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sexta-feira, 24 de julho de 2015

17º domingo do Tempo Comum


1ª Leitura - 2Rs 4,42-44
Salmo - Sl 144,10-11.15-16.17-18 (R. cf.16)
2ª Leitura - Ef 4,1-6
Evangelho - Jo 6,1-15

Naquele tempo:
Jesus foi para o outro lado do mar da Galiléia,
também chamado de Tiberíades.
Uma grande multidão o seguia, 
porque via os sinais que ele operava
a favor dos doentes.
Jesus subiu ao monte
e sentou-se aí, com os seus discípulos.
Estava próxima a Páscoa, a festa dos judeus.
Levantando os olhos, 
e vendo que uma grande multidão estava vindo ao seu encontro,
Jesus disse a Filipe:
'Onde vamos comprar pão para que eles possam comer?'
Disse isso para pô-lo à prova, 
pois ele mesmo sabia muito bem o que ia fazer.
Filipe respondeu:
'Nem duzentas moedas de prata bastariam
para dar um pedaço de pão a cada um'.
Um dos discípulos, 
André, o irmão de Simão Pedro, disse:
'Está aqui um menino com
cinco pães de cevada e dois peixes.
Mas o que é isso para tanta gente?'
Jesus disse:
'Fazei sentar as pessoas'.
Havia muita relva naquele lugar,
e lá se sentaram, aproximadamente, cinco mil homens.
Jesus tomou os pães,
deu graças
e distribuiu-os aos que estavam sentados,
tanto quanto queriam.
E fez o mesmo com os peixes.
Quando todos ficaram satisfeitos,
Jesus disse aos discípulos:
'Recolhei os pedaços que sobraram, 
para que nada se perca!'
Recolheram os pedaços
e encheram doze cestos
com as sobras dos cinco pães,
deixadas pelos que haviam comido.
Vendo o sinal que Jesus tinha realizado,
aqueles homens exclamavam:
'Este é verdadeiramente o Profeta,
aquele que deve vir ao mundo'.
Mas, quando notou que estavam querendo levá-lo
para proclamá-lo rei,
Jesus retirou-se de novo, sozinho, para o monte.
Palavra da Salvação.

Multiplicando por palavras – Pe. João Batista Libânio, sj

Naquele tempo... Não é um pronome demonstrativo, comum na gramática. É aquele tempo que não tem limite e atravessa todos os tempos.

Jesus foi para o outro lado. Quando se vai para o outro lado, se tem alguma novidade - outra cidade, outro trabalho, outro emprego, outro namorado – vêm as surpresas, não é verdade?

Foi para o outro lado do Mar da Galiléia, também chamado Tiberíades. E lá o que acontece? Uma grande multidão O seguia, porque via os sinais que Ele operava. Sinais: algo visível que aponta para algo invisível. Jesus subiu ao monte, como Moisés subiu ao monte para receber a Lei. Sentou-se, como um bom mestre senta-se para dar aula. Outro pormenor simbólico: estava próxima a Páscoa, a festa dos judeus, lá onde se anunciava a entrega do Cordeiro. É festa, é alegria. Não é tristeza, não é dor, não é luto.

Levantando os olhos – o símbolo mais lindo para falar de Transcendência. Nós não abaixamos os olhos, levantamos, porque a Transcendência sempre, para nós, é alto. Lá embaixo estão os que rastejam. Jesus levantou os olhos e, vendo uma grande multidão que estava vindo ao Seu encontro, disse para Felipe uma coisa que parece tão banal, mas não é.

Mandou-o comprar pão para que eles pudessem comer. Disse isso para prová-lo, pois Ele  mesmo sabia muito bem o que iria fazer. Tudo que acontece na nossa pobre história. Deus sabe muito bem quem somos nós. Felipe respondeu, uma resposta de quem não entendeu do assunto: nem duzentas moedas, cheques, bastariam para dar um pedaço de pão para cada um. Felipe nem de longe entendia o mistério que estava para acontecer.

Outro discípulo, não qualquer um – é “André” – Andros, em grego: corajoso, varonil, destemido, irmão de Simão Pedro – a pedra, o fundamento – olhem como o evangelista brinca.

Ele diz: “Está aqui um menino” - tudo começa com a criança. Como diz Guimarães Rosa (*): “Nasce uma criança, tudo começa de novo!”. E lá também começa com o menino. Não um adulto, um profeta do passado. Um menino: é futuro, é esperança, é beleza, é inocência.
Havia um menino com cinco pães e dois peixes. Cinco mais dois: sete. E por que sete, o número da perfeição? Porque no céu – três: Pai, Filho e Espírito Santo. Na Terra: Norte, Sul, Leste, Oeste. Temos os quatro pontos cardeais unindo toda a Terra e a Trindade no céu. 
Mas o que é isso para tanta gente? Jesus diz: “Fazei sentar as pessoas”. Havia muita relva. Olhem que detalhe: havia relva, porque era primavera. Olhem o símbolo aí: é vida! Não é inverno, frio, quando seca tudo, mata tudo. Aqui não. Há relva, há vida, há esperança, há verde – símbolo da esperança. Menino inteligente, este João!

E lá se assentaram aproximadamente cinco mil homens. Claro que ele não contou. Mil para a Bíblia é um número ilimitado. Mil se pensa uma coisa infinita. Tomou os pães – como o padre faz na missa - deu graças, distribuiu como na Eucaristia, porque os que liam já conheciam o gesto. Distribuiu aos que estavam assentados, tanto quanto queriam. Vocês podem participar da Eucaristia tanto quanto quiserem. Não participam mais porque não querem. O limite não vem daqui, o limite vem daí. Repararam isso? O limite não vem de Deus. Ele nos dá o oceano, só que o nosso copo é pequeno e nele cabe pouca água. E fez o mesmo com os peixes.

Todos ficaram satisfeitos. Perceberam que, quando Deus se nos dá, ficamos satisfeitos e com todos os outros prazeres saímos sempre insatisfeitos? [...] Com a ação do Senhor, saímos satisfeitos. “Satis-facere”: fazer muito, fazer bastante.

Jesus disse aos discípulos: “Recolhei os pedaços que sobraram para que nada se perca”. Imaginem quantos cestos sobraram! Sobraram doze cestos. E por que doze? Quantas foram as tribos de Israel? Doze tribos – todo o povo de Israel. Quantos apóstolos? Doze – todo o Novo Testamento. É toda a história da salvação. Doze: Ele pega Israel inteira e pega o Novo Testamento inteiro e, além do mais, multiplicando o céu (três) pela Terra (quatro) dá doze.

Todas essas coisas não são brincadeiras, são símbolos, para mostrar que cada palavra da Escritura é carregada de sentido. E continua ainda. Vendo o sinal que Jesus tinha realizado, aqueles homens exclamaram - será que vocês exclamam quando vêem o sinal de Deus? Eles exclamaram, ficaram fascinados e disseram: “Este é verdadeiramente o Profeta, Aquele que deve vir ao mundo!”. Já tinha vindo. Aquele que deve vir ao mundo é o profeta escatológico, é o profeta do final dos tempos, anunciando já o final de toda a história. Eles vêem o fato aqui e apontam o final da história. Mas quando Jesus notou que queriam levá-lo para fazê-lo rei, Jesus se retira sozinho, para o monte. 

Pe. João Batista Libânio, sj – Um outro olhar, vol. 2

Confira também a reflexão de Frei Alvaci Mendes da Luz, OFM para este 17º domingo do Tempo Comum: