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sábado, 22 de agosto de 2015

O desafio da vocação laical


O desafio da vocação laical - Dom Pedro José Conti

Ao longo do mês de agosto somos convidados a refletir sobre as diferentes vocações. Temos o domingo do padre, dos pais, dos religiosos e religiosas, dos leigos e catequistas. A vocação laical por ser a vocação mais comum, ou seja, da maioria absoluta dos batizados e batizadas, não é entendida como tal. No máximo, nos chamados Encontros Vocacionais, é apresentada como vocação ao matrimônio. Vocação laical não é só formar uma família, diz a respeito à própria profissão e trabalho, a responsabilidade de colaborar na construção de uma sociedade mais humana e fraterna, a missão de anunciar e fazer crescer o Reino de Deus dentro da história sem se confundir com o mundo, mas também sem negá-lo ou condená-lo de antemão. Também se olhamos dentro da Igreja, cada vez mais os leigos e as leigas assumem atividades e tarefas nas nossas comunidades, felizes de poder colaborar com a grande obra da evangelização, obra que, fique bem claro, é responsabilidade de todo o Povo de Deus e não somente reservada aos pastores. Está na hora de explicar mais e melhor porque o ser leigo e leiga é uma verdadeira vocação, uma forma consciente de viver o próprio batismo, um caminho específico de santificação dentro da “vocação universal à santidade” como ensinou, cinquenta anos atrás, o Concílio Vaticano II (cf. LG cap. 5).

Peço desculpa por simplificar muito as questões, mas, espero que isso ajude a entender. Usarei o esquema do tempo e das virtudes teologais. A hierarquia tem a missão de conservar a Fé, transmitida de geração em geração, com fidelidade e ao mesmo tempo, com o desafio de atualizá-la não tanto na doutrina em si, quanto na linguagem e nas expressões. Assim a fé pode ser entendida e abraçada como uma “boa notícia” sempre capaz de iluminar a vida das pessoas que acolhem este dom com consciência, liberdade e compromisso. De maneira especial aos padres é confiada a celebração da Eucaristia, para que, com a sua “memória”, o evento da salvação de Jesus se torne contemporâneo em todos os tempos “até que ele venha” (cf. 1Cor 11,26). Esta memória é decisiva; sem ela perderíamos a nossa identidade de cristãos e acabaríamos confundidos com outras formas religiosas e crenças que cada vez mais pretendem usar o nome de Jesus.

Os religiosos e as religiosas, com todas as suas variadas formas de vida e carismas, têm um comum os três votos: de pobreza, castidade e obediência. Com isso, eles e elas formam comunidades-famílias (cf. Mt 12,49-50) que mantém viva no meio do Povo de Deus a certeza da meta final onde terão valor somente os tesouros acumulados no céu (cf. Mt 6,20). Rumo a esta meta todos os batizados devem caminhar “pressurosos, peregrinando na penumbra da fé” animados pela Esperança que não engana (cf. Prefácio da Solenidade de Todos os Santos). Também a clareza sobre a meta da nossa existência humana é decisiva para a nossa vida de cristãos. Quem não sabe para onde vai, nunca encontra o caminho e, sobretudo, evita a tentação de parar, de achar que já chegou, conformando-se assim às coisas passageiras, às modas daquele momento, aos ídolos que sempre atraem com suas falsas promessas.

Sobra para os leigos, me perdoem dizer assim, o tempo presente e a virtude teologal da Caridade. Isto não porque padres, religiosos e religiosas não vivam também encarnados na realidade do momento ou, menos ainda, porque não sejam chamados a praticar a caridade. Não quero dizer isso, seria um gravíssimo mal entendido. No entanto, é próprio da vocação laical atuar dentro dos acontecimentos, circunstâncias e situações que a vida ordinária lhes apresenta e oferece, no dia a dia, buscando ali a própria santificação e a construção do Reino de Deus. A vocação laical não é uma vocação inferior ou de sobra, porque estes irmãos e irmãs não foram nem padres e nem religiosos ou religiosas, mas é a resposta responsável e consciente de quem se sente chamado e apto a colocar as mãos na massa do mundo, agindo como o fermento, como sal e luz da terra.

Todo batizado e batizada deveria ter esta consciência e abraçar este desafio com a paciência de quem semeia e planta, na maioria das vezes, sem ver os frutos do seu esforço. O Reino é semelhante ao grão de mostarda...O importante, para os leigos e leigas, porém, não é somente não desistir nunca, mas, muito mais, aprender a reconhecer os sinais e as sementes do Reino presentes na história humana, dons da liberdade do Divino Espírito Santo. Os leigos e as leigas que estão no mundo experimentam todos os dias a tristeza da miséria humana, do egoísmo, da desonestidade, da violência, mas também reconhecem, agradecidos, que não têm o monopólio da bondade, da generosidade e do sacrifício. Por isso aceitam dialogar com todas as pessoas de boa vontade religiosas ou não, além das cores políticas e das ideologias. O olhar da verdadeira vocação laical é ao mesmo tempo realista, porque não esconde os problemas e as contradições da sociedade, mas também está cheio de fé e esperança porque tem a certeza que o amor de Jesus já venceu o pecado e a morte. Um pouco, ou muito, amor colocado na hora certa e no momento certo muda os corações, valoriza o bem, desmascara a superficialidade, a mentira e a indiferença. Muda a história.

Existe situação ou ambiente onde não esteja precisando de tudo isso? O leigo e a leiga já estão lá, sem propaganda e sem alarde, simplesmente “presentes”. Pode parecer pouco, mas, em certos lugares, é tudo o que é possível fazer naquele momento. É o discípulo-missionário de Jesus cumprindo a sua vocação. É o Reino acontecendo. Sem medo de avançar para águas mais profundas (cf. Lc 5,4).

Feliz dia do leigo para todos aqueles que colaboram nesta missão tão importante!

Fonte: CNBB