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sexta-feira, 5 de junho de 2015

10º domingo do Tempo Comum



1ª Leitura - Gn 3,9-15
Salmo - Sl 129,1-2.3-4ab.4c-6.7-8 (R. 7)
2ª Leitura - 2Cor 4,13-18- 5,1
Evangelho - Mc 3,20-35

Naquele tempo:
Jesus voltou para casa com os seus discípulos.
E de novo se reuniu tanta gente
que eles nem sequer podiam comer.
Quando souberam disso,
os parentes de Jesus saíram para agarrá-lo,
porque diziam que estava fora de si.
Os mestres da Lei, que tinham vindo de Jerusalém,
diziam que ele estava possuído por Belzebu,
e que pelo príncipe dos demônios
ele expulsava os demônios.
Então Jesus os chamou e falou-lhes em parábolas:
'Como é que Satanás pode expulsar a Satanás?
Se um reino se divide contra si mesmo,
ele não poderá manter-se.
Se uma família se divide contra si mesma,
ela não poderá manter-se.
Assim, se Satanás se levanta contra si mesmo e
se divide, não poderá sobreviver, mas será destruído.
Ninguém pode entrar na casa de um homem forte
para roubar seus bens, sem antes o amarrar.
Só depois poderá saquear sua casa.
Em verdade vos digo:
tudo será perdoado aos homens, tanto os pecados, 
como qualquer blasfêmia que tiverem dito.
Mas quem blasfemar contra o Espírito Santo,
nunca será perdoado,
mas será culpado de um pecado eterno'.
Jesus falou isso, porque diziam:
'Ele está possuído por um espírito mau'.
Nisso chegaram sua mãe e seus irmãos.
Eles ficaram do lado de fora e mandaram chamá-lo.
Havia uma multidão sentada ao redor dele.
Então lhe disseram:
'Tua mãe e teus irmãos estão lá fora à tua procura'.
Ele respondeu:
'Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos?'
E olhando para os que estavam sentados ao seu redor,
disse: 'Aqui estão minha mãe e meus irmãos.
Quem faz a vontade de Deus,
esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe'.

Palavra da Salvação.

Valemos pelo que somos - de Pe. João Batista Libânio, sj

Essa passagem do Evangelho é bem enigmática. Não é fácil de entender o que Marcos e a comunidade primitiva nos relatam. A impressão que temos é que Jesus viveu numa família tranquila, sem problemas. Já expliquei várias vezes que Ele viveu numa família onde havia muitos outros além dele – primos que foram morar junto deles. Os Evangelhos falam insistentemente nesses irmãos de Jesus, que aparecem novamente aqui. Sabemos que Maria não teve filhos e, provavelmente, José também não, porque terá morrido jovem. Então, não são irmãos de Jesus. Portanto, quem serão? Talvez primos que viveram muito próximos, quem sabe, na mesma casa. De repente, aparecem essas figuras: Maria e os irmãos de Jesus.

Primeiro pensam que Jesus está doido. Isso é coisa séria! Pensamos que a família é o lugar mais fácil de nos relacionarmos, de sermos compreendidos, mas, muitas vezes, as pessoas que menos nos compreendem são os nossos parentes. Diz o Evangelho que os parentes de Jesus saíram decididos a arrancarem-no de onde estava e, talvez, interná-lo. E por quê?
Jesus estava pregando, não tinha tempo para comer. Era tanta gente que cercava a sua casa que não dava nem para preparar a comida. Os seus parentes ficam preocupados, porque aquele Homem levava uma vida diferente. O normal, na sua idade, era que tivesse casado, criado uma família, com filhos, trabalhando e vivendo normalmente. Era o que esperavam dele, como de qualquer cidadão. Jesus rompe com os costumes de sua época, por isso acham que Ele é doido. Em vez de criar uma família, resolve sair passeando por Israel, pregando o Evangelho, convidando alguns discípulos, pessoas diferentes, estranhas, que nem eram parentes. Talvez apenas um fosse primo. Um outro era zelota, que deveria ser uma espécie de terrorista daquela época. Zelotas faziam parte de um grupo que queria derrubar o regime com as forças, com as armas. Eram uma espécie de guerrilheiros. Jesus teve um discípulo guerrilheiro! O Evangelho diz que era Simão, o zelota. Outros eram pescadores. Um era um banqueiro que tinha certa má fama, por causa de uns precatórios que ele resolvia embolsar. Jesus era cercado dessas pessoas. Também algumas mulheres que o seguiam tinham uma fama suspeita, pelo menos a tal Madalena.

Quero parar um pouco nesse momento. Quantas vezes os jovens, os adolescentes dizem que os pais não os compreendem! É bom saber que Jesus também não foi compreendido. Se os pais não compreendem os jovens, os jovens também não compreendem os pais. Jesus também não compreendeu o gesto desses parentes que achavam que Ele estava doido. Mais ainda, os mestres, os professores que estavam chegando a Jerusalém, diziam que o poder de Jesus era um poder satânico, que Ele estava cheio do demônio. É forte a acusação! Não é uma acusação qualquer. É como se os professores de vocês os chamassem de vagabundos e os ameaçassem com a reprovação. Jesus é acusado pelos parentes, pelos professores, como alguém que está fora da lei. Talvez nunca tenhamos parado para pensar na dificuldade que Jesus teve para conviver numa sociedade que o rejeitou desde o princípio. Ele continua trabalhando, só que a rejeição vai crescendo, crescendo, até que o matam. Mas Ele não volta atrás, continua sua pregação, sua missão. Realmente é algo profundamente misterioso!

A última passagem ainda é mais complicada. Quando pensamos num encontro de Jesus com sua mãe e seus irmãos, imaginamos alguma coisa alegre e festiva. Mas parece que Ele não se incomoda muito. Nem se levanta para recebê-los. Dizem para Ele que sua mãe estava lá e não há reação. Ele diz que sua mãe e seus irmãos eram os que o seguiam, os que estavam com Ele bem perto, fazendo a sua vontade. Aquele que cumpre sua vontade, aquele que o segue, esse é considerado parente. Não é o sangue que é importante. Ele quis tirar um pouco essa história de parentesco da jogada. 

Para Deus, não interessam os parentescos sanguíneos. Não é porque é irmão de padre, de bispo. Isso não funciona! O que importa para Jesus são as pessoas que o seguem. Nada mais vale. Quantas pessoas insistem em querer prevalecer de sua estirpe, de sua prosápia, de sua origem?! Isso não vale nada no Reino de Deus! Não é porque é filho de nobre ou não, filho de alguém importante ou não. Ser irmão do arcebispo, do juiz, irmão do papa não vale nada. Isso é tremendo! Nós temos essa mania – sobretudo o brasileiro – de pendurar os parentes em todos os cabides possíveis. Jesus subverte totalmente. Nada disso vale! O que vale é a honestidade, a lealdade, a fidelidade. Não é ser parente de uma pessoa que vai valer alguma coisa. Vale estudarmos, trabalharmos honesta e seriamente. Nenhum pistolão nos acrescenta. Temos que arrancar da nossa cabeça brasileira essa doença endêmica que temos, essa mania do pistolão, como se ele nos acrescentasse alguma coisa; como se um título, um papel nos desse algum valor. O valor nasce do nosso trabalho, da nossa vida, do nosso ser. É o que Jesus quis nos mostrar.
É uma imagem complicada para nós, quando Jesus diz que o seu poder não pode vir de Satanás. Jesus quer mostrar que o que interessa é a sua prática, é a sua maneira de falar, é a sua maneira de viver. Aí é que Ele é reconhecido. Que nós, brasileiros, aprendamos a lição do Evangelho de hoje. A nossa dignidade vem daquilo que somos e não das coisas externas a nós. Os títulos passam, o nosso ser fica. Os títulos são vazios, o nosso ser é consistente. Somos o que somos! Amém. 

Pe. João Batista Libânio, sj - Um outro olhar, vol. 5

Acompanhe também a reflexão de Frei Alvaci Mendes da Luz, OFM para este 10º domingo do Tempo Comum: