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terça-feira, 29 de setembro de 2015

“Por favor, Douglas! Por favor, cuida dos pobres!”


Frei Augusto Luiz Gabriel (fotos) e Moacir Beggo (texto)

São José (SC) – O apelo enfático foi do Arcebispo de Porto Alegre, Dom Jaime Spengler, a Frei Douglas Paulo Machado, ordenado presbítero neste sábado, 26 de setembro, às 18 horas, na Paróquia Santa Cruz, em São José, cidade vizinha de Florianópolis (SC). Muito à vontade ao ordenar o seu primeiro confrade, D. Jaime deixou a celebração mais leve e, num tom informal, falou diretamente ao ordenando várias vezes e aos frades da Província da Imaculada Conceição, recordando com saudades do seu tempo de vida fraterna, que deixou para ser bispo em 2011.

Entre os frades da Província estavam dois Definidores: Frei Germano Guesser, que representou o Ministro Provincial (Frei Fidêncio Vanboemmel), e Frei Evandro Balestrin. O pároco Kevin Konz acolheu a todos. Além de religiosos e religiosas, marcaram presença os noviços e os aspirantes da Província. O povo lotou a igreja mesmo debaixo de muita chuva durante todo o dia. De Concórdia, onde Frei Douglas reside, vieram dois ônibus de fiéis para participar de sua ordenação.

Logo depois da liturgia da Palavra, Frei Germano fez a apresentação do ordenando, que, num gesto muito belo e simbólico, despediu-se de seus pais (Milton e Dilma Machado) e saiu do meio do povo para apresentar-se ao bispo ordenante, no presbitério, dizendo: “Aqui estou”.

O Arcebispo solicitou, além do depoimento de Frei Germano, um gesto da comunidade para sinalizar a aptidão de Frei Douglas para o sacerdócio. Com uma demorada salva de palmas, a comunidade reforçou o pedido do celebrante.

Na sua homilia, D. Jaime explicou detalhadamente o rito da ordenação presbiteral. Segundo o celebrante, a teologia do Sacramento da Ordem é muito bonita. Mas D. Jaime lembrou que hoje falamos pouco da cruz. “Temos medo da cruz. Hoje, em alguns setores, se fala tanto do Cristo que cura, do Cristo que salva, de tantas coisas, mas do Cristo da Cruz ninguém quer falar. Do Cristo que sofre, do Cristo que morre, é difícil falar. Mas a vida do presbítero, do padre, ela deve se conformar com o Cristo Crucificado”, exortou o Arcebispo de Porto Alegre.

“O Espírito do Senhor está sobre ti, certamente. Como presbítero, tu assumes a missão do pastor. Por favor, Douglas, por favor, cuida dos pobres! Cuida dos pobres. O Papa fala dos restos, dos resíduos, que ninguém que ver, mas que estão por aí pedindo ao menos o nosso olhar, a nossa atenção”, ressaltou, fazendo uma prece:

 “Cuida dos pobres, atende os fragilizados, acolhe os necessitados. São tantos!
Que a tua vida, que as tuas palavras, que as tuas ações possam realmente aquecer o coração dos fragilizados!
Que tu possas descer na noite escura das pessoas sem ser invadido pelas trevas e ali te perderes!
Que tu sejas capaz de ouvir a ilusão de muitos sem te deixares iludir pelas ilusões!
Que tu sejas capaz de acolher as desilusões sem desesperar-te, nem cair na amargura ou na depressão!
Que tu sejas, Douglas, capaz de tocar a desintegração alheia sem te deixares dissolver e indispor tua própria identidade!
Isso o Papa pedia para nós quando esteve no Rio de Janeiro.
Frei, que o Senhor te conduza pela mão para bem junto do povo. Bem junto. Perto do chão, especialmente o povo pobre, os fracos, os ignorados, os restos, os resíduos, que ninguém quer ver!
Que tu possas reconhecer o Cristo ao teu lado sempre a te conduzir. Não podemos jamais esquecer aquele capítulo 26 do Evangelho de Mateus.
Que possas por toda a parte, através do Ministério da Ordem, testemunhar e anunciar Jesus. Não outra coisa. Todos os dias de sua vida, porque ele se entregou por ti, ele se entregou por mim e por nós todos. E nós todos somos a Igreja que ele tanto amou!
E se nalgum momento de sua vida surgir dificuldade maior, não se esqueça dos irmãos. Eles são a maior riqueza que nós temos. Que Deus te ajude!”, pediu.


Dom Jaime fez uma homilia partindo do texto do Evangelho em que situa o contexto da última ceia de Jesus com seus apóstolos, onde lava os pés dos discípulos. “Jesus mostra toda a sua disposição, todo o seu amor, amor que consiste em dar-se todo inteiro. Dar-se todo inteiro para que o Pai possa agir livremente. O cume desse doar-se é certamente a morte, ou melhor, o saber dar a vida por amor”.

Segundo o Arcebispo, conhecendo este amor do Pai pelo Filho, nós permanecemos neste mesmo amor, nesta mesma intensidade de amor. “E o amor se torna a nossa casa, a nossa vida. Eu creio que Francisco de Assis entendeu isso como ninguém ao longo da história. Por isso, ele percorria praças e campos, chorando e gritando: o ‘amor não é amado’. Sim, sem a experiência desse amor, o ser humano não se sente em casa. Sem a experiência do amor, ninguém se sente em casa e por isso vaga e divaga”, explicou. Segundo D. Jaime, hoje a nossa sociedade divaga, sem rumo, sem direção. “Nosso mundo hoje tudo consume. Consome inclusive amor. Consome, mas não arde e não queima. Muito diferente da nossa tradição originária de fé. Na sarça ardente. A sarça ardia, queimava, mas não consumia. Talvez essa experiência nós precisaríamos, de alguma forma, resgatar em nossas comunidades”, ensinou.

“Permanecer no amor. Permanecer em Jesus implica em aceitar o seu Evangelho, acolher o seu amor, implica amá-lo com todas as forças. E todas não são algumas. Nós, enquanto Igreja, não somos adeptos de um credo, nós somos antes de tudo e, sobretudo, discípulos e discípulas de alguém que nos ensina a amar sem reservas”.

Dom Jaime também explicou o Ministério da Ordem: “Ai dele (Douglas) se achar que o ministério lhe pertence, é propriedade dele. Jamais será. Eu creio – e por isso estamos aqui hoje – que Frei Douglas se dispôs a fazer um caminho, caminho marcado por um desejo de responder a uma convocação que não veio dele. Não veio de você, Douglas! E, agora, a comunidade pede para que ele seja lançado dentro de um ordenamento característico onde possa exercer o ministério do amor”, frisou.



O RITO

Terminada a homilia, o celebrante dirigiu-se, novamente, ao candidato, para confirmar sua intenção de abraçar o sacerdócio, com as disposições e renúncias necessárias. D. Jaime disse a Frei Douglas: “Agora, é olho no olho”. A cada pergunta, repetiu-se a resposta conclusiva: “Eu quero”.

E, então, chegou o momento da grande oração da comunidade. Prostrado por terra, o candidato manifestou o reconhecimento de sua nulidade, fraqueza, pequenez, diante da grandiosidade do ofício que assumiu nesta noite. A comunidade se ajoelhou e entoou a Ladainha de Todos os Santos. “Assim, como os invocamos, a Igreja da terra se une à Igreja do céu, suplicando a força do Espírito. Esse é um momento muito bonito da liturgia de hoje. Depois, no silêncio da imposição das mãos, a terra se une ao céu. O ser humano é dignificado. Deus no seu silêncio, Deus proclama: ‘Tu és meu para sempre!’ O candidato, ajoelhado, sabe que através da silenciosa imposição das mãos do bispo e dos presbíteros, é Deus mesmo que põe sobre ele a mão. E a partir deste instante ele não mais se pertence. Ele torna-se propriedade de um outro. Estás convencido disso, Frei Douglas?”, explicou o Arcebispo.

Seguiu-se a Grande Oração Consecratória, pela qual o candidato foi consumado sacerdote para todo o sempre. Na etapa seguinte da cerimônia, o novo presbítero revestiu-se dos paramentos sacerdotais: a alva, ou seja, a veste branca; a estola, e a casula. Frei Douglas teve a ajuda para se vestir do pároco da Paróquia Santa Cruz: Pe. Kevin.

Num outro belo gesto, o ordenante voltou a chamar o neo-sacerdote para lhes ungir as mãos. Teve início, então, a procissão das ofertas, trazidas pelo povo ao altar, para serem usadas nesta primeira Missa que Frei Douglas concelebrou com o Bispo. Essas ofertas simbolizam, também, o que o padre vai fazer a vida inteira: repetir os gestos de Cristo, na mesma entrega, deixando-se consumir para o bem do povo.

A Missa prosseguiu na forma habitual, presidida por D. Jaime e concelebrada por todos os padres presentes. O neo-sacerdote celebrou sua primeira Missa solene no domingo, às 10h30.

Em nome da Província, Frei Germano agradeceu a disponibilidade de D. Jaime, a acolhida do Pe. Kevin, os paroquianos, os familiares e, por último, parabenizou Frei Douglas pelo dom da vocação e pela ordenação realizada no Ano da Vida Consagrada. “Você também é ordenado presbítero num momento muito bonito da Igreja, do Pontificado do Papa Francisco. Dedicar atenção especial aos gestos e palavras do Papa Francisco será para nós de grande ajuda na busca por seguir Jesus como o fez Francisco de Assis, com a coragem de deixarmos o ‘manto’ da acomodação, da apatia e da indiferença, colocando-nos em pé, em atitude de prontidão e disponibilidade, como uma ‘Igreja em saída’”, completou Frei Germano.



Frei Douglas também não se cansou de agradecer ao Arcebispo que aceitou prontamente o seu convite para ordená-lo, ao pároco e seu amigo, aos confrades, aos paroquianos e à sua família. E D. Jaime, no final, interveio pedindo calorosas palmas para o sr. Milton e Dilma Machado.  “A gente aprende a ser gente no colo da mãe e no afago do pai. É ali que nós aprendemos as primeiras noções da fé. É ali que Deus encontra espaço. Parabéns!”
E dirigindo a Frei Diego Melo, promotor vocacional da Província, disse: “Diego, não esqueça: ‘Nós gostamos do que somos e amamos o que fazemos’. Aqui está a chave da promoção vocacional”, ensinou. A ordenação terminou em confraternização no Salão Paroquial.

Fonte: Província Franciscana