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domingo, 5 de abril de 2015

Domingo de Páscoa



Lc 24,13-35

Esta passagem é mais do que uma aparição de Jesus, é um uma belíssima parábola, história do que é a nossa vida de cristão. Parece-nos que Lucas está descrevendo um pouco a vida de muitos de nós. São experiências pelas quais todos nós passamos.

Primeiro, um encontro com Cristo, aquele entusiasmo, aquele seguimento, um grupo de jovens, jornada juvenil, TLC(*), aquele primeiro encontro, primeira comunhão, sacramento do Crisma. Depois – pretérito imperfeito - esperávamos que isso ia nos dar alegria. Não acontecendo, começamos a nos afastar de Jerusalém. Jerusalém é a Igreja, Jerusalém é a celebração da Eucaristia, Jerusalém é a catequese, Jerusalém são todas essas manifestações da nossa Igreja. Aí as pessoas vão para longe. Dezesseis quilômetros podem ser dezesseis mil quilômetros, como Agostinho diz: “Quando o coração está longe, você pode estar a um metro da pessoa, mas você está muito distante!”. Quantos esposos dormem, às vezes na mesma cama, e estão longe um do outro, mesmo sem distância física, porque o amor já não existe.

Então esses dois discípulos que tinham-se entusiasmado por Jesus, de repente, desanimaram. Desanimaram por quê? Porque viram o descrédito, o fracasso na morte de Jesus, o desânimo nas pessoas, os apóstolos com medo, como se nada fosse para frente, que não adiantava fazer nada. E refletiam: é melhor irmos embora, é melhor irmos para Emaús. Para qualquer outro lugar tranqüilo gozar a vida. Levar um sonzinho para Serra do Cipó, a sua cervejinha e deixar Jerusalém lá atrás. Jerusalém, pra quê? Emaús é muito mais gostoso. Emaús é muito melhor, Emaús é muito mais atraente. Lá teremos tranquilidade e paz. Às vezes a Eucaristia é pesada, a gente precisa fazer esforço. Jerusalém cansa a gente. Emaús, não. Emaús é só tranqüilidade.

Só que Jesus é muito esperto. Quando viu que eles iam para Emaús, colocou-se ao lado deles. Mas eles não O reconhecem. É isso que acontece, porque Jesus nunca abandona ninguém. Aqui foram uns quilômetros, há pessoas que têm quilômetros de vida – dez, quinze, vinte anos ao lado de Jesus e não O reconhecem. Ele está ao lado batalhando, tocando, provocando, falando e a pessoa indiferente, caminhando para Emaús. A Emaús do prazer, do dinheiro, do trabalho, do afã do cotidiano e Ele ali, ao lado, lendo e explicando as Escrituras, tentando ensinar-lhes o sentido da vida. Mas eles estavam cegos. Olhem que metáfora belíssima! Cegos, os discípulos não viam nada; ouviam, mas não viam. Muita gente não vê, mas as palavras são ouvidas, mesmo que não tenham sentido. Sentiam alguma coisa, pois seus corações ardiam, mas não sabiam o que era..

Mas há um momento mais importante da parábola. É aquele momento em que Jesus finge - olhem bem – finge que vai, mas volta. Essa é a hora crucial da nossa vida. Quando Ele tenta afastar-se de nós, é a horas de dizermos a Ele: “Senhor, fica, porque faz noite no meu coração! Faz noite, estou desanimado, eu não vejo sentido’. Olhem que símbolo bonito: faz noite! Fica comigo, porque faz noite! Se eu chegar e dizer isto, eu já dei o primeiro passo para a salvação. Mas se eu não o disser, achar que a noite é bonita, que a noite é estrelada, que eu não preciso Dele, aí acaba.

Os discípulos teriam ficado em Emaús até a morte. Mas eles convidaram: “Senhor, permanecei conosco. Fica conosco, porque a noite está chegando”. O Senhor ficou. E quando Ele se  manifestou? Quando é que os discípulos O reconheceram? Ele falou e fez um grande milagre? Não! Ele fez aquele gesto cotidiano, o gesto de pegar e partir o pão. Na hora em que Ele partiu o pão, eles recordaram. -‘Foi Ele, é Ele!’ Aquele mesmo gesto que Jesus repetiu ao longo de toda a vida.

Aí está a importância dessa passagem. As experiências positivas vividas na infância, na adolescência - mesmo quando se perdem na idade adulta. Se recordarem um dia do pão repartido, se recordarem um dia das experiências passadas, se tiverem alguma coisa lá no passado que valha, aí voltarão para Jesus e encontrarão os apóstolos, encontrarão  a comunidade.

É ou não é a parábola da nossa vida? Amém.

(*)movimento de juventude da década de 70.

Pe. João Batista Libânio, sj - Um outro olhar, vol. 1

Veja a reflexão de Frei Gustavo Medella para este Domingo de Páscoa