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sexta-feira, 3 de julho de 2015

14º domingo do Tempo Comum


1ª Leitura - Ez 2,2-5
Salmo - Sl 122,1-2a.2bcd.3-4 (R. 2cd)
2ª Leitura - 2Cor 12,7-10
Evangelho - Mc 6,1

Naquele tempo:
Jesus foi a Nazaré, sua terra,
e seus discípulos o acompanharam.
Quando chegou o sábado, começou a ensinar na sinagoga.
Muitos que o escutavam ficavam admirados e diziam:
'De onde recebeu ele tudo isto?
Como conseguiu tanta sabedoria?
E esses grandes milagres
que são realizados por suas mãos?
Este homem não é o carpinteiro, filho de Maria
e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão?
Suas irmãs não moram aqui conosco?'
E ficaram escandalizados por causa dele.
Jesus lhes dizia: 'Um profeta só não é estimado
em sua pátria, entre seus parentes e familiares'.
E ali não pôde fazer milagre algum.
Apenas curou alguns doentes, impondo-lhes as mãos.
E admirou-se com a falta de fé deles.
Jesus percorria os povoados das redondezas, ensinando.
Palavra da Salvação.

A sabedoria que não vem dos livros – Pe. João Batista Libânio, sj

As três leituras de hoje parecem simples, inocentes, mas provocaram muitas reações de vários filósofos. Algumas, até violentas, como a de Nietzsche, entre tantos outros.
Num primeiro exemplo, acontece o que aconteceu no Brasil na época do regime militar. Estavam aí os profetas, que tinham nomes bem concretos – Hélder Câmara, Evaristo Arns, Pedro Casaldáliga – e ninguém os reconheciam. Eram os generais, era a repressão. E Jesus diz: “Eu mandei os meus profetas!” Quantos profetas estão atuando na nossa realidade, levantando a voz, reunindo o povo e dizendo que existe gente morrendo de fome? Os profetas estão nos mostrando tudo isso, e nós continuamos caminhando lunaticamente pelo mundo.

Temos que nos perguntar onde estão esses profetas, acordando, sacudindo a sociedade. E há de todos os tipos, desde uma criança, que muitas vezes é profeta para nós. Não são só os papas, padres, bispos ou freiras não. Profeta nasce numa sociedade real, política, social. Conheço aqui pessoas corajosas, que enfrentam dificuldades para organizar alguma coisa, melhorar a situação. Esses são os profetas. Javé ficou bravo, porque o povo de Israel não soube reconhecer os seus profetas. Será que nós sabemos?

Paulo hoje nos diz uma coisa altamente escandalosa. Como o povo grego pensava as pessoas? Como o povo romano imaginava as pessoas? Visitem qualquer museu onde possam ver as estátuas gregas e verão só gente bonita, forte, atlética. No mundo grego nasceram as olimpíadas, pois eles praticavam muito esporte. Eram bonitos, fortes – kalós kaí agathós. Paulo diz que ele tinha um defeito que o envergonhava e do qual quis livrar-se. Deus diz não. Ele deveria guardar esse defeito até o fim da vida. Não sabemos se era epilepsia ou se era por ser baixo demais. Deus não lhe mudou a aparência física e Paulo descobriu que podia ser forte na fraqueza.

Hoje as livrarias desapareceram, e as academias se multiplicaram. É isto que estamos vendo: o culto da beleza, da fisicidade, das olimpíadas, dos campeonatos dos melhores times, dos bem classificados. Os lanterninhas se apagando e caindo para divisões inferiores. 

Paulo diz que seria forte na fraqueza. Isso é uma coisa escandalosa para a cultura de hoje, como o era para o mundo grego, para o mundo romano. Lembrem-se das legiões romanas, que chegaram até a Inglaterra, entraram pela Ásia, pela África e conquistaram o mundo conhecido daquela época. Elas nunca valorizariam o fraco, o pequeno, o desprezado, o menor. A criança era como um bichinho que desprezavam. Jesus as abraça, acaricia e acolhe. Naquela época, os leprosos nem podiam chegar perto das cidades. Carregavam até campainhas, para que todos fugissem deles. Jesus os chama, os toca, num mundo onde era proibido tocá-los.

Ele os toca e os cura. Ele quer inverter esses valores, fazer com que nossos olhares se orientem e se dirijam para o menor. Por isso, aquele filósofo alemão, Friedrich Nietzsche vai dizer: “Vocês, cristãos, glorificam a fraqueza. Eu quero o super-homem!” É isso que nós também queremos. Vejam essas telinhas para crianças, esses super-homens que vão enchendo o horizonte imaginário das criancinhas. É isso que constrói o imaginário da sociedade. Paulo vem dizer: “Eu me glorifico na fraqueza!”

Para entender o evangelho, temos que imaginar como era o mundo de Jesus. Ele era um homem comum, como qualquer judeu. Devia estar com os professores ali presentes, porque frequentou a escola de Nazaré, onde normalmente os rabinos ensinavam. Os livros que tinham não eram esses que temos hoje. Eles aprendiam a ler nas Escrituras, na Torá. Jesus falava aramaico, e as escrituras eram escritas em hebraico. Então precisava aprender outra língua. Todos estavam acostumados a vê-lo entre as crianças, brincando e estudando como elas. De repente, com quase trinta anos, começa a falar aos professores, e todos se espantam. Quando vemos alguém que imaginamos inferior e, de repente, mostra sabedoria, levamos um susto. Essa sabedoria vem da capacidade que algumas pessoas têm de mergulhar fundo na experiência humana. Isso não vem dos livros, não vem das universidades. 

Recentemente, eu li um artigo e, se for verdade, será ótimo. Querem abolir todas as matérias do vestibular e reduzir as provas ao português e matemática, para ensinar a pensar mais e mentir menos. Oxalá fosse verdade! Simplesmente escrever, e veríamos as tontices, as incapacidades pensantes e ambulantes, cheias de química e física. Todos ignorantes, incapazes de elaborar uma frase, de pensar uma experiência, de viver em profundidade. Incapazes de escrever, de comunicar-se, de falar de seu mistério, falar de algo profundo.

Por isso, aqueles homens letrados se espantavam com Jesus. Eles conheciam o Javé dos livros. Leram o Êxodo, os livros antigos em hebraico. Sabiam que Javé jogava raios e fumaça sobre o povo, e Jesus dizia que o mesmo Javé era Abba, era pai, era misericordioso. Que acolhia e perdoava, que não jogaria pedras numa prostituta. Isso escandaliza, e eles se perguntam de onde lhe vem essa sabedoria Não era dos livros, pois esses diziam o contrário. Vinha da vida, da experiência, da profundidade.

Quando olho para vocês, jovens, perdidos na ignorância escura da existência, peço que pensem, aprendam a pensar, aprendam a fazer e aprendam a amar, e só assim existirão.

Pe. João Batista Libânio, sj – Um outro olhar, vol. 6

Confira a reflexão de Frei Alvaci Mendes da Luz, OFM para este 14º domingo do Tempo Comum: