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quarta-feira, 30 de setembro de 2015

São Jerônimo


Ó Deus, que destes ao presbítero São Jerônimo profundo amor pela Sagrada Escritura, concedei ao vosso povo alimentar-se cada vez mais da vossa palavra e nela encontrar a fonte da vida. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

É incontestável o grande débito que a cultura e os cristãos de todos os tempos têm com este santo de inteligência brilhante e temperamento intratável. Jerônimo nasceu em uma família muito rica na Dalmácia, hoje Croácia, no ano 347. Com a morte dos pais, herdou uma boa fortuna, que aplicou na realização de sua vocação para os estudos, pois tinha uma inteligência privilegiada. Viajou para Roma, onde procurou os melhores mestres de retórica e desfrutou a juventude com uma certa liberdade. Jerônimo estudou por toda a vida, viajando da Europa ao Oriente com sua biblioteca dos clássicos antigos, nos quais era formado e graduado doutor.

Ele foi batizado pelo papa Libério, já com 25 anos de idade. Passando pela França, conheceu um monastério e decidiu retirar-se para vivenciar a experiência espiritual. Uma de suas características era o gosto pelas entregas radicais. Ficou muitos anos no deserto da Síria, praticando rigorosos jejuns e penitências, que quase o levaram à morte. Em 375, depois de uma doença, Jerônimo passou ao estudo da Bíblia com renovada paixão. Foi ordenado sacerdote pelo bispo Paulino, na Antioquia, em 379. Mas Jerônimo não tinha vocação pastoral e decidiu que seria um monge dedicado à reflexão, ao estudo e divulgação do cristianismo.

Voltou para Roma em 382, chamado pelo papa Dâmaso, para ser seu secretário particular. Jerônimo foi incumbido de traduzir a Bíblia, do grego e do hebraico, para o latim. Nesse trabalho, dedicou quase toda a sua vida. O conjunto final de sua tradução da Bíblia em latim chamou-se "Vulgata" e tornou-se oficial no Concílio de Trento.

Romano de formação, Jerônimo era um enciclopédico. Sua obra literária revelou o filósofo, o retórico, o gramático, o dialético, capaz de escrever e pensar em latim, grego e hebraico, escritor de estilo rico, puro e, ao mesmo tempo, eloquente. Dono de personalidade e temperamento fortíssimos, sua passagem despertava polêmicas ou entusiasmos.

Devido a certas intrigas do meio romano, retirou-se para Belém, onde viveu como um monge, continuando seus estudos e trabalhos bíblicos. Para não ser esquecido, reaparecia, de vez em quando, com um novo livro. Suas violências verbais não perdoavam ninguém. Teve palavras duras para Ambrósio, Basílio e para com o próprio Agostinho. Mas sempre amenizava as intemperanças do seu caráter para que prevalecesse o direito espiritual.

Jerônimo era fantástico, consciente de suas próprias culpas e de seus limites, tinha total clareza de seus merecimentos. Ao escrever o livro "Homens ilustres", concluiu-o com um capítulo dedicado a ele mesmo. Morreu de velhice no ano 420, em 30 de setembro, em Belém. Foi declarado padroeiro dos estudos bíblicos e é celebrado no dia de sua morte.

Fonte: Paulinas

Profissão de Frei João no Jubileu da Missão


Com a Imaculada Mãe de Deus exultamos de alegria no Senhor!

Exultamos pela vida de nossa jovem Fundação Imaculada Mãe de Deus de Angola (FIMDA), que completou seus 25 anos de presença franciscana em terras de Ngola Kilwanje Kya Samba, Angola.

É com profunda alegria que, com aqueles nossos irmãos de primeira hora, Frei Plínio Gande da Silva, Frei Pedro Caron, Frei Lotário Neumann, Frei Juvenal Sansão, Frei José Zanchet e outros, nos juntamos à grande festa e dizemos como o anjo à Nossa Senhora: “Sanguluka ni sangumuka” (Alegrai-vos e rejubilai-vos no Senhor).


Exultamos pelo ‘sim’ definitivo de nosso irmão Frei João Baptista Chilunda Canjenjenga, que professou solenemente diante do santo povo de Deus, do Ministro Provincial, Frei Fidêncio Vanboemmel, do Visitador Geral, Frei Nestor Inácio Schwerz e do Presidente da Fundação, Frei José Antônio dos Santos. Frei João Canta: “Senhor, que queres que eu faça no meio da Ordem Franciscana”? O Ministro Provincial fez ecoar a mensagem do Papa Francisco e do Ministro Geral, Frei Michael Perry: “… Quero recordar-lhes os valores centrais de nossa vida. Primeiro, a nossa relação com Deus, que deve ser sempre cultivada com atenção e amor. Depois, a nossa relação fraterna: a pertença à fraternidade vem antes de qualquer coisa, outra categoria de pertença e também a fraternidade precisa de dedicação total e de empenho evangélico absoluto; não se contentem nunca com uma qualidade de vida medíocre em fraternidade. Ainda, coloquem em prática a simplicidade de vida e sobriedade para dar um maior testemunho ao povo angolano. Enfim, como nos sugere também o Papa Francisco, cuidado para não caírem na armadilha do clericalismo, que não tem nada a ver com a nossa identidade franciscana”. Força FIMDA, força Frei Canjenjenga! A lavra é grande e necessita não de braços cruzados, mas de braços abertos.
Enfim, a festa foi também um verdadeiro ponto de encontro com aqueles que um dia foram formandos ou foram companheiros de caminhada em fase de formação inicial, de diversos institutos religiosos e diocesanos. Que possamos louvar sempre ao Criador, com sua mãe, a Virgem Maria, Mamã Muxima. Obrigado Senhor!

Frei Santana S. Kafunda, OFM, de Luanda, Angola

Fonte: Província Franciscana

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Santos Arcanjos com Frei Douglas nas Primícias


Frei Augusto Luiz Gabriel e Moacir Beggo

São José (SC) – A Primeira Missa do neopresbítero Frei Douglas Paulo Machado foi celebrada neste domingo, 27 de setembro, com muita solenidade na Capela São Miguel e Santa Rita, em São José (SC), onde reside sua família. A data coincidiu com a festa do Padroeiro São Miguel, que liturgicamente é celebrado com os Santos Arcanjos no dia 29 de setembro, mas foi transferida para este domingo.

A chuva, que cancelou a procissão pelas ruas com a imagem do Padroeiro, caiu por toda a manhã, mas o povo da Comunidade e os fiéis de Concórdia lotaram a igreja na bairro Areias, em São José. O pároco Frei Kelvin Konz acolheu os paroquianos, visitantes e frades que participaram da celebração.

Frei Douglas escolheu para pregador desta sua Primeira Missa como presbítero o orientador do Seminário e Aspirantado de Ituporanga, Frei Alberto Eckel, que, em uma homilia curta, foi didático ao falar sobre os arcanjos e deixou a sua mensagem com clareza e sentimento ao neopresbítero. “Celebrar a festa dos Arcanjos não é simplesmente uma devoção, nem mesmo uma crença em seres espirituais e de luz, como outras denominações religiosas os entendem. A propósito, São Gregório Magno nos lembra que a palavra anjo não indica a natureza, mas a função, o ofício, o serviço de anunciar. Assim, anjos são aqueles que anunciam fatos menores e arcanjos são os portadores das grandes notícias da história da Salvação. Os nomes que os arcanjos recebem – Miguel, Gabriel e Rafael – expressam, pois, uma dimensão da ação poderosa e salvadora de Deus ao longo da história”, explicou Frei Eckel.

“Assim, celebrar os arcanjos é reconhecer a bondade, o cuidado e o carinho que Deus tem para com seu povo. Miguel (Quem como Deus?) é o defensor dos amigos de Deus. É aquele que acompanha os justos e os defende em todas as adversidades e momentos de tentação. Gabriel (Força de Deus) é aquele que, dentre outras missões, foi o encarregado de anunciar a vinda do Messias e seu nascimento. Rafael (Deus cura), por sua vez, acompanhou e protegeu o jovem Tobias ao longo de sua viagem, trazendo também a cura ao seu pai”, acrescentou o pregador.

Ao neopresbítero, Frei Eckel lembrou que o lema escolhido por ele – “…como Cristo amou sua Igreja e se entregou por ela” (Ef 5,25) – orientará o seu ministério presbiteral. “Frei Douglas abraça toda a Igreja num ato de amor, assim como o Cristo o fez. É um amor que aniquila-se a si mesmo, numa entrega incondicional e gratuita. É o amor e o serviço realizados no mistério da Cruz, testemunhado e anunciado por tantos homens e mulheres ao longo da história, verdadeiros anjos e profetas destemidos que também foram capazes de amar e morrer por sua Igreja, pelo povo de Deus, assim como o Cristo o fez”, emendou.

“Esta é a vocação e a missão de Frei Douglas: anunciar com a vida e a palavra o amor de Deus, em Jesus Cristo, pela Igreja, pelo seu povo, pela humanidade inteira. É também a vocação e a missão de todos nós: testemunhar com a vida e a palavra o encontro com Jesus Morto-Ressuscitado, em quem Deus manifesta toda a sua força e seu amor. É a vocação e a missão de toda a Igreja: ser anunciadora – ser anjo – da entrega e do amor de Jesus, que nós fazemos memória, celebramos e contemplamos, juntos com todos os anjos e arcanjos, nesta Eucaristia”.

Adirleia de Moraes Alves Jeremias falou em nome da comunidade, agradecendo a Frei Douglas pela escolha do local para celebrar a Primeira Missa e ao pároco pelo empenho e dedicação. “É uma grande dádiva para a Paróquia a ordenação de um padre entre nós”, disse, acolhendo os peregrinos de Concórdia. Por último, leu os nomes dos festeiros deste ano e os festeiros que vão cuidar da festa no ano que vem.

Frei Evandro Balestrin, pároco em Concórdia, agradeceu pela acolhida e pediu a proteção dos Arcanjos para esta caminhada que se inicia na vida sacerdotal.  A manhã festiva terminou no Salão Paroquial com o almoço. Neste domingo, Frei Douglas ainda presidirá a Santa Missa às 19 horas na Paróquia Santa Cruz, onde foi ordenado ontem.

Fonte: Província Franciscana

“Por favor, Douglas! Por favor, cuida dos pobres!”


Frei Augusto Luiz Gabriel (fotos) e Moacir Beggo (texto)

São José (SC) – O apelo enfático foi do Arcebispo de Porto Alegre, Dom Jaime Spengler, a Frei Douglas Paulo Machado, ordenado presbítero neste sábado, 26 de setembro, às 18 horas, na Paróquia Santa Cruz, em São José, cidade vizinha de Florianópolis (SC). Muito à vontade ao ordenar o seu primeiro confrade, D. Jaime deixou a celebração mais leve e, num tom informal, falou diretamente ao ordenando várias vezes e aos frades da Província da Imaculada Conceição, recordando com saudades do seu tempo de vida fraterna, que deixou para ser bispo em 2011.

Entre os frades da Província estavam dois Definidores: Frei Germano Guesser, que representou o Ministro Provincial (Frei Fidêncio Vanboemmel), e Frei Evandro Balestrin. O pároco Kevin Konz acolheu a todos. Além de religiosos e religiosas, marcaram presença os noviços e os aspirantes da Província. O povo lotou a igreja mesmo debaixo de muita chuva durante todo o dia. De Concórdia, onde Frei Douglas reside, vieram dois ônibus de fiéis para participar de sua ordenação.

Logo depois da liturgia da Palavra, Frei Germano fez a apresentação do ordenando, que, num gesto muito belo e simbólico, despediu-se de seus pais (Milton e Dilma Machado) e saiu do meio do povo para apresentar-se ao bispo ordenante, no presbitério, dizendo: “Aqui estou”.

O Arcebispo solicitou, além do depoimento de Frei Germano, um gesto da comunidade para sinalizar a aptidão de Frei Douglas para o sacerdócio. Com uma demorada salva de palmas, a comunidade reforçou o pedido do celebrante.

Na sua homilia, D. Jaime explicou detalhadamente o rito da ordenação presbiteral. Segundo o celebrante, a teologia do Sacramento da Ordem é muito bonita. Mas D. Jaime lembrou que hoje falamos pouco da cruz. “Temos medo da cruz. Hoje, em alguns setores, se fala tanto do Cristo que cura, do Cristo que salva, de tantas coisas, mas do Cristo da Cruz ninguém quer falar. Do Cristo que sofre, do Cristo que morre, é difícil falar. Mas a vida do presbítero, do padre, ela deve se conformar com o Cristo Crucificado”, exortou o Arcebispo de Porto Alegre.

“O Espírito do Senhor está sobre ti, certamente. Como presbítero, tu assumes a missão do pastor. Por favor, Douglas, por favor, cuida dos pobres! Cuida dos pobres. O Papa fala dos restos, dos resíduos, que ninguém que ver, mas que estão por aí pedindo ao menos o nosso olhar, a nossa atenção”, ressaltou, fazendo uma prece:

 “Cuida dos pobres, atende os fragilizados, acolhe os necessitados. São tantos!
Que a tua vida, que as tuas palavras, que as tuas ações possam realmente aquecer o coração dos fragilizados!
Que tu possas descer na noite escura das pessoas sem ser invadido pelas trevas e ali te perderes!
Que tu sejas capaz de ouvir a ilusão de muitos sem te deixares iludir pelas ilusões!
Que tu sejas capaz de acolher as desilusões sem desesperar-te, nem cair na amargura ou na depressão!
Que tu sejas, Douglas, capaz de tocar a desintegração alheia sem te deixares dissolver e indispor tua própria identidade!
Isso o Papa pedia para nós quando esteve no Rio de Janeiro.
Frei, que o Senhor te conduza pela mão para bem junto do povo. Bem junto. Perto do chão, especialmente o povo pobre, os fracos, os ignorados, os restos, os resíduos, que ninguém quer ver!
Que tu possas reconhecer o Cristo ao teu lado sempre a te conduzir. Não podemos jamais esquecer aquele capítulo 26 do Evangelho de Mateus.
Que possas por toda a parte, através do Ministério da Ordem, testemunhar e anunciar Jesus. Não outra coisa. Todos os dias de sua vida, porque ele se entregou por ti, ele se entregou por mim e por nós todos. E nós todos somos a Igreja que ele tanto amou!
E se nalgum momento de sua vida surgir dificuldade maior, não se esqueça dos irmãos. Eles são a maior riqueza que nós temos. Que Deus te ajude!”, pediu.


Dom Jaime fez uma homilia partindo do texto do Evangelho em que situa o contexto da última ceia de Jesus com seus apóstolos, onde lava os pés dos discípulos. “Jesus mostra toda a sua disposição, todo o seu amor, amor que consiste em dar-se todo inteiro. Dar-se todo inteiro para que o Pai possa agir livremente. O cume desse doar-se é certamente a morte, ou melhor, o saber dar a vida por amor”.

Segundo o Arcebispo, conhecendo este amor do Pai pelo Filho, nós permanecemos neste mesmo amor, nesta mesma intensidade de amor. “E o amor se torna a nossa casa, a nossa vida. Eu creio que Francisco de Assis entendeu isso como ninguém ao longo da história. Por isso, ele percorria praças e campos, chorando e gritando: o ‘amor não é amado’. Sim, sem a experiência desse amor, o ser humano não se sente em casa. Sem a experiência do amor, ninguém se sente em casa e por isso vaga e divaga”, explicou. Segundo D. Jaime, hoje a nossa sociedade divaga, sem rumo, sem direção. “Nosso mundo hoje tudo consume. Consome inclusive amor. Consome, mas não arde e não queima. Muito diferente da nossa tradição originária de fé. Na sarça ardente. A sarça ardia, queimava, mas não consumia. Talvez essa experiência nós precisaríamos, de alguma forma, resgatar em nossas comunidades”, ensinou.

“Permanecer no amor. Permanecer em Jesus implica em aceitar o seu Evangelho, acolher o seu amor, implica amá-lo com todas as forças. E todas não são algumas. Nós, enquanto Igreja, não somos adeptos de um credo, nós somos antes de tudo e, sobretudo, discípulos e discípulas de alguém que nos ensina a amar sem reservas”.

Dom Jaime também explicou o Ministério da Ordem: “Ai dele (Douglas) se achar que o ministério lhe pertence, é propriedade dele. Jamais será. Eu creio – e por isso estamos aqui hoje – que Frei Douglas se dispôs a fazer um caminho, caminho marcado por um desejo de responder a uma convocação que não veio dele. Não veio de você, Douglas! E, agora, a comunidade pede para que ele seja lançado dentro de um ordenamento característico onde possa exercer o ministério do amor”, frisou.



O RITO

Terminada a homilia, o celebrante dirigiu-se, novamente, ao candidato, para confirmar sua intenção de abraçar o sacerdócio, com as disposições e renúncias necessárias. D. Jaime disse a Frei Douglas: “Agora, é olho no olho”. A cada pergunta, repetiu-se a resposta conclusiva: “Eu quero”.

E, então, chegou o momento da grande oração da comunidade. Prostrado por terra, o candidato manifestou o reconhecimento de sua nulidade, fraqueza, pequenez, diante da grandiosidade do ofício que assumiu nesta noite. A comunidade se ajoelhou e entoou a Ladainha de Todos os Santos. “Assim, como os invocamos, a Igreja da terra se une à Igreja do céu, suplicando a força do Espírito. Esse é um momento muito bonito da liturgia de hoje. Depois, no silêncio da imposição das mãos, a terra se une ao céu. O ser humano é dignificado. Deus no seu silêncio, Deus proclama: ‘Tu és meu para sempre!’ O candidato, ajoelhado, sabe que através da silenciosa imposição das mãos do bispo e dos presbíteros, é Deus mesmo que põe sobre ele a mão. E a partir deste instante ele não mais se pertence. Ele torna-se propriedade de um outro. Estás convencido disso, Frei Douglas?”, explicou o Arcebispo.

Seguiu-se a Grande Oração Consecratória, pela qual o candidato foi consumado sacerdote para todo o sempre. Na etapa seguinte da cerimônia, o novo presbítero revestiu-se dos paramentos sacerdotais: a alva, ou seja, a veste branca; a estola, e a casula. Frei Douglas teve a ajuda para se vestir do pároco da Paróquia Santa Cruz: Pe. Kevin.

Num outro belo gesto, o ordenante voltou a chamar o neo-sacerdote para lhes ungir as mãos. Teve início, então, a procissão das ofertas, trazidas pelo povo ao altar, para serem usadas nesta primeira Missa que Frei Douglas concelebrou com o Bispo. Essas ofertas simbolizam, também, o que o padre vai fazer a vida inteira: repetir os gestos de Cristo, na mesma entrega, deixando-se consumir para o bem do povo.

A Missa prosseguiu na forma habitual, presidida por D. Jaime e concelebrada por todos os padres presentes. O neo-sacerdote celebrou sua primeira Missa solene no domingo, às 10h30.

Em nome da Província, Frei Germano agradeceu a disponibilidade de D. Jaime, a acolhida do Pe. Kevin, os paroquianos, os familiares e, por último, parabenizou Frei Douglas pelo dom da vocação e pela ordenação realizada no Ano da Vida Consagrada. “Você também é ordenado presbítero num momento muito bonito da Igreja, do Pontificado do Papa Francisco. Dedicar atenção especial aos gestos e palavras do Papa Francisco será para nós de grande ajuda na busca por seguir Jesus como o fez Francisco de Assis, com a coragem de deixarmos o ‘manto’ da acomodação, da apatia e da indiferença, colocando-nos em pé, em atitude de prontidão e disponibilidade, como uma ‘Igreja em saída’”, completou Frei Germano.



Frei Douglas também não se cansou de agradecer ao Arcebispo que aceitou prontamente o seu convite para ordená-lo, ao pároco e seu amigo, aos confrades, aos paroquianos e à sua família. E D. Jaime, no final, interveio pedindo calorosas palmas para o sr. Milton e Dilma Machado.  “A gente aprende a ser gente no colo da mãe e no afago do pai. É ali que nós aprendemos as primeiras noções da fé. É ali que Deus encontra espaço. Parabéns!”
E dirigindo a Frei Diego Melo, promotor vocacional da Província, disse: “Diego, não esqueça: ‘Nós gostamos do que somos e amamos o que fazemos’. Aqui está a chave da promoção vocacional”, ensinou. A ordenação terminou em confraternização no Salão Paroquial.

Fonte: Província Franciscana

Santos anjos


O novo calendário reúne em celebração única os três arcanjos que eram comemorados em dia diferentes. Este dia seria a festa do arcanjo São Miguel, o antigo padroeiro da sinagoga e agora padroeiro universal da Igreja. São Gabriel é o anjo da Anunciação, enquanto São Rafael é invocado como guia dos que viajam. 

A existência dos seres incorpóreos, que as Sagradas Escrituras chamam habitualmente de anjos, é uma verdade de fé.

Mas quem são os anjos? Eis a resposta de Santo Agostinho: "Angelus officii nomen est, non naturae". Anjo é denominação de encargo, não de natureza.Se perguntares pela denominação de natureza, é um espírito; se perguntares pelo encargo, é um anjo: é espírito por aquilo que é, e é anjo por aquilo que faz. Os anjos são, pois, servidores e mensageiros de Deus. Pelo fato que "veem sempre a face do Pai que está no céu", como se lê no Evangelho de Mateus, "eles são executores poderosos de suas palavra, obedientes ao som da sua palavra"( Salmo 103,20).

São Miguel, como expressão da onipotência de Deus, recebeu, desde o começo da história do cristianismo, um culto particular. Constantino e Justiniano erigiram-lhe dois santuários nas duas extremidades do Bósforo.

Em Roma, o arcanjo domina a cidade do alto da Mole Adriana, a qual tomou o nome de Castelo Santo Anjo.

São Gabriel,"aquele que está diante de Deus", é o anunciador por excelência das divinas revelações: anuncia ao profeta Daniel o retorno do exílio do povo eleito; leva a Zacarias a notícia da iminente concepção do precursor do Messias. Depois, é-lhe confiada a missão mais alta que possa ser dada a uma criatura: o anúncio a Maria da Encarnação do Filho de Deus.

São Rafael é nomeado em um único livro das Escrituras: tem a missão de acompanhar o jovem Tobias para tornar-lhe seguro o caminho por estradas desconhecidas e lhe sugere a receita para curar o pai da cegueira temporária ("Rafael" significa, de fato, "Deus Cura"), sendo, por isso, invocado como protetor de quem se põe em viagem e como patrono de quem se dedica à cura dos doentes.

(Retirado do livro "Os Santos e os Beatos da Igreja do Ocidente e do Oriente", Paulinas Editora)

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Largo São Francisco se transformou no Santuário de Canindé


Pelo segundo ano consecutivo o Santuário e Convento São Francisco, no centro de São Paulo, fez a abertura dos festejos do padroeiro em grande estilo. As cores e sons do Nordeste do Brasil saudaram São Francisco das Chagas. A missa nordestina aconteceu ao meio dia, neste sábado, dia 26 de setembro.
Animada pela Pastoral do Migrante, a missa foi presidida por Frei Gustavo Medella, e concelebrada por Frei Alvaci Mendes da Luz e por Pe. Valdiran Ferreira dos Santos e contou ainda com a presença de Frei Valter Carvalho.

Frei Gustavo destacou que era a “festa da saudade”, momento onde os nordestinos podiam celebrar São Francisco das Chagas, mesmo à distância. A chuva que caiu durante a manhã e início da tarde em São Paulo foi lembrada como um bom sinal. “A chuva quando cai no Nordeste é sinal de bênção!”

Em sua homilia, o frade destacou a proximidade dos nordestinos com Jesus Cristo, e consequentemente com São Francisco das Chagas. “Nas chagas de Cristo e de São Francisco, o nordestino enxerga as próprias chagas”, afirmou.

E não são poucas as chagas deste povo. A seca, o descaso, a exploração, sair de sua terra para tentar a vida em outro lugar, começar a vida do zero. Por isso, para o nordestino, as feridas não são o ponto final, mas um obstáculo a ser vencido.

“O povo nordestino olha além, para eles é muito claro que a história de Jesus não termina na cruz. Jesus caminha com eles, muito próximo”, acrescentou o frade.

Frei Gustavo, neto de uma paraibana, também destacou a imensa alegria do nordestino. As cores, os cantos e a luta são marcas registradas do Nordeste. Ele encerrou sua homilia lendo o poema de Diógenes da Cunha Lima, poeta potiguar.

Jesus, um Nordestino

Eu penso que Jesus devia nascer em Belém,
Na Paraíba, perto de Guarabira
E vizinho a Pirpirituba.
E se não bastasse a vizinhança
A indicar rima e caminho, Nova Cruz.

Era filho caçula de Dona Maria
Uma mulher dona da beleza
E que germinava bondade nas pessoas.
Era um menino moreno muito esperto,
Embalado em rede de algodão cru.

Tinha sandália com currulepo entre os dedos
E cajus, em dezembro, a lhe matar a sede.

O seu pastor fora um vaqueiro nordestino
De gibão e perneira e guarda-peito
Pra livrar as suas carnes da Jurema.

E vieram adorar o Deus-menino
Os Santos Reis, entrelaçados de bom jeito
Um negro, um índio e um branco português.

Seria fácil encontrar espinhos para a Fronte

Divina coroar, e um caminhão
Que ia por São José do Egito
Pra levar Jesus, o retirante,
Até São Paulo,
Um santo feito para as grandes secas.

Meu Deus, meu Deus, por que
Nos abandonaste, exclamaria
Enquanto repartia com o povo
Nu as suas vestes

Multiplicadas como pães ou peixes.

Criança, era carpinteiro como seu pai
Fazendo caixões azuis para os anjos do lugar.
Brincaria de castanha, um castelo,
Como convém à sua alta nobreza.

Academia, pulava num pé só
E proezas faria num cavalo de pau.
O seu jumento era mais magro, certamente.

E nem serviria pra carne de jabá.
Era um menino desnutrido como os outros

Da região, a fazer o bem, mudar
Aqui as coisas só vão na base do milagre

Ou da força parida da vontade.
Eu penso que Jesus
Devia nascer em Belém
Na Paraíba.


Nossa Senhora, Mãe do Nordeste

A missa contou com a presença do Padre Valdiran Ferreira dos Santos, alagoano. Ele brindou os presentes com uma pequena recordação. Uma oração com imagem de Nossa Senhora Mãe do Nordeste, que leva um jarro na cabeça. Todos foram convidados a rezar juntos a oração de sua autoria:

Nossa Senhora Mãe do Nordeste, torrão seco e sofrido, de gente honesta e trabalhadora que enfrenta a caatinga, os espinhos, a seca e o sol, as dores e o suor para viver com dignidade.

Debaixo desse céu azul, o sol queima nossa pele e nossas plantações. A água é escassa, a seca domina tudo, é um cenário sem graça, não fica quase ninguém , às vezes parece um fim de mundo! A terra nas mãos de poucos, a miséria nos consome, muitos são obrigados a deixar tudo e ir embora para não morrer de fome.

Confiamos no Senhor, porque Santo é o seu nome!

Nossa Senhora Mãe do Nordeste, olha para esse povo de artistas e poetas, cantadores e tocadores, mulheres fortes e profetas.

Olha essa terra de verdes mandacarus, sinal de resistência de um povo que quer viver com justiça e dignidade!

Olha para as mulheres sofridas como tu, fortes e decisivas na defesa da vida, na unidade da família e na luta por pão. Amém!



Muita alegria e confraternização na Tarde de prêmios

A tarde continuou animada no Largo São Francisco. Às 14h teve início a Tarde de prêmios, um momento para reencontro e muita alegria.

Frei Alexandre Rohling, o Frei Xandão, foi o animador do bingo, com muita descontração. Foram 9 rodadas, com 3 prêmios em cada. Foram vendidos quase 300 ingressos. Muitas famílias aproveitaram o sábado para brincar e tentar a sorte. Entre os prêmios havia uma TV, um forno micro-ondas, uma bicicleta, e muitos outros.

A Tarde de prêmios tem como objetivo, além da reunião com os amigos e benfeitores do Pró-Vocações, arrecadar fundos para a Festa de São Francisco, que começa nessa semana e se encerra no domingo, dia 4.







sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Pontífice se encontra com religiosos


Vésperas com o clero e os Religiosos - Homilia do Santo Padre

Catedral de São Patrício, Nova York - Quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Neste momento, invadem-me dois sentimentos que têm a ver com os meus irmãos muçulmanos. O primeiro, é de felicitação pela hodierna ocorrência do vosso dia do sacrifício. Teria desejado que fosse mais calorosa a minha saudação. O segundo é de solidariedade com o vosso povo pela tragédia que hoje sofreu em Meca. Neste momento de oração, uno-me, unimo-nos em oração a Deus, nosso Pai todo-poderoso e misericordioso.

Ouçamos o Apóstolo: «Exultais de alegria, se bem que, por algum tempo, tenhais de andar aflitos por diversas provações» (1 Ped 1,6). Estas palavras lembram-nos uma coisa essencial: a nossa vocação é viver na alegria.

Esta linda catedral de São Patrício, construída ao longo de muitos anos com o sacrifício de tantos homens e mulheres, pode ser um símbolo da obra de gerações de sacerdotes, religiosos e leigos americanos que contribuíram para a edificação da Igreja nos Estados Unidos. Sem querer excluir outros campos, só no campo da educação, quantos sacerdotes e consagrados tiveram um papel central neste país, ajudando os pais a dar aos seus filhos o alimento que os nutre para a vida! Muitos fizeram-no à custa de sacrifícios extraordinários e com caridade heróica. Penso, por exemplo, em Santa Elizabeth Ann Seton, que fundou na América a primeira escola católica gratuita para meninas, ou em São João Neumann, fundador do primeiro sistema de educação católica nos Estados Unidos.

Nesta tarde, queridos irmãos e irmãs, vim rezar convosco, sacerdotes, consagrados, consagradas, para que a nossa vocação continue a construir o grande edifício do Reino de Deus neste país. Sei que vós, como corpo sacerdotal, diante do povo de Deus, sofrestes muito num passado não distante suportando a vergonha por causa de muitos irmãos que feriram e escandalizaram a Igreja nos seus filhos mais indefesos... Com palavras do Apocalipse, digo-vos que «vindes da grande tribulação» (cf. 7, 14). Acompanho-vos neste período de sofrimento e dificuldade; e também agradeço a Deus pelo serviço que realizais acompanhando o povo de Deus. Com o fim de vos ajudar a prosseguir no caminho da fidelidade a Jesus Cristo, deixai-me fazer duas breves reflexões.

A primeira diz respeito ao espírito de gratidão. A alegria de homens e mulheres que amam a Deus atrai a outros; sacerdotes e consagrados chamados a sentir e irradiar uma satisfação permanente com a sua vocação. A alegria brota dum coração agradecido. É verdade! Recebemos muito, tantas graças, tantas bênçãos; e alegramo-nos. Far-nos-á bem repassar com a memória as graças da nossa vida. Memória daquela primeira chamada, memória do caminho percorrido, memória de tantas graças recebidas..., e sobretudo memória do encontro com Jesus Cristo em tantos momentos durante o caminho. Memória do encanto que produz em nosso coração o encontro com Jesus Cristo. Irmãs e Irmãos, consagrados e sacerdotes, peçamos a graça da memória para fazer crescer o espírito de gratidão. Talvez convenha perguntar-nos: Somos capazes de enumerar as bênçãos que vieram sobre nós, ou já me esqueci delas?

A segunda reflexão tem a ver com o espírito de laboriosidade. Um coração agradecido é, espontaneamente, impelido a servir o Senhor e a abraçar um estilo de vida diligente. No momento em que nos damos conta de tudo aquilo que Deus nos deu, o caminho da renúncia a si mesmo a fim de trabalhar para Ele e para os outros torna-se um caminho privilegiado de resposta ao seu amor.

E, no entanto, se formos honestos, sabemos quão facilmente pode ser sufocado este espírito de trabalho generoso e sacrifício pessoal. Há duas maneiras para isso acontecer, sendo ambas exemplo da «espiritualidade mundana», que nos enfraquece no nosso caminho de serviço de mulheres e homens consagrados, e degrada o enlevo, a maravilha do primeiro encontro com Jesus Cristo.

Podemos ficar encastrados quando medimos o valor dos nossos esforços apostólicos pelo critério da eficiência, do funcionamento e do sucesso externo que governa o mundo dos negócios. Não digo que estas coisas não sejam importantes! Foi-nos confiada uma grande responsabilidade e o povo de Deus, justamente, espera resultados. Mas o verdadeiro valor do nosso apostolado é medido pelo valor que o mesmo tem aos olhos de Deus. Ver e avaliar as coisas a partir da perspectiva de Deus chama-nos para uma conversão constante ao primeiro tempo da nossa vocação e – nem é preciso dizê-lo – exige uma grande humildade. A cruz mostra-nos uma maneira diferente de medir o sucesso: a nós cabe-nos semear, e Deus vê os frutos do nosso trabalho. E se, às vezes, os nossos esforços e o nosso trabalho parecem gorar-se e não dar fruto, estamos a trilhar a mesma via de Jesus Cristo; a sua vida, humanamente falando, acabou com um fracasso: com o fracasso da cruz.

Um novo perigo surge quando nos tornamos ciosos do nosso tempo livre, quando pensamos que rodear-nos de comodidades mundanas ajudar-nos-á a servir melhor. O problema, com este modo de raciocinar, é que pode ofuscar a força da chamada diária de Deus à conversão, ao encontro com Ele. Pouco a pouco mas seguramente vai diminuindo o nosso espírito de sacrifício, o nosso espírito de renúncia e de laboriosidade. E afasta também as pessoas que padecem pobreza material, vendo-se obrigadas a fazer sacrifícios maiores do que os nossos, sem serem consagrados. O repouso é uma necessidade, como o são os momentos de tempo livre e de restauração pessoal, mas devemos aprender a descansar de forma que aprofunde o nosso desejo de servir de modo generoso. A proximidade aos pobres, refugiados, imigrantes, doentes, explorados, idosos que sofrem a solidão, encarcerados e muitos outros pobres de Deus ensinar-nos-á outro tipo de repouso, mais cristão e generoso.

Gratidão e laboriosidade: são os dois pilares da vida espiritual que desejava partilhar convosco, sacerdotes, religiosas e religiosos, nesta tarde. Agradeço-vos pelas orações, atividades e sacrifícios diários que realizais nos diferentes campos de apostolado. Muitos deles são conhecidos apenas de Deus, mas dão muito fruto na vida da Igreja.
De maneira especial, gostaria de expressar a minha admiração e a minha gratidão às consagradas dos Estados Unidos. Que seria esta Igreja sem vós? Mulheres fortes, lutadoras; com aquele espírito de coragem que vos coloca na linha da frente a anunciar o Evangelho. A vós consagradas, irmãs e mães deste povo, quero dizer «obrigado», um «obrigado» grandíssimo… e dizer também que gosto muito de vós.

Sei que muitos de vós estais a enfrentar o desafio que supõe a adaptação a um programa pastoral em evolução. Como São Pedro, peço-vos que, perante qualquer prova que tenhais de enfrentar, não percais a paz e respondei como fez Cristo: deu graças ao Pai, tomou a sua cruz e seguiu em frente.

Queridos irmãos e irmãs, em breve, dentro de poucos minutos, cantaremos o Magnificat. Coloquemos nas mãos de Nossa Senhora a obra que nos foi confiada; unamo-nos a Ela agradecendo ao Senhor pelas grandes coisas que fez e pelas grandes coisas que continuará a fazer em nós e em todos aqueles que temos o privilégio de servir. Que assim seja!

26º domingo do Tempo Comum



26º domingo do Tempo Comum
1ª Leitura - Nm 11,25-29
Salmo - Sl 18,8.10.12-13.14 (R.8a 9b)
2ª Leitura - Tg 5,1-6
Evangelho - Mc 9,38-43.45.47-48

Naquele tempo:
João disse a Jesus:
'Mestre, vimos um homem expulsar demônios em teu nome.
Mas nós o proibimos, porque ele não nos segue'.
Jesus disse:
'Não o proíbais, pois ninguém faz milagres em meu nome
para depois falar mal de mim.
Quem não é contra nós é a nosso favor.
Em verdade eu vos digo:
quem vos der a beber um copo de água,
porque sois de Cristo,
não ficará sem receber a sua recompensa.
E, se alguém escandalizar
um destes pequeninos que crêem,
melhor seria que fosse jogado no mar
com uma pedra de moinho amarrada ao pescoço.
Se tua mão te leva a pecar, corta-a!
É melhor entrar na Vida sem uma das mãos,
do que, tendo as duas, ir para o inferno,
para o fogo que nunca se apaga.
Se teu pé te leva a pecar, corta-o!
É melhor entrar na Vida sem um dos pés,
do que, tendo os dois, ser jogado no inferno.
Se teu olho te leva a pecar, arranca-o!
É melhor entrar no Reino de Deus com um olho só,
do que, tendo os dois, ser jogado no inferno,
'onde o verme deles não morre,
e o fogo não se apaga''.
Palavra da Salvação.

Talentos a serviço da comunidade  - Pe. João Batista Libânio, sj

Esse evangelho faz ressonância com a primeira leitura, na qual Josué, ciumento, julgou aqueles que estavam profetizando. Eram duas pessoas perdidas lá no acampamento que, de repente, se mostram envolvidas pelo espírito do Senhor. Moisés deixa uma lição para eles e para todos nós. De certa maneira, Jesus retoma essa lição, quando alguém começa a fazer milagres, e os discípulos querem proibir. Jesus proíbe-os de proibir. É proibido proibir! 

Houve um movimento revolucionário na década de sessenta, portanto no século passado, mais precisamente em maio de 1968, cujo slogan era este: “É proibido proibir!” Se trouxermos essa frase juvenil de sessenta e oito para a vida da comunidade, da sociedade, talvez fizéssemos uma revolução muito bonita. É proibido proibir que as pessoas sejam felizes! É proibido proibir que as pessoas tomem iniciativas! É proibido proibir que, numa comunidade, mais pessoas sirvam, mais pessoas trabalhem! Que não apareça apenas um pequeno grupo! O grande risco do poder – e o poder é terrível – é que as pessoas querem concentrá-lo em suas mãos e não querem fazê-lo fluir como água. 

Jesus tem outra maneira de pensar. Moisés, apesar da autoridade, apesar de ter sido o homem que esteve no alto da montanha, e que, muitas vezes, discutia com Deus, ele não quis guardar consigo o dom da profecia. Alegrou-se quando o Senhor o estendeu a outros. 
Muitas vezes, nossas comunidades eclesiais estão péssimas justamente por isto: por não permitirmos que as gerações jovens surjam com seus talentos, que novas vozes entrem nos corais, que novos coroinhas venham alegrar as celebrações, que novos ministros venham somar. Queremos segurar em poucas mãos todos os dons, a começar por nós, sacerdotes. Se recebemos o ministério é para responder à etimologia da palavra: minus + tenere. É ter menos, não mais. Para que os outros cumpram, para que os outros supram, para que os outros completem! No dia em que esta comunidade puder assumir todo mundo, todo profeta tiver uma palavra bonita, uma palavra bíblica, para ajudar a todas as pessoas, seremos muito mais felizes. Se todos, nesta comunidade, disponibilizarem os seus talentos de organização, de criação, de criatividade, vocês verão como ela será melhor! Será profética, sacerdotal. Se todos nós, em cada celebração, participássemos mais e trouxéssemos outras pessoas para participarem conosco, para darem sugestões e ideias, cresceríamos muito! Há essas firmas modernas, que seguem um pouco esse conselho de Jesus, e colocam em vários lugares algumas caixas para que qualquer um possa dar sugestões. Se uma faxineira perceber alguma coisa que possa melhorar, escreve e joga nessas caixinhas, e a gerência vai tomar conhecimento. 

Já lhes contei este fato, mas volto a repetir, pois vem a calhar com a celebração de hoje. Certa vez Frei Betto estava visitando uma fábrica. Conversava com os operários, e um deles, que trabalhava na esteira mecânica, disse-lhe que, se a esteira fizesse outro percurso, possibilitaria uma enorme economia de energia. Mas os engenheiros não lhe davam oportunidade de falar; então, que ficassem com o prejuízo! Como um operário pode ensinar alguma coisa a um engenheiro? Na visão deles, nunca! 

É o contrário disso que desejaríamos. Se cada um de nós percebesse que pode fazer crescer essa comunidade, dar sugestões, trazer ideias, fazer planos para que as coisas melhorem, realizaríamos a metade desse evangelho. 

A outra metade é um pouco forte. É claro que, se lermos ao pé da letra, muitos sairiam mancos de mãos e pés. Não haveria muletas suficientes. Mas não podemos entender ao pé da letra. Tomemos a palavra “pequenino”. Não são necessariamente os pequerruchos, os petizes, as crianças. Pequenino é qualquer pessoa mais frágil que nós. Por exemplo, eu sou professor, pequeninos são os meus alunos, mesmo que tenham trinta anos e barba na cara. Qualquer um que seja um pouco mais frágil que nós, em qualquer campo que seja, é considerado pequenino pelo evangelho. 

Agora vem a lição. Se tivermos uma gotinha de poder que seja, ela não poderá ser usada para fazer mal àquele que está abaixo de nós. Como seria diferente a sociedade! É isso que precisamos pensar, seja em que âmbito for. Se eu for gerente de uma firma, é ali, principalmente, que não poderei fazer mal a ninguém. É isso que significa arrancar a mão, a língua, os olhos, se eles fazem mal. Para Jesus, a autoridade só existe para fazer o outro crescer, nunca para fazê-lo minguar, diminuir, ser cortado. Se vivêssemos isso, transformaríamos radicalmente nossa sociedade. 

Pelo contrário, quando as pessoas sobem, parece que querem mostrar o seu poder exatamente pisando nos outros.  Basta uma pessoa subir um pouquinho, já quer ser chamado de vossa excelência, usar um automóvel maior. Certa vez um ministro disse que uma das coisas mais atraentes numa posição de ministro é que todas as pessoas se mostram sempre solícitas, cada uma querendo realizar melhor um desejo seu. Todos em volta para servi-lo, e ele engrandecido. Muito diferente desse evangelho. Isso é escandalizar os pequeninos, ser prepotente, prevalecer-se de qualquer poder que seja. Prevalecer-se da inteligência, do saber, do conhecimento, do cargo, da gerência, da cor, da etnia, da religião. Nós, padres, também temos que ser o último dos últimos, aqueles que estão ali para ajudar as pessoas. Quando olharmos os que estão mais abaixo de nós, coloquemo-nos mais abaixo ainda para levantá-los. Nós devemos ser uma espécie de elevador que faz com que as pessoas subam. Mas para fazermos isso, temos que nos colocar mais abaixo ainda, oferecer as nossas mãos para que os outros se elevem.

E uma última ideia, também difícil. Cada talento do irmão deveria ser uma festa para nós e não uma tristeza. Há pessoas que se amarguram quando veem pessoas com mais talentos que elas, ao invés de se alegrarem. Cada riqueza, cada habilidade que o outro tenha enriquece a totalidade. Como dizia Hegel: “uma gotinha de verdade faz com que a verdade maior cresça”, e eu acrescento: uma gotinha de bondade, de beleza, de serviço, de inteligência, que for jogada na comunidade, fará com que toda a comunidade cresça. Por isso, alegremo-nos com cada talento colocado a serviço da comunidade, e aí seremos mais evangélicos. Amém. 

Pe. João Batista Libânio, sj – Um outro olhar, vol. 7

Confira a reflexão de Frei Alvaci Mendes da Luz, OFM para este 26º domingo do Tempo Comum


"Deus não nos deixa sozinhos", afirma Pontífice aos sem-abrigo




Washington - Quinta-feira, 24 de setembro de 2015

É um prazer encontrar-vos. Bom dia! Vão ouvir dois sermões, um em castelhano e outro em inglês. A primeira palavra que quero dizer-vos é «obrigado». Obrigado por me acolherem e pelo esforço feito para que este encontro se realizasse.

Aqui recordo uma pessoa de quem gosto muito, que foi e é muito importante na minha vida. Serviu-me de apoio e fonte de inspiração. É uma pessoa a quem recorro quando estou com algum problema. Vós fazeis-me lembrar São José. Os vossos rostos falam-me do dele.

Na vida de São José, houve situações difíceis de enfrentar. Uma delas aconteceu quando Maria estava prestes a dar à luz, prestes a ter Jesus. Diz a Bíblia: «Quando eles se encontravam [em Belém], completaram-se os dias de [Maria] dar à luz e teve o seu filho primogênito, que envolveu em panos e recostou numa manjedoura, por não haver lugar para eles na hospedaria» (Lc 2, 6-7). A Bíblia é muito clara: não havia lugar para eles na hospedaria. Imagino José, com a sua esposa prestes a ter o filho, sem um teto, sem casa, sem alojamento. O Filho de Deus entrou neste mundo como uma pessoa que não tem casa. 
O Filho de Deus entrou como um sem-abrigo. O Filho de Deus sabe o que é começar a vida sem um teto. Podemos imaginar as perguntas que José se punha naquele momento: Como é possível? O Filho de Deus não tem um teto para viver? Por que estamos sem casa? Por que estamos sem um teto? São perguntas que muitos de vós podem pôr-se cada dia e pondes-vo-las. Como José, questionais-vos: Por que estamos sem um teto, sem uma casa? E nós que temos teto e lar, será bom que no-las ponhamos também: Por que estão sem casa estes nossos irmãos? Não têm teto, por quê?

As perguntas de José perduram até hoje, acompanhando todos aqueles que, ao longo da história, viveram e estão sem uma casa.

José era um homem que se punha perguntas, mas sobretudo era um homem de fé. E foi a fé que permitiu a José encontrar a luz naquele momento que parecia uma escuridão completa; foi a fé que o sustentou nas dificuldades da sua vida. Pela fé, José soube seguir em frente, quando tudo parecia sem saída.

Perante situações injustas, dolorosas, a fé oferece-nos a luz que dissipa a escuridão. Como sucedeu com José, a fé abre-nos à presença silenciosa de Deus em cada vida, em cada pessoa, em cada situação. Ele está presente em cada um de vós, em cada um de nós.
Quero ser muito claro. Não há nenhum motivo social, moral ou doutro gênero que seja para aceitar a carência de habitação. São situações injustas, mas sabemos que Deus está a sofrê-las juntamente conosco, está a vivê-las ao nosso lado. Não nos deixa sozinhos.

Jesus não quis apenas ser solidário com cada pessoa, não quis apenas que ninguém sentisse ou vivesse a falta da sua companhia, da sua ajuda e do seu amor; mas Ele próprio Se identificou com todos aqueles que sofrem, que choram, que padecem qualquer tipo de injustiça. Ele di-lo claramente: «Tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, era peregrino e recolhestes-me» (Mt 25, 35).

É a fé que nos diz que Deus está convosco, que Deus está no meio de nós e a sua presença incita-nos à caridade; aquela caridade que nasce do apelo de um Deus que não cessa de bater à nossa porta, à porta de todos para nos convidar ao amor, à compaixão, a darmo-nos uns aos outros.

Jesus continua a bater às nossas portas, à nossa vida. Não o faz magicamente, nem o faz com truques, com vistosos placares ou com fogos-de-artifício. Jesus continua a bater à nossa porta no rosto do irmão, no rosto do vizinho, no rosto de quem vive junto de nós.
Queridos amigos, uma das formas mais eficazes de ajuda, temo-la na oração. A oração une-nos, faz-nos irmãos, abre-nos o coração e lembra-nos uma verdade maravilhosa que às vezes esquecemos. Na oração, todos aprendemos a dizer Pai, Papá, e quando dizemos Pai, Papá, encontramo-nos como irmãos. Na oração, não há ricos ou pobres; há filhos e irmãos. Na oração, não há pessoas de primeira classe ou segunda; há fraternidade.

É na oração que o nosso coração encontra força para não se tornar insensível, frio perante as situações de injustiça. Na oração, Deus continua a chamar-nos e incitar-nos à caridade.
Como nos faz bem rezar juntos! Como nos faz bem encontrarmo-nos naquele espaço onde nos olhamos como irmãos e nos reconhecemos necessitados do apoio uns dos outros. E hoje quero rezar convosco, quero unir-me a vós, porque preciso do vosso apoio e da vossa proximidade. Quero convidar-vos a rezar juntos uns pelos outros, uns com os outros. Assim, podemos prestar este apoio que nos ajuda a viver a alegria de Jesus que está no meio de nós. E que Jesus nos ajude a pôr remédio a esta injustiça que Ele conheceu primeiro: a de não ter casa. Aceitais rezar juntos? Eu começo em castelhano e vós continuais em inglês.

Pai nosso…

E antes de vos deixar, gostaria de dar-vos a bênção de Deus:
O Senhor vos abençoe e proteja;
O Senhor vos olhe com benevolência e mostre a sua bondade;
O Senhor vos olhe com amor e conceda a sua paz (cf. Nm 6, 24-26).


Por favor, não vos esqueçais de rezar por mim. Obrigado!

Frei Douglas será ordenado presbítero neste sábado


Moacir Beggo

Natural de Florianópolis, onde nasceu no dia 4 de abril de 1987, Frei Douglas Paulo Machado será ordenado presbítero por Dom Jaime Spengler, OFM, Arcebispo Metropolitano de Porto Alegre, no dia 26 de setembro, às 18 horas, na Paróquia Santa Cruz, em São José (SC). Filho de Milton e Dilma Machado, Frei Douglas tem dois irmãos e ingressou na Ordem Franciscana em 2007, onde professou solenemente no dia 10 de agosto de 2013. Frei Douglas celebrará a Primeira Missa no dia seguinte, 27 de setembro, na Capela São Miguel e Santa Rita, em São José (SC). Conheça um pouco mais o futuro presbítero nesta entrevista!

Site Franciscanos - Frei Douglas, como se deu seu discernimento vocacional?

Frei Douglas – Aos 13 anos de idade, manifestei o desejo de ingressar no seminário. Fui encaminhado pelo pároco de minha paróquia ao Seminário Menor da Arquidiocese de Florianópolis, em Brusque, onde permaneci por um ano. Durante esse tempo, comecei a ter contato com a literatura franciscana na biblioteca do seminário. Em casa, meu avô paterno contava histórias dos franciscanos de Coronel Freitas, onde ele morou por muitos anos, antes de se mudar para São José, e com quem teve muito contato. Aos poucos, surgiu em mim um interesse, que crescia alimentado pela curiosidade, em conhecer a vida religiosa franciscana. Decidi, então, deixar o seminário diocesano para ingressar no franciscano. Para isso, contei com a ajuda e colaboração da Paróquia Santo Antônio, em Florianópolis, quando era pároco Frei Dalvino Munaretto. Ingressei, pois, no Seminário Santo Antônio, em Agudos, e daí em diante percorri todas as etapas formativas na Província até completar a Teologia ano passado em Petrópolis.

Site Franciscanos -  Depois de tantos anos de estudos e formação, você está prestes a ser ordenado presbítero. Fale-nos sobre sua expectativa.

Frei Douglas – A expectativa – e não poderia ser diferente – é muito grande. Junto com ela, vem também a preocupação em viver bem o ministério que ora assumo. Bem diz São João Crisóstomo quando afirma que “embora seja exercido na terra, o sacerdócio possui contudo o caráter de instituição celeste”. E ainda: “Conheço minha alma, sei como ela é fraca e pusilânime. Conheço a dignidade do sacerdócio e as dificuldades de exercê-lo. Pois mais numerosos do que os ventos que revoltam o mar, são as ondas que inquietam a alma do sacerdote”. Se o Boca de Ouro disse isso, que direi eu? Que não terei dificuldades? Que não cometerei erros? Sei que a ordenação sacerdotal não é só um ponto de chegada, mas sobretudo, um ponto de partida. Ao longo do ministério sacerdotal que irei exercer, vou me tornar, com ajuda dos irmãos, sempre mais “padre”. Pois sei que não é um favor que faço a Deus, mas uma resposta ao imenso favor que Deus me fez, chamando-me para o seu serviço, o arriscado e nobre serviço da Verdade e do Amor. Como a São João Crisóstomo, também a mim o infinito amor de Deus causa vertigens, quando olho para o abismo da minha pequenez humana. Rezo a Cristo, Sumo e Eterno Sacerdote, que, configurado a Ele, eu O ajude “na missão de morrer na cruz e dar seu sangue para a redenção da humanidade” (Frei Neylor – Comunicações de Fevereiro/2015, p. 95).

Site Franciscanos -  Que desafios você espera como presbítero?

Frei Douglas – No discurso de formatura do ano passado, no ITF, apresentei alguns desafios que esperavam os novos teólogos. Acredito que os desafios que terei que enfrentar como sacerdote não serão distintos daqueles. Por isso, repito aqui as palavras que disse outrora: “Cada vez mais se torna uma tarefa complexa testemunhar a fé. Vivemos em uma época marcada pela mudança, cujo nível mais profundo é o cultural. Vimos nas últimas décadas a ascensão de questões delicadíssimas sobre engenharia genética, bioética, revolução sexual, novas relações de trabalho, mudança na estrutura familiar, informática, nomadismo religioso, dentre tantas outras. A concepção do ser humano é quase por completa diluída. Imperando absoluta, a subjetividade, aliada à busca pragmática e imediatista, sem preocupação com critérios éticos, solapa os valores e ideais cristãos. A afirmação dos valores puramente subjetivos e pessoais, sem um esforço semelhante para garantir os direitos sociais e solidários, resulta em prejuízo da dignidade de todos, especialmente daqueles que são mais vulneráveis, os preferidos de Deus”. Os teólogos, digo, os presbíteros são responsáveis por suscitar a esperança nesse mundo multifacetado. Não se pode trair essa confiança, buscando a vesguice da Verdade.

Site Franciscanos - Como é ser presbítero na Igreja do Papa Francisco?

Frei Douglas – Ser presbítero na Igreja do Papa Francisco é ser presbítero na Igreja! O ministério sacerdotal – e isso não é novidade para ninguém – pertence à Igreja e somente a ela. Também por isso escolhi como lema de ordenação: “… como Cristo amou sua Igreja e se entregou por ela” (Ef 5,25). Ou seja, é na e para a Igreja que se assume esse ministério. O Santo Padre enumerou três pontos (Comunicações de Dezembro/2014, p. 611) para ser presbítero, nos quais ressalta que ser presbítero é viver para os outros. Ei-los: 1) Fraternidade: o Papa afirma que “o ministério sacerdotal não pode, de modo algum, ser individual e tampouco individualista”; 2) Oração: o Pontífice aconselha que “tenham todos os dias longas horas de oração” e “deixem que a oração de vocês sejam um convite ao Espírito”, do qual depende a construção da Igreja; e 3) Missão: O Santo Padre diz que “a missão é inseparável da oração, porque a oração abre ao Espírito e o Espírito os guiará na missão”.

Site Franciscanos -  Deixe uma mensagem aos jovens que gostariam de seguir Francisco de Assis.

Frei Douglas – A pergunta de Frei Masseo a São Francisco é a mesma que se faz ainda hoje: “Por que a ti? Por que a ti? Por que a ti? (…). Por que todo mundo anda atrás de ti e toda gente parece que deseja ver-te e ouvir-te e obedecer-te?” (I Fior. 10). Além da resposta do próprio Francisco, há uma de um escritor capuchinho: “Os motivos pelos quais a pessoa de Francisco atrai e suscita em nossos dias crescente interesse não devem sem dúvida ser procurados em seu empenho pela paz, no seu amor pela natureza e na sua liberdade diante do poder e do sucesso. O segredo de sua vida é mais profundo e se fundamenta na fé totalmente pessoal e na confiança imperturbável em Deus, naquele que é o bem sumo, vivo, verdadeiro e amável” (L. Lehmann). Ora, se Francisco atrai a muitos, é antes atraído por Deus, é seduzido pelo “Amor que não é amado”, como o profeta: “Tu me seduziste, Senhor, e eu me deixei seduzir; tu me agarraste e me dominaste” (Jr 20,7). E ainda: “Quando pensava: ‘Não me lembrarei mais dele, já não falarei em seu nome’, então sentia em meu coração como um fogo devorador, encerrado em meus ossos” (Jr 20,9). Quem se dispõe a seguir São Francisco deve desejar o martírio, ou seja, morrer para si e viver unicamente para Deus, pois se ele atrai, é para o Cristo que ele atrai.

Fonte: Província Franciscana 

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Pontífice critica a cultura do descarte e da morte em discurso histórico


Senhor Vice-Presidente,
Senhor Presidente da Câmara dos Representantes,
Distintos Membros do Congresso,

Queridos Amigos!

Sinto-me muito grato pelo convite para falar a esta Assembleia Plenária do Congresso «na terra dos livres e casa dos valorosos». Apraz-me pensar que o motivo para isso tenha sido o fato de também eu ser um filho deste grande continente, do qual muito recebemos todos nós e relativamente ao qual partilhamos uma responsabilidade comum.

Cada filho ou filha duma determinada nação tem uma missão, uma responsabilidade pessoal e social. A vossa responsabilidade própria de membros do Congresso é fazer com que este país, através da vossa atividade legislativa, cresça como nação. Vós sois o rosto deste povo, os seus representantes. Sois chamados a salvaguardar e garantir a dignidade dos vossos concidadãos na busca incansável e exigente do bem comum, que é o fim de toda a política.

Uma sociedade política dura no tempo quando, como uma vocação, se esforça por satisfazer as carências comuns, estimulando o crescimento de todos os seus membros, especialmente aqueles que estão em situação de maior vulnerabilidade ou risco. A atividade legislativa baseia-se sempre no cuidado das pessoas. Para isso fostes convidados, chamados e convocados por aqueles que vos elegeram.

O vosso trabalho lembra-me, sob dois aspectos, a figura de Moisés. Por um lado, o patriarca e legislador do povo de Israel simboliza a necessidade que têm os povos de manter vivo o seu sentido de unidade com os instrumentos duma legislação justa. Por outro, a figura de Moisés leva-nos diretamente a Deus e, por consequência, à dignidade transcendente do ser humano. Moisés oferece-nos uma boa síntese do vosso trabalho: a vós, pede-se para proteger, com os instrumentos da lei, a imagem e semelhança moldadas por Deus em cada rosto humano.

Nesta perspectiva, hoje quereria dirigir-me não só a vós mas, através de vós, a todo o povo dos Estados Unidos. Aqui, juntamente com os seus representantes, quereria aproveitar esta oportunidade para dialogar com tantos milhares de homens e mulheres que se esforçam diariamente por cumprir uma honesta jornada de trabalho, por trazer para casa o pão de cada dia, por poupar qualquer dólar e – passo a passo – construir uma vida melhor para as suas famílias. São homens e mulheres que não se preocupam apenas com pagar os impostos, mas – na forma discreta que os caracteriza – sustentam a vida da sociedade. Geram solidariedade com as suas atividades e criam organizações que ajudam quem tem mais necessidade.

Quereria também entrar em diálogo com as numerosas pessoas idosas que são um depósito de sabedoria forjada pela experiência e que procuram de muito modos, especialmente através do voluntariado, partilhar as suas histórias e experiências. Sei que muitas delas estão aposentadas, mas ainda ativas e continuam a empenhar-se na construção deste país. Desejo também dialogar com todos os jovens que lutam por realizar as suas grandes e nobres aspirações, que não se deixam extraviar por propostas superficiais e que enfrentam situações difíceis, tantas vezes resultantes da imaturidade de muitos adultos. Quereria dialogar com todos vós, e desejo fazê-lo através da memória histórica do vosso povo.

A minha visita tem lugar num momento em que homens e mulheres de boa vontade estão a celebrar o aniversário de alguns americanos famosos. Apesar da complexidade da história e da realidade da fraqueza humana, estes homens e mulheres foram capazes, com todas as suas diferenças e limitações, de construir um futuro melhor com trabalho duro e sacrifício pessoal – alguns à custa da própria vida. Deram forma a valores fundamentais, que permanecerão para sempre no espírito do povo americano. Um povo com este espírito pode atravessar muitas crises, tensões e conflitos, já que sempre conseguirá encontrar a força para ir avante e fazê-lo com dignidade. Estes homens e mulheres dão-nos uma possibilidade de ver e interpretar a realidade. Ao honrar a sua memória, somos estimulados, mesmo no meio de conflitos, na vida concreta de cada dia, a haurir das nossas mais profundas reservas culturais.

Quereria mencionar quatro destes americanos: Abraham Lincoln, Martin Luther King, Dorothy Day e Thomas Merton.

Este ano completam-se cento e cinquenta anos do assassinato do Presidente Abraham Lincoln, o guardião da liberdade, que trabalhou incansavelmente para que «esta nação, com a proteção de Deus, pudesse ter um renascimento de liberdade». Construir um futuro de liberdade requer amor pelo bem comum e colaboração num espírito de subsidiariedade e solidariedade.

Todos estamos plenamente cientes e também profundamente preocupados com a situação social e política inquietante do mundo atual. O nosso mundo torna-se cada vez mais um lugar de conflitos violentos, ódios e atrocidade brutais, cometidos até mesmo em nome de Deus e da religião. Sabemos que nenhuma religião está imune de formas de engano individual ou de extremismo ideológico. Isto significa que devemos prestar especial atenção a qualquer forma de fundamentalismo, tanto religioso como de qualquer outro gênero. É necessário um delicado equilíbrio para se combater a violência perpetrada em nome duma religião, duma ideologia ou dum sistema econômico, enquanto, ao mesmo tempo, se salvaguarda a liberdade religiosa, a liberdade intelectual e as liberdades individuais. Mas há outra tentação de que devemos acautelar-nos: o reducionismo simplista que só vê bem ou mal, ou, se quiserdes, justos e pecadores. O mundo contemporâneo, com as suas feridas abertas que tocam muitos dos nossos irmãos e irmãs, exige que enfrentemos toda a forma de polarização que o possa dividir entre estes dois campos. Sabemos que, na ânsia de nos libertar do inimigo externo, podemos ser tentados a alimentar o inimigo interno. Imitar o ódio e a violência dos tiranos e dos assassinos é o modo melhor para ocupar o seu lugar. Isto é algo que vós, como povo, rejeitais.

Pelo contrário, a nossa resposta deve ser uma resposta de esperança e cura, de paz e justiça. É-nos pedido para fazermos apelo à coragem e à inteligência, a fim de se resolverem as muitas crises econômicas e geopolíticas de hoje. Até mesmo num mundo desenvolvido aparecem demasiado evidentes os efeitos de estruturas e ações injustas. Os nossos esforços devem concentrar-se em restaurar a paz, remediar os erros, manter os compromissos, e assim promover o bem-estar dos indivíduos e dos povos. Devemos avançar juntos, como um só, num renovado espírito de fraternidade e solidariedade, colaborando generosamente para o bem comum.

Os desafios, que hoje enfrentamos, requerem uma renovação deste espírito de colaboração, que produziu tantas coisas boas na história dos Estados Unidos. A complexidade, a gravidade e a urgência destes desafios exigem que ponhamos a render os nossos recursos e talentos e nos decidamos a apoiar-nos mutuamente, respeitando as diferenças e convicções de consciência.

Nesta terra, as várias denominações religiosas deram uma grande ajuda na construção e fortalecimento da sociedade. É importante que hoje, como no passado, a voz da fé continue a ser ouvida, porque é uma voz de fraternidade e de amor que procura fazer surgir o melhor em cada pessoa e em cada sociedade. Esta cooperação é um poderoso recurso na luta por eliminar as novas formas globais de escravidão, nascidas de graves injustiças que só podem ser superadas com novas políticas e novas formas de consenso social.

Penso aqui na história política dos Estados Unidos, onde a democracia está profundamente radicada no espírito do povo americano. Qualquer atividade política deve servir e promover o bem da pessoa humana e estar baseada no respeito pela dignidade de cada um. «Consideramos evidentes, por si mesmas, estas verdades: que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que, entre estes, estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade» (Declaração de Independência, 4 de julho de 1776). Se a política deve estar verdadeiramente ao serviço da pessoa humana, segue-se que não pode estar submetida à economia e às finanças. É que a política é expressão da nossa insuprível necessidade de vivermos juntos em unidade, para podermos construir unidos o bem comum maior: uma comunidade que sacrifique os interesses particulares para poder partilhar, na justiça e na paz, os seus benefícios, os seus interesses, a sua vida social. Não subestimo as dificuldades que isto implica, mas encorajo-vos neste esforço.

Penso também na marcha que Martin Luther King guiou de Selma a Montgomery, há cinquenta anos, como parte da campanha para conseguir o seu «sonho» de plenos direitos civis e políticos para os afro-americanos. Aquele sonho continua a inspirar-nos. Alegro-me por a América continuar a ser, para muitos, uma terra de «sonhos»: sonhos que levam à ação, à participação, ao compromisso; sonhos que despertam o que há de mais profundo e verdadeiro na vida das pessoas. Nos últimos séculos, milhões de pessoas chegaram a esta terra perseguindo o sonho de construírem um futuro em liberdade. Nós, pessoas deste continente, não temos medo dos estrangeiros, porque outrora muitos de nós éramos estrangeiros. Digo-vos isto como filho de imigrantes, sabendo que também muitos de vós sois descendentes de imigrantes. Tragicamente, os direitos daqueles que estavam aqui, muito antes de nós, nem sempre foram respeitados. Por aqueles povos e as suas nações, desejo, a partir do coração da democracia americana, reafirmar a minha mais alta estima e consideração. Aqueles primeiros contatos foram muitas vezes tumultuosos e violentos, mas é difícil julgar o passado com os critérios do presente. Todavia, quando o estrangeiro no nosso meio nos interpela, não devemos repetir os pecados e os erros do passado. Devemos decidir viver agora o mais nobre e justamente possível e, de igual modo, formar as novas gerações para não virarem as costas ao seu «próximo» e a tudo aquilo que nos rodeia. Construir uma nação pede-nos para reconhecer que devemos constantemente relacionar-nos com os outros, rejeitando uma mentalidade de hostilidade para se adoptar uma subsidiariedade recíproca, num esforço constante de contribuir com o melhor de nós. Tenho confiança que o conseguiremos.


O nosso mundo enfrenta uma crise de refugiados de tais proporções que não se via desde os tempos da II Guerra Mundial. Esta realidade coloca-nos diante de grandes desafios e decisões difíceis. Também neste continente, milhares de pessoas sentem-se impelidas a viajar para o Norte à procura de melhores oportunidades. Porventura não é o que queríamos para os nossos filhos? Não devemos deixar-nos assustar pelo seu número, mas antes olhá-los como pessoas, fixando os seus rostos e ouvindo as suas histórias, procurando responder o melhor que pudermos às suas situações. Uma resposta que seja sempre humana, justa e fraterna. Devemos evitar uma tentação hoje comum: descartar quem quer que se demonstre problemático. Lembremo-nos da regra de ouro: «O que quiserdes que vos façam os homens, fazei-o também a eles» (Mt 7, 12).

Esta norma aponta-nos uma direção clara. Tratemos os outros com a mesma paixão e compaixão com que desejamos ser tratados. Procuremos para os outros as mesmas possibilidades que buscamos para nós mesmos. Ajudemos os outros a crescer, como quereríamos ser ajudados nós mesmos. Em suma, se queremos segurança, demos segurança; se queremos vida, demos vida; se queremos oportunidades, providenciemos oportunidades. A medida que usarmos para os outros será a medida que o tempo usará para connosco. A regra de ouro põe-nos diante também da nossa responsabilidade de proteger e defender a vida humana em todas as fases do seu desenvolvimento.

Esta convicção levou-me, desde o início do meu ministério, a sustentar a vários níveis a abolição global da pena de morte. Estou convencido de que esta seja a melhor via, já que cada vida é sagrada, cada pessoa humana está dotada duma dignidade inalienável, e a sociedade só pode beneficiar da reabilitação daqueles que são condenados por crimes.

Recentemente, os meus irmãos bispos aqui nos Estados Unidos renovaram o seu apelo pela abolição da pena de morte. Não só os apoio, mas encorajo também todos aqueles que estão convencidos de que uma punição justa e necessária nunca deve excluir a dimensão da esperança e o objetivo da reabilitação.

Nestes tempos em que as preocupações sociais são tão importantes, não posso deixar de mencionar a Serva de Deus Dorothy Day, que fundou o Catholic Worker Movement. O seu compromisso social, a sua paixão pela justiça e pela causa dos oprimidos estavam inspirados pelo Evangelho, pela sua fé e o exemplo dos Santos.

Quanto estrada percorrida neste campo em tantas partes do mundo! Quanto se fez nestes primeiros anos do terceiro milênio para fazer sair as pessoas da pobreza extrema! Sei que partilhais a minha convicção de que se tem de fazer ainda muito mais e de que, em tempos de crise e dificuldade econômica, não se deve perder o espírito de solidariedade global. Ao mesmo tempo, desejo encorajar-vos a não esquecer todas as pessoas à nossa volta encastradas nas espirais da pobreza. Há necessidade de dar esperança também a elas. A luta contra a pobreza e a fome deve ser travada com constância nas suas múltiplas frentes, especialmente nas suas causas. Sei que hoje, como no passado, muitos americanos estão a trabalhar para enfrentar este problema.

Naturalmente uma grande parte deste esforço situa-se na criação e distribuição de riqueza. A utilização correta dos recursos naturais, a aplicação apropriada da tecnologia e a capacidade de orientar devidamente o espírito empresarial são elementos essenciais duma economia que procura ser moderna, inclusiva e sustentável. «A atividade empresarial, que é uma nobre vocação orientada para produzir riqueza e melhorar o mundo para todos, pode ser uma maneira muito fecunda de promover a região onde instala os seus empreendimentos, sobretudo se pensa que a criação de postos de trabalho é parte imprescindível do seu serviço ao bem comum» (Enc. Laudato si’, 129). Este bem comum inclui também a terra, tema central da Encíclica que escrevi, recentemente, para «entrar em diálogo com todos acerca da nossa casa comum» (ibid., 3). «Precisamos de um debate que nos una a todos, porque o desafio ambiental, que vivemos, e as suas raízes humanas dizem respeito e têm impacto sobre todos nós» (ibid., 14).

Na encíclica Laudato si’, exorto a um esforço corajoso e responsável para «mudar de rumo» (ibid., 61) e evitar os efeitos mais sérios da degradação ambiental causada pela atividade humana. Estou convencido de que podemos fazer a diferença e não tenho dúvida alguma de que os Estados Unidos – e este Congresso – têm um papel importante a desempenhar. Agora é o momento de empreender ações corajosas e estratégias tendentes a implementar uma «cultura do cuidado» (ibid., 231) e «uma abordagem integral para combater a pobreza, devolver a dignidade aos excluídos e, simultaneamente, cuidar da natureza» (ibid., 139). Temos a liberdade necessária para limitar e orientar a tecnologia (cf. ibid., 112), para individuar modos inteligentes de «orientar, cultivar e limitar o nosso poder» (ibid., 78) e colocar a tecnologia «ao serviço doutro tipo de progresso, mais saudável, mais humano, mais social, mais integral» (ibid., 112). A este respeito, confio que as instituições americanas de investigação e acadêmicas poderão dar um contributo vital nos próximos anos.

Um século atrás, no início da I Grande Guerra que o Papa Bento XV definiu «massacre inútil», nascia outro americano extraordinário: o monge cisterciense Thomas Merton. Ele continua a ser uma fonte de inspiração espiritual e um guia para muitas pessoas. Na sua autobiografia, deixou escrito: «Vim ao mundo livre por natureza, imagem de Deus; mas eu era prisioneiro da minha própria violência e do meu egoísmo, à imagem do mundo onde nascera. Aquele mundo era o retrato do Inferno, cheio de homens como eu, que amam a Deus e contudo odeiam-No; nascidos para O amar, mas vivem no medo de desejos desesperados e contraditórios». Merton era, acima de tudo, homem de oração, um pensador que desafiou as certezas do seu tempo e abriu novos horizontes para as almas e para a Igreja. Foi também homem de diálogo, um promotor de paz entre povos e religiões.

Nesta perspectiva de diálogo, gostaria de saudar os esforços que se fizeram nos últimos meses para procurar superar as diferenças históricas ligadas a episódios dolorosos do passado. É meu dever construir pontes e ajudar, por todos os modos possíveis, cada homem e cada mulher a fazerem o mesmo. Quando nações que estiveram em desavença retomam o caminho do diálogo – um diálogo que poderá ter sido interrompido pelas mais válidas razões –, abrem-se novas oportunidades para todos. Isto exigiu, e exige, coragem e audácia, o que não significa irresponsabilidade. Um bom líder político é aquele que, tendo em conta os interesses de todos, lê o momento presente com espírito de abertura e sentido prático. Um bom líder político não cessa de optar mais por «iniciar processos do que possuir espaços» (Exort. ap. Evangelii gaudium, 222-223).

Estar ao serviço do diálogo e da paz significa também estar verdadeiramente determinado a reduzir e, a longo prazo, pôr termo a tantos conflitos armados em todo o mundo. Aqui devemos interrogar-nos: Por que motivo se vendem armas letais àqueles que têm em mente infligir sofrimentos inexprimíveis a indivíduos e sociedade? Infelizmente a resposta, como todos sabemos, é apenas esta: por dinheiro; dinheiro que está impregnado de sangue, e muitas vezes sangue inocente. Perante este silêncio vergonhoso e culpável, é nosso dever enfrentar o problema e deter o comércio de armas.

Três filhos e uma filha desta terra, quatro indivíduos e quatro sonhos: Lincoln, a liberdade; Martin Luther King, a liberdade na pluralidade e não-exclusão; Dorothy Day, a justiça social e os direitos das pessoas; e Thomas Merton, capacidade de diálogo e abertura a Deus.

Quatro representantes do povo americano.

Concluirei a minha visita ao vosso país em Filadélfia, onde participarei no Encontro Mundial das Famílias. É meu desejo que, durante toda a minha visita, a família seja um tema recorrente. Como foi essencial a família na construção deste país! E como merece ainda o nosso apoio e encorajamento! E todavia não posso esconder a minha preocupação pela família, que está ameaçada, talvez como nunca antes, de dentro e de fora. As relações fundamentais foram postas em discussão, bem como o próprio fundamento do matrimônio e da família. Posso apenas repropor a importância e sobretudo a riqueza e a beleza da vida familiar.

Em particular quereria chamar a atenção para os membros da família que são os mais vulneráveis: os jovens. Para muitos deles anuncia-se um futuro cheio de tantas possibilidades, mas muitos outros parecem desorientados e sem uma meta, encastrados num labirinto sem esperança, marcado por violências, abusos e desespero. Os seus problemas são os nossos problemas. Não podemos evitá-los. É necessário enfrentá-los juntos, falar deles e procurar soluções eficazes em vez de ficar empantanados nas discussões. Correndo o risco de simplificar, poderemos dizer que vivemos numa cultura que impele os jovens a não formarem uma família, porque lhes faltam possibilidades para o futuro. Mas esta mesma cultura apresenta a outros tantas opções que também eles são dissuadidos de formar uma família.

Uma nação pode ser considerada grande, quando defende a liberdade, como fez Lincoln; quando promove uma cultura que permita às pessoas «sonhar» com plenos direitos para todos os seus irmãos e irmãs, como procurou fazer Martin Luther King; quando luta pela justiça e pela causa dos oprimidos, como fez Dorothy Day com o seu trabalho incansável, fruto duma fé que se torna diálogo e semeia paz no estilo contemplativo de Thomas Merton.

Nestas notas, procurei apresentar algumas das riquezas do vosso patrimônio cultural, do espírito do povo americano. Faço votos de que este espírito continue a desenvolver-se e a crescer de tal modo que o maior número possível de jovens possa herdar e habitar numa terra que inspirou tantas pessoas a sonhar.

Deus abençoe a América!