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sexta-feira, 29 de maio de 2015

Solenidade da Santíssima Trindade




1ª Leitura - Dt 4,32-34.39-40
Salmo - Sl 32,4-5.6.9.18-19.20.22
2ª Leitura - Rm 8,14-17
Evangelho - Mt 28,16-20

Naquele tempo:
Os onze discípulos foram para a Galiléia,
ao monte que Jesus lhes tinha indicado.
Quando viram Jesus, prostraram-se diante dele.
Ainda assim alguns duvidaram.
Então Jesus aproximou-se e falou:
'Toda a autoridade me foi dada no céu e sobre a terra.
Portanto, ide e fazei discípulos meus todos os povos,
batizando-os em nome do Pai
e do Filho e do Espírito Santo,
e ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei!
Eis que eu estarei convosco todos os dias,
até ao fim do mundo'.

Palavra da Salvação.


Trindade: unidade na diversidade 

Evidentemente, desde a nossa primeira infância, talvez mesmo antes que tomássemos consciência do que éramos, os sinais da Trindade nos marcavam. Já no batismo fomos marcados com o sinal da Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo. E quando falamos Trindade, talvez a nossa mente se embaralhe, e nós pensemos que seja uma coisa complicada, que não tem nada a ver com a nossa experiência. Leda ignorância! Ledo engano!

A Trindade é a realidade mais próxima de nós e que mais marcou a nossa vida, que mais marca a nossa estrutura psíquica, a nossa estrutura antropológica, a nossa estrutura existencial. Senão, vejamos. Não vou buscar coisas lá longe, não. Vou pegar o cotidiano de vocês.

Qual a experiência mais forte que temos de proximidade? Quando queremos ter alguém próximo, nós todos temos dois gestos: um gesto físico – abraçamos. No abraço, como que fechamos a outra pessoa contra nós, para sentirmos que eu e o outro formamos como que uma unidade. Este é o símbolo do abraço. Os dois têm que ser um só. Ambos querem ser um só. Quando não se quer ser um só, faz-se como a criancinha que quando não gosta de alguém, empurra com a mão e se afasta - não quer. 
Então, contra o abraço é quando eu não quero. É a rejeição. Quando abraçamos, nós queremos ser um só com as pessoas que amamos. E muitas vezes três pessoas que se amam são capazes de um abraço tão grande, que as três cabem num único abraço, como um cacho de unidade e trindade. De trindade porque são três, de unidade, porque é um só abraço. Três se faz um. Isto nós fazemos.

Agora, imaginem vocês, Aquele que é o Onipotente, que é o Infinito, que não precisa de braços físicos para trazer o outro para si. Basta querer, basta pensar, basta amar. O outro é Ele, então é o Pai. É o Pai que abraça o Filho e olha para o Filho e diz: -‘estou todo em você’.

Quantos esposos, depois de muitos anos de caminhada, de um amor longo, de repente, um olha para o outro e percebem que um está todo no outro: o sotaque, os gestos, a maneira de falar, até a maneira de andar. Parece que um vai assimilando o outro. Um vai sendo o outro.

Se nós, que somos limitados, somos espaço, somos físico conseguimos criar tantas unidades profundas na amizade, imagine então Esse maior, esse Pai maior? Olha para o Filho e diz: “estou todo em ti”. E o Filho volta-se para Ele e reconhece: “também eu estou todo em ti”. Os dois começam a perceber que um e o outro fazem uma unidade perfeita sem perder a relação de pai e filho, porque o Pai nunca será Filho e o Filho nunca será Pai.

Por mais que a mãe abrace o seu filhinho no colo, ela continua mãe e a criança, filho. Nunca conseguirá essa relação de unidade. Mas a mãe o segura, o esconde e, se faz frio, o esconde mais ainda, como se os dois fossem um só e, de repente, os dois se olham e dizem: “há algo maior que nos envolve”. 

Sempre há um terceiro nos nossos amores, não no sentido ruim, como muitos pensam. Por que é importante um terceiro nos nossos amores? Por que é importante o filho para que os esposos não se percam neles mesmos? Nasce o filho e o filho é o terceiro que rompe o fechamento que dois esposos podiam ter juntos, com o risco de ficarem perdidos e desaparecerem. O terceiro é o outro, é o mundo, é a história que não nos deixa fechar nem com o maior amigo.

Nem a Trindade perdeu-se no dois. Ela também precisou do terceiro para romper o fechamento do Filho com o Pai. Ele se chama Espírito. É essa a experiência trinitária, que queremos viver. Só que vivemos na fragmentação, na fragilidade, no esforço, na luta para que as nossas relações cresçam, para que as nossas unidades aumentem sem que percamos as diferenças, as identidades, as originalidades, as singularidades. 

O grande desafio da Trindade é amar buscando a unidade, sem perder a própria identidade, a própria singularidade, a própria originalidade. O Pai é só Pai, o Filho é só Filho e o Espírito Santo é só Espírito. Mas os três se entrelaçam num amor tão grande que chamam um só Deus. Esse UM é o AMOR. Amém.

Pe. João Batista Libânio, sj – Um outro olhar, vol. 1

Confira também a reflexão de Frei Alvaci Mendes da Luz para este domingo: