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sexta-feira, 27 de março de 2015

Domingo de Ramos



Esta liturgia do Domingo de Ramos é um misto de glória do Cristo, mas também de sofrimento e humilhação. A liturgia fica assim, um pouquinho sem saber o que fazer. Ela usa uma cor mais viva, tira o roxo, coloca o vermelho. Em contraponto, coloca a leitura da Paixão.

Nós perguntamos: é um dia de alegria, de júbilo, porque Cristo entrou triunfante em Jerusalém, ou é um dia de dor e de tristeza, porque Ele vai morrer na cruz? O que responder a essa pergunta? Essa é a metáfora da nossa vida. Nossa vida é exatamente isso: sempre uma mistura simultânea de momentos de alegria e de tristeza, de festa e de luto. Ao mesmo tempo em que uns povos proclamam suas grandes festas, outros choram seus mortos. Uma família chora seu luto, outra comemora seus aniversários, isso tudo simultaneamente. A liturgia quer captar um pouco nossa vida e mostrar que Jesus quis viver exatamente como nós. Ele quis sentir dentro de si essa divisão profunda que sentimos, de dor e alegria. Ele mesmo não sabia como se comportar. Ele ia aprendendo a ser humano.

Interessante é que não lemos toda a Paixão, mas, num texto longo, há um jogo muito inteligente que Marcos faz. O sumo sacerdote pergunta a Jesus: “Tu és o Filho de Deus?” Jesus responde: “O Filho do Homem aparecerá!” Quando o sacerdote se refere a Jesus como sendo o Filho de Deus, Ele responde como Filho do Homem. Na hora em que aparece o extremo de sua humanidade, com Ele pregado na cruz, o centurião proclama: “Este verdadeiramente é o Filho de Deus!” Esse é o mistério de Jesus. Quando queremos encontrar a divindade de Jesus, é a humanidade que encontramos. Foi um centurião, não o bom ladrão, que descobriu isso. Esse centurião somos nós, que estamos aqui. Marcos não escreve o Evangelho para contar o que aconteceu lá. Ele escreve para a comunidade. 

Quando é que reconhecemos Cristo? Quando Ele andou sobre as águas? Quando entrou triunfante em Jerusalém? Não. Vamos reconhecer que Ele era Filho de Deus, quando deu o grande grito de abandono: “Pai, por que me abandonastes?”, ou quando se entregou no grande grito de sua vida. É nesse momento que a comunidade cristã reconhece: “este Homem só pode ser Filho de Deus!” Quando alguém assume o sofrimento ao extremo é que mostra a sua grandeza. Para ser grande nos triunfos, ser grande nos momentos gloriosos não precisa ser Filho de Deus. Basta ser qualquer chefete deste mundo de hoje. Ser grande na dor, na humilhação, ser aquele Homem nu, ensangüentado, coroado de espinhos, o corpo dilacerado e se revelar Filho de Deus é alguma coisa original demais. Devia passar alguma coisa em Jesus que, naquela hora, a comunidade o reconhecia como Filho de Deus. E por quê?

Deus queria que Ele morresse? Não, claro que não! Qual pai vai querer que seu Filho morra daquela maneira? Qual pai vai querer que seu filho seja humilhado? Claro que não! A única coisa que o Pai queria era que Jesus dissesse para a humanidade que Ele nos amava. Como Ele diria isso, Deus Pai não disse. Poderia ser de outra maneira. Jesus poderia ter aparecido e feito mais milagres ainda, abraçado todas as crianças do mundo. Mas Jesus escolheu esse caminho. Ele só tinha que dizer que Deus gostava da gente. E começou a pensar: “se Deus gosta da humanidade, eu vou viver o bem das pessoas. Mas e se elas forem violentas? Sofrerei a violência. E se elas forem más? Sofrerei a sua maldade. E se elas me perseguirem? Sofrerei a perseguição. E se elas me condenarem? Sofrerei a condenação. E se elas me matarem? Sofrerei a morte”. Ele foi acolhendo cada um de nós e aprendendo, de nós, quem somos. Nós somos isso.

Hoje, na aula de Teologia, perguntavam-me: “podemos acreditar nessa humanidade?” Citava certos elementos ideais, certas perspectivas alegres e, olhando para o que está acontecendo agora, eu me pergunto: o que fizeram com este país? Podemos acreditar na humanidade? Jesus diz: “Podemos, porque, quando eu vivi entre os homens, percebi isso”. Isso não é novidade para Jesus. A nossa realidade não está distante de Deus, pois Ele quis mostrar que nos amava convivendo com as pessoas nas suas situações mais radicais. É assim que a gente ama. 

Essa entrada triunfal não pretende mostrar Jesus como um grande rei. Também o verdadeiro sentido da festa de Cristo Rei, quando muitas pessoas o colocam com uma coroa de ouro, não se refere a esse reinado. Jesus é esse Rei que entra montado num jumentinho, uma espécie de metáfora. Não entrou num carro Rolls-Royce, como os presidentes. Foi num jumentinho simples. Hoje, sabemos que Ele entrou por um canto da cidade, aclamado por um pequeno grupo. A maioria das pessoas sequer soube que Jesus entrou em Jerusalém. Nos cálculos que se faz, São Paulo deveria estar lá. Paulo de Tarso, não era São Paulo, não era discípulo ainda.
Ele deveria estar lá e nem soube. Ele mesmo disse que não conhecera Jesus na carne.

Quem aceita entrar num jumentinho é porque está muito consciente de sua grandeza interior, aquela que transcende aparências, porque brota do mais profundo do seu ser. Amém. (12.04.03)

Um outro olhar, vol. 3 - Pe. João Batista Libânio, sj
As homilias podem ser consultadas em: jblibanio.org.br

Acompanhe também a reflexão do Frei Gustavo Medella para este Domingo de Ramos.