são misericordiosas, têm um olhar transparente e um dia verão a Deus. É uma santidade que contempla também aqueles que cuidam dos pobres, que são mansos até mesmo quando se grita contra eles. Portanto, as bem-aventuranças nos tecem um quadro de todas as pessoas que viveram uma dessas virtudes. Esse terceiro retrato mostra quais são os que estão caminhando para o reino da verdadeira santidade.

Hoje é a festa dos gloriosos retratados no Apocalipse, é um pouco também a festa de cada um de nós que traz a graça escondida dentro de si e que realiza um pouco dessas bem-aventuranças que acabamos de ouvir. Ainda que sejamos caluniados, perseguidos, injustiçados, dentro de nós nenhuma mentira baterá, pois prevalecerá a nossa verdade, que um dia brilhará eternamente. Amém.

Pe. João Batista Libânio, sj - Um outro olhar, vol 7

Confira  reflexão de Frei Alvaci Mendes da Luz, OFM para esta Solenidade de Todos os Santos:



quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Diálogo inter-religioso é semente de bem e amizade


Acompanhe abaixo a Audiência Geral desta semana, que contou com a presença de diversos líderes religiosos, em comemoração pelo Cinquentenário da promulgação da declaração conciliar "Nostra Aetate", que mudou a relação da Igreja com os judeus e estabelecendo novas bases em relação aos muçulmanos, os budistas, os hindus e demais religiões não-cristãs.

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!

Nas Audiências Gerais participam com frequências pessoas ou grupos pertencentes a outras religiões; mas a audiência de hoje é totalmente especial, para recordarmos juntos o cinquentenário da Declaração do Concílio Vaticano II Nostra ætate, sobre as relações da Igreja católica com as religiões não cristãs. Este tema era muito importante para o beato Papa Paulo VI, que já na festa de Pentecostes do ano precedente ao fim do Concílio, tinha instituído o Secretariado para os não-cristãos, hoje Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso. Por isso, manifesto a minha gratidão e dou as minhas calorosas boas-vindas a pessoas e grupos de várias religiões, que hoje quiseram estar presentes, especialmente a quantos vieram de longe.

O Concílio Vaticano II foi um tempo extraordinário de reflexão, diálogo e oração para renovar o olhar da Igreja católica sobre si mesma e sobre o mundo. Uma leitura dos sinais dos tempos em vista de uma atualização orientada por uma fidelidade dupla: fidelidade à tradição eclesial e fidelidade à história dos homens e das mulheres do nosso tempo. Com efeito Deus, que se revelou na criação e na história, que falou por meio dos profetas e ultimamente no seu Filho que se fez homem (cf. Hb 1, 1), dirige-se ao coração e ao espírito de cada ser humano que procura a verdade e os modos para a pôr em prática.

A mensagem da Declaração Nostra ætate é sempre atual. Evoquemos brevemente alguns dos seus pontos:

— a crescente interdependência dos povos (cf. n. 1);
— a busca humana de um sentido da vida, do sofrimento, da morte, interrogações que sempre acompanham o nosso caminho (cf. n. 1);
— a origem e o destino comuns da humanidade (cf. n. 1);
— a unicidade da família humana (cf. n. 1);
— as religiões como busca de Deus ou do Absoluto, no contexto das várias etnias e culturas (cf. n. 1);
— o olhar benévolo e atento da Igreja sobre as religiões: sem nada rejeitar daquilo que nelas existe de belo e de verdadeiro (cf. n. 2);
— a Igreja considera com estima os crentes de todas as religiões, apreciando o seu compromisso espiritual e moral (cf. n. 3);
— aberta ao diálogo com todos, a Igreja é ao mesmo tempo fiel às verdades em que crê, a começar por aquela segundo a qual a salvação oferecida a todos tem a sua origem em Jesus, único Salvador, e que o Espírito Santo está em ação, como fonte de paz e amor.

Houve numerosos eventos, iniciativas e relações institucionais ou pessoais com as religiões não cristãs ao longo destes últimos cinquenta anos, e é difícil recordá-los todos. Um acontecimento particularmente significativo é o Encontro de Assis, de 27 de outubro de 1986. Ele foi desejado e promovido por São João Paulo II, que um ano antes, portanto há trinta anos, dirigindo-se aos jovens muçulmanos em Casablanca desejava que todos os crentes em Deus favorecessem a amizade e a união entre os homens e os povos (19 de agosto de 1985). A chama acesa em Assis propagou-se no mundo inteiro e constitui um sinal de esperança permanente.

Merece uma especial ação de graças a Deus a verdadeira mudança que nestes cinquenta anos se verificou nas relações entre cristãos e judeus. Indiferença e oposição transformaram-se em colaboração e benevolência. De inimigos e estranhos, passamos a ser amigos e irmãos. Com a Declaração Nostra ætate o Concílio traçou o caminho: «sim» à redescoberta das raízes judaicas do cristianismo; «não» a todas as formas de anti-semitismo e condenação de qualquer injúria, discriminação e perseguição que delas derivam. O conhecimento, o respeito e a estima recíprocos constituem a senda que, se é válida de modo peculiar para a relação com os judeus, vale analogamente também para as relações com as demais religiões. Penso de maneira especial nos muçulmanos que — como recorda o Concílio — «adoram o Deus único, vivo e subsistente, misericordioso e todo-poderoso, criador do céu e da terra, que falou aos homens». Eles referem-se à paternidade de Abraão, veneram Jesus como profeta, honram a sua Virgem Mãe Maria, esperam o dia do juízo e praticam a oração, as esmolas e o jejum.

O diálogo de que temos necessidade não pode deixar de ser aberto e respeitoso, pois só assim se revela fecundo. O respeito recíproco é condição e, ao mesmo tempo, finalidade do diálogo inter-religioso: respeitar o direito dos outros à vida, à integridade física, às liberdades fundamentais, ou seja, de consciência, de pensamento, de expressão e de religião.
O mundo olha para nós, crentes, exorta-nos a colaborar entre nós e com os homens e as mulheres de boa vontade que não professam religião alguma, pede-nos respostas eficazes sobre numerosos temas: a paz, a fome e a miséria que afligem milhões de pessoas, a crise ambiental, a violência, em particular a cometida em nome da religião, a corrupção, a degradação moral, as crises da família, da economia, das finanças e sobretudo da esperança. Nós, crentes, não temos receitas para estes problemas, mas dispomos de um recurso enorme: a oração. E nós crentes, oramos. Devemos rezar. A oração é o nosso tesouro, no qual nos inspiramos segundo as respectivas tradições, para pedir os dons pelos quais a humanidade anseia.

Por causa da violência e do terrorismo difundiu-se uma atitude de suspeita ou até de condenação das religiões. Na realidade, não obstante religião alguma esteja imune do risco de desvios fundamentalistas ou extremistas em indivíduos ou grupos, é preciso considerar os valores positivos que elas vivem e propõem, e que constituem nascentes de esperança. Trata-se de elevar o olhar para ir mais além. O diálogo assente no respeito confiante pode produzir sementes de bem que, por sua vez, se tornam rebentos de amizade e de colaboração em muitos campos, e sobretudo no serviço aos pobres, aos mais pequeninos e aos idosos, na hospitalidade aos migrantes, na atenção a quantos vivem excluídos. Podemos caminhar juntos, cuidando uns dos outros e da criação. Todos os crentes de todas as religiões. Juntos, podemos louvar o Criador por nos ter oferecido o jardim do mundo, para o cultivar e preservar como um bem comum, e podemos realizar programas compartilhados para debelar a pobreza e garantir condições de vida digna a cada homem e mulher.

O Jubileu Extraordinário da Misericórdia, que está à nossa frente, é uma ocasião propícia para trabalharmos juntos no campo das obras de caridade. E neste setor, onde conta sobretudo a compaixão, podem unir-se a nós muitas pessoas que não se sentem crentes ou que vivem à procura de Deus e da verdade, pessoas que põem no centro o rosto do próximo, em particular o semblante do irmão ou da irmã em necessidade. Mas a misericórdia à qual somos chamados abrange toda a criação, que Deus nos confiou para sermos os seus administradores e não exploradores ou, pior ainda, destruidores. Deveríamos ter sempre o propósito de deixar o mundo melhor do que o encontramos, a partir do ambiente em que vivemos, dos pequenos gestos da nossa vida cotidiana.

Caros irmãos e irmãs, quanto ao futuro do diálogo inter-religioso, a primeira coisa que devemos fazer é rezar. E rezar uns pelos outros: somos irmãos! Sem o Senhor, nada é possível; com Ele, tudo se torna possível! Possa a nossa oração — cada qual segundo a sua tradição — aderir plenamente à vontade de Deus, o qual deseja que todos os homens se reconheçam irmãos e vivam como tais, formando a grande família humana na harmonia das diversidades.

Fonte: Vaticano

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Por que a rosa não mais floresce?

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De Rubem Alves

O padre disse que foi a falta de desejo honesto de ser feliz. O padre estava errado. A rosa que amamos pode deixar de florescer a despeito dos nossos mais sinceros esforços.

Há algo trágico no poema de Cassiano Ricardo.

Por que tenho saudade de você,
no retrato, ainda que o mais recente?
E por que um simples retrato, mais que você,
me comove, se você mesma está presente?

Quando li esse poema pela primeira vez tive a impressão de que ele estava brincando. Agora eu o leio como um lamento. Como eu amo você! Quem ama quer estar junto, segurar as mãos, ficar olhando para o rosto. Mas eu não sinto isso quando estou com você - eu não o encontro em você. Encontro no seu retrato. Olho para você, do outro lado da mesa. E me lembro do seu retrato. O retrato! Olho o seu retrato e sinto saudades. O retrato é o lugar da ausência. Barthes diz que aquilo que todos os retratos retratam é a morte: o que deixou de ser, o que não é mais. O tempo do retrato é um passado irrecuperável. Amo um objeto que não tem mais existência: a sua imagem no retrato, morta, embora você mesma esteja presente. Meu amor mora num passado sem volta. Sendo esse o caso, não amo você, presente, diante de mim, do outro lado da mesa.

A rosa florescia. Por que deixou de florescer?

Talvez o amor não passe de uma deliciosa ilusão que se realiza em momentos sagrados, raros. Quando ele acontece é aquela felicidade imensa, aquela certeza de eternidade.
Ah! Como os apaixonados desejam sinceramente que aquela felicidade não tenha fim! Mas o amor, pássaro, de repente bate as asas e voa ... Brincando, faz tempo, eu sugeri que um casamento que se baseasse no amor teria de ser efêmero porque o amor é sentimento, e os sentimentos não podem ser transformados em monumentos. É o evangelho que diz. Deus é amor. E diz também que Deus é "vento que sopra onde quer, sem que saibamos donde vem nem para onde vai".

Nos sonhos a imagem da casa frequentemente corresponde ao corpo. Jesus, numa parábola, compara o corpo a uma casa vazia que, por estar vazia, foi invadida por demônios sem-teto. As casas são comoventes. Uma das razões do meu amor pelas pinturas de Larsson é que ele pinta casas, com fumaça saindo pela chaminé, cozinhas, gatos, galinhas. Comovem-me especialmente as casas velhas - pelas estórias que elas contam. Sim, casas contam estórias, ou acontecidas ou por acontecer.

As casas estão ligadas ao amor. "Tu não te lembras da casinha pequenina onde o nosso amor nasceu? Tinha um coqueiro do lado que - coitado! - de saudade já morreu". O amor por uma pessoa começa do mesmo jeito como começa o amor por uma casa. Vem primeiro o visível: a gente vê a casa, a gente vê um rosto, um corpo. E aquele sentimento de querer morar naquela casa, de querer morar naquele corpo ... O que se imagina não pode se comparar ao que se vê. O que se vê é apenas um ponto em torno do qual a imaginação pinta a cena de felicidade. Sim, quero morar na casa, essa casa que vejo, de paredes brancas e janelas azuis porque estou amando tudo aquilo que acontecerá nela. Amo a casa de paredes brancas e janelas azuis pelos sonhos que a envolvem.

Os apaixonados não sabem que cada casa de paredes brancas e janelas azuis é uma pensão. Pensões frequentemente se anunciam como "familiares", lugares de respeito. O dono até pode rejeitar um possível hóspede. Com o corpo não é assim. Os hóspedes já estão lá, todos com a mesma cara, mas cada um de um jeito: um professor sério, uma criança que brinca, um avô carinhoso, um sedutor de fala mansa, um pecador arrependido, um poeta deprimido, um sargento autoritário, uma criança birrenta, um órfão abandonado, um sabe-tudo que só fala e não escuta, um debochado, um torturador que sabe onde dói mais, um assassino que só não mata por medo, um ser monstruoso, mistura de bruxa e demônio. Todos nos seus quartos. Normalmente não aparecem. Esse rol de hóspedes - eles não se encontram todos na pensão. Apenas alguns - o que é suficiente.

O dono da pensão - que se chama "eu" - se esforça por mantê-Ios quietos. Alguns, ele gosta que apareçam. São seres civilizados. Confirmam o caráter "familiar" da pensão. Outros, quando aparecem, é como se o inferno acontecesse. Trancam o dono da pensão (o padre o chamaria de "razão") num quarto, e estabelecem o horror-terror. É a gritaria, são as ofensas, os palavrões, a ironia cortante, as agressões, a violência. Os demônios têm um conhecimento preciso dos lugares a serem tocados. A pensão - paredes brancas e janelas azuis - se transforma num lugar infernal. (São nesses momentos que acontecem as tragédias. Crimes. Vem o julgamento. Mas aquele que é julgado, odiado e executado não é o criminoso. É o dono da pensão, pessoa pacífica e de bons sentimentos. O criminoso está dormindo, numa cela, no porão da pensão). Passada a orgia infernal, os demônios exauridos e satisfeitos retornam às suas celas, deixando os destroços para serem arrumados pelo dono da pensão. É o momento da tristeza e da vergonha. Como explicar que aquela pensão de paredes brancas e janelas azuis, anunciada como lugar sagrado - à porta, "Lar, doce lar"; no hall de entrada uma Bíblia aberta! -, de repente se transforme num lugar infernal?

Casamento é uma fusão de pensões. Para os apaixonados não é pensão: é a casinha pequenina, paredes brancas e janelas azuis, onde o nosso amor nasceu. O morador, a moradora: Que lindo sorriso! Que voz mansa! Que boca excitante! Ignoram que a casa é uma pensão onde moram muitos hóspedes estranhos que, sem nenhum aviso prévio, à menor provocação, acordam e fazem o inferno. Passada a vergonha vêm os pedidos de perdão, as promessas de que aquilo jamais irá se repetir, as juras de amor eterno. Assim falam as boas intenções da impotente razão. Mas as feridas produzidas não podem ser esquecidas. Somente Deus tem poder suficiente para esquecer. E o rosto - aquele mesmo que se encontra do outro lado da mesa, que outrora era lugar da imagem feliz - está irremediavelmente marcado: naquele rosto angelical foi vista a imagem que não se queria ver. O que se viu não pode ser esquecido. É. Tem razão o poeta: "O amor é a coisa mais triste quando se desfaz." É triste por causa do retrato: porque ele faz lembrar uma felicidade que se teve e que não se tem mais. O retrato é uma sepultura.

Rubem Alves em O amor que acende a lua

Santo do dia: São Judas Tadeu


São Judas Tadeu Judas, apóstolo que celebramos hoje, para não ser confundido com Judas Iscariotes, “apóstolo da perdição”, o traidor de Jesus, foi chamado nos evangelhos de Judas Tadeu. O nome Judas vem de Judá e significa festejado. Tadeu quer dizer peito aberto, destemido, melhor ainda, magnânimo.

Era natural de Caná da Galileia, na Palestina, filho de Alfeu, também chamado Cléofas, e de Maria Cléofas, ambos parentes de Jesus. O pai era irmão de são José; a mãe, prima-irmã de Maria Santíssima. Portanto Judas era primo-irmão de Jesus e irmão de Tiago, chamado o Menor, também discípulo de Jesus.

Os escritos cristãos dessa época revelam mesmo esse parentesco, uma vez que Judas Tadeu seria um dos noivos do episódio que relata as bodas de Caná, por isso Jesus, Maria e os apóstolos estariam lá.

Na Bíblia, ele é citado pouco, mas de maneira importante. No evangelho de Mateus, vemos que Judas Tadeu foi escolhido por Jesus. Enquanto nas escrituras de João ele é narrado mais claramente. Na ceia, Judas Tadeu perguntou a Jesus: “Mestre, por que razão deves manifestar-te a nós e não ao mundo?” Jesus respondeu-lhe que a verdadeira manifestação de Deus está reservada para aqueles que o amam e guardam a sua palavra. Também faz parte do Novo Testamento a pequena Carta de São Judas, a qual traz os fundamentos para perseverar no amor de Jesus e adverte contra os falsos mestres.

Após ter recebido o dom do Espírito Santo, Judas Tadeu iniciou sua pregação na Galileia. Realizou inúmeros milagres em sua caminhada pelo Evangelho. Depois, foi para a Samaria e, próximo do ano 50, tomou parte no primeiro Concílio, em Jerusalém. Em seguida, continuou a evangelizar na Mesopotâmia, Síria, Armênia e Pérsia, onde encontrou Simão, e passaram a viajar juntos.

Conta a tradição que percorreram juntos as doze províncias do Império Persa, nas quais converteram muitos pagãos. Ainda segundo essa fonte, os dois apóstolos foram torturados e mortos no mesmo dia, por pagãos perseguidores. Por isso a Igreja manteve a mesma data para as duas homenagens.

Ao certo, o que sabemos é que o apóstolo Judas Tadeu tornou-se um mártir da fé, isto é, morreu por amor a Jesus Cristo. A sua pregação e o seu testemunho eram tão intensos que os pagãos se convertiam. Os sacerdotes pagãos, furiosos, mandaram assassinar o apóstolo, a golpes de bastões, lanças e machados. Tudo teria acontecido no dia 28 de outubro de 70.

Os restos mortais, guardados primeiro no Oriente Médio e depois na França, agora são venerados em Roma, na Basílica de São Pedro. Considerado pelos cristãos o santo intercessor das causas impossíveis, foi a partir da devoção de santa Gertrudes que essa fama ganhou força no mundo católico. Ela, em sua biografia, relatou que Jesus lhe aconselhou invocar são Judas Tadeu até nos “casos mais desesperados”. Depois disso, aumentou o número de devotos do seu poder de resolver as causas que parecem sem solução. Diz a tradição que não há um devoto que tenha pedido sua ajuda e não tenha sido atendido.

A festa de são Judas Tadeu é celebrada no dia 28 de outubro, tanto na Igreja ocidental como na oriental. No Brasil, é um evento que altera toda a rotina do país, pois são multidões de católicos que querem agradecer e celebrar o querido santo padroeiro nas igrejas.

Hoje, 28 de outubro, a Igreja celebra também outro apóstolo: São Simão.


Fonte: Província Franciscana

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Dia Mundial de Oração pela Paz

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Neste 27 de outubro, a Igreja convida a todos a rezar pela paz. O Dia Mundial de Oração pela Paz foi criado pelo Papa João Paulo II, quando se reuniu em 1986, em Assis, com líderes de várias religiões para um encontro de diálogo sobre a paz.
Transcorria o Ano Internacional da Paz, celebrado pela Organização das Nações Unidas (ONU), e João Paulo II queria destacar a dimensão espiritual da paz e refletir, com os representantes das religiões, sobre a responsabilidade comum de orientar as crenças religiosas pessoais e comunitárias para a construção efetiva da paz; o papa lamentava que, infelizmente, a religião era instrumentalizada com frequência para gerar violência e alimentar conflitos.

Sem cair no sincretismo, nem relativizando as crenças de cada religião, o papa João Paulo II quis mostrar que era possível as religiões conviverem em paz e serem instrumentos de edificação da concórdia nas comunidades e entre os povos.

Em 2011, ao celebrar 25 anos desse Espírito de Assis, o papa Bento XVI, falando sobre o tema, convidou os líderes de religiões a prosseguirem nos esforços comuns pela paz. Desde o primeiro encontro, em 1986, muitas iniciativas de reconciliação e de paz já ocorreram. No entanto, também houve muitas ocasiões perdidas e retrocessos! Velhos conflitos, ocultos como brasa debaixo da cinza, explodiram novamente em terríveis atos de violência e pareceram sufocar a possibilidade da paz.

No dia 7 de setembro, quando convocou o mundo inteiro a rezar pela paz, especialmente pelo conflito devastador na Síria, o Papa Francisco pediu: “É possível percorrer o caminho da paz? Podemos sair desta espiral de dor e de morte? Podemos aprender de novo a caminhar e percorrer o caminho da paz? Invocando a ajuda de Deus, sob o olhar materno da Salus Populi romani, Rainha da paz, quero responder: Sim, é possível para todos! Esta noite queria que de todos os cantos da terra gritássemos: Sim, é possível para todos! E mais ainda, queria que cada um de nós, desde o menor até o maior, inclusive aqueles que estão chamados a governar as nações, respondesse: – Sim queremos! A minha fé cristã me leva a olhar para a Cruz. Como eu queria que, por um momento, todos os homens e mulheres de boa vontade olhassem para a Cruz! Na cruz podemos ver a resposta de Deus: ali à violência não se respondeu com violência, à morte não se respondeu com a linguagem da morte. No silêncio da Cruz se cala o fragor das armas e fala a linguagem da reconciliação, do perdão, do diálogo, da paz. Queria pedir ao Senhor, nesta noite, que nós cristãos e os irmãos de outras religiões, todos os homens e mulheres de boa vontade gritassem com força: a violência e a guerra nunca são o caminho da paz! Que cada um olhe dentro da própria consciência e escute a palavra que diz: sai dos teus interesses que atrofiam o teu coração, supera a indiferença para com o outro que torna o teu coração insensível, vence as tuas razões de morte e abre-te ao diálogo, à reconciliação: olha a dor do teu irmão – penso nas crianças: somente nelas… olha a dor do teu irmão, e não acrescentes mais dor, segura a tua mão, reconstrói a harmonia perdida; e isso não com o confronto, mas com o encontro! Que acabe o barulho das armas! A guerra sempre significa o fracasso da paz, é sempre uma derrota para a humanidade. Ressoem mais uma vez as palavras de Paulo VI: «Nunca mais uns contra os outros, não mais, nunca mais… Nunca mais a guerra, nunca mais a guerra! (Discurso às Nações Unidas, 4 de outubro de 1965: ASS 57 [1965], 881). «A paz se afirma somente com a paz; e a paz não separada dos deveres da justiça, mas alimentada pelo próprio sacrifício, pela clemência, pela misericórdia, pela caridade» (Mensagem para o Dia Mundial da Paz, de 1976: ASS 67 [1975], 671).

Segundo o Dicionário Franciscano, dois textos evangélicos, com sentido original provavelmente idêntico, parecem permitir duas visões diferentes de paz. Eles se fundem em Francisco em uma única e idêntica experiência de paz. A paz interior da bem-aventurança e a paz proclamada de maneira plena e a todos dirigida constituem uma única e mesma realidade.

A coerência reside no fato que Francisco não é um pacificador no sentido próprio do termo. Não cabe a ele a obrigação de negociar acordos, equilibrar concessões ou receber juramentos. Por mais nobre que seja esta missão, não é sua incumbência. A ele compete criar condições espirituais que permitam a cada um optar por si mesmo em favor da paz e da concórdia. O Evangelho que alimenta esta meditação espiritual permite também defrontar-se com os acontecimentos.

Francisco sabe muito bem que a paz pode partir do coração de seus frades rumo ao coração de cada homem. O Poverello lhes confere uma missão de paz, quando, à imitação de Cristo, os envia dois a dois a pregar (1Cel 29). Os frades têm um desígnio de paz para o mundo (1Cel 24) e este empreendimento abre as portas para o Reino dos céus. A saudação da paz dos frades repousa na experiência da bem-aventurança dos pacíficos. Ponto fundamental é que, sem dúvida, esta paz predomina sobre tudo.

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

"Igreja não marginaliza. Como Jesus, quer salvar todos"


Cidade do Vaticano (RV) – Na manhã de domingo, às 12h (hora local), o Papa rezou o Angelus com os fiéis, turistas e romanos presentes na Praça São Pedro e como de costume, fez também uma breve reflexão. Antes, havia celebrado a missa de encerramento da Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos sobre a Família e portanto, suas palavras iniciais foram de agradecimento pelas três semanas de trabalhos intensos, animados pela oração e o espírito de comunhão. “Foi cansativo, mas um verdadeiro dom de Deus que vai trazer muitos frutos”, prometeu.

A palavra ‘sínodo’, explicou, significa ‘caminhar juntos, e “nós vivemos a experiência da Igreja em caminho, especialmente com as famílias do Povo santo de Deus espalhado pelo mundo”.

Assim o Papa recordou a dramática realidade dos migrantes. Inspirando-se na Palavra de Deus na profecia de Jeremias, Francisco disse que a Igreja não exclui ninguém: 
“É uma família de famílias, aonde quem se cansa não é marginalizado, não é deixado para trás, mas caminha junto com os outros porque este povo caminha com o passo dos últimos; como se faz nas famílias e como nos ensina o Senhor, que se fez pobre com os pobres, pequeno com os pequenos, último com os últimos. Não o fez para excluir os ricos, os maiores e primeiros, mas porque este é o único modo para salvá-los, para salvar todos”.
“Confesso-lhes – continuou o Papa – que comparei esta profecia do povo em caminho com as imagens dos refugiados em marcha nas estradas da Europa: uma realidade dramática dos nossos dias. Também a eles Jesus diz: ‘Partiram no pranto, eu os consolarei após o sofrimento’. Estas famílias que sofrem, extirpadas de suas terras, também estiveram conosco no Sínodo, em nossa oração e nos nossos trabalhos, por meio da voz de alguns pastores presentes na Assembleia”. 

“A Igreja, disse o Papa, está próxima das muitas famílias de refugiados erradicados de suas terras: ‘Estas pessoas, em busca de dignidade, em busca de paz, permanecem conosco. A Igreja não as abandona porque fazem parte do povo que Deus quer libertar da escravidão e clamar à liberdade”.

Antes de conceder a bênção, Francisco fez votos que “o Senhor, por intercessão da Virgem Maria, nos ajude também a colocar na prática as indicações emersas em fraterna comunhão”.

domingo, 25 de outubro de 2015

Santo Antônio de Sant'Ana Galvão

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Frei Antônio de Sant’Ana Galvão nasceu em 1739, em Guaratinguetá, Estado de São Paulo, Brasil; cidade que na época pertencia à Diocese do Rio de Janeiro.

Com a criação da Diocese de São Paulo, em 1745, Frei Galvão viveu praticamente nesta diocese: 1762-1822. O seu ambiente familiar era profundamente religioso. O pai, Antônio Galvão de França, Capitão-Mor, pertencia às Ordens Terceiras de São Francisco e do Carmo, dedicava-se ao comércio e era conhecido pela sua particular generosidade. A mãe, Izabel Leite de Barros, teve o privilégio de ter onze filhos e morreu com apenas 38 anos com fama de grande caridade, a tal ponto que depois da morte não se encontrou nenhum vestido: tudo fora dado aos pobres.
Antônio viveu com seus irmãos numa casa grande e rica, pois seus pais gozavam de prestígio social e influência política. O pai, querendo dar uma formação humana e cultural segundo suas possibilidades econômicas, mandou o Servo de Deus com 13 anos para Belém (Bahia) a fim de estudar no Seminário dos Padres Jesuítas, onde já se encontrava seu irmão José.

Ficou neste Colégio de 1752 a 1756 com notáveis progressos no estudo e na prática da vida cristã. Teria entrado na Companhia de Jesus, mas o pai, preocupado com o clima antijesuítico provocado pela atuação do Marquês de Pombal, aconselhou Antônio a entrar na Ordem dos Frades Menores Descalços da reforma de São Pedro de Alcântara.

Estes tinham um Convento em Taubaté, não muito longe de Guaratinguetá. Aos 21 anos, no dia 15 de abril de 1760, Antônio ingressou no noviciado do Convento de São Boaventura, na Vila de Macacu, no Rio de Janeiro.
Durante este período distinguiu-se pela piedade e pelas práticas das virtudes, tanto que no “Livro dos Religiosos Brasileiros” encontramos grande elogio a seu respeito.

Aos 16 de abril de 1761 fez a profissão solene e o juramento, segundo o uso dos Franciscanos, de se empenhar na defesa da Imaculada Conceição de Nossa Senhora, doutrina ainda controvertida, mas aceita e defendida pela Ordem Franciscana.

Um ano depois da profissão religiosa, Frei Antônio foi admitido à ordenação sacerdotal aos 11 de julho de 1762. Os Superiores permitiram a sagrada ordenação porque julgaram suficientes os estudos teológicos feitos anteriormente.

Este privilégio foi também um sinal evidente da confiança que os Superiores nutriam pelo jovem clérigo. Depois de ordenado foi mandado para o Convento de São Francisco em São Paulo, com a finalidade de aperfeiçoar os estudos de filosofia e teologia, como também exercitar-se no apostolado.

Sua maturidade espiritual franciscano-mariana teve expressão máxima na “entrega a Maria” como o seu “filho e escravo perpétuo”, entrega assinada com o próprio sangue aos 9 de novembro de 1766.

Terminados os estudos, em 1768, foi nomeado Pregador, Confessor dos leigos e Porteiro do convento cargo este considerado importante, porque pela comunicação com as pessoas permitia fazer um grande apostolado, ouvindo e aconselhando a todos.

Foi confessor estimado e procurado, e quando era chamado ia sempre a pé, mesmo aos lugares distantes. Em 1769-70 foi designado Confessor de um Recolhimento de piedosas mulheres, as “Recolhidas de Santa Teresa” em São Paulo.

Neste Recolhimento encontrou a Irmã Helena Maria do Espírito Santo, religiosa de profunda oração e grande penitência, observante da vida comum, que afirmava ter visões pelas quais Jesus lhe pedia para fundar um novo Recolhimento.

Frei Galvão, como confessor, ouviu e estudou tais mensagens e solicitou o parecer de pessoas sábias e esclarecidas, que reconheceram tais visões como válidas. A data oficial da fundação do novo Recolhimento é 2 de fevereiro de 1774.

Irmã Helena queria modelar o Recolhimento segundo a ordem carmelitana, mas o Bispo de São Paulo, franciscano e intrépido defensor da Imaculada, quis que fosse segundo as Concepcionistas, aprovadas pelo Papa Júlio II em 1511.

A fundação passou a se chamar “Recolhimento de Nossa Senhora da Conceição da Divina Providência” e Frei Galvão, o fundador de uma instituição que continua até os nossos dias.
O Recolhimento, no início, era uma Casa que acolhia jovens para viver como religiosas sem o compromisso dos votos. Foi um expediente do momento histórico para subtrair do veto do Marquês de Pombal que não permitia novas fundações e consagrações religiosas. Para toda decisão de certa importância, em âmbito religioso, era necessário o “placet regio”.

Aos 23 de fevereiro de 1775 morreu, quase improvisamente, Irmã Helena. Frei Galvão encontrou-se como único sustentáculo das Recolhidas, missão que exerceu com humildade e grande prudência. Entrementes, o novo Capitão-General de São Paulo, homem inflexível e duro (ao contrário do seu predecessor), retirou a permissão e ordenou o fechamento do Recolhimento.

Frei Galvão aceitou com fé e também as Recolhidas obedeceram; mas não deixaram a casa, resistindo até os extremos das forças físicas. Depois de um mês, graças à pressão do povo e do Bispo, o Recolhimento foi reaberto.

Devido ao grande número de vocações, o Servo de Deus se viu obrigado a aumentar o Recolhimento. Para tanto contribuíram as famílias das Recolhidas, muitas das quais, sendo ricas, podiam dispor dos escravos da família como mão-de-obra.

Durante catorze anos (1774-1788) Frei Galvão cuidou da construção do Recolhimento. Outros catorze anos (1788-1802) dedicou à construção da igreja, inaugurada aos 15 de agosto de 1802. A obra, “materialização do gênio e da santidade de Frei Galvão”, em 1988, tornou-se “patrimônio cultural da humanidade” por decisão da Unesco.

Frei Galvão, além da construção e dos encargos especiais dentro e fora da Ordem Franciscana, deu muita atenção e o melhor das suas forças à formação das Recolhidas. Para elas, escreveu um regulamento ou Estatuto, excelente guia de vida interior e de disciplina religiosa.

O Estatuto é o principal escrito, o que melhor manifesta a personalidade do Servo de Deus. O Bispo de São Paulo acrescentou ao Estatuto a permissão para as Recolhidas emitirem os votos enquanto permanecessem na Casa religiosa.

Em 1929, o Recolhimento tornou-se Mosteiro, incorporado à Ordem da Imaculada Conceição (Concepcionistas). A vida discorria serena e rica de espiritualidade quando sobreveio um episódio doloroso: Frei Galvão foi mandado para o exílio pelo Capitão-General de São Paulo.
Este homem violento, para defender o filho que sofrera uma pequena ofensa, condenou à morte um soldado (Gaetaninho). Como Frei Galvão assumiu a defesa do soldado, foi afastado e obrigado a seguir para o Rio de Janeiro.

A população, porém, se levantou contra a injustiça de tal ordem, que imediatamente foi revogada. Em 1781, o Servo de Deus foi nomeado Mestre do noviciado de Macacu, Rio de Janeiro, pelos qualidades pessoais, profunda vida espiritual e grande zelo apostólico.
O Bispo, porém, que o queria em São Paulo, não lhe fez chegar a carta do Superior Provincial “para não privar seu bispado de tão virtuoso religioso […] que, desde que entrou na religião até o presente dia, tem tido um procedimento exemplaríssimo pela qual razão o aclamam santo”.
Frei Galvão foi nomeado Guardião do Convento de São Francisco, em São Paulo, em 1798, e reeleito em 1801. A nomeação de Guardião provocou desorientação nas Recolhidas da Luz. Á preocupação das religiosas é necessário acrescentar aquela do “Senado da Câmara de São Paulo” e do Bispo da cidade, que escreveram ao Provincial: “todos os moradores desta Cidade não poderão suportar um só momento a ausência do dito religioso. […] este homem tão necessário às religiosas da Luz, é preciosíssimo a toda esta Cidade e Vilas da Capitania de São Paulo; é homem religiosíssimo e de prudente conselho; todos acodem a pedir-lho; é o homem da paz e da caridade”.

Graças a estas cartas, Frei Galvão tornou-se Guardião sem deixar a direção espiritual das Recolhidas e povo de São Paulo. Em 1802, Frei Galvão recebeu o privilégio de Definidor pela solicitação do Provincial ao Núncio Apostólico de Portugal, porque “é um religioso que por seus costumes e por sua exemplaríssima vida serve de honra e de consolação a todos os seus Irmãos, e todo o Povo daquela Capitania de São Paulo, Senado da Câmara e o mesmo Bispo Diocesano o respeitam corpo um varão santo”.

Em 1808, pela estima que gozava dentro de sua Ordem, foi-lhe confiado o cargo de Visitador-Geral e Presidente do Capítulo, mas devido ao seu estado de saúde foi obrigado a renunciar, embora desejasse obedecer prontamente.

Em 1811, a pedido do Bispo de São Paulo, fundou o Recolhimento de Santa Clara em Sorocaba, no Estado de São Paulo. Ai permaneceu onze meses para organizar a comunidade e dirigir os trabalhos iniciais da construção da Casa. Voltou para São Paulo e ali viveu mais 10 anos.
Quando as suas forças eram insuficientes para o ir-e-vir diário do Convento de São Francisco ao Recolhimento, obteve dos Superiores (Bispo e Guardião) a autorização para ficar no Recolhimento da Luz.

Durante a última doença, Frei Antônio passou a morar num “quartinho” (espécie de corredor) atrás do Tabernáculo, no fundo da igreja, graças à insistência das religiosas, que desejavam prestar-lhe algum alivio e conforto.

Terminou sua vida terrena aos 23 de dezembro de 1822, pelas 10 horas da manhã, confortado pelos sacramentos e assistido pelo Padre Guardião, dois confrades e dois sacerdotes diocesanos.

Frei Galvão, a pedido das religiosas e do povo, foi sepultado na Igreja do Recolhimento, que ele mesmo construíra. O seu túmulo sempre foi, e continua sendo até os nossos dias, lugar de peregrinação constante dos fiéis, que pedem e agradecem graças por intercessão do “homem da paz e da caridade” e fundador do Recolhimento de Nossa Senhora da Luz, cujo carisma é a “laus perennis”, ou seja, adoração perpétua ao Santíssimo Sacramento, vivida em grande pobreza e continua penitência com alegre simplicidade.

Escreveu Lúcio Cristiano em 1954: “Entre os heróis que plasmaram o destino de São Paulo, merece lugar de destaque a inconfundível figura de Frei Antônio de Sant’Ana Galvão, o apóstolo de São Paulo entre os séculos XVIll e XIX”, cuja lembrança continua viva no coração do povo paulista.

O Processo de Beatificação e Canonização iniciado em 1938 foi reaberto solenemente em 1986 e concluído em 1991. Aos 8 de abril de 1997 foi promulgado pelo Papa João Paulo II o Decreto das Virtudes Heróicas e aos 6 de abril de 1998, o Decreto sobre o Milagre. Frei Galvão foi declarado bem-aventurado no dia 25 de outubro de 1998.

sábado, 24 de outubro de 2015

Santo Antônio Maria Claret


Antônio Claret i Clará nasceu no dia 23 de dezembro de 1807, em Sallent (Espanha). É o quinto filho de uma família de onze irmãos. No ano do seu nascimento acontecia a invasão francesa da península Ibérica. Não são tempos fáceis, suas primeiras recordações estão marcadas pela guerra. Nem vê uma família acomodada. Seus pais não dispõem de outras rendas que sua capacidade empreendedora e seu trabalho constante na fábrica de tecidos que ocupava o andar térreo da casa da família. No lar aprendeu a orar e a trabalhar.

Sua educação e formação vêem-se afetadas pelo vai-e-vem de uma época agitada. Depois das primeiras letras, aprendidas na escola de Sallent, foi a Barcelona para uma formação específica, orientada a melhorar os negócios da família. Ele aprende, trabalha e estuda, enfrenta a vida, saboreia o êxito, experimenta a decepção e acaricia projetos ambiciosos; mas, movido pela Sagrada Escritura, descobre um horizonte novo e, ao completar 22 anos, ingressa no Seminário. A partir de então viveu para Deus e, num longo e intenso processo de discernimento, foi descobrindo sua vontade. Curiosamente, nunca esqueceu os estudos de técnica têxtil, deixou os teares, mas logo começou a tecer com o fio do Evangelho.

Viver para evangelizar

Ordenado sacerdote em 1835 é destinado à sua cidade natal, onde enfrentou os desafios que Igreja passava na época, viveu junto ao povo atento às necessidades de seus irmãos e logo sentiu que Deus o chamava para algo mais, sentindo coração pulsava por uma evangelização sem fronteiras.

Em 1839, ofereceu-se à Congregação da "Propaganda Fide" para ser Missionário Apostólico: evangelizar como os apóstolos, edificar a Igreja onde fosse necessário. Ingressou no Noviciado da Companhia de Jesus (Jesuítas), mas depois de seis meses abandonou por causa de uma enfermidade. Regressou à sua diocese de origem, porém a vontade de ser Missionário Apostólico logo se verá confirmada com a nomeação oficial da Santa Sé para a propaganda da fé. Tem com isso a certeza de que Deus o queria missionário.

Claret pregou incansavelmente durante oito anos, percorrendo sua terra natal. Porém, seu sonho era de ir a outras terras se realizou em 1848, quando foi enviado às Ilhas Canárias. A atividade destes anos não se restringiu à pregação, mas se enriqueceu com o apostolado escrito, fundou a Livraria Religiosa, criou associações, atendia durante várias horas no confessionário, bem como direções espirituais. Na intensa pregação do Evangelho, Claret chegou a duas conclusões: o povo está faminto da Palavra de Deus, a messe é grande, o campo imenso e os operários são poucos. Este discernimento o fez procurar colaboradores que se sentissem animados pelo mesmo espírito evangelizador. Fundou, em 16 de julho de 1849, a Congregação dos Missionários Filhos do Imaculado Coração de Maria (Missionários Claretianos).

Todos os seus projetos pareceu frustrarem-se quando, pouco depois de ter fundado a Congregação, foi nomeado Arcebispo de Santiago de Cuba. Mesmo assim, aceitou a nomeação por obediência, porém com clara determinação de ser um Arcebispo Missionário. Os seis anos que passou em Cuba foram transformados em uma grande campanha evangelizadora. Tudo o que aprendera aplicou ao seu serviço missionário. Preocupou-se tanto pela formação moral, catequética e cristã como pela educação, a promoção social e a dignificação humana dos fiéis da diocese. Nesse período colaborou com Antônia Paris na fundação da Congregação das Religiosas de Maria Imaculada (Missionárias Claretianas).

Como toda grande personalidade não só teve colaboradores eminentes, mas também reuniu inimizades. Em 1856, em Holguín, sofreu um atentado que quase acabou com sua vida. Chamado pela rainha Isabel II para ser seu confessor, em 1857, deixou Cuba e regressou a Espanha.

Um pássaro em gaiola de ouro

Em Madri passou onze anos como confessor da jovem Rainha e, ao mesmo tempo, evangelizador da corte, da cidade e de toda a Espanha, pois tinha que acompanhar a soberana em suas viagens oficiais. Foram os anos mais duros da sua vida. Sentia que o palácio real era uma jaula de ouro, mas com sabedoria pastoral aproveitou de todas oportunidade para evangelizar. Em colaboração com o Núncio, fez de seu cargo um serviço para a reforma de toda a Igreja, implicando-se na delicada questão da nomeação dos Bispos. Se em Cuba sofreu perseguições, em Madri se acentuou a tormenta: nem todos entendiam seu trabalho pastoral e alguns o consideravam um personagem incômodo e atentavam repetidas vezes contra sua fama, sua honra e sua vida. Ele orava, trabalhava e padecia.

O silêncio lhe foi imposto; se não podia pregar nas Igrejas, pregava nos conventos onde também atendia confissões; se não podia agir, fazia com que outros trabalhassem: organizou associações e promoveu iniciativas nas quais os leigos podiam ser cada vez mais ativos; discretamente, apoiou seus Missionários para que ampliassem seu serviço evangelizador. Viveu pobre, era tudo menos um cortesão.

Exílio e canonização

Em 1868 abandona a Espanha, foi exilado com a rainha; em Paris, apesar de suas enfermidades, ajudou na pastoral da ampla colônia latino-americana da capital francesa. Muito debilitado de saúde, participou do Concílio Vaticano I. Morreu no dia 24 de outubro de 1870 na Abadia cisterciense de Fontfroide, no sul da França.

Antônio Claret foi beatificado no dia 25 de fevereiro de 1934, pelo Papa Pio XI que o considerou "apóstolo incansável dos tempos modernos". No dia 7 de maio de 1950 foi canonizado por Pio XII.

Fonte: Claretianos

Santo Frei Galvão, o homem da Paz e da Caridade


Paz e Caridade! Duas características marcantes, que se completam e dizem muito sobre uma pessoa.

Paz é mais que a ausência da guerra ou de conflitos. Você já se sentiu em paz em algum momento? Sem nenhuma aflição, sem nenhuma preocupação. Como é difícil sentir paz nos dias de hoje. Nosso pensamento sempre nos afasta da paz. A violência no mundo, nas relações, a disputa por poder e dinheiro, o desemprego, os problemas financeiros, tudo isso nos tira a paz.

Muitas vezes relacionamos a caridade à ajuda financeira a alguém que necessita. Ser caridoso vai além de ajudar o próximo financeiramente. A caridade se dá nas relações, mesmo as mais próximas. O dicionário nos diz: caridade é a virtude teologal que conduz ao amor a Deus e ao nosso semelhante.

Que a Paz e a Caridade, presentes na vida e na missão de Frei Galvão, estejam presentes em nossas vidas e em nossas relações. 

SAUDAÇÃO/ INTRODUÇÃO
A você que reza conosco, Paz e Bem! São João Paulo II, quando beatificou o Santo Frei Galvão, o chamou de “o Homem da Paz e da Caridade”. Frei Galvão viveu momentos muito duros em sua vida. E, mesmo assim, conseguiu conservar a paz. Sua vida foi admirável, sobretudo, na prática da caridade para com os pobres, pagando dívidas deles, quando podia, e tratando os escravos com bondade e consideração. Neste último dia de nossa novena, queremos aprender com Frei Galvão a sermos sempre construtores da Paz e a colocar a caridade acima de todas as virtudes. 

Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém

PALAVRA DE DEUS (2Cor 13, 11-13)
“Irmãos, sede alegre, trabalhai em aperfeiçoar-vos, deixai-vos exortar, tende um mesmo sentir, vivei em paz e o Deus da caridade e da paz estará convosco. Saudai-vos reciprocamente no ósculo santo. Todos os santos vos saúdam. A graça do Senhor Jesus Cristo e a caridade de Deus e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós”.

COMPROMISSO DO DIA
Quero me esforçar para ser muito caridoso hoje, fazendo o bem para um pobre, visitando uma pessoa que vive na solidão, procurando não falar nada de negativo sobre pessoas amigas e cumprimentando a todos que eu encontrar com a saudação franciscana: Paz e Bem!

ORAÇÃO FINAL/ BÊNÇÃO
Senhor Deus, que sois a plenitude do amor, concedei a todos os devotos do Bem-aventurado Santo Frei Antônio Sant’Ana Galvão a graça de viverem a caridade acima de todas as coisas, para que, deixando de lado toda discórdia seja um só coração e uma só alam, e possam construir juntos uma sociedade cheia de paz e verdadeira fraternidade. Por Cristo, Nosso Senhor. Amém. 

Que o pelo auxílio de Frei Galvão, o Senhor aumente em nossas vidas e em nossos corações a caridade e a paz: Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

30º domingo do Tempo Comum


1ª Leitura - Jr 31,7-9

Salmo - Sl 125,1-2ab.2cd-3.4-5.6 (R. 3)
2ª Leitura - Hb 5,1-6
Evangelho - Mc 10,46-

Naquele tempo:

Jesus saiu de Jericó,
junto com seus discípulos e uma grande multidão.
O filho de Timeu, Bartimeu, cego e mendigo,
estava sentado à beira do caminho.
Quando ouviu dizer que Jesus, o Nazareno,
estava passando, começou a gritar:
'Jesus, filho de Davi, tem piedade de mim!'
Muitos o repreendiam para que se calasse.
Mas ele gritava mais ainda:
'Filho de Davi, tem piedade de mim!'
Então Jesus parou e disse: 'Chamai-o'.
Eles o chamaram e disseram:
'Coragem, levanta-te, Jesus te chama!'
O cego jogou o manto, deu um pulo e foi até Jesus.
Então Jesus lhe perguntou:
'O que queres que eu te faça?'
O cego respondeu: 'Mestre, que eu veja!'
Jesus disse: 'Vai, a tua fé te curou'.
No mesmo instante, ele recuperou a vista
e seguia Jesus pelo caminho.

A Igreja que caminha – Pe. João Batista Libânio, sj


Marcos não poderia ser mais feliz nessa descrição para nos passar a parábola de nossa vida. É muito mais que um milagre, mas a nossa própria história. 


Jesus deixa Jericó, sai com os discípulos e a multidão – símbolo da Igreja: Ele, os apóstolos, que são os representantes oficiais, e a grande assembleia, que é a multidão. É a Igreja que caminha! Quando a Igreja caminha pela história, encontra muitas pessoas, como esse cego e mendigo – dois adjetivos! Ele estava à beira do caminho, à beira da história, à beira da realidade – em termos de hoje, diríamos marginalizado, deixado de lado, alguém para quem os acontecimentos não dizem nada. Ele é cego, não vê. Nós também somos cegos. E há dois tipos de cegueiras opostas: os pessimistas, que são cegos para as suas qualidades, e os vaidosos, que são cegos para os seus limites e defeitos. Jesus vem curar-nos dessas duas cegueiras. 


Os pessimistas são aqueles que pensam que não valem nada, que não servem para nada, que precisam ficar mendigando, como esse cego ao lado da estrada, fora da realidade. É importante que ouçam e percebam que Jesus está passando. É necessário que alguém lhes diga. Aquele cego nunca poderia saber que Jesus estava passando, pois não via. Alguém precisou dizer-lhe. Ele ouviu o burburinho e, de repente, começou a perguntar quem estava passando. Quem passa? – como essa pergunta é importante! Saber o que está acontecendo ao nosso lado, quem está nos provocando, nos chamando, que realidade nos questiona, para que saiamos dessa beira de caminho e possamos gritar: “Filho de Davi, tende piedade de mim!” É o primeiro passo! 


Precisamos olhar para o Senhor e experimentar, de certa maneira, a pessoa de Jesus, como aquele que tem infinita piedade para com as nossas cegueiras pessimistas e vaidosas. Precisamos dessa piedade e também precisamos gritar. Mas tomemos cuidado, porque muitas pessoas tentarão nos impedir de caminhar para o Senhor. Com certeza, muitas vezes sentiremos isso. Ao invés de também elas caminharem mais para perto do Senhor, nos proíbem. Sobretudo entre os jovens. Como encontram tantos colegas de farra, de desvios, de outros tipos de vida! Quando algum jovem quer deixar esses caminhos, encontra outros que o desencorajam, que não querem que ele saia, mas que continue à beira do caminho, à beira da história, à beira da realidade. 


Só que o cego teve mais força, mais energia interior e novamente gritou: “Filho de Davi, tende piedade de mim!”. Tenhamos coragem de gritar uma, duas, três vezes, até que ouçamos aquela palavra tão linda de Jesus: “Chamai-o!”. Ele não chama, mas pede que outros chamem – repararam isso? Ele não nos chama diretamente, mas através de outras pessoas, e continuamente. Quantas vezes seremos nós a levar esse chamado do Senhor a outras pessoas?! Chamemos as pessoas para que elas cheguem perto do Senhor! Chamemos para que elas deixem essa beira do caminho! Que deixem suas cegueiras, suas vidas de mendicantes e se lancem no caminho como esse cego, que jogou fora o seu manto. O manto que o agarrava, o amarrava; o manto da nossa preguiça, dos nossos hábitos, da nossa acomodação. A preguiça é um manto terrível, pesadíssimo. Não conseguimos deixá-lo de repente. O Senhor nos chama, mas precisamos que alguém nos diga para termos coragem, porque o Mestre nos chama. Seremos nós essas pessoas, que diremos às outras, atadas pela preguiça, que deixem esse manto e deem um salto em direção ao Senhor? 

Nesse encontro vem a pergunta mais linda de Jesus: “o que queres que eu te faça?”. Se hoje Jesus nos fizesse essa pergunta, teríamos resposta, saberíamos responder? O cego respondeu imediatamente: “que eu veja!”. Será que temos coragem de ver? Será que temos coragem de pedir a Deus que possamos ver? Ou temos medo! Sempre colocamos óculos escuros para esconder o que não queremos ver. Já repararam como as pessoas usam óculos escuros, como máscaras, para que ninguém as veja, para esconder a realidade na escuridão de seus óculos? O Senhor quer que nós vejamos, e esse cego teve a coragem de pedir: “Mestre, que eu veja!”. 

Quem sabe não é essa a grande graça que precisamos pedir ao Senhor nesta eucaristia: que nos cure dessas duas cegueiras? Primeiramente, da cegueira da vaidade, que bloqueia a nossa percepção dos defeitos. Depois que nos cure da cegueira do pessimismo e nos possibilite aquele caminhar necessário para nos fazer sair de nossos limites e ir sempre em frente, caminhando utopicamente para horizontes maiores, não nos sentindo satisfeitos com o que já está conquistado, mas buscando sempre mais a grandeza de Deus. Que também peçamos ao Senhor que nos liberte das fragilidades que nos prendem, que nos impedem de ver. Precisamos rasgar esses mantos, jogá-los fora e dar o grande salto para o caminho do Senhor. 


O cego viu, será que nós veremos? E depois que viu, o que ele fez? Seguiu Jesus. Se sairmos dessa celebração vendo e seguindo o Senhor, como a nossa vida mudará! Amém. 


Pe. João Batista Libânio, sj - Um outro olhar, vol 7

Confira a reflexão de Frei Alvaci Mendes da Luz para este domingo:


Santo do dia: São João de Capistrano


Sacerdote da Primeira Ordem (1386-1456). Canonizado por Alexandre VIII no dia 16 de outubro de 1690.

João nasceu no dia 24 de junho de 1386, na cidade de Capistrano, próximo a Áquila, no então reino de Nápoles, atual Itália. Era filho de um conde alemão e uma jovem italiana. Tornou-se um cidadão de grande influência em Perugia, cidade onde estudou Direito Civil e Canônico, formando-se com honra ao mérito. Lá se casou com a filha de outro importante membro da comunidade e foi governador da cidade, quando iniciava a revolta contra a dominação do rei de Nápoles. Como João de Capistrano era muito respeitado e julgava ter amigos entre adversários, aceitou a tarefa de tentar um diálogo com o rei. Mas estava enganado, pois, além de não acreditarem nas suas propostas, de paz eles o prenderam. Ao mesmo tempo, recebeu a notícia da morte de sua esposa. João tinha trinta e nove anos de idade.

Nessa ocasião tomou a decisão mais importante de sua vida. Abriu mão de todos os cargos, vendeu todos os bens e propriedades, pagou o resgate de sua liberdade e pediu ingresso num convento franciscano. Mas também ali encontrou a desconfiança do seu propósito. O superior, antes de permitir que ele vestisse o hábito, o submeteu a muitas humilhações, para provar sua determinação. Aprovado, apenas um ano depois era considerado um dos mais respeitados religiosos do convento. Aliás, Ordem que ele próprio colaborou para reformar.

Desde então sua vida foi somente dedicada ao espírito. Durante trinta anos fez rigoroso jejum, duras penitências e se dedicou às orações. Trabalhou com energia, evangelizando na Itália, França, Alemanha, Áustria, Hungria, Polônia e Rússia. Tornou-se grande pregador e os registros mostram, que, após sua pregação, muitos jovens decidiam entrar na Ordem de São Francisco de Assis. Foi conselheiro de quatro papas. Idoso, defendeu a Itália numa guerra que ajudou a vencer. A famosa batalha de Belgrado, contra os invasores turcos muçulmanos.

João de Capistrano contava setenta anos de idade, quando um enorme exército ameaçava tomar toda a Europa, pois já dominava mais de duzentas cidades. O papa Calisto III o designou como pregador de uma cruzada, que defenderia o continente. Com ele à frente, os cristãos tiveram de combater um exército dez vezes maior. A guerra já estava quase perdida e os soldados estavam a ponto de desfalecer, quando surgiu João animando a todos, percorrendo as fileiras e mantendo-os estimulados na fé em Cristo. Agiu assim durante onze dias e onze noites sem cessar. Espantados com a atitude de João, os guerreiros muçulmanos apavoraram-se, o exército se desorganizou e os soldados cristãos dominaram o campo de batalha até a vitória final.

Vitória que, embora preferisse manter o anonimato, foi atribuída a João de Capistrano. Depois disso, retirou-se para o Convento de Villach, na Áustria, onde morreu aos 71 anos de idade, a 23 de outubro de 1456. Foi beatificado pelo Papa Leão X e solenemente canonizado pelo Papa Alexandre VIII no ano de 1690. João de Capistrano é o padroeiro dos juízes.

Fonte: Província Franciscana


Santo Frei Galvão, Sacerdote segundo o coração do Altíssimo




Você já conheceu uma pessoa santa? Uma pessoa verdadeiramente boa? Muitas vezes estas pessoas que passam por nossas vidas não são sequer católicas ou cristãs. São pessoas com valores, que não se deixam afetar pelo mundo e pela lógica de se beneficiar às custas dos outros, muitas vezes prejudicando o próximo.

São pessoas que emanam uma luz especial. Pessoas como Dom Luciano Mendes de Almeida, arcebispo de Mariana, em Minas Gerais, que trabalhou muitos anos em São Paulo e morreu em 2006. Ele será beatificado em breve pelo Vaticano, mas quem conheceu Dom Luciano sabia que ali estava um santo, uma pessoa diferente. E por que ele era diferente?Porque viveu radicalmente o Evangelho.

Assim era Frei Galvão para sua época. Certamente todos aqueles que puderam conviver com ele tinham esta impressão, que diante deles estava alguém diferente.

Que neste penúltimo dia da novena em honra a Frei Galvão rezemos por estas pessoas, que transformam a vida e os locais por onde passam com sua maneira de ser e seu testemunho.

SAUDAÇÃO/ INTRODUÇÃO
Querido devoto e devota de Frei Galvão, Paz e Bem! Durante anos que exerceu o seu sacerdócio, o Santo Frei Galvão tornou-se um sacerdote segundo o coração do Altíssimo. Foi sábio Ministro do Evangelho, seguro e sereno orientador das consciências, confessor sempre disponível, convertedor de pecadores, pregador ambulante do Reino, apoio fraterno de todos os sacerdotes. Chamavam-no de queridíssimo padre Galvão. Nesta Novena, vamos rezar por todos os que exercem esta tarefa de serem ministros de Deus, pelos sacerdotes do mundo inteiro. Que nunca faltem bons e santos sacerdotes para a Igreja. 

Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém

PALAVRA DE DEUS (1Tm 4, 12-14)
“Ninguém te desconsidere a juventude. Ao contrário, torna-te modelo para os fiéis no modo de falar e de viver, na caridade, na fé, na castidade. Aplica-te à leitura, à exortação, ao ensino. Não descuides da graça que tens”. 

COMPROMISSO DO DIA
Todas às vezes em que eu participar de uma santa missa, quando o sacerdote elevar a hóstia e o cálice com o vinho consagrados, rezarei pela santificação dos sacerdotes. Se eu encontrar um sacerdote, irei saudá-lo com muito afeto e respeito; pois São Francisco dizia: “Nada encontro neste mundo corporalmente do Senhor Jesus, senão somente o Corpo e Sangue que eles nos consagram e administram”.

ORAÇÃO FINAL/ BÊNÇÃO
Obrigado, Senhor, pelo santo exemplo que o Santo Frei Galvão deixou como sacerdote segundo o coração do Altíssimo. Guardai os sacerdotes mais idosos e fortalecei aqueles que estão em crise na sua vocação; dai a todos a graça de carregarem a cruz até o fim de suas vidas. Dai a todos os presbíteros a felicidade de serem imagem do Cristo, Bom Pastor. Que o povo de Deus reze sempre pela santificação de seus sacerdotes; que amem a cada sacerdote, não vendo apenas os defeitos, as falhas e os pecados, mais apoiando todo o trabalho apostólico que realizam. Despertai sempre novas vocações para a vida sacerdotal. Amém. 

Que o Deus Altíssimo, abençoa nosso dia e nossa jornada, por intermédio de Frei Galvão: Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém.