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sexta-feira, 7 de agosto de 2015

19º domingo do Tempo Comum



19º domingo do Tempo Comum

1ª Leitura - 1Rs 19,4-8
Salmo - Sl 33,2-3.4-5.6-7.8-9 (R. 9a)
2ª Leitura - Ef 4,30-5,2
Evangelho - Jo 6,4

Naquele tempo:
Os judeus começaram a murmurar
a respeito de Jesus, porque havia dito:
'Eu sou o pão que desceu do céu'.
Eles comentavam:
'Não é este Jesus, o filho de José?
Não conhecemos seu pai e sua mãe?
Como então pode dizer que desceu do céu?'
Jesus respondeu: 
'Não murmureis entre vós.
Ninguém pode vir a mim,
se o Pai que me enviou não o atrai.
E eu o ressuscitarei no último dia.
Está escrito nos Profetas:
`Todos serão discípulos de Deus.'
Ora, todo aquele que escutou o Pai
e por ele foi instruído, vem a mim.
Não que alguém já tenha visto o Pai.
Só aquele que vem de junto de Deus viu o Pai.
Em verdade, em verdade vos digo,
quem crê, possui a vida eterna.
Eu sou o pão da vida.
Os vossos pais comeram o maná no deserto
e, no entanto, morreram.
Eis aqui o pão que desce do céu:
quem dele comer, nunca morrerá.
Eu sou o pão vivo descido do céu.
Quem comer deste pão viverá eternamente.
E o pão que eu darei
é a minha carne dada para a vida do mundo'.

Pão e pai - Pe. João Batista Libânio, sj

Duas palavras monossílabas definem a celebração de hoje: pão/pai. Pequeninas palavras, mas densas de significado. Hoje ouvimos as metáforas do pão na primeira leitura e no evangelho. Elas são muito profundas, e creio que vêm a calhar muito bem para a figura do pai.

Na primeira leitura ouvimos sobre um pão que permite a alguém andar quarenta dias e quarenta noites pelo deserto. Não pode ser de trigo. Se comermos um pão e andarmos quarenta dias e quarenta noites, certamente desmaiaremos. Logo, esse pão não é de trigo. Então de que é esse pão, e por que quarenta dias, por que quarenta noites? Esse pão conduz ao Monte Sinai, ao Monte Horeb, onde Moisés encontrou-se com Deus. Vejam a quantidade de símbolos! 

O povo come o pão, quando está abatido, desanimado, querendo morrer. Esse povo que está abatido e desanimado, querendo morrer, são os pais que andam desanimados, só vendo morte. Então, aparece o filho e lhes diz para olharem para ele, para a sua vida. Aí, os pais poderão andar, não quarenta dias e quarenta noites, mas quarenta anos e até muito mais, porque o filho é o pão que alimenta, que dá gosto à existência. Talvez eles estejam com problemas no trabalho, com a esposa. Chegam em casa exaustos e encontram um Elias ao seu lado. O filho se aproxima e diz que o pai não pode desanimar, porque é a fonte de sua vida. Muitas vezes são os filhos que animam os pais, e não os pais que animam os filhos. Eles estão aí para isto: para dar coragem, para dar vida.

Pais, quando estiverem abatidos, fechem os olhos, lembrem-se daquele Elias deitado, olhem para aquele pãozinho que nasce das cinzas. É esse pão que dá força para andar quarenta dias e quarenta noites. O evangelho diz que esse pão vale para a vida eterna. Já não são mais quarenta dias, quarenta noites ou quarenta anos, recordando os quarenta anos no deserto. É muito mais! É o pão que anima a vida e joga o pai para dentro da eternidade. Alguém que encontrou a vida neste mundo a colocou definitivamente na eternidade. Nenhuma vida será perdida, será apagada. A vida terrena acaba, mas a verdadeira vida continuará, porque quem crê tem a vida eterna.

O pai participa da vida do filho, e o evangelho diz que, para participar, são necessárias três coisas: crer, comungar e partilhar a existência. Crer será acreditar no filho, no que ele será quando for grande? Crer é muito mais! Vamos ver a etimologia latina. Crer vem de credere, que por sua vez vem de cordare – dar o coração a alguém. O pai só crê no filho, quando é capaz de abrir o seu coração e ser para ele força e amor. Agora é o contrário: é o pai dando força ao filho. A criança precisa caminhar, encontrar um rumo. O pai precisa mostrar que crê no filho, que é capaz de lhe dar o que tem de melhor, de mais profundo. Quantas vezes os pais são fechados como caramujos, não comunicam nada a seus filhos? Mas não é isso o que o Senhor pensou. Se o pai crê, se confia no filho, é capaz de por ele dar a vida, de partilhar e comungar.

Comungar não é receber a hóstia, mas entrar em comunhão com o Senhor. Como nos mostra a etimologia latina, comungar não vem de comum união, como tantas vezes ouvimos, mas de comum + munere – isto é, ter a mesma missão; de munus, munere – missão, encargo, tarefa, caminhada. Pela comunhão, participamos da missão do Senhor de dar a vida para os irmãos. O pai é aquele que vai construindo com seu filho o mesmo projeto de vida. Os adolescentes estão tão desorientados, porque não comungam com seus pais, não participam da mesma missão, não ouvem suas histórias. Tantas vezes já lhes falei da importância de vocês, pais, contarem histórias para seus filhos. Narrem para eles as lutas, sofrimentos, de como vieram do interior, lutaram, estudaram, trabalharam e continuaram de pé, íntegros. Digam isso às crianças, para que tenham coragem de enfrentar a vida, para que não sejam moluscos gelatinosos, que não têm coluna vertebral. O pai será a coluna vertebral para o seu filho pela presença, pela palavra, pela inteligência, pela capacidade de comunicar-se, pela cultura adquirida, pelo crescimento constante. Como um pai que para, que se acomoda, que se assenta adiposamente sem fazer nada, poderá ser modelo, ser força para o seu filho? Ele o será, quando o filho perceber que seu pai merece ser seguido e acompanhado.

Por isso, o Senhor diz que é o pão que nos alimenta, que nos sustenta. Que evangelho lindo para o dia dos pais! Comer, comungar do pão é dar a vida. O pai dá a sua existência. Fisicamente, comunicando a vida, mas essa missão é pequena e a mais fácil de todas. A mais difícil é passar ao filho valores, visão de mundo, compreensão da existência, das relações humanas, capacidade de superar limites e fracassos. Essa é a missão maravilhosa do pai!

Que esse domingo dos pais não seja um simples festejo, um presente a mais. O grande presente do pai é o filho, e o grande presente do filho é o pai. Amém.

Pe. JOão Batista Libânio, sj - Um outro olhar, vol 7

Confira também a reflexão de Frei Alvaci Mendes da Luz, OFM: