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quinta-feira, 30 de abril de 2015

Papa Francisco fala sobre matrimônio em Audiência Geral


Prezados irmãos e irmãs, bom dia!

Depois de ter considerado as duas narrações do Livro do Gênesis, agora a nossa reflexão acerca do desígnio originário de Deus sobre o casal homem-mulher dirige-se diretamente a Jesus.

No início do seu Evangelho, o evangelista João narra o episódio das bodas de Caná, nas quais estavam presentes a Virgem Maria e Jesus, com os seus primeiros discípulos (cf. Jo 2, 1-11). Jesus não só participou naquele matrimônio, mas «salvou a festa» com o milagre do vinho! Portanto, Ele realizou o primeiro dos seus sinais prodigiosos, com o qual revela a sua glória, no contexto de um casamento, e foi um gesto de grande simpatia por aquela família nascente, solicitado pelos cuidados maternos de Maria. Isto faz-nos recordar o livro do Gênesis, quando Deus conclui a obra de criação e faz a sua obra-prima; a sua obra-prima é o homem e a mulher. E aqui Jesus começa os seus milagres, precisamente com esta obra-prima, num casamento, numa festa de núpcias: um homem e uma mulher. Assim, ensina que a obra-prima da sociedade é a família: o homem e a mulher que se amam. Esta é a obra-prima!

Desde a época das bodas de Caná muitas coisas mudaram, mas aquele «sinal» de Cristo contém uma mensagem sempre válida.

Hoje não parece fácil falar do matrimônio como de uma festa que se renova no tempo, nas várias fases da vida inteira dos cônjuges. É uma realidade que as pessoas se casam cada vez menos; é real: os jovens não querem casar. Por outro lado, em muitos países aumenta o número de separações, e diminui o número de filhos. A dificuldade de permanecer unidos — quer como casal, quer como família — leva a interromper os vínculos com frequência e rapidez cada vez maiores, e são precisamente os filhos os primeiros a sofrer as consequências. Mas devemos pensar nisto, as primeiras vítimas, as vítimas mais importantes, as vítimas que mais padecem numa separação são os filhos. Se alguém experimenta desde a infância que o matrimônio é um vínculo «temporário», inconscientemente para esta pessoa será assim. Com efeito, muitos jovens são impelidos a renunciar ao próprio programa de um vínculo irrevogável e de uma família duradoura. Acho que devemos meditar com grande seriedade sobre o motivo pelo qual tantos jovens «não estão dispostos» a casar. Existe uma cultura do provisório... tudo é provisório, parece que não existe algo definitivo.

Uma das preocupações que sobressaem nos dias de hoje é a dos jovens que não querem casar: por que razão os jovens não se casam? Por que motivo, muitas vezes, preferem uma convivência, «com uma responsabilidade limitada»? Por que muitos — inclusive entre os baptizados — têm pouca confiança no matrimônio e na família? É importante procurarmos compreender, se quisermos que os jovens encontrem o caminho recto para seguir. Por que razão não têm confiança na família?

As dificuldades não são apenas de natureza econômica, embora elas sejam verdadeiramente sérias. Muitos julgam que a mudança ocorrida nestas últimas décadas foi causada pela emancipação da mulher. Mas nem sequer este argumento é válido, é falso, não é verdade! Trata-se de uma forma de machismo, que quer sempre dominar a mulher. Nós fazemos a má figura que fez Adão, quando Deus lhe disse: «Por que motivo comeste o fruto da árvore», e ele retorquiu: «Foi a mulher que mo deu». E a culpa é da mulher. Coitada da mulher! Devemos defender as mulheres! Na realidade, quase todos os homens e mulheres gostariam de ter uma segurança afetiva estável, um matrimônio sólido e uma família feliz. A família ocupa o primeiro lugar em todos os índices de agradabilidade entre os jovens; contudo, pelo receio de errar, muitos nem sequer desejam pensar nisto; não obstante sejam cristãos, não pensam no matrimônio sacramental, sinal singular e irrepetível da aliança, que se torna testemunho de fé. Talvez precisamente este medo de fracassar seja o maior obstáculo para receber a palavra de Cristo, que promete a sua graça à união conjugal e à família.

O testemunho mais persuasivo da bênção do matrimônio cristão é a vida boa dos esposos cristãos e da família. Não há modo melhor para transmitir a beleza do Sacramento! O matrimônio consagrado por Deus preserva o vínculo entre o homem e a mulher que Deus abençoou desde a criação do mundo; e é manancial de paz e de bem para toda a vida conjugal e familiar. Por exemplo, nos primeiros tempos do Cristianismo, esta grande dignidade do vínculo entre o homem e a mulher debelou um abuso então considerado totalmente normal, ou seja, o direito que os maridos tinham de repudiar as esposas, até pelos motivos mais pretensiosos e humilhantes. O Evangelho da família, o Evangelho que anuncia precisamente este Sacramento derrotou a cultura do repúdio habitual.

Hoje, a semente cristã da igualdade radical entre os cônjuges deve dar novos frutos. O testemunho da dignidade social do matrimônio tornar-se-á persuasivo precisamente deste modo, pela via do testemunho que atrai, pela senda da reciprocidade e da complementaridade entre si.

Por isso, como cristãos, devemos tornar-nos mais exigentes a este propósito. Por exemplo: defender com determinação o direito à igual remuneração por um trabalho igual; por que razão se dá por certo que as mulheres devem ganhar menos do que os homens? Não! Têm os mesmos direitos! A desigualdade é um puro escândalo! Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer como riqueza sempre válida a maternidade das mulheres e a paternidade dos homens, sobretudo em benefício dos filhos. De igual modo, hoje em dia a virtude da hospitalidade das famílias cristãs tem uma importância crucial, especialmente em situações de pobreza, de degradação e de violência familiar.

Caros irmãos e irmãs, não tenhamos medo de convidar Jesus para as bodas, de o convidar para vir à nossa casa, a fim de permanecer ao nosso lado e preservar a família. E não tenhamos receio de convidar também a sua Mãe Maria! Quando se casam «no Senhor», os cristãos são transformados num sinal eficaz do amor de Deus. Os cristãos não se casam exclusivamente para si mesmos: casam no Senhor, a favor de toda a comunidade, da sociedade inteira.

Também na próxima catequese falarei sobre esta bonita vocação do matrimônio cristão.

Fonte: Site do Vaticano

quarta-feira, 29 de abril de 2015

29 de abril: Santa Catarina de Sena


Catarina era apenas uma irmã leiga da Ordem Terceira Dominicana. Mesmo analfabeta, talvez tenha sido a figura feminina mais impressionante do cristianismo do segundo milênio. Nasceu em 25 de março de 1347, em Sena, na Itália. Seus pais eram muito pobres e ela era uma dos vinte e cinco filhos do casal. Fica fácil imaginar a infância conturbada que Catarina teve. Além de não poder estudar, cresceu franzina, fraca e viveu sempre doente. Mas, mesmo que não fosse assim tão debilitada, certamente a sua missão apostólica a teria fragilizado. Carregava no corpo os estigmas da Paixão de Cristo.
Desejando seguir o caminho da perfeição, aos sete anos de idade consagrou sua virgindade a Deus. Tinha visões durante as orações contemplativas e fazia rigorosas penitências, mesmo contra a oposição familiar. Aos quinze anos, Catarina ingressou na Ordem Terceira de São Domingos. Durante as orações contemplativas, envolvia-se em êxtase, de tal forma que só esse fato possibilitou que convertesse centenas de almas durante a juventude. Já adulta e atuante, começou por ditar cartas ao povo, orientando suas atitudes, convocando para a caridade, o entendimento e a paz. Foi então que enfrentou a primeira dificuldade que muitos achariam impossível de ser vencida: o cisma católico. Dois papas disputavam o trono de Pedro, dividindo a Igreja e fazendo sofrer a população católica em todo o mundo. Ela viajou por toda a Itália e outros países, ditou cartas a reis, príncipes e governantes católicos, cardeais e bispos, e conseguiu que o papa legítimo, Urbano VI, retomasse sua posição e voltasse para Roma. Fazia setenta anos que o papado estava em Avignon e não em Roma, e a Cúria sofria influências francesas. Outra dificuldade, intransponível para muitos, que enfrentou serenamente e com firmeza, foi a peste, que matou pelo menos um terço da população européia. Ela tanto lutou pelos doentes, tantos curou com as próprias mãos e orações, que converteu mais algumas centenas de pagãos. Suas atitudes não deixaram de causar perplexidade em seus contemporâneos. Estava à frente, muitos séculos, dos padrões de sua época, quando a participação da mulher na Igreja era quase nula ou inexistente. Em meio a tudo isso, deixou obras literárias ditadas e editadas de alto valor histórico, místico e religioso, como o livro "Diálogo sobre a Divina Providência", lido, estudado e respeitado até hoje. Catarina de Sena morreu no dia 29 de abril de 1380, após sofrer um derrame aos trinta e três anos de idade. Sua cabeça está em Sena, onde se mantém sua casa, e seu corpo está em Roma, na Igreja de Santa Maria Sopra Minerva. Foi declarada "doutora da Igreja" pelo papa Paulo VI em 1970. Fonte: Paulinas

Abraça Jesus crucificado, amante e amado (Das Cartas de Santa Catarina de Sena)

"Querida irmã em Jesus. Eu, Catarina, serva dos servos de Jesus, escrevo-te no seu precioso sangue, desejosa que te alimentes do amor de Deus e que dele te nutras, como do seio de uma doce mãe. Ninguém, de facto, pode viver sem este leite!

Quem possui o amor de Deus, nele encontra tanta alegria que cada amargura se transforma em doçura e cada grande peso se torna leve. E isto não nos deve surpreender porque, vivendo na caridade, vive-se em Deus:

“Deus é amor; quem permanece no amor habita em Deus e Deus habita nele”.

Vivendo em Deus, por conseguinte, não se pode ter amargura alguma porque Deus é delícia, doçura e alegria infinita!

É esta a razão pela qual os amigos de Deus são sempre felizes! Mesmo se doentes, necessitados, aflitos, atribulados, perseguidos, nós estamos alegres.

Mesmo quando todas as línguas caluniosas nos metessem em má luz, não nos preocuparemos, mas nos alegraremos com tudo porque vivemos em Deus, nosso repouso, e saboreamos o leite do seu amor. Como a criança suga o leite do seio da mãe assim nós, inamorados de Deus, atingimos o amor de Jesus Crucificado, seguindo sempre as suas pegadas e caminhando com ele pelo caminho das humilhações, das penas e das injúrias.

Não procuramos a alegria se não em Jesus e fugimos de toda a glória que não seja aquela da cruz.

Abraça, portanto, Jesus Crucificado elevando a ele o olhar do teu desejo! Toma em consideração o seu amor ardente por ti, que levou Jesus a derramar sangue de todas as partes do seu corpo!

Abraça Jesus Crucificado, amante e amado e nele encontrarás a verdadeira vida, porque ele é Deus que se fez homem. Que o teu coração e a tua alma ardam pelo fogo do amor do qual foi coberto Jesus cravado na cruz!

Tu deves, portanto, tornar-te amor, olhando para o amor de Deus, que tanto te amou, não porque te devesse obrigação alguma, mas por um puro dom, impelido somente pelo seu inefável amor.

Não terás outro desejo para além daquele de seguir Jesus! E, como que inebriada do Amor, não farás caso se te encontras só ou acompanhada: não te preocuparás com tantas coisas mas somente de encontrar Jesus e segui-lo!

Corre, Bartolomea, e não estejas a dormir, porque o tempo corre e não espera nem um momento!

Permanece no doce amor de Deus.

Doce Jesus, amor Jesus."

(Carta n.165 a Bartolomea, esposa de Salviato da Lucca)

terça-feira, 28 de abril de 2015

Romaria Franciscana é só agradecimentos!

Por Cristy Azevedo
Fotos: Cristy Azevedo e Vanda Cuxinier Gola

Na manhã do último domingo, dia 26 de abril, o grupo de romeiros e benfeitores do PVF (Pró-Vocações e Missões Franciscanas) se encontrou no Largo São Francisco para participar de mais uma Romaria Franciscana, intitulada"Dia com Maria e Frei Galvão". Assim, com um grupo de 46 pessoas, partimos em direção à casa da Mãe Aparecida, com as bênçãos de Frei Alexandre Rohling (Frei Xandão), que, junto com Lucas Vieira (PVF), acompanhou e conduziu o grupo.

Para espantar o sono dos romeiros, que acordaram bem cedo, alegremente Frei Xandão animou a todos com cantos e seu violão, seguido de momento de oração acompanhado pela imagem de Nossa Senhora Aparecida.

Guiado por Frei Xandão até a Basílica Nacional de Nossa Senhora Aparecida, o grupo visitou a imagem da Mãe Aparecida, a igreja, a Sala dos Milagres e faz seus agradecimentos e pedidos, por intercessão de Nossa Senhora.
Em seguida, os romeiros partiram para o Seminário Franciscano Frei Galvão, em Guarantinguetá, onde foram acolhidos por Frei Jorge Lázaro, Frei Soneca (Frei Airton) e postulantes franciscanos. Após o delicioso almoço no seminário, pudemos visitar os espaços da bela casa de formação, os jardins, as exposições de presépios e de imagens de São Francisco. A todos, e especialmente aos que visitavam o Seminário pela primeira vez, neste belíssimo dia de sol, a paisagem certamente encheu os olhos e a acolhida preencheu o coração. Encerramos a visita com a participação na Santa Missa presidida por Frei Claudino Dalmago.

No finalzinho da tarde, ainda em Guaratinguetá, visitamos a Catedral Santo Antônio, onde Frei Galvão foi batizado e fez sua Primeira Comunhão, bem como a casa onde o santo franciscano, Antonio de Santa'Ana Galvão, que recebeu do Papa João Paulo II o título de "Homem da Paz e da Caridade", nasceu e passou a infância.

Com um tranquilo retorno a São Paulo, encerramos este abençoado dia de romaria, repleto de motivos para agradecer, especialmente a Frei Xandão, ao Lucas e equipe do Pró-Vocações e Missões Franciscanas (PVF), à fraternidade do Seminário Frei Galvão, funcionários e postulantes franciscanos, que nos proporcionaram e contribuíram para este maravilhoso dia que passamos, e, agora, levamos a missão que Frei Soneca recordou na bênção de despedida: que saibamos ofertar às outras pessoas aquilo que recebemos neste dia tão abençoado. Que assim seja! Paz e Bem!






sábado, 25 de abril de 2015

52º Dia Mundial de Oração pelas Vocações


"O êxodo, experiência fundamental da vocação"

Amados irmãos e irmãs!

O IV Domingo de Páscoa apresenta-nos o ícone do Bom Pastor, que conhece as suas ovelhas, chama-as, alimenta-as e condu-las. Há mais de 50 anos que, neste domingo, vivemos o Dia Mundial de Oração pelas Vocações. Este dia sempre nos lembra a importância de rezar para que o «dono da messe – como disse Jesus aos seus discípulos – mande trabalhadores para a sua messe» (Lc 10, 2). Jesus dá esta ordem no contexto dum envio missionário: além dos doze apóstolos, Ele chamou mais setenta e dois discípulos, enviando-os em missão dois a dois (cf. Lc 10,1-16). Com efeito, se a Igreja «é, por sua natureza, missionária» (Conc. Ecum. Vat. II., Decr. Ad gentes, 2), a vocação cristã só pode nascer dentro duma experiência de missão. Assim, ouvir e seguir a voz de Cristo Bom Pastor, deixando-se atrair e conduzir por Ele e consagrando-Lhe a própria vida, significa permitir que o Espírito Santo nos introduza neste dinamismo missionário, suscitando em nós o desejo e a coragem jubilosa de oferecer a nossa vida e gastá-la pela causa do Reino de Deus.

A oferta da própria vida nesta atitude missionária só é possível se formos capazes de sair de nós mesmos. Por isso, neste 52º Dia Mundial de Oração pelas Vocações, gostaria de refletir precisamente sobre um «êxodo» muito particular que é a vocação ou, melhor, a nossa resposta à vocação que Deus nos dá. Quando ouvimos a palavra «êxodo», ao nosso pensamento acodem imediatamente os inícios da maravilhosa história de amor entre Deus e o povo dos seus filhos, uma história que passa através dos dias dramáticos da escravidão no Egito, a vocação de Moisés, a libertação e o caminho para a Terra Prometida. O segundo livro da Bíblia – o Êxodo – que narra esta história constitui uma parábola de toda a história da salvação e também da dinâmica fundamental da fé cristã. Na verdade, passar da escravidão do homem velho à vida nova em Cristo é a obra redentora que se realiza em nós por meio da fé (Ef 4, 22-24). Esta passagem é um real e verdadeiro «êxodo», é o caminho da alma cristã e da Igreja inteira, a orientação decisiva da existência para o Pai.

Na raiz de cada vocação cristã, há este movimento fundamental da experiência de fé: crer significa deixar-se a si mesmo, sair da comodidade e rigidez do próprio eu para centrar a nossa vida em Jesus Cristo; abandonar como Abraão a própria terra pondo-se confiadamente a caminho, sabendo que Deus indicará a estrada para a nova terra. Esta «saída» não deve ser entendida como um desprezo da própria vida, do próprio sentir, da própria humanidade; pelo contrário, quem se põe a caminho no seguimento de Cristo encontra a vida em abundância, colocando tudo de si à disposição de Deus e do seu Reino. Como diz Jesus, «todo aquele que tiver deixado casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos ou campos por causa do meu nome, receberá cem vezes mais e terá por herança a vida eterna» (Mt 19, 29). Tudo isto tem a sua raiz mais profunda no amor. De facto, a vocação cristã é, antes de mais nada, uma chamada de amor que atrai e reenvia para além de si mesmo, descentraliza a pessoa, provoca um «êxodo permanente do eu fechado em si mesmo para a sua libertação no dom de si e, precisamente dessa forma, para o reencontro de si mesmo, mais ainda para a descoberta de Deus» (Bento XVI, Carta enc. Deus caritas est, 6).

