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segunda-feira, 11 de maio de 2015

Maio: mês mariano - Nossa Senhora da Lapa


A história da origem desta invocação entrelaça‐se com a lenda que a faz remontar a uma era anterior à nossa nacionalidade, aos tempos das razias muçulmanas (dos mouros) pelo norte da Península Ibérica. O puzzle apresenta o famigerado Almançor a atingir S. Tiago de Compostela e a regressar por Lamego, Aguiar da Beira e Viseu. A memória popular descreve, para escapar à fúria devastadora, as religiosas mais expeditas dos mosteiros ensaiando fugir para refugiar‐se em lugares mais seguros, calcorreando montes e vales e alcançando cursos de água, a fim de sobreviverem, levando possíveis pertences e víveres. A lenda precisa que, numa destas fugas, levando uma imagem da Virgem Santíssima, repousaram numa gruta que depois, por algum motivo, tiveram de abandonar, deixando a imagem escondida. A lenda termina assim. Esta narrativa não é original. Integra‐se num modelo que lhe confirma autoridade e que, com mais ou menos pormenores, preenche o imaginário popular: imagens da Virgem encontradas em brenhas, silvas, penedos, árvores, etc., bem como a associação com a ocupação muçulmana.
Concretizando… Numa pequena freguesia de Quintela, pelo ano de 1498, uma menina surda‐muda, de nome Joana, com outras companheiras, fazia sair os rebanhos à procura de pastagens pelos montes. Nas nascentes do Vouga, porventura para se abrigar, entrou numa gruta de montanha formada por duas fragas e, de repente, deu com os olhos numa imagem com as vestes quase desfeitas. Foi uma verdadeira aparição que a atraiu a aproximar‐se para se certificar bem do que seria. O primeiro gesto foi ajoelhar‐se em adoração. De seguida, tomou‐a nas suas mãos, compô‐la com um paninho que trazia. Entretanto, correu a apanhar flores silvestres para adornar o natural altar onde a colocara. A partir de então refugiava‐se todos os dias naquele lugar, dando liberdade ao gado. As companheiras repararam, ao fim de algumas semanas, que Joana levava o gado sempre para o mesmo sítio e, apesar disso, encontrava pastagem, pois que os animais não cessavam de engordar. Este reparo chegou aos ouvidos da mãe que repreendeu a filha e ordenou‐lhe que levasse o rebanho para outros sítios. Para poder obedecer à mãe e não se separar da sua Senhora, passou a guardá‐la no seu cestinho, levando‐a sempre consigo e com o seu rebanho para onde quer que fosse. Um dia, em casa, porque Joana se demorasse um pouco mais a tratar dos vestidos da Senhora que a mãe tomava como a sua boneca, numa fúria arrancou‐lhe e lançou‐a ao lume. Joana lançou‐se em socorro da Senhora e gritou para a mãe. A mãe ficou cheia de terror ao verificar que a filha falava, pela primeira vez, que a sua mão que a lançou ao lume ficou paralisada e que a imagem não foi beliscada pelo lume. Mãe e filha lançaram‐se, então, de joelhos diante da imagem e a paralisia da mão da mãe desapareceu.

O sucedido depressa se espalhou e organizou‐se uma procissão para levar a imagem para a igreja paroquial. Mas no dia seguinte a imagem desaparecera da igreja. Guiados por Joana foram à gruta e lá estava a imagem. Foi novamente reconduzida para a igreja duas vezes e sempre aparecia na gruta. Todos se convenceram, então, que era lá, na gruta, que a Senhora desejava estar. A notícia espalhava‐se célere e começaram as peregrinações, cada vez mais numerosas, dos povos circunvizinhos. As graças e os milagres multiplicaram‐se e o nome da Senhora da Lapa difundiu‐se ao longe e ao largo. Arranjou‐se a gruta em forma de capela e houve autorização para celebrar missa. Construiu‐se um barracão ao lado para atender o povo numeroso que se queria confessar.

Os jesuítas e o fomento da piedade Mariana, sob a invocação da Senhora da Lapa

A pedido dos Jesuítas, o rei D. Sebastião concedeu que se unisse, ao Colégio de Coimbra, a Abadia da Rua de S. Pelágio (ou Paio) de Caria de Jusão com as cinco igrejas anexas, confirmada por Breve do Papa Gregório XIII, em 1575. Disto resultou que a Companhia de Jesus ficou na posse do padroado da colegiada de S. Paio da Rua, incluindo o lugar da Lapa (na Paróquia de Quintela) e o direito de apresentação do cura de Quintela. Realmente, foi neste período, com a presença dos Jesuítas que cresceu extraordinariamente o movimento religioso da Lapa. As pregações, as confissões e a assistência gratuita fizeram crescer o número de peregrinos. A princípio deslocavam‐se dois padres de Coimbra, em período de maior concurso de peregrinos, depois quatro. Contudo, a organização do Santuário, encontrou no Pe. João Álvares, visitador dos Jesuítas portugueses, em 1610, um verdadeiro promotor, não apenas pela sua capacidade administrativa, mas pela sua sensibilidade artística, chamando os melhores construtores da região e pelo zelo de pastor, provendo às necessidades do culto e do acolhimento dos peregrinos. Mas coube a um sacerdote jesuíta, o Pe. António Cordeiro, realizar a obra do Santuário da Lapa, iniciando a construção do futuro colégio (1685) que abriria a docência, em 1714.

O culto da Senhora da Lapa difundiu‐se rapidamente, primeiro ao perto (Beiras, Douro, Trás‐os‐Montes, Minho) e depois ao longe (Portugal, Espanha, Brasil e Índia). A devoção teve particular incidência no Rio de Janeiro e S. Paulo. Os agraciados acrescentava o nome Lapa ao seu nome próprio e tornou‐se moda chamar também, às meninas, Maria da Lapa (como hoje acontece com Maria do Conceição, Maria da Graça ou Maria do Sameiro, Maria de Lurdes, Maria de Fátima, etc.), nomenclaturas místicas ou topográficas.  

O missionário brasileiro Pe. Ângelo Ribeiro de Sequeira, natural de S. Paulo (Brasil) teve um papel importante na difusão do culto à Senhora da Lapa, sobretudo no norte de Portugal. Curiosamente, será este sacerdote brasileiro que terá um papel mais significativo na difusão desta devoção e o estabelecimento das diversas Lapas no mapa de Portugal. Embarcado em Santos, chegaria a Lisboa e aí publicaria a sua obra “Botica preciosa e tesouro precioso da Lapa, em que, como em botica e tesouro se acham todos os remédios para o corpo, para a alma e para a vida. E uma receita da vocação dos Santos para remédio de todas as enfermidades, e vários remédios e milagres de N. S. da Lapa, e muitas novenas, devoções e avisos importantes para os pães de família”, dedicada ao rei D. José I, impressa em Lisboa no ano de 1754. Para além de uma intensa pregação, a que acorria muita gente, continuou a publicar novas obras editadas na capital, em 1756 e 1758. A convite de D. Diogo de Sousa, o ilustre missionário aceitou visitar o Porto e entregar‐se à pregação, nas igrejas monásticas e paróquias do Porto e Gaia que o acolheram com entusiasmo e o apoiaram no voto de edificar uma grande igreja na cidade e difundir a devoção à Senhora da Lapa. Mandou esculpir uma imagem da Senhora da Lapa, que benzeu, em 1754 e foi posta em exposição à piedade dos fiéis, na igreja de Sta. Clara. Obteve do senado portuense a concessão do terreno do Padrão Velho, ao monte de Santo Ovídio, junto do quartel com o mesmo nome, para edificação de igreja votiva. Antes de regressar ao Brasil, onde morreria, no Rio de Janeiro e ficara sepultado na, por ele fundada, Igreja da Lapa do Desterro, em 1776, o Pe. Sequeira percorreu o norte do País e a Galiza, como apóstolo da Virgem da Lapa. Hoje, colhemos vestígios de uma grande devoção a esta invocação da Virgem, no nosso País, particularmente no Norte.

Fonte: Depto. de Bens Culturais