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sexta-feira, 18 de setembro de 2015

25º domingo do Tempo Comum


1ª Leitura - Sb 2,12.17-20
Salmo - Sl 53,3-4.5.6.8 (R. 6b)
2ª Leitura - Tg 3,16-4,3
Evangelho - Mc 9,30-37

Naquele tempo:
Jesus e seus discípulos atravessavam a Galiléia.
Ele não queria que ninguém soubesse disso,
pois estava ensinando a seus discípulos.
E dizia-lhes:
'O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens,
e eles o matarão.
Mas, três dias após sua morte, ele ressuscitará'.
Os discípulos, porém, não compreendiam estas palavras
e tinham medo de perguntar.
Eles chegaram a Cafarnaum.
Estando em casa, Jesus perguntou-lhes:
'O que discutíeis pelo caminho?'
Eles, porém, ficaram calados,
pois pelo caminho tinham discutido quem era o maior.
Jesus sentou-se, chamou os doze e lhes disse:
'Se alguém quiser ser o primeiro,
que seja o último de todos
e aquele que serve a todos!'
Em seguida, pegou uma criança, colocou-a no meio deles,
e abraçando-a disse:
'Quem acolher em meu nome uma destas crianças,
é a mim que estará acolhendo.
E quem me acolher, está acolhendo, não a mim,
mas àquele que me enviou'.

Palavra da Salvação.

O infinito que mora dentro de nós  - Pe. João Batista Libânio, sj

Lendo este Evangelho, parece-nos coisa simples. Mas, se ele fosse um homem mais instruído, se tivesse frequentado as universidades, que naquela época se chamavam Academias – hoje temos academias para os músculos, mas naquela época era para as inteligências –, teria aprendido de um famoso filósofo grego, chamado Heráclito, que vivera seis séculos antes, que só conhecemos as coisas pelo contraste. Só sabemos o que é frio, porque conhecemos o calor. Hoje está quente porque há alguns dias fazia frio. Se não houvesse frio, não saberíamos que coisa é calor. Seria ótimo, porque ninguém teria do que reclamar. Só sabemos que uma coisa é macia, porque existe uma outra dura. Só sabemos que alguma coisa é úmida, porque conhecemos o seco. Isso pode parecer banal, mas não é. O ser humano é um ser que precisa confrontar. 

Um senhor contou-me, certa vez, que, quando era criancinha, estava dormindo, num dia de muita chuva e frio. Ele, naquele quentinho de sua cama, pensou que naquele momento, na rua, havia muitas crianças de sua idade, passando frio, porque estava chovendo. Pensou no contraste entre ele, acomodado, acarinhado, cheio de cobertas, e aquele menino com frio na rua. Talvez tenhamos esta experiência também: de muitas vezes sairmos de uma mesa farta, saciados por uma comida gostosa, e depararmos com uma pessoa faminta. É o cotidiano de nossa experiência humana. Os contrastes fazem parte de nosso dia a dia. 
No Evangelho, notamos dois fatos simultâneos. Jesus fala de uma coisa, e os apóstolos discutem outra. Aí também há contraste. Jesus declara que Ele, o Mestre, o Senhor, será espancado, preso, maltratado. Enquanto isso, os apóstolos discutem quem será o maior, o mais importante, o primeiro-ministro, quem ocupará a cadeira do senado. Marcos acrescenta um pormenor, que não sei se vocês terão notado. Ele não falou numa criancinha limpinha, bonitinha, não. Para o judeu, a criança era um ser desprezível porque era inútil. Eles não gostavam de crianças, porque elas só davam trabalho e gastavam dinheiro. Quando chegava mais um filho, os pais tinham que trabalhar mais para sustentá-la. Criança não servia para nada economicamente, só para dar prejuízo. Ainda fazia estragos, sujava a casa, trazia mais e mais gastos. Quando nascia mais um filho, o orçamento da família começava a apertar. Os judeus pensavam assim, pois eles gostam muito de dinheiro. Portanto, quando Marcos coloca uma criança, não quer mostrar esses seres lindos, correndo para lá e para cá. Jesus toma justamente uma criança, o símbolo da inutilidade, e coloca no meio dos apóstolos, advertindo-os que se eles não se fizessem inúteis, não entrariam no Reino dos Céus. 

Nós temos que ser inúteis, mas na concepção de Jesus. O inútil não se refere ao nosso ser, ao nosso existir, à nossa pessoa. Isso, nunca, porque fomos criados, amados infinitamente por Deus. E porque temos consciência de nossa dignidade, de nosso valor como filhos de Deus, os outros títulos se tornam secundários. Inútil é isso, e não nos interessa. Não valemos por fora. Não precisamos vestir uma roupa cara para ser respeitados, não precisamos de um carro bonito para valer, de um título de universidade para ser gente, não precisamos carregar uma bagagem de títulos, ter grandes pistolões para subir. Valemos porque somos criados e amados por Deus. Essa é a autosegurança, o autovalor que o Senhor quer que tenhamos. Ele não quer que nos sintamos inúteis. Pelo contrário, por nos sentirmos muito úteis pelo valor interno que temos, é que não precisamos das utilidades pragmáticas do existir. Nenhum título acrescenta nada ao valor da minha pessoa. Por isso, olhando para vocês, não me interessa quantas universidades cursaram, quantos idiomas falam. Isso não tem a mínima importância. Podem falar um português amineirado, sem plurais e sem concordâncias, porque para o Senhor essas utilidades nada acrescentam. É bom que falemos bem, mas tudo isso é acidental, como essa criança do Evangelho. Ela não vale pelos títulos, mas porque existe, porque é, porque dentro dela existe o infinito. Essa é a segurança que o Senhor espera de nós! 

Somos pessoas marcadas definitivamente pelo amor e não precisamos nos agarrar sedentamente às coisas para nos valorizar extrinsecamente. O Evangelho de Jesus diz exatamente que não precisamos de valorização extrínseca, porque valemos por nós mesmos. Não precisamos nos arrogar em títulos, porque esse é um valor que passa. Essa é a grande lição que o Senhor nos deixou hoje. Amém. 

Pe. João Batista Libânio, sj – Um outro olhar, vol. 7

Confira a reflexão de Frei Alvaci Mendes da Luz, OFM para este 25º domingo do Tempo Comum: