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sexta-feira, 25 de setembro de 2015

26º domingo do Tempo Comum



26º domingo do Tempo Comum
1ª Leitura - Nm 11,25-29
Salmo - Sl 18,8.10.12-13.14 (R.8a 9b)
2ª Leitura - Tg 5,1-6
Evangelho - Mc 9,38-43.45.47-48

Naquele tempo:
João disse a Jesus:
'Mestre, vimos um homem expulsar demônios em teu nome.
Mas nós o proibimos, porque ele não nos segue'.
Jesus disse:
'Não o proíbais, pois ninguém faz milagres em meu nome
para depois falar mal de mim.
Quem não é contra nós é a nosso favor.
Em verdade eu vos digo:
quem vos der a beber um copo de água,
porque sois de Cristo,
não ficará sem receber a sua recompensa.
E, se alguém escandalizar
um destes pequeninos que crêem,
melhor seria que fosse jogado no mar
com uma pedra de moinho amarrada ao pescoço.
Se tua mão te leva a pecar, corta-a!
É melhor entrar na Vida sem uma das mãos,
do que, tendo as duas, ir para o inferno,
para o fogo que nunca se apaga.
Se teu pé te leva a pecar, corta-o!
É melhor entrar na Vida sem um dos pés,
do que, tendo os dois, ser jogado no inferno.
Se teu olho te leva a pecar, arranca-o!
É melhor entrar no Reino de Deus com um olho só,
do que, tendo os dois, ser jogado no inferno,
'onde o verme deles não morre,
e o fogo não se apaga''.
Palavra da Salvação.

Talentos a serviço da comunidade  - Pe. João Batista Libânio, sj

Esse evangelho faz ressonância com a primeira leitura, na qual Josué, ciumento, julgou aqueles que estavam profetizando. Eram duas pessoas perdidas lá no acampamento que, de repente, se mostram envolvidas pelo espírito do Senhor. Moisés deixa uma lição para eles e para todos nós. De certa maneira, Jesus retoma essa lição, quando alguém começa a fazer milagres, e os discípulos querem proibir. Jesus proíbe-os de proibir. É proibido proibir! 

Houve um movimento revolucionário na década de sessenta, portanto no século passado, mais precisamente em maio de 1968, cujo slogan era este: “É proibido proibir!” Se trouxermos essa frase juvenil de sessenta e oito para a vida da comunidade, da sociedade, talvez fizéssemos uma revolução muito bonita. É proibido proibir que as pessoas sejam felizes! É proibido proibir que as pessoas tomem iniciativas! É proibido proibir que, numa comunidade, mais pessoas sirvam, mais pessoas trabalhem! Que não apareça apenas um pequeno grupo! O grande risco do poder – e o poder é terrível – é que as pessoas querem concentrá-lo em suas mãos e não querem fazê-lo fluir como água. 

Jesus tem outra maneira de pensar. Moisés, apesar da autoridade, apesar de ter sido o homem que esteve no alto da montanha, e que, muitas vezes, discutia com Deus, ele não quis guardar consigo o dom da profecia. Alegrou-se quando o Senhor o estendeu a outros. 
Muitas vezes, nossas comunidades eclesiais estão péssimas justamente por isto: por não permitirmos que as gerações jovens surjam com seus talentos, que novas vozes entrem nos corais, que novos coroinhas venham alegrar as celebrações, que novos ministros venham somar. Queremos segurar em poucas mãos todos os dons, a começar por nós, sacerdotes. Se recebemos o ministério é para responder à etimologia da palavra: minus + tenere. É ter menos, não mais. Para que os outros cumpram, para que os outros supram, para que os outros completem! No dia em que esta comunidade puder assumir todo mundo, todo profeta tiver uma palavra bonita, uma palavra bíblica, para ajudar a todas as pessoas, seremos muito mais felizes. Se todos, nesta comunidade, disponibilizarem os seus talentos de organização, de criação, de criatividade, vocês verão como ela será melhor! Será profética, sacerdotal. Se todos nós, em cada celebração, participássemos mais e trouxéssemos outras pessoas para participarem conosco, para darem sugestões e ideias, cresceríamos muito! Há essas firmas modernas, que seguem um pouco esse conselho de Jesus, e colocam em vários lugares algumas caixas para que qualquer um possa dar sugestões. Se uma faxineira perceber alguma coisa que possa melhorar, escreve e joga nessas caixinhas, e a gerência vai tomar conhecimento. 

Já lhes contei este fato, mas volto a repetir, pois vem a calhar com a celebração de hoje. Certa vez Frei Betto estava visitando uma fábrica. Conversava com os operários, e um deles, que trabalhava na esteira mecânica, disse-lhe que, se a esteira fizesse outro percurso, possibilitaria uma enorme economia de energia. Mas os engenheiros não lhe davam oportunidade de falar; então, que ficassem com o prejuízo! Como um operário pode ensinar alguma coisa a um engenheiro? Na visão deles, nunca! 

É o contrário disso que desejaríamos. Se cada um de nós percebesse que pode fazer crescer essa comunidade, dar sugestões, trazer ideias, fazer planos para que as coisas melhorem, realizaríamos a metade desse evangelho. 

A outra metade é um pouco forte. É claro que, se lermos ao pé da letra, muitos sairiam mancos de mãos e pés. Não haveria muletas suficientes. Mas não podemos entender ao pé da letra. Tomemos a palavra “pequenino”. Não são necessariamente os pequerruchos, os petizes, as crianças. Pequenino é qualquer pessoa mais frágil que nós. Por exemplo, eu sou professor, pequeninos são os meus alunos, mesmo que tenham trinta anos e barba na cara. Qualquer um que seja um pouco mais frágil que nós, em qualquer campo que seja, é considerado pequenino pelo evangelho. 

Agora vem a lição. Se tivermos uma gotinha de poder que seja, ela não poderá ser usada para fazer mal àquele que está abaixo de nós. Como seria diferente a sociedade! É isso que precisamos pensar, seja em que âmbito for. Se eu for gerente de uma firma, é ali, principalmente, que não poderei fazer mal a ninguém. É isso que significa arrancar a mão, a língua, os olhos, se eles fazem mal. Para Jesus, a autoridade só existe para fazer o outro crescer, nunca para fazê-lo minguar, diminuir, ser cortado. Se vivêssemos isso, transformaríamos radicalmente nossa sociedade. 

Pelo contrário, quando as pessoas sobem, parece que querem mostrar o seu poder exatamente pisando nos outros.  Basta uma pessoa subir um pouquinho, já quer ser chamado de vossa excelência, usar um automóvel maior. Certa vez um ministro disse que uma das coisas mais atraentes numa posição de ministro é que todas as pessoas se mostram sempre solícitas, cada uma querendo realizar melhor um desejo seu. Todos em volta para servi-lo, e ele engrandecido. Muito diferente desse evangelho. Isso é escandalizar os pequeninos, ser prepotente, prevalecer-se de qualquer poder que seja. Prevalecer-se da inteligência, do saber, do conhecimento, do cargo, da gerência, da cor, da etnia, da religião. Nós, padres, também temos que ser o último dos últimos, aqueles que estão ali para ajudar as pessoas. Quando olharmos os que estão mais abaixo de nós, coloquemo-nos mais abaixo ainda para levantá-los. Nós devemos ser uma espécie de elevador que faz com que as pessoas subam. Mas para fazermos isso, temos que nos colocar mais abaixo ainda, oferecer as nossas mãos para que os outros se elevem.

E uma última ideia, também difícil. Cada talento do irmão deveria ser uma festa para nós e não uma tristeza. Há pessoas que se amarguram quando veem pessoas com mais talentos que elas, ao invés de se alegrarem. Cada riqueza, cada habilidade que o outro tenha enriquece a totalidade. Como dizia Hegel: “uma gotinha de verdade faz com que a verdade maior cresça”, e eu acrescento: uma gotinha de bondade, de beleza, de serviço, de inteligência, que for jogada na comunidade, fará com que toda a comunidade cresça. Por isso, alegremo-nos com cada talento colocado a serviço da comunidade, e aí seremos mais evangélicos. Amém. 

Pe. João Batista Libânio, sj – Um outro olhar, vol. 7

Confira a reflexão de Frei Alvaci Mendes da Luz, OFM para este 26º domingo do Tempo Comum