A experiência do êxodo é paradigma da vida cristã, particularmente de quem abraça uma vocação de especial dedicação ao serviço do Evangelho. Consiste numa atitude sempre renovada de conversão e transformação, em permanecer sempre em caminho, em passar da morte à vida, como celebramos em toda a liturgia: é o dinamismo pascal. Fundamentalmente, desde a chamada de Abraão até à de Moisés, desde o caminho de Israel peregrino no deserto até à conversão pregada pelos profetas, até à viagem missionária de Jesus que culmina na sua morte e ressurreição, a vocação é sempre aquela ação de Deus que nos faz sair da nossa situação inicial, nos liberta de todas as formas de escravidão, nos arranca da rotina e da indiferença e nos projeta para a alegria da comunhão com Deus e com os irmãos. Por isso, responder à chamada de Deus é deixar que Ele nos faça sair da nossa falsa estabilidade para nos pormos a caminho rumo a Jesus Cristo, meta primeira e última da nossa vida e da nossa felicidade.

Esta dinâmica do êxodo diz respeito não só à pessoa chamada, mas também à atividade missionária e evangelizadora da Igreja inteira. Esta é verdadeiramente fiel ao seu Mestre na medida em que é uma Igreja «em saída», não preocupada consigo mesma, com as suas próprias estruturas e conquistas, mas sim capaz de ir, de se mover, de encontrar os filhos de Deus na sua situação real e compadecer-se das suas feridas. Deus sai de Si mesmo numa dinâmica trinitária de amor, dá-Se conta da miséria do seu povo e intervém para o libertar (Ex 3, 7). A este modo de ser e de agir, é chamada também a Igreja: a Igreja que evangeliza sai ao encontro do homem, anuncia a palavra libertadora do Evangelho, cuida as feridas das almas e dos corpos com a graça de Deus, levanta os pobres e os necessitados.

Amados irmãos e irmãs, este êxodo libertador rumo a Cristo e aos irmãos constitui também o caminho para a plena compreensão do homem e para o crescimento humano e social na história. Ouvir e receber a chamada do Senhor não é uma questão privada e intimista que se possa confundir com a emoção do momento; é um compromisso concreto, real e total que abraça a nossa existência e a põe ao serviço da construção do Reino de Deus na terra. Por isso, a vocação cristã, radicada na contemplação do coração do Pai, impele simultaneamente para o compromisso solidário a favor da libertação dos irmãos, sobretudo dos mais pobres. O discípulo de Jesus tem o coração aberto ao seu horizonte sem fim, e a sua intimidade com o Senhor nunca é uma fuga da vida e do mundo, mas, pelo contrário, «reveste essencialmente a forma de comunhão missionária» (Exort. ap. Evangelii gaudium, 23).

Esta dinâmica de êxodo rumo a Deus e ao homem enche a vida de alegria e significado. Gostaria de o dizer sobretudo aos mais jovens que, inclusive pela sua idade e a visão do futuro que se abre diante dos seus olhos, sabem ser disponíveis e generosos. Às vezes, as incógnitas e preocupações pelo futuro e a incerteza que afeta o dia-a-dia encerram o risco de paralisar estes seus impulsos, refrear os seus sonhos, a ponto de pensar que não vale a pena comprometer-se e que o Deus da fé cristã limita a sua liberdade. Ao invés, queridos jovens, não haja em vós o medo de sair de vós mesmos e de vos pôr a caminho! O Evangelho é a Palavra que liberta, transforma e torna mais bela a nossa vida. Como é bom deixar-se surpreender pela chamada de Deus, acolher a sua Palavra, pôr os passos da vossa vida nas pegadas de Jesus, na adoração do mistério divino e na generosa dedicação aos outros! A vossa vida tornar-se-á cada dia mais rica e feliz.

A Virgem Maria, modelo de toda a vocação, não teve medo de pronunciar o seu «fiat» à chamada do Senhor. Ela acompanha-nos e guia-nos. Com a generosa coragem da fé, Maria cantou a alegria de sair de Si mesma e confiar a Deus os seus planos de vida. A Ela nos dirigimos pedindo para estarmos plenamente disponíveis ao desígnio que Deus tem para cada um de nós; para crescer em nós o desejo de sair e caminhar, com solicitude, ao encontro dos outros (cf. Lc 1, 39). A Virgem Mãe nos proteja e interceda por todos nós.

Vaticano, 29 de Março – Domingo de Ramos – de 2015.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

4º domingo da Páscoa


O cuidado começa pelo olhar (Jo 10, 27-30)

Muitas vezes nos preocupamos por sabermos tão pouco da infância e adolescência de Jesus. Gostaríamos de ter sabido mais, mas se tivermos um olhar mais profundo para o evangelho, descobriremos muita coisa que a criança, o adolescente, o jovem Jesus viveu. Creio que o texto de hoje revela isso. Antigamente, julgávamos e acreditávamos que Jesus tinha sido muito mais um artesão, por ser filho de um carpinteiro, mas hoje as pesquisas avançam noutra direção. Ele foi muito mais um camponês, portanto, alguém que trabalhou no campo e, sobretudo, com ovelhas e lavoura. Parece ser uma vertente bem mais histórica, que vai transparecer em várias de suas metáforas e parábolas, nas quais falará de semente, trigo, joio e plantação. Tudo isso deveria constituir o seu mundo.

É muito provável que o menino, o adolescente Jesus tenha experimentado isso, de uma maneira até surpreendente, pois quando falava, as ovelhas vinham, reconheciam-lhe a voz – “as ovelhas conhecem a minha voz”. Com o seu olhar de criança, Ele também as conhecia e era capaz de dar um nome a cada uma delas, como as nossas crianças chamam os seus animaizinhos. Jesus as chamava, elas escutavam e, provavelmente, Ele terá experimentado uma terceira coisa. Não vivia numa cidade como a nossa: bem protegida, com vários carros de polícia, onde todos podem dormir com as janelas e portas abertas, pois não há perigo nenhum. Na sua época, Nazaré era roça, cidade pequena, onde os redis ficavam um pouco afastados. Havia lobos, cães selvagens e, ainda pequeno, pôde ouvir o uivar dessas feras, tendo que afugentá-las com o bastão – “eu defendo as minhas ovelhas. Ninguém as arranca de mim”. Evidentemente, terá defendido as suas ovelhas.

Esse Menino cresceu, mas essa imagem ficou no mais profundo de seu inconsciente, de sua memória afetiva. Tornou-se um andarilho e escolheu um lugar muito bonito para viver. Quem for à Palestina, poderá ver aquele maravilhoso lago de Genesaré, ao redor do qual Jesus passou grande parte de sua vida e conheceu outro tipo de gente, que também o influenciará. Verá pescadores, redes, peixes, que também farão parte de sua linguagem, enriquecendo o seu mundo metafórico. Um belo dia, já adulto, olhou para aquela multidão e começou a perceber, como também eu olhando para você percebo aqueles que escutam e os que não escutam. É bonito quando a nossa memória se volta para as nossas experiências vividas! Jesus falava e percebia que algumas pessoas escutavam, tinham o olhar fixo nele. Daí, começou a reconhecê-las. Algumas pelo próprio nome, como Tiago, João, Pedro, Maria de Magdala, Maria de Joana, Marta, Lázaro. Conhecia e ia chamando. Quando algum grupo adversário, talvez os fariseus, os zelotas ou saduceus, queriam arrancar-lhe os discípulos, Ele os defendia – eram as suas ovelhas, das quais sabia das alegrias e tristezas, conhecia a voz e os sonhos. As ovelhas o reconheciam. Esse verbo, em português, tem um significado muito bonito: significa que voltamos sobre uma experiência e a refazemos. O re quer dizer que fazemos de novo, começamos de novo, conhecemos de novo. Como é importante que vocês, jovens, usem esses verbos: reúnam, recomecem, refaçam, reconheçam! Mais bonito ainda é que as ovelhas o seguem e criam um vínculo que ninguém pode arrancar. É o que vemos nas verdadeiras famílias, nos verdadeiros matrimônios. Ninguém nada arranca, quando o vínculo é forte. Estando vinculados a Jesus, estaremos ligados ao Pai, pois Ele e o Pai são um. Como é bom saber que Deus, em sua infinitude, se vincula a cada um de nós, e ninguém consegue nos arrancar dele!
Jesus experimentou e vivenciou tudo isso, talvez numa hora muito dolorosa, quando, no término de sua vida, parece que todas as ovelhas escaparam-lhe das mãos, menos as mulheres, menos Maria de Magdala, que estava ao seu lado na cruz, junto com outras e apenas um discípulo. São elas que ouviram a sua palavra até o último instante. Ele morre, e termina tudo. Teria realmente terminado tudo, como aconteceu com tantos que encabeçavam movimentos naquela época: morreram, e tudo acabou? 

Mas no caso de Jesus teria que ser diferente. Parece que a sua conversa sobre as ovelhas avançou e, pouco a pouco, os apóstolos foram acordando, despertando, percebendo situações, criando coragem, as mulheres insuflando-os. Talvez nunca pudéssemos imaginar que os apóstolos foram acordados para a ressurreição por uma mulher. Foi Maria de Magdala que disse para Pedro, e ele acreditou. Foi ela que arrancou o medo dos apóstolos para, pouco a pouco, perceberem que também eles eram pastores, até escreverem isso que lemos agora. 

Todos aqueles pastores morreram, e só estamos nós aqui. E quem são os pastores hoje? O bispo, o padre, sim, mas não só eles. Talvez mais pastores seja cada um de vocês, e vou dizer por quê. O pastor é aquele que cuida das ovelhas. Reparem no verbo: cuidar. Se soubéssemos como ele está sendo estudado, aprofundado pela ética do cuidado... Sei que aqui há universitários, pessoas letradas que deveriam estudar um pouquinho essa ética, uma das áreas mais avançadas atualmente. Começamos a perceber que a humanidade vive tanta dificuldade e violência, porque as relações humanas estão deterioradas, o tecido humano está se esgarçando. Não é só pobreza material, não é só porque as pessoas moram nas favelas. Há também jovens de classe média cometendo crimes, porque as relações humanas estão esgarçadas, rasgadas, estraçalhadas, porque não há cuidado. Espantamos as crianças nas ruas como se fossem hansenianos, aidéticos. Como não cuidamos nem olhamos para essas crianças, como não são cobertas de carinho pelo olhar, amanhã poderão portar um revólver para nos matar. Matam, porque ninguém as olha, ninguém cuida delas, ninguém as ama, ninguém as cobre com pelo menos um olhar de ternura. Elas não querem apenas dinheiro. O que esperam é o olhar.

Conheço uma psicóloga que, quando entra numa creche, tem o seu colo disputado. As crianças querem momentos de colo daquela mulher, porque não tiveram o colo de uma mãe. Quando encontram uma mulher de coração aberto, carinhosa, se mostram sedentas, porque nunca foram cuidadas. Porque trazem o coração rasgado, as pessoas se tornam violentas. O bom pastor é o que ouve, escuta, conhece, cuida. E o primeiro movimento do cuidado é o olhar. Não somos cegos, mas responsáveis pelos dois olhos que temos. Ao invés de olhar coisas pornográficas nas internets, ao invés de varar as noites nesses sites que só estragam a nossa fantasia, por que não olhamos para as crianças sofridas, para os meninos de rua, os mendigos, os bêbados, as prostitutas? Não um olhar de curiosidade para devorá-los, mas para dizer-lhes que são seres humanos e merecem a dignidade do nosso olhar. O maior desprezo que existe não é xingar, pois quando xingamos, é sinal de que o outro existe. Muitas pessoas gostam de serem xingadas, porque acordam a raiva do outro. A pior realidade humana é a indiferença, o desprezo, o não olhar. É como se o outro não existisse, fosse nada. Se eu xingo, é sinal de que ele é alguma coisa, mas considerar alguém nada é levá-lo à posição mais baixa que pode existir, porque não se cuida, não se olha, não se ama, não se cultiva.
Assim, esse bom pastor cuidará de suas ovelhas. Não esperem o bispo, não esperem os padres. Vocês dispõem do que Deus lhes deu: o olhar. Que nos olhemos e cubramos as pessoas com o nosso carinho. Aí sim, construiremos uma sociedade humana. Amém. 

Pe. João Batista Libânio, sj - Um outro olhar, vol 8.

Acompanhe também a reflexão de Frei Alvaci Mendes da Luz para este 4º domingo da Páscoa:




4º DOMINGO DA PÁSCOA - CAMINHOS DO EVANGELHO

quinta-feira, 23 de abril de 2015

"Cristãos devem buscar curar as feridas nas relações", afirma Pontífice



Quarta-feira, 22 de abril, audiência geral na Praça de S. Pedro: o Papa Francisco apresentou mais uma catequese sobre a família desenvolvendo o segundo capítulo do Livro do Gênesis onde encontramos Adão que está sozinho. E isso não é bom – sublinhou o Santo Padre:

“E Deus viu que isto não era bom: é como uma ausência de comunhão, uma ausência de plenitude. “Não é bom” – disse Deus – e continua: “quero fazer-lhe uma ajuda que lhe corresponda”.”

Efetivamente, no Livro do Gênesis, lemos que inicialmente Adão, o primeiro homem, sentia-se sozinho, mesmo vivendo cercado de tantos animais. Querendo pôr remédio à sua solidão, Deus apresenta-lhe a mulher, que o homem acolhe exultante, como um ser igual. Com a imagem bíblica da costela de Adão, da qual Eva é plasmada por Deus, não se quer afirmar uma inferioridade da mulher – ela não é uma réplica do homem – mas expressa uma reciprocidade entre eles: possuem a mesma natureza e são complementares:
“osso dos meus ossos e carne da minha carne”

Contudo, por sugestão do maligno, os dois são tentados pelo delírio da omnipotência e desobedecem a Deus – afirmou o Papa Francisco. Este pecado rompe a harmonia que existia entre eles, gerando desconfiança, divisão, prepotência, machismo, instrumentalização do corpo feminino e a recusa a viver uma aliança, na diferença e na complementariedade, entre homem e mulher. Estas são as consequências da desarmonia – frisou o Papa.

No entanto, Deus não abandona o homem e a mulher após o pecado – sublinhou o Santo Padre. Assim, seguindo o exemplo de Deus, também os cristãos devem buscar curar as feridas nas relações e recuperar o valor do matrimônio e da família. 

Nas saudações em língua italiana o Papa Francisco recordou que hoje se celebra o Dia da Terra, e exortou os fiéis a cuidarem da criação e a conservarem a harmonia divina entre as criaturas e a criação:

“Hoje celebra-se o Dia da Terra. Exorto todos a verem o mundo com os olhos de Deus Criador: a terra é o ambiente a guardar e o jardim para cultivar. A relação dos homens com a natureza não seja guiada pela avidez, de manipular e de explorar, mas conserve a harmonia divina entre as criaturas e a criação, na lógica do respeito e do cuidado, para coloca-la ao serviço dos irmãos, mesmo das gerações futuras.”

O Papa Francisco a todos deu a sua benção. 

Fonte: Rádio Vaticano

quarta-feira, 22 de abril de 2015

22 de abril - Dia do Planeta Terra



O Dia da Terra foi criado por um senador americano chamado Gaylord Nelson. O dia surgiu após uma manifestação contra a poluição, em 1970. Mais de 20 milhões de pessoas aderiram ao protesto nos Estados Unidos.

Em 1990 o dia foi oficializado, como uma oportunidade de conscientizar as pessoas sobre a necessidade de uma mentalidade que valorize esta casa que moramos, e os recursos que a Terra nos oferece, e trabalhar na convervação ambiental.

Leia abaixo a palestra de Leonardo Boff durante a 63ª sessão da Assembléia Geral da ONU, em 22 de abril de 2009.

Senhoras e Senhores, representantes dos povos da Terra.

Desejo começar recordando a séria advertência feita pela Carta da Terra ainda no ano 2000: “Estamos num momento crítico da história da Terra, no qual a humanidade deve escolher o seu futuro…A nossa escolha é essa: ou formamos uma aliança global para cuidar da Terra e uns dos outros ou então arriscamos a nossa própria destruição e a da diversidade da vida”(Preâmbulo).

Se a atual crise econômico-financeira é preocupante, a crise da não-sustentabilidade da Terra, revelada no dia 23 de setembro de 2008, se apresenta ameaçadora. Os cientistas que estudam a pegada ecológica da Terra chegaram a usar a expressão The Earth Overshoot Day, quer dizer, o Dia da Ultrapassagem da Terra. Exatamente, neste dia 23 de setembro, foi constatado que a Terra ultrapassou em 30% sua capacidade de reposição dos recursos que necessitamos para viver. Agora precisamos mais de uma Terra para podermos  atender as demandas dos seres humanos e aqueles da comunidade de vida.  Mas até quando?

Cumpre garantir previamente a sustentabilidade da Terra, se quisermos fazer face aos aos problemas mundiais que nos afligem como a crise social mundial, a alimentária, a energética e a climática. Agora não dispomos de uma Arca de Noé que pode salvar alguns e deixa perecer a todos os demais. Ou nos salvamos todos ou pereceremos todos.

Neste contexto, recordemos as prudentes palavras do atual Secretário Geral da ONU, Ban-Ki Moon, num artigo mundialmente difundido, escrito em parceria com Al Gore: “não podemos deixar que o urgente comprometa o essencial”. O urgente é resolver o caos econômico e o essencial é garantir a continuidade das condições ecológicas da Terra para que possa nos oferecer tudo o que precisamos para viver.

Para reforçar esta nova centralidade que visa a salvar o essencial e a mostrar nosso amor a todos os humanos e à própria Terra é que se propõe à esta Assembléia Geral da ONU a resolução de celebrar  o dia 22 de abril não mais simplesmente como o Dia Internacional da Terra, mas como o Dia Internacional da Mãe Terra (International Mother Earth Day).

Se esta resolução for acolhida, como espero, aumentará em toda a Humanidade o cuidado, o respeito,  a cooperação, a compaixão e a responsabilidade face ao nosso Planeta e ao futuro do sistema-vida.

Não dispomos de muito tempo nem possuímos suficiente sabedoria acumulada. Por isso, temos que, juntos e rápidos, elaborar estratégias de sobrevivência coletiva.

Em nome da Terra, nossa Mãe, de seus filhos e filhas sofredores e de todos os demais membros da comunidade de vida ameaçados de extinção, vos suplico veementemente: aprovem esta resolução.

Para fundamentar esta aprovação me tomo a liberdade de apresentar-lhes, senhores e senhoras, representantes dos povos, algumas razões que nos concedem chamar a Terra de verdadeiramente nossa Mãe.

Antes de mais nada, falam os testemunhos mais ancestrais de todos os povos, do Oriente e do Ocidente e das principais religiões. Todos testemunham que a Terra sempre foi venerada como Grande Mãe, Terra Mater, Inana, Tonantzin e Pacha Mama.

Para os povos originários de ontem e de hoje, é constante a convicção de que a Terra é geradora de vida e por isso comparece como Mãe generosa e fecunda. Somente um ser vivo pode gerar vida em sua imensa diversidade, desde a miríade de seres microscópicos até os mais complexos. A Terra surge efetivamente  como a Eva universal.

Durante muitos séculos predominou esta visão, da Terra como Mãe, base de uma relação de respeito e de veneração para com ela. Mas irromperam os tempos modernos com os mestres fundadores do saber científico, Newton, Descartes e Francis Bacon, entre outros. Estes inauguraram uma outra leitura da Terra. Ela não é mais vista como uma entidade viva, mas apenas como uma realidade extensa (res extensa), sem vida e sem propósito. Por isso, ela vem entregue à exploração de seus bens e serviços por parte dos seres humanos em busca de riqueza e de bem estar. Ousadamente afirmou alguém: para conhecer suas leis devemos submetê-la a torturas como o inquisidor faz com o seu inquirido até que  entregue todos os seus segredos.

A Terra-mãe que devia ser respeitada, se transformou em Terra selvagem a ser dominada. Ela não passa, segundo eles, de um baú de recursos infinitos a serem utilizados para o consumo humano.

Neste paradigma não se colocava ainda a questão dos limites de suportabilidade do sistema-Terra nem da escassez de seus bens e serviços não renováveis. Pressupunha-se que seriam ilimitados e que poderíamos infinitamente progredir em direção do futuro.

Hoje tomamos consciência de que a Terra é finita e seus bens e serviços, limitados. Já encostamos nos limites físicos da Terra. Um planeta finito não pode suportar um projeto infinito. Os dois infinitos, dos recursos e do futuro, imaginados pela modernidade se revelaram ilusórios. Os bens e serviços não são infinitos nem o progresso poderá ser infinito porque não é universalizável para todos. Se quiséssemos generalizar para toda a humanidade o bem estar que os países opulentos desfrutam – já se fizeram os cálculos para isso – precisaríamos dispor de pelo menos de três Terra iguais a nossa.

A preocupação que sempre orientou a relação  dos modernos para com a Terra foi esta: como posso ganhar mais, no menor tempo possível e com o mínimo de investimento? O resultado desta voracidade gerou um arquipélago de riqueza rodeado por um oceano de miséria.

O PNUD de 2008 o confirma: os 20% mais ricos consomem 82,4% de todas as riquezas mundiais, enquanto os 20% mais pobres tem que contentar-se com apenas 1,6%. É uma injustiça clamorosa e criminosa que uma ínfima minoria monopolise o consumo e controle os processos produtivos de praticamente todos os países. Estes implicam a devastação da natureza, a criação de escandalosas desigualdades e a falta de solidariedade para com as gerações presentes e futuras. E por fim,  a condenação à miséria e à morte prematura das grandes maiorias da humanidade. Nenhuma sociedade poderá revindicar ser humana, justa e pacífica quando assentada sobre tanta iniquidade social e perversa inumanidade.

Não é sem razão que o aquecimento global e os desequilíbrios do sistema-Terra sejam atribuidos principalmente a esse tipo de organização social e econômica, montada pelos seres humanos.

Se queremos conviver humanamente precisamos de um outro estilo de habitar o planeta Terra que tenha como centro a vida, a Humanidade e a Mãe Terra. Para este modelo, a preocupação central é: como viver e produzir em harmonia com os ciclos da Terra, com os ecossistemas e com os outros seres vivos, buscando o “bem viver” das atuais e das futuras gerações. Como viver mais com menos?

Somente esse novo paradigma civilizacional respeita a Mãe Terra e garante sua integridade e vitalidade.

É neste contexto que se resgatou a visão da Terra como Mãe. Já não se trata da percepção ancestral dos povos originários mas de uma constatação científica. Foi mérito de James Lovelock  e de Lynn Margulis nos anos 70 do século passado e antes deles, do russo Wladimir  Vernadski ainda nos idos de 1920, terem comprovado que a Terra é um superorganismo vivo que permanentemente articula todos os elementos necessários para a vida de forma que ela sempre se mostra apta a produzir e a reproduzir vida.

Durante milhões e milhões de anos o  nível de oxigênio na atmosfera, essencial para a vida, se manteve em 21%; o nitrogênio, responsável pelo crescimento, em 79%; e o nível de salinização dos aceanos em 3,4% e assim todos os demais componentes que garantem a subsistência do sistema-vida.

Não somente há vida sobre a Terra. Ela mesma é viva, um superorganismo que se autoregula para manter um equilíbrio favorável à  existência e à persistência da vida. Foi denominada de Gaia, deusa grega, responsável pela fecundidade da Mãe Terra.

Para mostrar como a Terra é realmente viva, aduzamos um exemplo do conhecido biólogo Edward Wilson: “num só grama de solo, ou seja em menos de um punhado de terra, vivem cerca de 10 bilhões de bactérias, pertencentes a seis mil espécies diferentes”(A criação, 2008, 26). Efetivamente, a Terra é Mãe e é Gaia, geradora de toda a biodiversidade.

O ser humano representa aquela porção da própria Terra que, num momento avançado de sua evolução e de sua complexidade, começou a sentir, a pensar e a amar. Com razão, para as linguas neolatinas, homem vem de humus que significa terra fecunda e Adão, na tradição hebraico-cristã se  deriva de adamah que em hebraico quer dizer terra fértil. Por isso o ser humano é a Terra que anda, que ri, que chora, que canta, que pensa, que  ama e que hoje clama por cuidado e proteção.

A visão dos astronautas comprova esta simbiose entre Terra e Humanidade. De suas naves espaciais, exclamavam: “daqui de cima, olhando este resplandescente planeta azul-branco, não há diferença entre Terra e Humanidade; formam uma única entidade; e nós, mais que povos, nações e raças, devemos nos entender como criaturas da Terra, como filhos e filhas da Terra”. Somos a própria Terra consciente e inteligente.

Entretanto, olhando a Terra não de fora e de longe, mas de perto e de dentro, nos  damos conta de que a nossa Mãe se encontra crucificada. Possui o rosto do terceiro e quarto mundo, porque vem sistematicamente agredida e violada.  Quase a metade de seus filhos e filhas padecem fome, estão doentes e são condenados a morrer antes do tempo.

Por isso, significa um sinal de amor concreto para com a Mãe Terra as políticas sociais que muitos países estão realizando em favor dos mais necessitados.  Podemos referir como exemplar o projeto Fome Zero  e a Bolsa Família  do governo do Presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva. Em menos de 8 anos devolveu dignidade a 50 milhões de pessoas que agora podem comer três vezes ao dia e sentir-se cidadãos incluídos.

É nossa obrigação baixar a Terra da cruz, tratá-la, curá-la e ressuscitá-la. Está em nossas mãos um documento precioso, um dos mais belos e inspiradores dos iníncios do século XXI, a Carta da Terra. Ela nasceu da consulta de milhares e milhares de pessoas de 46 paises e de sugestões surgidas de todos os grupos, desde  indígenas, comunidades pobres, igrejas, universidades e centros de pesquisa e outros. Concluída no ano 2000, foi assumida em 2003 pela UNESCO como “instrumento educativo e uma referência ética para o desenvolvimento sustentável”

A Carta da Terra compreende a Terra como viva e como nosso Lar Comum. Apresenta pautas concretas, valores e princípios que podem garantir-lhe um futuro de esperança desde que a cuidemos com compreensão, com compaixão e com amor, como cabe à nossa Grande Mãe.

Oxalá, esta Carta possa um dia, não muito distante, ser apresentada, discutida e enriquecida por esta Assembléia Geral e ser incorporada à Carta dos Direitos Humanos. Assim teríamos um documento único sobre a dignidade da Terra com seus ecosistemas e a dignidade de cada ser humano.

Para que tudo isso se torne realidade não nos basta a razão funcional e instrumental da tecnociência. É urgente enriquecê-la com a razão emocional e cordial. É a partir deste tipo de razão  que se elaboram os valores, o cuidado essencial, a compaixão, o amor, os grandes sonhos e as utopias que movem a humanidade para inventar soluções salvadoras.

Esta razão emocional nos fará sentir a Terra como Mãe e nos levará a amá-la, a respeitá-la e a protegê-la contra violências e exterminações. Nossa missão no conjunto dos seres é a de sermos os guardiães e os cuidadores desta herança sagrada que o universo nos confiou.

Para terminar, me permito, Senhor Presidente, uma sugerência. Aprovada esta resolução de celebrar todo o dia 22 de abril como  o Dia Internacional  da Mãe Terra, sugiro que se ponha na cúpula vazia no alto da sala desta Assembleia, um globo terrestre, uma destas imagens belíssimas da Terra,  feitas a partir de fora da Terra. Esta imagem nos suscita sempre um sentimento profundo de comoção, de sacralidade e de reverência. Ao olhá-la, recordamos que ai está nossa única Casa Comum, a  nossa generosa Mãe Terra. Ela continuamente nos olha,  nos acompanha e nos ilumina para buscar os melhores caminhos para ela, para nós, para toda a comunidade de vida e para todos os seres que nela habitam.

Minha sugestão vai ainda mais longe: que  no dia 22 de abril de cada ano, em todos os lugares, nas escolas, nas fábricas, nos escritórios, nos laboratórios, nas empresas, nos parlamentos, se parasse e se fizesse um minuto de silêncio para pensarmos em nossa Mãe Terra e renovarmos nosso agradecimento por tudo aquilo que ela nos propicia e renovarmos nossa propósito de cuidá-la, de respeitá-la e de amá-la como amamos, respeitamos e cuidamos de nossas mães.

Estou convencido de que assim como está a Terra não pode continuar. Ela continuará seu curso evolucionáro mas sem nós.

A solução para a Terra não cairá do céu. Ela será  resultado de  uma coalizão de forças ao redor de valores e princípios éticos e humanitários que poderão devolver-lhe o equilíbrio perdido e sua vitalidade original.

Podemos e devemos transformar a eventual tragédia coletiva numa crise que nos acrisola e purifica. Esta crise nos tornará mais maduros e sábios para vivermos dignamente nesse pequeno e belo planeta pelo curto tempo que  nos for concedido. Assim nos sentiríamos como filhos e filhas da alegria, no seio da Grande Mãe que nos acolhe e nos dá vida.

Muito obrigado pela atenção.

Leonardo Boff

sábado, 18 de abril de 2015

Santo do dia: Maria da Encarnação



Ela nasceu em Paris, no dia 1º de fevereiro de 1566, e se chamava Bárbara Avrillot, filha do senhor de Champstreaux, riquíssimo, influente na corte francesa e na vida religiosa por ser um homem muito devoto, assim como sua descendência.

Como era costume na época, apenas adolescente Bárbara foi enviada às Irmãs Menores da Humildade de Nossa Senhora, que habitavam nas proximidades. Regressou à família aos catorze anos e não pôde optar pela vida religiosa, pois aos dezesseis anos foi entregue como esposa ao visconde de Villemor, Pedro Acário, senhor de muitas terras, muito atuante na política da corte e cuja influência era tão forte quanto à de sua família, possuidor de costumes sérios e seguidor dos preceitos cristãos. Tiveram seis filhos.

O rei Henrique IV, após desfazer a Liga política à qual seu marido pertencia, mandou-o para o exílio e confiscou-lhe todos os bens. Foram quatro anos de várias atribulações financeiras e aflição de espírito. Porém Bárbara não se abateu, tomou a defesa do marido, não se detendo até provar a inocência dele e reaver todos os bens. Foi com essa fibra que educou os filhos com generosidade, no respeito e no serviço aos mais pobres, doentes e mais desamparados. Ensinou-os a viver de maneira simples, sóbria, modesta, e no amor à verdade, pois a verdade é Cristo. Ensinou-lhes, também, o espírito de sacrifício e a força de vontade perante as dificuldades.

Nesse período, conheceu o religioso Francisco de Salles, depois também fundador e santo pela Igreja, o qual aprovava sua atitude e comportamento, vindo a tornar-se o seu diretor espiritual. Em 1601, ela leu os escritos de Teresa d'Ávila e desejou, ela mesma, uma leiga, fazer todo o possível para introduzir na França a reforma carmelita. Um ano depois, acolheu as primeiras vocações e obteve a autorização do rei, o qual lhe dispensava uma grande consideração, e, em 1603, o papa Clemente VIII enviou-lhe sua autorização para a fundação, portanto ela pôde construir o primeiro mosteiro carmelita na França. Depois, com os outros, que vieram em seguida, houve uma forte influência na espiritualidade católica de seu tempo. Três de suas filhas entraram no Carmelo de Amiens.

Em 1613, morreu seu marido e só então ela tomou o nome de Maria da Encarnação, tomando o hábito e jurando os votos a uma de suas filhas, que se tornara a abadessa do mosteiro de Amiens, onde ela permaneceu durante algum tempo, para depois estabelecer-se no de Pontoise. Manteve-se sempre ativa e preparada para discussões sobre o tema da fé com personagens próprios e auto-reveladores e sempre humilde e afetuosa como simples carmelita de sua comunidade.

Maria da Encarnação, madame Acário, é considerada a "madre fundadora do Carmelo na França" porque contribuiu para a difusão da reforma carmelita de Santa Teresa d'Ávila, mais do que todos, em solo francês. Ela terminou os seus dias num leito de dor em Pontoise. E ao morrer, no dia 18 de abril de 1618, recitou várias vezes os salmos 21 e 101. Esse dia era Quinta-Feira Santa.

Fonte: Comece o Dia Feliz | Paulinas

sexta-feira, 17 de abril de 2015

3º domingo da Páscoa


1ª Leitura - At 3,13-15.17-19
Salmo - Sl 4,2.4.7.9 (R. 7a)
2ª Leitura - 1Jo 2,1-5a
Evangelho - Lc 24,35-48

Lc 24,35-48

Naquele tempo:
Os dois discípulos contaram 
o que tinha acontecido no caminho,
e como tinham reconhecido Jesus ao partir o pão.
Ainda estavam falando,
quando o próprio Jesus apareceu no meio deles
e lhes disse:
'A paz esteja convosco!'
Eles ficaram assustados e cheios de medo,
pensando que estavam vendo um fantasma.
Mas Jesus disse: 'Por que estais preocupados,
e porque tendes dúvidas no coração?
Vede minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo!
Tocai em mim e vede!
Um fantasma não tem carne, nem ossos,
como estais vendo que eu tenho'.
E dizendo isso, Jesus mostrou-lhes as mãos e os pés.
Mas eles ainda não podiam acreditar,
porque estavam muito alegres e surpresos.
Então Jesus disse:
'Tendes aqui alguma coisa para comer?'
Deram-lhe um pedaço de peixe assado.
Ele o tomou e comeu diante deles.
Depois disse-lhes:
'São estas as coisas que vos falei
quando ainda estava convosco:
era preciso que se cumprisse tudo
o que está escrito sobre mim
na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos'.
Então Jesus abriu a inteligência dos discípulos
para entenderem as Escrituras,
e lhes disse: 'Assim está escrito:
O Cristo sofrerá 
e ressuscitará dos mortos ao terceiro dia
e no seu nome, serão anunciados
a conversão e o perdão dos pecados
a todas as nações, começando por Jerusalém.
Vós sereis testemunhas de tudo isso'.
Palavra da Salvação.

Acompanhe a reflexão de Pe. João Batista Libânio, sj

A Paz que vem de Cristo

Em geral quando queremos ir à casa de Deus, ‘a Sua morada, nós vamos à morada de pedra, por isso viemos aqui. 

O Novo Testamento modifica essa concepção. Quando João, o do Apocalipse, descreveu o céu, ele procurou o templo no céu e não encontrou. Não encontrou igreja no céu. Porque Deus é o Templo, Jesus é o Templo. O corpo de Jesus é o Templo. 
Isso dá o que pensar. Muitas vezes damos mais importância aos templos de pedra do que ao Templo em que a comunidade cristã vive, que é o próprio corpo do Senhor. 

E a luz? É o cordeiro. Não precisamos de outra luz, nem sol, nem lua, nem estrela, porque o cordeiro ilumina essa grande cidade, que é a nossa vida. 

Os cristãos quando liam esses textos deviam ficar confusos. Deviam imaginar que se estava falando de uma realidade que iria acontecer em breve. Eles olhavam essa Terra e não achavam possível que Deus morasse aqui. Tantos crimes, tantos roubos, tanta corrupção nesse país! Como se pode imaginar que Deus more em meio a tudo isto? 

Então os cristãos imaginavam que o fim do mundo chegaria logo, para então se instalar o verdadeiro Reino de Deus. Porque realmente o Templo de Deus somos nós, apesar de toda essa ambiguidade. Não temos nenhuma garantia. Nem de partido, nem de sigla partidária. Quanta gente imaginava que, quando um partido chegasse ao poder, não haveria mais corrupção? E o que vemos? Corrupções, engodos, mentiras que nos assustam. E eu pergunto: “Para onde o Senhor virá? Será que Ele está morando no nosso meio?” 

Aí Jesus diz: “Olha gente, vocês vão confiar em duas, quatro letras?” (*)

Nós não podemos confiar em nenhuma letra, sejam elas as mais sagradas para nós, para as nossas ideologias, para os nossos sonhos, para as nossas expectativas. Nós temos que confiar é no Espírito que nos foi dado. Ele é o único que consegue acordar em nós a coragem para superar a corrupção, para superar interesses mesquinhos, próprios. Interesses domésticos, interesses pequenos, escusos. Só o Espírito nos abre a janela para horizontes maiores. 

Jesus continua falando que mandará o Espírito. Mas o que é que o Espírito vai fazer? Ele vai dar-nos a paz. 

Olha que quando João escrevia esse Evangelho, já no final de sua vida, havia a famosa PAX ROMANA. E o que era a pax romana? Era aquela paz que seguia o seguinte lema: “Se queres a paz, prepara a guerra”. Assim diziam os romanos. Então João se encontrou com essa Pax, a paz armada, a paz das tropas romanas.

Impressionante, que dois mil anos depois, exista uma paz igualzinha, igualzinha. Chama-se pax americana ou pax judaica - também ela fundamentada na guerra, no armamento, no assassinato, no crime, na tortura. E que São João diz? Essa não é a paz do Senhor Jesus.

Dois mil anos depois ainda não atinamos com que paz o Senhor trouxe. Porque nós acreditamos, na nossa ingenuidade, que vamos ter paz nas nossas cidades se duplicarmos os policiais, os aparatos militares: “Se queres a paz, prepara a guerra!” Quanto mais arma, quanto mais policiais, mais paz teremos: Leda ilusão! Este é o grande engodo. Até hoje, depois de dois mil anos que Jesus disse que a paz não é essa que Ele iria trazer. Quando João diz de paz - ele conhecia a pax romana – ele dizia que não era essa a paz que o Senhor traria. 

A paz que o Senhor trouxe é a paz do perdão, da reconciliação, da justiça social, do trabalho honesto. Essa é a paz que o Senhor trouxe. Essa é a casa nova que Ele quer construir conosco.

O que nos falta é consciência cidadã. Uma mínima possibilidade de roubar, rouba-se. Não se roubava até agora, porque não tinha condição. Permitiu-se, rouba-se. Que ladrão é esse, que só não é ladrão quando não pode roubar? É que falta a consciência cívica, cidadã, responsável diante do povo, das coisas públicas. Nós temos que desmascarar, rasgar essas máscaras que existem no nosso mundo social e político. 

Nós temos que arrancar as sujeiras escondidas em meses e anos, talvez séculos, debaixo dos tapetes . Deus quer trazer a paz, não a paz romana, a paz americana, mas a paz do Senhor. Amém.
(*)referência a siglas partidárias.

Pe. João Batista Libânio, sj – Um outro olhar, vol. 1

Acompanhe também a reflexão de Frei Alvaci Mendes da Luz, OFM para este domingo:


quinta-feira, 16 de abril de 2015

Papa Francisco fala sobre o matrimônio em Audiência Geral



Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

A catequese de hoje é dedicada a um aspecto central do tema da família: o grande dom que Deus ofereceu à humanidade com a criação do homem e da mulher, e com o sacramento do matrimônio. Esta catequese e a próxima serão dedicadas à diferença e à complementaridade entre o homem e a mulher, que estão no ápice da criação divina; depois, nas duas que se seguirão, serão abordados outros temas do Matrimônio.

Comecemos com um breve comentário à primeira narração da criação, contida no Livro do Gênesis. Ali lemos que Deus, depois de ter criado o universo e todos os seres vivos, criou a obra-prima, isto é o ser humano, e fê-lo à sua própria imagem: «Criou-o à imagem de Deus; criou-os varão e mulher» (Gn 1, 27), assim reza o Livro do Gênesis.

E como todos nós sabemos, a diferença sexual está presente em muitas formas de vida, na longa escala dos seres vivos. Mas unicamente no homem e na mulher ela tem em si a imagem e a semelhança de Deus: o texto bíblico repete-o três vezes, em dois versículos (26-27): homem e mulher são imagem e semelhança de Deus. Isto diz-nos que não apenas o homem em si mesmo é imagem de Deus, não só a mulher em si mesma é imagem de Deus, mas também o homem e a mulher, como casal, são imagem de Deus. A diferença entre homem e mulher não é para a contraposição, nem para a subordinação, mas para a comunhão e a geração, sempre à imagem e semelhança de Deus.

É a experiência que no-lo ensina: para se conhecer bem e crescer harmoniosamente, o ser humano tem necessidade da reciprocidade entre homem e mulher. Quando isto não se verifica, as consequências são evidentes. Somos feitos para nos ouvir e ajudar reciprocamente. Podemos dizer que sem o enriquecimento mútuo neste relacionamento — no pensamento e na acção, nos afectos e no trabalho, mas também na fé — os dois não conseguem nem sequer entender até ao fundo o que significa ser homem e mulher.

A cultura moderna e contemporânea abriu novos espaços, outras liberdades e renovadas profundidades para o enriquecimento da compreensão desta diferença. Mas introduziu inclusive muitas dúvidas e um grande cepticismo. Por exemplo, pergunto-me se a chamada teoria do gender não é também expressão de uma frustração e resignação, que visa cancelar a diferença sexual porque já não sabe confrontar-se com ela. Sim, corremos o risco de dar um passo atrás. Com efeito, a remoção da diferença é o problema, não a solução. Ao contrário, para resolver as suas problemáticas de relação, o homem e a mulher devem falar mais entre si, ouvir-se e conhecer-se mais, amar-se mais. Devem tratar-se com respeito e cooperar com amizade. Só com estas bases humanas, sustentadas pela graça de Deus, é possível programar a união matrimonial e familiar para a vida inteira. O vínculo matrimonial e familiar é algo sério, e para todos, não apenas para os crentes. Gostaria de exortar os intelectuais a não desertar este tema, como se fosse secundário para o compromisso a favor de uma sociedade mais livre e mais justa.

Deus confiou a terra à aliança do homem e da mulher: a sua falência torna árido o mundo dos afectos e ofusca o céu da esperança. Os sinais já são preocupantes, como podemos ver. Gostaria de indicar, entre muitos, dois pontos que na minha opinião devem comprometer-nos com maior urgência.

Primeiro. É indubitável que devemos fazer muito mais a favor da mulher, se quisermos dar nova força à reciprocidade entre homens e mulheres. Com efeito, é necessário que a mulher não seja só mais ouvida, mas que a sua voz tenha um peso real, uma autoridade reconhecida tanto na sociedade como na Igreja. O próprio modo como Jesus considerava a mulher num contexto menos favorável que o nosso, porque naquela época a mulher ocupava realmente o segundo lugar, e Jesus considerou-a de uma maneira que lança uma luz poderosa, que ilumina um caminho que vai longe, do qual percorrermos apenas um breve trecho. Ainda não entendemos em profundidade aquilo que nos pode proporcionar o génio feminino, o que a mulher pode oferecer à sociedade e também a nós: a mulher sabe ver tudo com outros olhos, que completam o pensamento dos homens. Trata-se de uma senda que devemos percorrer com mais criatividade e audácia.

Uma segunda reflexão diz respeito ao tema do homem e da mulher criados à imagem de Deus. Pergunto-me se a crise de confiança colectiva em Deus, que nos causa tantos males, nos faz adoecer de resignação à incredulidade e ao cinismo, não esteja também relacionada com a crise da aliança entre homem e mulher. Com efeito, a narração bíblica, com o grande afresco simbólico no paraíso terrestre e o pecado original, diz-nos precisamente que a comunhão com Deus se reflete na comunhão do casal humano e a perda da confiança no Pai celeste gera divisão e conflito entre homem e mulher.

Eis a grande responsabilidade da Igreja, de todos os crentes, e antes de tudo das famílias crentes, para redescobrir a beleza do desígnio criador que inscreve a imagem de Deus também na aliança entre o homem e a mulher. A terra enche-se de harmonia e de confiança quando a aliança entre homem e mulher é vivida no bem. E se o homem e a mulher a procuram juntos entre si e com Deus, sem dúvida encontram-na. Jesus encoraja-nos explicitamente ao testemunho desta beleza que é a imagem de Deus.

Fonte: Site do Vaticano

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Nossa Senhora da Penha


Segundo a tradição, por volta de 1434 um monge francês, Simão, sonhou com uma imagem de Nossa Senhora que lhe apareceu no topo de escarpada montanha, cercada de luz e acenando para que ele fosse procura-la. Simão por cinco anos procurou pela montanha, até que um dia teve indicação de sua localização em sonho e para lá se dirigiu.
Após três dias de intensa caminhada, cansado e, segundo ele, ouvindo a advertência: “Simão, vela e não durma” (pelo que passou a ser conhecido Simão Vela), escalando muito e parando para descansar, ele viu, sentada perto dele, uma formosa Senhora com o filho ao colo que lhe indicou o lugar onde encontraria o que procurava. Auxiliado por alguns pastores da região, conseguiu achar a imagem que avistara em sonho. 

Construiu Simão Vela uma ermida nesse local, que se tornou célebre pelo grande número de milagres alcançados por intermédio de Nossa Senhora da Penha, e, mais tarde, ali foi construído um santuário, e a devoção a Nossa Senhora da Penha foi muito propagada.
Em Portugal o culto de Nossa Senhora da Penha iniciou-se após a batalha na qual o rei Dom Sebastião morreu. Entre os portugueses que conseguiram escapar da escravidão muçulmana encontrava-se um escultor chamado Antônio Simões, o qual prometeu à Virgem Santíssima fazer sete imagens se ela o conduzisse novamente à sua pátria. 

Alcançando a graça solicitada iniciou o trabalho, esculpindo as imagens e dando-lhes títulos por ele conhecidos de Nossa Senhora. Ao chegar à sétima imagem e não sabendo que invocação dar-lhe, foi aconselhado por um padre jesuíta a fazer-lhe à imagem de Nossa Senhora da Penha, cujos milagres estavam sendo muito comentados. Executada a obra, colocou-a ermida de Vitória, mas, algum tempo depois, edificou lhe uma igreja próxima a Lisboa, que se tornou conhecida como “Penha de França”.

Naquela época uma peste assolou Portugal, como a Espanha se livrara do flagelo graças à intervenção de Nossa Senhora da Penha de França, o Senado da Câmara de Lisboa prometeu a Nossa Senhora construir um grandioso templo se ela livrasse a cidade da moléstia. Extinguiu-se a epidemia quase que imediatamente e um santuário foi construído.

Este santuário passou a atrair milhares de peregrinos e, em certa ocasião, um devoto, tendo subido ao alto da montanha, cansado, adormeceu. Quando uma cobra aproximou-se para picá-lo, um lagarto saltou sobre ele, despertando-o a tempo de matar a cobra com seu bastão. Essa é a razão pela qual a imagem de Nossa Senhora da Penha tem, aos pés, um peregrino, a cobra e o lagarto.

No Brasil a devoção a Nossa Senhora da Penha veio com os portugueses, e a primeira igreja em sua honra foi erguida em Vila Velha, Espírito Santo, por volta de 1570, no Rio de Janeiro por volta de 1635; Em São Paulo, Nossa Senhora da Penha é a protetora da cidade. Segundo a tradição, um viajante francês seguia de Piratininga para o Norte, levando em sua bagagem uma imagem de Nossa Senhora da Penha de França, pelo ano de 1682. Ao passar pelo morro chamado Aricanduva parou para descansar. Ao continuar o trajeto, no dia seguinte, notou a falta da santa. Voltou para procura-la e foi encontra-la no alto do morro de Aricanduva. Guardou a imagem e prosseguiu a viagem, mas, ao parar novamente para descansar, de novo notou a falta da imagem, que foi encontrada outra vez em Aricanduva. Como este fato se repetiu por mais vezes, ele, vendo nisso uma vontade divina, ergueu no local uma capela.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

2º domingo da Páscoa


1ª Leitura: At 4,32-35
2ª Leitura: 1Jo 5,1-6
Evangelho: Jo 20, 19-31

Jo 20,19-31

Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana,
estando fechadas, por medo dos judeus,
as portas do lugar onde os discípulos se encontravam,
Jesus entrou e pondo-se no meio deles,
disse: 'A paz esteja convosco'.
Depois destas palavras,
mostrou-lhes as mãos e o lado.
Então os discípulos se alegraram
por verem o Senhor.
Novamente, Jesus disse: 'A paz esteja convosco.
Como o Pai me enviou, também eu vos envio'.
E depois de ter dito isto,
soprou sobre eles e disse: 'Recebei o Espírito Santo.
A quem perdoardes os pecados 
eles lhes serão perdoados;
a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos'.
Tomé, chamado Dídimo, que era um dos doze,
não estava com eles quando Jesus veio.
Os outros discípulos contaram-lhe depois:
'Vimos o Senhor!'. Mas Tomé disse-lhes:
'Se eu não vir a marca dos pregos em suas mãos,
se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos
e não puser a mão no seu lado, não acreditarei'.
Oito dias depois, encontravam-se os discípulos
novamente reunidos em casa, e Tomé estava com eles.
Estando fechadas as portas, Jesus entrou,
pôs-se no meio deles e disse: 'A paz esteja convosco'.
Depois disse a Tomé:
'Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos.
Estende a tua mão e coloca-a no meu lado.
E não sejas incrédulo, mas fiel'.
Tomé respondeu: 'Meu Senhor e meu Deus!'
Jesus lhe disse: 'Acreditaste, porque me viste?
Bem-aventurados os que creram sem terem visto!'
Jesus realizou muitos outros sinais
diante dos discípulos,
que não estão escritos neste livro.
Mas estes foram escritos para que acrediteis que
Jesus é o Cristo, o Filho de Deus,
e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome.
Palavra da Salvação.

Acompanhe a reflexão do Pe. João Batista Libânio, sj para este domingo:

Tomé - o amor é incondicional

Quando lemos o Evangelho, a primeira inclinação é imaginar que todas essas cenas são descrições. Se assim fosse, teria sido muito fácil para os apóstolos crerem em Jesus. Viram, pegaram, tocaram. É fácil crer, qualquer um é capaz de crer quando se pode pegar. Então a gente suspeita que o evangelista João seja um pouco mais inteligente do que imaginamos. Ele não está querendo dizer que os apóstolos pegaram, viram Jesus. Isto é muito banal para João. E onde estaria então a problemática desse Evangelho?

Vocês viram que Tomé colocou condição para crer, como muitas vezes nós colocamos condição para amar. Aí não dá certo. Eu acho que por aí não vai. Quando colocamos condição para amar ou para crer, não amamos e não cremos. Esse é o problema. Então Tomé não acreditou depois que tocou, não. Ele teve que renunciar às condições para crer.

No fundo, o evangelista quer dizer que o amor é um movimento, um gesto de gratuidade. Nós podemos ter razões, motivos razoáveis como Tomé, mas o amor é uma aventura cega. Eu preciso ter razões que mostrem que a pessoa é digna do meu amor, mas não são essas razões que me levam a crer e a amar. As razões fazem com que eu possa viver num mundo humano, em que as razoabilidades são necessárias para os nossos sentidos. Mas nunca a razoabilidade pode ser a razão para eu amar alguém.

É necessário o salto. O amor é um salto no escuro. Este é um jogo belíssimo da nossa liberdade, que não passa pela inteligência. A inteligência aceita as razões da lógica, porque quer constatar, quer verificar, quer provar. O amor é outro departamento. Não é o departamento da inteligência, e todas as vezes que queremos reduzir o amor ao departamento da inteligência, nós não amamos, nós calculamos, e calcular é com máquina. Amar é com o coração.

Nosso evangelista hoje quer nos dizer que o amor sempre surpreende, é sempre imprevisível, sempre novo, sempre diferente. Nunca pode ser previsto e calculado de antemão. Um arquiteto, um engenheiro calculam cada ângulo da casa, pois do contrário ela cai. Mas o amor não. Por isso a casa do amor pode desabar. Porque não são engenheiros que se casam, são amantes que se casam. Alguém pode ser engenheiro de profissão, mas não pode ser engenheiro do amor, porque se o for, será infeliz. O amor é a novidade da tenda. Um dia um vendaval pode vir e levar a casa. Pode acontecer, mas há a confiança, de que esse vendaval não virá, ou se vier, seremos fortes o suficiente para segurar as balizas da tenda, para que ela não voe e desapareça o nosso amor.

Cristo ressuscitado, quando se apresenta, não se apresenta; quando Ele aparece, Ele não aparece; quando Ele manda tocar, Ele não manda. Todos esses gestos de Jesus não são para os sentidos. São para o itinerário interior do amor. É o olhar do amor de Tomé que toca a chaga, é o olhar do amor dos discípulos que toca o lado de Jesus. Os seus olhos físicos não podiam ver Jesus. Jesus tinha outra dimensão. Assim, os nossos olhos físicos não vêem. E é isso que vocês têm que aprender: o amor não vem dos olhos físicos. Quando vocês só amam o que vêem, vocês ainda não amam. Só amarão de verdade quando o olhar for além do olhar dos sentidos, quando olharem para uma realidade que os nossos olhos não atingem. 

Eu queria terminar falando para vocês daquele livrinho tão lindo, tão simples do Exupéry, que se vocês não leram, deveriam ler “O pequeno príncipe”. Ele diz: “O essencial é invisível aos olhos”. O que nós vemos é sinal, sacramento, para que possamos alcançar o mistério maior que a nossa vista não alcança. Amém. 

Pe. João Batista Libânio, sj - Um outro olhar, vol. 1

Acompanhe também a reflexão do Frei Alvaci Mendes da Luz para este 2º domingo da Páscoa.