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sexta-feira, 24 de abril de 2015

4º domingo da Páscoa


O cuidado começa pelo olhar (Jo 10, 27-30)

Muitas vezes nos preocupamos por sabermos tão pouco da infância e adolescência de Jesus. Gostaríamos de ter sabido mais, mas se tivermos um olhar mais profundo para o evangelho, descobriremos muita coisa que a criança, o adolescente, o jovem Jesus viveu. Creio que o texto de hoje revela isso. Antigamente, julgávamos e acreditávamos que Jesus tinha sido muito mais um artesão, por ser filho de um carpinteiro, mas hoje as pesquisas avançam noutra direção. Ele foi muito mais um camponês, portanto, alguém que trabalhou no campo e, sobretudo, com ovelhas e lavoura. Parece ser uma vertente bem mais histórica, que vai transparecer em várias de suas metáforas e parábolas, nas quais falará de semente, trigo, joio e plantação. Tudo isso deveria constituir o seu mundo.

É muito provável que o menino, o adolescente Jesus tenha experimentado isso, de uma maneira até surpreendente, pois quando falava, as ovelhas vinham, reconheciam-lhe a voz – “as ovelhas conhecem a minha voz”. Com o seu olhar de criança, Ele também as conhecia e era capaz de dar um nome a cada uma delas, como as nossas crianças chamam os seus animaizinhos. Jesus as chamava, elas escutavam e, provavelmente, Ele terá experimentado uma terceira coisa. Não vivia numa cidade como a nossa: bem protegida, com vários carros de polícia, onde todos podem dormir com as janelas e portas abertas, pois não há perigo nenhum. Na sua época, Nazaré era roça, cidade pequena, onde os redis ficavam um pouco afastados. Havia lobos, cães selvagens e, ainda pequeno, pôde ouvir o uivar dessas feras, tendo que afugentá-las com o bastão – “eu defendo as minhas ovelhas. Ninguém as arranca de mim”. Evidentemente, terá defendido as suas ovelhas.

Esse Menino cresceu, mas essa imagem ficou no mais profundo de seu inconsciente, de sua memória afetiva. Tornou-se um andarilho e escolheu um lugar muito bonito para viver. Quem for à Palestina, poderá ver aquele maravilhoso lago de Genesaré, ao redor do qual Jesus passou grande parte de sua vida e conheceu outro tipo de gente, que também o influenciará. Verá pescadores, redes, peixes, que também farão parte de sua linguagem, enriquecendo o seu mundo metafórico. Um belo dia, já adulto, olhou para aquela multidão e começou a perceber, como também eu olhando para você percebo aqueles que escutam e os que não escutam. É bonito quando a nossa memória se volta para as nossas experiências vividas! Jesus falava e percebia que algumas pessoas escutavam, tinham o olhar fixo nele. Daí, começou a reconhecê-las. Algumas pelo próprio nome, como Tiago, João, Pedro, Maria de Magdala, Maria de Joana, Marta, Lázaro. Conhecia e ia chamando. Quando algum grupo adversário, talvez os fariseus, os zelotas ou saduceus, queriam arrancar-lhe os discípulos, Ele os defendia – eram as suas ovelhas, das quais sabia das alegrias e tristezas, conhecia a voz e os sonhos. As ovelhas o reconheciam. Esse verbo, em português, tem um significado muito bonito: significa que voltamos sobre uma experiência e a refazemos. O re quer dizer que fazemos de novo, começamos de novo, conhecemos de novo. Como é importante que vocês, jovens, usem esses verbos: reúnam, recomecem, refaçam, reconheçam! Mais bonito ainda é que as ovelhas o seguem e criam um vínculo que ninguém pode arrancar. É o que vemos nas verdadeiras famílias, nos verdadeiros matrimônios. Ninguém nada arranca, quando o vínculo é forte. Estando vinculados a Jesus, estaremos ligados ao Pai, pois Ele e o Pai são um. Como é bom saber que Deus, em sua infinitude, se vincula a cada um de nós, e ninguém consegue nos arrancar dele!
Jesus experimentou e vivenciou tudo isso, talvez numa hora muito dolorosa, quando, no término de sua vida, parece que todas as ovelhas escaparam-lhe das mãos, menos as mulheres, menos Maria de Magdala, que estava ao seu lado na cruz, junto com outras e apenas um discípulo. São elas que ouviram a sua palavra até o último instante. Ele morre, e termina tudo. Teria realmente terminado tudo, como aconteceu com tantos que encabeçavam movimentos naquela época: morreram, e tudo acabou? 

