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quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Somos os únicos responsáveis pelo êxito de nossa vocação!


Gostaria de começar esta reflexão a partir da aceitação de algumas premissas necessárias e importantes, no processo de discernimento vocacional. 

A primeira delas é de que Deus não muda. Lembremos do famoso texto de Santa Teresa escrito num momento de crise profunda. Ela o conservou em seu breviário até o fim da vida. O início é assim: “Nada te perturbe, nada te espante. Tudo passa. Só Deus não muda”. A carta aos hebreus afirma também que Cristo não muda: “Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e sempre” (13,8).

A segunda premissa que gostaria de chamar atenção é de que tudo muda neste mundo, já diziam os romanos: “os tempos, as coisas mudam e nós mudamos com eles”. Os filósofos falavam da mudança constante, nós mesmos, frequentemente falamos que a cada dia não somos os mesmos, enfim, estamos num mundo que muda.

Fiz estas duas afirmações contraditórias, mas interligadas, para começar minha reflexão acerca da vocação a santidade, o caminho a ser percorrido pelo coração para chegar ao “lugar” onde todos nós queremos um dia estar. 

Deus nos fez para ele, e inquieto está o nosso coração enquanto nele não repousar, dizia Santo Agostinho. Esta inquietude presente na vida de Agostinho e de tantos outros santos é o chamado a santidade. E a plenitude da santidade é o repouso em Deus. Tantos a sentiram antes de nós: Abraão, Isaías, Francisco, Clara, Luciano Mendes de Almeida, Teresa de Calcutá, Dulce dos pobres, enfim, homens e mulheres que viveram esta busca. 

Interessante ressaltar aqui, que, o desejo de santidade não depende do tempo e do espaço. A santidade não está ligada ao mundo rural, urbano, industrial, moderno ou pós-moderno. Ou seja, quando buscamos responder à vocação à qual somos chamados, não estamos dando respostas ao mundo que nos cerca, mas às inquietações que nascem dentro de nós mesmos. Por isso, ninguém fora de mim, pode solucionar e dar respostas à inquietude que eu sinto, o desejo de “repousar no útero” de onde eu vim. 

Estamos, portanto, diante de uma questão pessoal, intransferível, não delegável. Não depende de quem são meus pais, em que colégio estudei, onde moro, qual a data do meu nascimento, que profissão exerço. Não depende portanto, de nada que é mutável (segunda premissa), a minha necessidade de responder e repousar naquele é imutável (primeira premissa). “Ajudado, por vezes constrangido por aqueles que o educam e rodeiam, cada um, sejam quais forem as influencias que sobre ele se exerçam, permanece o artífice principal do seu êxito ou do seu fracasso” (Paulo VI na Populorum Progressio).

No pós-Concílio se falou muito em caminhada, termo, aliás, criado pela igreja no Brasil e que não consegue tradução nas outras línguas latinas. Mas corremos (nos tempos passado e presente) o perigo de longa caminhada para fora, à procura de um Deus invisível, e até citamos com ênfase os versos do poeta Antônio Machado: “Caminhante, não há caminho, faz-se caminho ao caminhar”. E chega o momento (talvez seja este) em que nos damos conta decepcionados, que atrás de nós "sobram apenas sulcos no mar". Isto porque o caminhar para fora, leva a lugar nenhum, lugar nenhum que até tem nome: utopia; se antes eu não fizer a caminhada para dentro do meu eu, lugar seguro do Espírito Santo.

Posso citar dezenas de desafios. Posso somar os desafios enfrentados por Abraão, os desafios encontrados por Isaías, os desafios que envolveram João Batista, Francisco de Assis, Frei Galvão, irmã Dulce. Todos eles somados se resumem num só e que é, na verdade, meu único desafio: Deus.

Colocar-me dentro de Deus e fazer com ele uma coisa só, um programa só, uma vontade só, um destino só. Nenhum santo fará isto por mim. Nenhum mestre fará isto por mim. A lugar nenhum me levará o Espírito Santo, se eu não fizer uma unidade com Deus como o rio faz com seu leito. É preciso que eu assuma este gesto decisivo, intransferível, de unidade com Deus, onde ora é Deus que corre em mim, que sou seu leito, ora sou eu que corro no leito que é Deus e juntos somos levados pelo Espírito Santo ao grande mar da santidade, ao eterno útero da bem aventurança.

Que possamos com a vida, responder ao grande chamado que o eterno Deus, constantemente nos faz.

Frei Alvaci Mendes da Luz, OFM

Se você deseja saber mais sobre a vida religiosa franciscana, confira este vídeo: