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segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Sem fé não sei para onde ir!



Na primeira reflexão que fizemos aqui nesta série especial sobre vocação, fizemos uma afirmação ousada: assim como o batismo é a única porta de entrada para a vida cristã, a convicção teórica e prática de que eu sou o único responsável pelo êxito ou fracasso de minha vocação, responsabilidade pessoal e intransferível, é a única porta de entrada para uma vida sadia e feliz. Sem esta consciência de minha responsabilidade intransferível, frustra-se qualquer tipo de carisma e qualquer rumo a que o Espírito queira nos levar.

O campo de pouso e de partida do Espírito Santo está dentro de mim. Fora de mim estão os vastos horizontes do mundo moderno, cada vez mais necessitado de sentido e alicerces. É certo que os horizontes de hoje são diferentes daqueles dos tempos de Abraão, de Pedro, Tiago e João, dos tempos de Francisco e Clara de Assis, ou diferentes ainda dos tempos de Madre Teresa de Calcutá, de irmã Dulce dos pobres e tantos outros. 
Os tempos são diferentes, os desafios são outros, mas o Espírito que nos move é sempre o mesmo, não está ligado a horizontes, nem a mudanças de tempo e de espaço. Meu ser humano não difere em nada do ser humano de todos estes citados acima, ou seja, sou composto de corpo e alma, inteligência e vontade, sentimentos e circunstâncias. Francisco de Assis, por exemplo, reuniu milhares de contemporâneos e converteu outros milhares ao Evangelho. Eu tenho a mesma missão.

Contudo, faz-se necessário nos perguntarmos de onde vem a energia, força e vitalidade, que moveram estas pessoas. Mais ainda, será que sozinhos eles conseguiriam ter realizado tão grandes coisas? Não existe será uma condição anterior, cuja fraqueza ou ausência diminui e até anula todas as iniciativas de se viver bem a nossa vocação? 

Façamos uma comparação: escavo uma piscina, construo as bases, alicerces, azulejos. Mas que faço com uma piscina sem água? É da água que eu quero falar. Que água é essa? Construo um avião belíssimo, capaz de levantar voo e me levar para longe. Mas para onde me levará se não tenho combustível? É do combustível que eu quero falar. Que combustível é esse? Ouso dizer: se eu não tenho esse combustível, o Espírito Santo não me levará a lugar nenhum. Se eu não tenho a fonte de água, minha linda piscina azul continuará vazia.

Chama-nos muito a atenção nos Evangelhos, algumas expressões em que Jesus questiona os seus, dá aquele leve “puxão de orelha” e os interroga: Onde está a vossa fé? (Lc 8, 25). Pedro, cadê a tua fé, porque duvidaste? (Mt 14, 31) Gente de pouca fé (Mt 6, 20), enfim, inúmeras vezes o mestre pergunta a respeito do combustível da alma. 

Nossa fé é o combustível do Espírito Santo. Aqui quero falar de uma fé viva, que dá sentido, que pede força, renúncia diária, que não tem definição nem é limitada por dogmas. Ela é mais forte do que a esterilidade de Isabel e a velhice de Zacarias: ela pode gerar um João Batista. Ela é mais forte do que a morte sepultada em túmulo de pedra, porque tem o poder de ressuscitar quem a possui. Ela é capaz, afirma Jesus, de enraizar e fazer florir uma amoreira nas ondas do mar. Ela é capaz de fazer de um jovem que procurava o máximo de glória mundana e de vaidade um Francisco de Assis. Ela é capaz de reunir milhares de vocacionados aos pés do crucificado.

Alguém poderia ler estas linhas e dizer: tudo isso é muito bonito, mas quem é capaz de ter uma fé como essas? Uma fé assim só pode ser obra de Deus. É exatamente sobre isso que gostaria que refletíssemos. É obra de Deus, porque Deus encontrou fé em Zacarias, encontrou fé em Isabel, em Francisco e Clara de Assis. E qual o tamanho da nossa fé? Os seminários estão vazios? Vazia e em ruínas estava a pequena capela de São Damião. Vazia e abandonada estava a pequena igrejinha de Nossa Senhora dos Anjos. Encheu-se de consagrados São Damião. Encheu-se de consagrados Santa Maria dos Anjos. Obra de Deus. Sim, obra de Deus, que não teria acontecido sem a fé firme, crescente e até enlouquecida de Francisco de Assis.

Foi o Espírito Santo de Deus que guiou estes homens e mulheres através da história, que construiu neles e com eles bases sólidas. Contudo, este mesmo Espírito teria permanecido pairando sobre Assis se não tivesse encontrado na fé dinâmica de Francisco, na fé decidida de Clara, o combustível para descer no coração de seus contemporâneos e revitalizar a fé que adormecia dentro deles. Como posso falar do evangelho de Jesus, de minha religião e vocação, se tenho fé menor do que um grão de mostarda?

Talvez esteja justamente aí o segredo de uma pastoral vocacional que dê certo. Responder a estas perguntas fundamentais em relação à fé que nos move deve ser uma exigência de alguém que busca ser testemunho vocacional. Por fim, perguntaria: os jovens de hoje, encontram nos consagrados a fé sem condições de Abraão? A fé encantadora de Maria aos pés da cruz, quando as promessas do anjo se iam como as águas de um rio? A fé íntegra, sem recuos, sem interpretações de um Francisco de Assis? 

Sem fé, não tenham dúvidas disso, não sabemos para onde ir.

Frei Alvaci Mendes da Luz, OFM