PESQUISAR TEMAS E ARQUIVOS DO BLOG

sexta-feira, 1 de maio de 2015

5º domingo da Páscoa


Lendo esse Evangelho, todo ele alegórico, isto é, uma comparação, uma espécie de grande parábola, me perguntei: o que João queria nos dizer? Que experiência nossa é mais próxima do que João fala? Parece um discurso meio confuso: videira, ramos. Estamos tão longe disso, de ficar podando árvores...

João conheceu Jesus, e esse é um ponto importante para o início de nossa reflexão. Ele conheceu Jesus com este corpo que nós temos. E foram poucos os que tiveram esse privilégio. Hoje somos mais ou menos cinco milhões de habitantes na Terra. Se somarmos todos os que já passaram por aqui, teremos milhões e milhões de seres humanos que já estiveram na Terra. E há outros milhões que ainda estarão. Desses, uma fração mínima, insignificante, conheceu o Jesus da carne. Foram poucos, e os que o conheceram – isto, o mais trágico – não o conheceram. Os que conviveram com Ele não se deram conta de quem era, mesmo estando a seu lado. Se a multidão que gritava na praça “crucifica-o”, soubesse quem Ele era, talvez a história fosse outra. Imaginemos nós, hoje, com todo o conhecimento que temos de Jesus, vendo-o na praça. Que susto levaríamos!

Pois bem, aqueles que estiveram ao seu lado e encostaram-se nele, tocaram-no, apertaram-no na multidão, não se deram conta de quem Ele era. Mas João, sim. Ele entendeu, de uma maneira muito profunda, que a relação com Jesus não era algo que pudesse terminar. Era alguma coisa íntima, e por isso buscou encontrar uma comparação. Ele sentia afeto por Jesus e sabia que a morte iria separá-los. Para a maioria que não tinha se dado conta de quem era Jesus, João diz que Ele era como uma videira, uma árvore. 

Reparem bem, uma árvore tem raízes, tronco, galhos e uma copa maravilhosa. Os dois extremos da árvore são duas experiências fundamentais que fazemos. A experiência de raiz, que é a do passado, da história. A experiência de resgatar tudo o que foi a nossa vida antepassada: família, cultura, civilização. Quanto mais raízes tivermos, mais poderemos sugar a terra, a seiva. E essa terra são os milhões de anos de história. Terra é cultura, é beleza, é experiência, é o enorme acúmulo do que os seres humanos fizeram. Tudo isso vai para a seiva. João percebeu que Jesus tinha uma raiz que ia para além da terra, ia até a Trindade Santíssima. De lá, Ele puxava vida e seiva. 

Árvore é tronco que liga a raiz com a copa. A copa olha para fora, para longe, para o horizonte. É o nosso sentido utópico, futuro, de construção. Mas só construiremos o futuro, se as nossas raízes estiverem fincadas na história, no passado. João percebeu isso. Só se fincarmos nossas raízes na experiência de Jesus, nas raízes do evangelho, da eucaristia, nas raízes dos que nos antecederam, na tradição da Igreja, na nossa tradição cultural, teremos seiva. Uma árvore sem raiz, ao primeiro vento, é derrubada. Uma árvore sem copa não respira, não capta, não faz fotossíntese, não pega luz, não descobre o futuro. Sem copa, somos somente passado. Sem raízes, somos muito superficiais, frívolos e vazios. [...] Quantos não têm raiz nenhuma, não sabem nada, e qualquer vento os derruba?!

João está-nos falando que, se não estivermos ancorados numa raiz profunda, se não sugarmos a seiva, seremos ramos secos, que a primeira faca corta, o primeiro fogo queima. Amém.

Pe. João Batista Libânio – Um outro olhar – vol. 8

Acompanhe também a reflexão de Frei Alvaci Mendes da Luz para este 5º domingo da Páscoa.