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sexta-feira, 12 de junho de 2015

11º domingo do Tempo Comum


11º domingo do Tempo Comum

1ª Leitura - Ez 17,22-24
Salmo - Sl 91,2-3.13-14.15-16 (R. Cf. 2a)
2ª Leitura - 2Cor 5,6-10
Evangelho - Mc 4,26-34


Naquele tempo:
Jesus disse à multidão:
'O Reino de Deus
é como quando alguém espalha a semente na terra.
Ele vai dormir e acorda, noite e dia,
e a semente vai germinando e crescendo,
mas ele não sabe como isso acontece.
A terra, por si mesma, produz o fruto:
primeiro aparecem as folhas, depois vem a espiga
e, por fim, os grãos que enchem a espiga.
Quando as espigas estão maduras,
o homem mete logo a foice,
porque o tempo da colheita chegou'.
E Jesus continuou:
'Com que mais poderemos comparar o Reino de Deus?
Que parábola usaremos para representá-lo?
O Reino de Deus é como um grão de mostarda
que, ao ser semeado na terra,
é a menor de todas as sementes da terra.
Quando é semeado, cresce
e se torna maior do que todas as hortaliças,
e estende ramos tão grandes,
que os pássaros do céu podem abrigar-se à sua sombra'.
Jesus anunciava a Palavra
usando muitas parábolas como estas,
conforme eles podiam compreender.
E só lhes falava por meio de parábolas,
mas, quando estava sozinho com os discípulos,
explicava tudo.

Palavra da Salvação

O tempo pede paciência - Pe. João Batista Libânio

Jesus começa a falar do Reino de Deus, que é o tema central de sua pregação. Podemos dizer que Ele prega e fala do Deus-Reino.

Essa parábola parece óbvia, uma coisa que todos sabem: as plantas nascem e crescem. Mas não é tão óbvio assim, porque Deus não tem tempo, é eterno. Ele fala, e as coisas são criadas, sem que se precise esperar. Quando Jesus diz que para Deus há progresso, que lentamente as coisas começam a correr, a caminhar, levamos um susto. Pensávamos que Ele resolvia tudo em apenas um gesto, pois é Deus. Nós, sim, vamos devagarinho, caminhando. Jesus olhou para a humanidade e pensou que Deus Pai deve sofrer muito com a nossa lentidão, pois pode fazer tudo instantaneamente. Mandou o seu próprio Filho para experimentar um pouco a história e nos dizer quem era o Pai. Foi o que aconteceu.
Segundo uma teologia simplista, o Filho de Deus poderia surgir na Terra já conhecendo tudo. Não precisaria esperar para crescer no seio de Maria e só depois nascer. Poderia já pregar coisas maravilhosas, conhecer Aristóteles, Platão, falar coisas belíssimas num grego perfeito, falar todas as línguas do mundo, passear por todos os países, passar pelo Brasil e conviver com os nossos índios. Poderia fazer tudo isso sem precisar de tempo, pois é o infinito. Que Deus maravilhoso nós queríamos! Mas Ele diz que não é assim. É preciso a sementinha cair, depois dormir e acordar muitas e muitas vezes. Só depois de muito tempo uma cabecinha verde começa a aparecer. Dependendo da árvore, pode demorar cem anos para subir, crescer e fazer com que a seiva chegue aos ramos. Tudo numa lentidão gigantesca.

Quando uma mulher concebe, quereria dar a luz no dia seguinte, e são necessários nove meses. Não se assustem, senhoras, mas os antropólogos acham que o parto normal, para um ser humano nascer um pouco mais maduro, deveria esperar mais ou menos dois anos ou até um pouco mais. Todos nós somos prematuros, nascemos antes do tempo. Depois de nascidos, demoramos para aprender a falar, um ano ou mais para começar a andar. Anos e anos de estudo.Assim é a história humana.

A cultura moderna está querendo acabar com isso, e é um desastre. Por isso, a parábola de hoje é importante. As criancinhas já vivem todas na televisão, querendo ficar mocinhas antes do tempo. Com cinco, seis anos, já dão beijinhos na boca do namoradinho, como se fossem adultas. Vão rasgando a história, saltando a infância. Adolescentes que já estão gestando, gerando, dando a luz. Aquela menina de treze anos, de arma em punho, assaltando como num bang-bang americano. Com treze anos já se sente adulta, já se sente mulher para entrar nas cadeias criminosas. A parábola nos diz da necessidade de uma lentidão
imensa.

Nós não suportamos o tempo, e a nossa cultura mais e mais quer acelerar. Mas quando se chega à idade adulta, quando a infância se foi, a adolescência e começam a roncar o motor, acordando toda a cidade. Saltaram a adolescência, saltaram a infância. O Verbo de Deus só começou a pregar depois de trinta anos. Precisou de trinta anos de trabalho, de contato com as pessoas para começar a anunciar. Depois de dois ou três anos se foi e nos deixou esta lição: nós precisamos de tempo! 

Certa vez Santo Agostinho escreveu que todos sabiam que coisa era tempo e também ele sabia, mas, se o perguntassem, não saberia dizer. Se eu perguntasse, acho que poucos de vocês saberiam dizer que coisa é tempo. Aristóteles disse que tempo é o número do movimento. Pegamos o movimento, o numeramos e temos o tempo. Os astros se movem, colocamos esse movimento em partículas e chamamos de instantes, minutos, meses, dias, anos, e fazemos o tempo. O tempo supõe movimento, e podemos perceber que ele é gradual. Se for esse o movimento, temos algo que já veio e que, chegando um dado momento, anuncia o futuro. É isso que nos desespera! Não queremos o passado. Queremos cada instante, cada momento. Dói-nos perceber que somos marcados hereditariamente. Hoje falava para os pais das crianças que foram batizadas, com toda a seriedade freudiana, que, se aquelas crianças não receberem um imenso afeto agora, amanhã serão criminosas, violentas, terríveis. Nós somos história! 

Frei Betto tem uma expressão muito interessante ao dizer que de certa maneira, somos uma loteria genética. Eu completaria: somos uma loteria biográfica bem longa. Trazemos uma imensa carga biológica que se constrói durante anos. Queríamos ser construídos roboticamente a cada instante. Por isso, o robô nos fascina, pois não tem história. Basta o cientista montar, e ele começa a funcionar, mas nós precisamos da lentidão e, pior ainda, nós temos futuro. Isso significa que cada ato livre que praticamos hoje permanecerá para sempre na  história. É a liberdade que configura e faz o nosso eu, e esse eu se prolonga. Uma criancinha tem o seu eu hoje, da mesma forma que o terá daqui a quarenta anos. O eu dá continuidade e se constrói nos atos de liberdade. Cada ato de liberdade marca a estrutura desse eu e nunca mais se descola dele. 

Jovens, não gastem sua liberdade em vacuidades, porque construirão um eu vazio! Encham sua liberdade sem esquecer que ela só se enche quando encontra outra liberdade, a quem se entrega, se doa, recebe, oferece. A nossa liberdade é mais liberdade, se constitui mais livremente, quando nos voltamos à transcendência, quando somos mais nós mesmos. Vocês são muito mais vocês mesmos no momento em que reconhecem a soberania de Deus e se colocam diante da sua transcendência e liberdade. Nesse momento vocês são muito mais eu do que quando estão trabalhando, torcendo, vendo televisão. Cresçam! Façam com que o eu de vocês se agigante. Na liberdade, vocês construirão horizontes infinitos. Amém. 

Pe. João Batista Libânio - Um outro olhar - Vol. 7

Confira também a reflexão de Frei Alvaci Mendes da Luz, OFM para este 11º domingo do Tempo Comum: