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sexta-feira, 19 de junho de 2015

12º domingo do Tempo Comum


1ª Leitura - Jó 38,1.8-11
Salmo - Sl 106,23-24.25-26.28-29.30-31 (R. 1b)
2ª Leitura - 2Cor 5,14-17
Evangelho - Mc 4,35-41

Naquele dia, ao cair da tarde,
Jesus disse a seus discípulos:
'Vamos para a outra margem!'
Eles despediram a multidão e levaram Jesus consigo,
assim como estava na barca.
Havia ainda outras barcas com ele.
Começou a soprar uma ventania muito forte
e as ondas se lançavam dentro da barca,
de modo que a barca já começava a se encher.
Jesus estava na parte de trás,
dormindo sobre um travesseiro.
Os discípulos o acordaram e disseram:
'Mestre, estamos perecendo e tu não te importas?'
Ele se levantou e ordenou ao vento e ao mar:
'Silêncio! Cala-te!'
O ventou cessou e houve uma grande calmaria.
Então Jesus perguntou aos discípulos:
'Por que sois tão medrosos?
Ainda não tendes fé?'
Eles sentiram um grande medo e diziam uns aos outros:
'Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?'

Palavra da Salvação.

Jesus nos acompanha a outra margem - Pe. João Batista, sj

Se Marcos tivesse simplesmente nos descrito uma tempestade, seria uma a mais em relação a tantas outras que acontecem nos mares, nos lagos, nos rios. Mas vocês perceberam que o Evangelho está cheio de pequenos pormenores. Cada um deles é um toque simbólico. 

A leitura não começa com a tradicional expressão “naquele tempo”, mas “naquele dia”. Aquele dia, não qualquer dia. O ano tem trezentos e sessenta e cinco dias, mas aquele dia é diferente. Não é um dia anódino, insosso, inodoro, acromático; não é um dia vulgar, banal, como tantos que atravessamos no ano. Era aquele dia. E a que hora? Não no despertar do dia, não no fulgor do meio-dia, não na escuridão da noite, mas ao cair da tarde, no crepúsculo, no intermédio, num momento de silêncio. Há pinturas bonitas que podemos ver em museus de dois camponeses bretões, nesse horário do crepúsculo, diante de um rio bonito. Um deles com a cabeça inclinada, tirando um chapéu tosco. Eram seis horas, a hora do angelus, e eles rezavam. É nessa hora, nesse momento de um dia, que o Senhor disse esta frase: “vamos para a outra margem!” Essa é para mim a chave de leitura desse evangelho. Outros podem ver a tempestade, a canoa, eu prefiro ficar com esta frase: “vamos para a outra margem!” O que significa ir para a outra margem? 
Os apóstolos estavam tranquilos, fixos, estagnados, como estamos agora aqui: sem exaltação, sem dificuldade. Nessa hora não há risco, mas segurança. Mas, num dado momento da vida, parece que uma voz insufla o nosso coração e diz: passe para a outra margem! Há tantos missionários! São holandeses, alemães, poloneses que um dia ouviram esta palavra: vão para a outra margem! Deixaram as suas casas, suas famílias, suas línguas – é duro deixar o seu idioma – , a sua pátria e partiram para lugares onde sempre serão estrangeiros. Assumiram o risco de passar para a outra margem. 

O Evangelho coloca um pormenor importante: “Levaram Jesus Cristo consigo, porque Ele estava na barca”. A barca é a nossa existência, a nossa história. Levaram Jesus, mas é possível, e tantas tragédias acontecem, que muitas pessoas passem para a outra margem e não levem o Senhor consigo. Imaginem um jovem bom, puro, vivendo com sua família e, de repente, passa para a margem da droga. O Senhor não foi naquela barca. Passa para a prostituição, o engodo, a corrupção, a mentira, e o Senhor não está lá. Sem Ele presente, imaginem o medo que provoca uma tempestade! O mar está violento, o vento sopra, a barca é agitada e olhando não se vê ninguém. O Senhor não está na barca, porque não o levamos, não porque Ele não quisesse estar. Diz o Evangelho que havia muitas barcas nas quais Ele não estava. 

Quando entramos na barca do risco, da vida, do trabalho voluntário, sabemos que o Senhor está na barca, mesmo nas horas difíceis de dor, de sofrimento, da morte de um ente querido. Somos como Pedro que diz: “Senhor, não te importa que estejamos em perigo?”. Sim, Ele se importa! Desperta e diz ao mar e ao vento que se calem. Voltam o silêncio e a paz. Essa é a grande história que Marcos nos conta. 

O Evangelho é belíssimo, pois está descrevendo o nosso cotidiano, a nossa luta. Muitas vezes, queiramos ou não, somos empurrados para outras margens: a margem do desemprego, da separação matrimonial, de uma vida difícil, de um trabalho no estrangeiro – tantas margens diferentes e diversas. Mas o que importa não é ir para uma outra margem, mas levar ou não levar o Senhor na barca. Essa é a grande decisão! Para qualquer margem que formos, se o Senhor estiver na barca, não haverá perigo. Podem vir as tempestades, os tufões que quiserem, os tsunamis que vierem, que a nossa barca poderá ser agitada, mas o Senhor estará lá. Ainda que durma, poderá despertar e, despertando, tranquilizará o mar. 

Jovens, quando vocês entrarem na barca da existência, na barca das aventuras, das motos nas quais vocês andam desvairadamente por aí, se o Senhor não estiver com vocês poderá ser terrível. Quando vier a tempestade, para quem poderão gritar? Não poderão acordar o Senhor, porque Ele não estará lá. Por isso, nunca saiam numa barca sem levar o Senhor consigo. 

Pe. João Batista Libânio, sj - Um outro olhar, vol. 7

Confira a reflexão de Frei Alvaci Mendes da Luz, OFM para este 12º domingo do Tempo Comum: