PESQUISAR TEMAS E ARQUIVOS DO BLOG

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Transfiguração do Senhor


Hoje a Igreja celebra a Transfiguração do Senhor. Acompanhe o Evangelho de hoje, e a reflexão do Pe. João Batista Libânio, sj.

Evangelho - Mc 9,2-10

Naquele tempo:
Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João,
e os levou sozinhos a um lugar à parte
sobre uma alta montanha.
E transfigurou-se diante deles.
Suas roupas ficaram brilhantes e tão brancas
como nenhuma lavadeira sobre a terra poderia alvejar.
Apareceram-lhe Elias e Moisés,
e estavam conversando com Jesus.
Então Pedro tomou a palavra e disse a Jesus:
'Mestre, é bom ficarmos aqui.
Vamos fazer três tendas:
uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias.'
Pedro não sabia o que dizer,
pois estavam todos com muito medo.
Então desceu uma nuvem e os encobriu com sua sombra.
E da nuvem saiu uma voz:
'Este é o meu Filho amado. Escutai o que ele diz!'
E, de repente, olhando em volta,
não viram mais ninguém, 
a não ser somente Jesus com eles.
Ao descerem da montanha,
Jesus ordenou que não contassem a ninguém
o que tinham visto,
até que o Filho do Homem 
tivesse ressuscitado dos mortos.
Eles observaram esta ordem, mas comentavam entre si
o que queria dizer 'ressuscitar dos mortos'.

Palavra da Salvação.

Antecipando a Ressurreição - Pe. João Batista Libânio, sj

O Evangelho de hoje é altamente intrigante, altamente pedagógico e altamente atual.

Altamente intrigante, porque o grande problema dos cristãos do começo era a identidade, a pessoa do Jesus histórico. Daquele Jesus de Nazaré que eles conheceram exatamente como qualquer um de nós. O seu exterior não tinha nada de diferente. Era exatamente como qualquer adulto daquela idade, como qualquer judeu. Estavam acostumados com esse Jesus. Depois farão a experiência de um Jesus muito diferente, para não dizer totalmente diferente. Daí a dúvida: é um ou são dois? É o mesmo, ou outro? Esse foi o grande problema que rolou na cabeça dos apóstolos. Se lermos os Evangelhos com muito cuidado, perceberemos essa confusão. Só para dar um exemplo, observemos a questão, depois que Cristo aparece ressuscitado. Eles olham e pensam que é um fantasma. Madalena pensa que é um jardineiro. Outros olham e não sabem quem é. Conversam horas, passeando, e não o reconhecem. O ressuscitado deveria ser muito diferente. Como podem não reconhecer uma pessoa que esteve com eles poucos dias antes? É sinal de que esta pessoa está totalmente diferente.

Diante desse problema, os evangelistas – eram muito inteligentes – tomaram uma realidade da ressurreição e a colocaram na vida pública. Tomaram-na da vida pública e a colocaram na ressurreição. Isso para mostrar que era o mesmo. Essa cena não é histórica. É uma cena  pedagógica. Não é histórica porque Cristo nunca teve corpo glorioso antes da morte. O evangelista escolhe aqueles três apóstolos que vão ver Jesus lá no Horto das Oliveiras. João também vai vê-lo na cruz. Portanto, os três que vão estar mais próximos da situação mais humana, humilhante, terrestre de Jesus. Esses três são colocados fazendo uma experiência do Cristo ressuscitado, para dizer que é o mesmo. O mesmo da transfiguração é o mesmo do Calvário. A ressurreição é transportada para a vida pública. Quando Ele aparece, mostra as chagas. Claro que Cristo não tinha chagas! Como um corpo glorioso vai ter chagas?! O evangelista coloca as chagas para dizer que o mesmo da cruz é que ressuscitou. Por isso é um Evangelho intrigante.
Mas, o mais espetacular neste Evangelho é a pedagogia de Jesus. Claro que Ele teve alguma experiência especial, mas não é isso que importa. Na nossa vida – guardem isso – precisamos fazer algumas experiências de muita alegria, de muita felicidade, de muita paz, de muita lucidez. Algumas apenas. Para que nas horas escuras da vida, tenhamos alguma coisa na memória. Sem memória não vivemos. Quando Pedro, Tiago e João viram um Jesus caído, ensanguentado, tinham na memória que Ele fora glorioso, forte, triunfante. Não desanimaram. É disso que precisamos, pois, do contrário, desanimamos. 

A vida humana não é esse sonho dourado das novelas, dos happy end, das propagandas da felicidade, das coca-colas, dos automóveis bonitos. Isso é um engodo da televisão, que nos engana de manhã à noite e da noite até a manhã, dizendo que transpiramos felicidade. É mentira! Existe a noite, existe a dor, existe sofrimento. A vida é cheia de lágrima. Os namorinhos de vocês, com dois meses, já trazem tantas lágrimas, tentativas de suicídio. Basta o namorado virar as costas, já querem se matar.

A vida humana é assim. Se não tivermos dentro de nós alguma experiência forte de alegria, de felicidade, como vamos aguentar? Assim como os casais que comemoram 20, 30 anos de casamento.  Por que se mantém unidos? Será que todos os dias foram coloridos? Não. Houve muita briga, muita rusga, muito pandemônio em casa. Mas, quantos momentos bonitos, quando, sentados, conversaram, mostraram o seu amor. É isso que segura. Quando os esposos estão quase se separando, se tiverem na memória momentos lindos de amor, talvez consigam vencer a prova, a tentação. As crises sempre vêm e, às vezes, depois de apenas um mês de casados; outras, depois de um ano, depois de dez, depois de vinte. Estamos vendo casais, depois de sessenta anos, se divorciando. Velhos de setenta anos andando atrás de menininhas por aí afora. Tudo isso está acontecendo neste mundo, porque estão faltando experiências de amor. Se não têm o que recordar, vão catando qualquer brotinho nas esquinas da vida, fazendo a sua infelicidade e a daquela jovem. Porque faltou o bem, a memória, a beleza. 

É isso que o Evangelho nos mostra. Pedro, Tiago e João, vivendo uma experiência tão forte do Cristo bonito, transparente que, quando vêem o rosto de Jesus todo cuspido, crucificado e coroado de espinhos, lembram-se do outro rosto que viram, que é o rosto da beleza. Precisamos conservar o rosto da beleza, da glória, das nossas experiências passadas, para nos sustentar nas horas vazias. E serão muitas, pois o mundo moderno ainda nos prepara mais noites vazias. Noites de insônia, quando tentaremos nos refugiar nas drogas, no álcool, nas pílulas que não resolvem. Passa o efeito e volta o vazio. De vazio em vazio, esbarraremos num vácuo gigantesco, se não tivermos feito essas experiências.

Jovens, façam experiências de amor, experiências de fé, experiências profundas, não superficiais, porque vocês resistirão e serão felizes até o fim da vida, apesar de qualquer tristeza. Amém. 

Pe. João Batista Libânio, sj