Mas no caso de Jesus teria que ser diferente. Parece que a sua conversa sobre as ovelhas avançou e, pouco a pouco, os apóstolos foram acordando, despertando, percebendo situações, criando coragem, as mulheres insuflando-os. Talvez nunca pudéssemos imaginar que os apóstolos foram acordados para a ressurreição por uma mulher. Foi Maria de Magdala que disse para Pedro, e ele acreditou. Foi ela que arrancou o medo dos apóstolos para, pouco a pouco, perceberem que também eles eram pastores, até escreverem isso que lemos agora. 

Todos aqueles pastores morreram, e só estamos nós aqui. E quem são os pastores hoje? O bispo, o padre, sim, mas não só eles. Talvez mais pastores seja cada um de vocês, e vou dizer por quê. O pastor é aquele que cuida das ovelhas. Reparem no verbo: cuidar. Se soubéssemos como ele está sendo estudado, aprofundado pela ética do cuidado... Sei que aqui há universitários, pessoas letradas que deveriam estudar um pouquinho essa ética, uma das áreas mais avançadas atualmente. Começamos a perceber que a humanidade vive tanta dificuldade e violência, porque as relações humanas estão deterioradas, o tecido humano está se esgarçando. Não é só pobreza material, não é só porque as pessoas moram nas favelas. Há também jovens de classe média cometendo crimes, porque as relações humanas estão esgarçadas, rasgadas, estraçalhadas, porque não há cuidado. Espantamos as crianças nas ruas como se fossem hansenianos, aidéticos. Como não cuidamos nem olhamos para essas crianças, como não são cobertas de carinho pelo olhar, amanhã poderão portar um revólver para nos matar. Matam, porque ninguém as olha, ninguém cuida delas, ninguém as ama, ninguém as cobre com pelo menos um olhar de ternura. Elas não querem apenas dinheiro. O que esperam é o olhar.

Conheço uma psicóloga que, quando entra numa creche, tem o seu colo disputado. As crianças querem momentos de colo daquela mulher, porque não tiveram o colo de uma mãe. Quando encontram uma mulher de coração aberto, carinhosa, se mostram sedentas, porque nunca foram cuidadas. Porque trazem o coração rasgado, as pessoas se tornam violentas. O bom pastor é o que ouve, escuta, conhece, cuida. E o primeiro movimento do cuidado é o olhar. Não somos cegos, mas responsáveis pelos dois olhos que temos. Ao invés de olhar coisas pornográficas nas internets, ao invés de varar as noites nesses sites que só estragam a nossa fantasia, por que não olhamos para as crianças sofridas, para os meninos de rua, os mendigos, os bêbados, as prostitutas? Não um olhar de curiosidade para devorá-los, mas para dizer-lhes que são seres humanos e merecem a dignidade do nosso olhar. O maior desprezo que existe não é xingar, pois quando xingamos, é sinal de que o outro existe. Muitas pessoas gostam de serem xingadas, porque acordam a raiva do outro. A pior realidade humana é a indiferença, o desprezo, o não olhar. É como se o outro não existisse, fosse nada. Se eu xingo, é sinal de que ele é alguma coisa, mas considerar alguém nada é levá-lo à posição mais baixa que pode existir, porque não se cuida, não se olha, não se ama, não se cultiva.
Assim, esse bom pastor cuidará de suas ovelhas. Não esperem o bispo, não esperem os padres. Vocês dispõem do que Deus lhes deu: o olhar. Que nos olhemos e cubramos as pessoas com o nosso carinho. Aí sim, construiremos uma sociedade humana. Amém. 

Pe. João Batista Libânio, sj - Um outro olhar, vol 8.

Acompanhe também a reflexão de Frei Alvaci Mendes da Luz para este 4º domingo da Páscoa: