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sexta-feira, 17 de julho de 2015

16º domingo do Tempo Comum



1ª Leitura - Jr 23,1-6
Salmo - Sl 22,1-3a.3b-4.5.6 (R. 1.6a)
2ª Leitura - Ef 2,13-18
Evangelho - Mc 6,30-34

Naquele tempo:
Os apóstolos reuniram-se com Jesus
e contaram tudo o que haviam feito e ensinado.
Ele lhes disse:
'Vinde sozinhos para um lugar deserto,
e descansai um pouco'.
Havia, de fato, tanta gente chegando e saindo
que não tinham tempo nem para comer.
Então foram sozinhos, de barco,
para um lugar deserto e afastado.
Muitos os viram partir e reconheceram que eram eles.
Saindo de todas as cidades, correram a pé,
e chegaram lá antes deles.
Ao desembarcar,
Jesus viu uma numerosa multidão e teve compaixão,
porque eram como ovelhas sem pastor.
Começou, pois, a ensinar-lhes muitas coisas.

Palavra da Salvação.

Contando histórias se faz história - Pe. João Batista Libânio, sj

Tão pequenino esse evangelho e tão carregado de sabedoria, de ensinamentos! Reparem bem: os apóstolos voltam da missão. Podiam encontrar Jesus e continuar trabalhando, como sempre acontece. [...] Ele pergunta sobre o que fizeram. Começa perguntando a Pedro, a Filipe, a Bartolomeu como havia sido a missão, e eles iam falando, narrando, contando o que tinham feito. Olhem que verbo bonito: narrar!

Somos um povo esquecido, sem consciência política e social, porque não contamos a nossa história. Esquecemo-nos daquilo que fizemos, do que fizeram os nossos maiores. 

Israel resistiu a esses três, quatro mil anos porque, na véspera da Páscoa, todos os anos, o filho pequeno pergunta ao pai a razão de estarem reunidos para aquela celebração. E o pai diz: “Meu filho, éramos escravos no Egito, até que apareceu um moço, chamado Moisés – homem importante, cheio de Deus –, que nos levou para o deserto. Caminhamos durante quarenta anos, atravessamos o Rio Jordão e chegamos a esta terra. Hoje podemos comemorar”. Nos anos seguintes, a mesma cena se repete, e aquelas crianças vão crescendo ouvindo os grandes acontecimentos, conhecendo os grandes homens de sua história. 

E nós? Quais são os grandes acontecimentos, os grandes homens de nossa história? A chuteira dourada ou prateada do Ronaldinho, o outro Ronaldo, a meia do Roberto Carlos? Depois aparece uma nova geração de jogadores, como essa que sucedeu a Pelé, que já está aposentado. Vivemos de estrelas do esporte, da televisão. Caras, caras, caras... que passam e não deixam história nenhuma. Como é que podemos construir uma consciência histórica? Ninguém sabe o que aconteceu. Ninguém conhece a lenta luta operária nos momentos de dominação, os primeiros desafios de “O petróleo é nosso!”, quando todos acreditavam que o
Brasil não tinha petróleo, que teria sempre que importar. Os operários continuavam afirmando: “O petróleo é nosso!”, e hoje somos autossuficientes em petróleo. É a história! Importávamos cem por cento do petróleo e não importamos mais. Mas quem conhece essa história? [...] Nós não temos história, não narramos a história e, portanto, não temos consciência. A consciência nasce do conhecimento da história. Assim também a nossa fé.

Ao invés de falar de He-Man, por que vocês não começam a contar histórias? Era uma vez um jovem muito bonito, muito rico, dedicava-se às festas de sua época. Tinha o coração dividido e, de repente, encontra um leproso, abraça-o, beija-o e se transforma – Francisco de Assis! Um outro rapaz, também vaidoso, gostava de dançar, desejava casar-se com a filha do imperador da Espanha. De repente, uma bala, a perna quebrada o coloca na cama por meses. Dão-lhe romances de cavalaria para animá-lo, que eram os gibis daquela época. A convalescença foi longa, e ele, meio enjoado, começou a ler para passar o tempo. Acabou lendo a vida de santos, a vida de Cristo. De repente, seus olhos se abrem e ele se pergunta: “Se Francisco fez isso, se Domingos fez isso, por que não poderei fazer?” – Inácio de Loyola! Havia um jovenzinho tuberculoso, dezenove anos, fraco, condenado aos hospitais. Vivia na Espanha e ficou sabendo que o clima do Brasil era melhor. Lá vem ele, naqueles barcozinhos, enfrentando tempestades, calmarias. Meses e meses de viagem, frágil do pulmão, chega a esta terra, vai a pé de São Paulo a Salvador, atravessa florestas, entre feras e serpentes – José de Anchieta! E assim por diante.

Vocês podem pensar que isso é em outra época, em outros lugares, mas não é. Também aqui, bem perto de nós, há exemplos maravilhosos. Há alguns anos, havia um homem que morava em um palácio grande e bonito. Ele diz: “Não, o povo não mora assim!” Deixa o palácio e vai viver numa sacristia, onde encosta a sua cama. A porta dava para a rua, e sempre havia alguém batendo. Certo dia, chega um teólogo para trabalhar com ele e se sente incomodado com tantas interrupções. Sugere que ele contrate uma empregada para atender à porta. Ele responde: “Eu pensei nisso, mas se chegar um pobre e eu não atender à porta, perderei a ocasião de recebê-lo e, para mim, receber um pobre é receber Cristo!” – Helder Câmara! Brasileiro, recente. E por que não contamos essas histórias? Preferimos o Batman, o He-Man, com todas as suas proezas inverossímeis.

Quando as crianças chegam em casa, depois da escola, vocês, pais, ficam vendo televisão. Por que não perguntam como foi a escola, o que elas fizeram durante o dia? Se fizerem isso, elas teriam oportunidade de contar as pequenas aventuras, as pequenas travessuras, e vocês começariam a conversar. Nós não conversamos, mas Jesus conversava. Fantástico esse Homem! Quando Freud, com tanta sabedoria, com tanta ciência – austríaco-alemão, frio cientista – quis descobrir como podemos nos libertar de nossos problemas, simplesmente disse que devemos falar, narrar, contar nossos problemas. E há pessoas que pagam caro para encontrar uma orelha que ouça os seus problemas, quando têm um pai, uma mãe, uma esposa, um esposo, que poderiam ouvi-las com muito mais amor.

Sabem por que vocês têm tantos problemas, sobretudo os homens? Porque não falam, são mudos! Ficam engolindo tudo, e quem engole veneno, fica envenenado. Vomitem-no! Mas não como uma coisa ruim. Com amor, para que o outro ouça. Uma esposa que sabe ouvir seu esposo, um pai que ouve seu filho é como Jesus ouvindo os apóstolos. É isso que precisamos fazer.

Jesus recomenda aos apóstolos que se afastem um pouco, que saiam do barulho, desse redemoinho de notícias. Há pessoas que não são capazes de ficar um minuto em silêncio. Já saem de casa com duas bolinhas enfiadas nas orelhas, ainda carregando um caixotezinho na cintura. Quando chegam em casa, acendem a luz e ligam a televisão. Se pudessem já ligavam do próprio trabalho, através de um controle remoto, para chegarem em casa já em meio à barulheira. Vão dormir com o rádio ligado, programado para desligar durante a noite e, se perdem o sono, ligam-no novamente. Não há silêncio, não há recolhimento, não há espaço
para pensar.

Como alguém pode fazer a trajetória interna de sua fé, se não tem silêncio? Se realmente entrarmos e caminharmos dentro de nós, chegaremos às águas puras da fonte da sabedoria, que é onde Deus habita dentro de nós. Lá Ele estará nos falando, mas se houver muito barulho, como poderemos ouvi-lo? Ele fala, mas não o ouvimos. Qual de nós é capaz de ouvir a Nona Sinfonia de Beethoven em plena Praça Sete, às dezoito horas, com todos os carros buzinando ao mesmo tempo? Como poderemos ouvir, se não pararmos no nosso quarto, num momento de silêncio e tranquilidade? Como poderemos ter ideias, como poderemos pensar, se durante todo o dia só vemos imagens? Somente imagens e nenhuma ideia, nenhum pensamento, nenhuma realidade interior. Somos um corpo que anda, mas não seres humanos vivos, livres, conscientes. Jesus diz para irmos a um lugar tranquilo, sereno, para conversar, falar das belezas de Deus que acontecem na vida de todos nós, na luta dos operários, no trabalho de um médico, de um construtor, de um jovem que busca emprego, de um recém-formado, na luta para  entrar na universidade. Quantas histórias lindas temos para contar! Mas não temos tempo. Amém.

Pe. João Batista Libânio, sj - Um outro olhar, vol. 7

Acompanhe também a reflexão de Frei Alvaci Mendes da Luz, OFM para este 16º domingo do Tempo Comum