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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

5º domingo do Tempo Comum


1ª Leitura: Jo 7, 1-4.6-7
2ª Leitura: 1Cor 9,16-19.22-23
Evangelho: Mc 1, 29-39

Comentário: A vida é um “serviço de mercenário”, diz Jó (7,1; 1ª leitura). Como os bóias-frias, sempre leva a pior. Desperta cansado, e deitado não consegue descansar por causa das feridas. Que Deus dê um pouco de sossego… O A.T. não tem resposta para o sofrimento. Os amigos de Jó dizem que os justos são recompensados e os ímpios, castigados. Mas Jó protesta: ele não é um ímpio. A teoria da prosperidade dos justos não se verifica na realidade (21,5-6). Menos ainda convence-o o pedante discurso de Eliú, tratando de mostrar o caráter pedagógico do sofrimento (cap. 32-37). Os amigos de Jó não resolvem nada. Vendem conselhos, mas não se compadecem. Só colocam pimenta nas feridas.

Por outro lado, mesmo amaldiçoando seu próprio nascimento, Jó não amaldiçoa Deus, pelo contrário, reconhece e louva sua sabedoria e suas obras na criação: o abismo de seu sofrimento pessoal não lhe fecha os olhos para a grandeza de Deus! E é exatamente por este lado que entrará sossego na sua existência. Pois Deus se revelará a ele, tornar-se-á presente em seu sofrimento – ao contrário de seus amigos sabichões -, e esta experiência do mistério de Deus fará Jó entrar em si, no silêncio (42,1-6).

Também Jesus, no N.T., nunca apresenta uma explicação teórica do sofrimento. Neste sentido, concorda com os existencialistas: sofrer pertence mesmo à “condição humana”. Não há explicação. Mas ele traz uma solução:: assume o sofrimento. No livro de Jó, o mistério de Deus se aproxima do homem. Em Jesus Cristo, como Mc o apresenta, o mistério se revela, gradativamente, sob o véu do “segredo” do Filho. No início, Jesus assume o sofrimento, curando-o (evangelho). Isto, porém, é apenas um sinal, pois são poucos os que Jesus curou). No fim, ele assumirá o sofrimento, sofrendo-o. Aí, sua compaixão se torna realmente universal. Supera de longe o que aparece no livro de Jó. Se este nos mostra que Deus está presente onde o homem sofre (e isto já é uma grande consolação para Jó), Jesus nos mostra que Deus conhece o sofrimento do homem por dentro.

Mas, por enquanto, ele mostra apenas sinais da aproximação de Deus ao homem sofredor. Sinais, feitos com a “autoridade” que já comentamos no domingo passado. Jesus pegando na mão da sogra de Pedro, para fazê-la levantar de sua febre. Ao fim do dia, depois do repouso sabático, recebe uma multidão de gente para curá-los: novo sinal de “autoridade”. Inclusive, exorciza os endemoninhados, e os maus espíritos reconhecem seu adversário. Mas ele lhes proíbe desvendar seu mistério (cf. dom. pass.). Depois, retira-se, para se encontrar mais intensamente como Pai; e quando os discípulos o vêm buscar para reassumir sua atividade em Cafarnaum, ele revela que a vontade de seu Pai é que vá às outras cidades também. Ele está inteiramente a serviço dos plenos poderes que o Pai lhe outorgou.
Essa plena disponibilidade aparece também na 2ª leitura, embora num contexto bem diferente. Trata-se da pretensa liberdade dos coríntios para fazerem tudo o que têm direito (p.ex., participar dos banquetes onde se serve carne sacrificada aos ídolos). Paulo não concorda: existe o aspecto objetivo (carne é carne e ídolos não existem) e o aspecto subjetivo (alguém, menos firme ou instruído na fé, pode comer as carnes idolátricas num espírito de superstição; 8,7). Portanto, diz Paulo, nem sempre devo fazer uso de meu direito. E coloca-se a si mesmo como exemplo: em vez de usar de seus direitos sociais, como sejam: levar consigo uma mulher cristã (9,5), ser dispensado de trabalho manual (9,6), receber salário pelo trabalho evangélico (9,14; cf. a “palavra do Senhor” a este respeito, Mt 10,10 e par.), Paulo anuncia o evangelho de graça, para que ninguém o suspeite de motivos ambíguos.

Ora, essa atitude não é inspirada apenas por prudência, mas por paixão pelo evangelho: “Ai de mim, se eu não pregar o evangelho… Qual é meu salário? Pregar o evangelho gratuitamente, sem usar dos direitos que o evangelho me confere!” (9,17-18). Se tivermos em nós verdadeiro afeto pelo nosso irmão fraco na fé, desistiremos com prazer de algumas coisas que, em si, poderíamos fazer; e a própria gratuidade será a nossa recompensa, pois “tudo é graça”.

Mensagem: As leituras de hoje estão interligadas por uma alusão quase imperceptível: enquanto Jó se enche de sofrimento até o anoitecer (1ª leitura), Jesus cura o sofrimento até o anoitecer (evangelho). O conjunto do evangelho mostra Jesus empenhando-se, sem se poupar, para curar os enfermos de Cafarnaum. E no dia seguinte, o poder de Deus, que ele sente agir em si, o impele para outras cidades – sem se deixar “privatizar” pelo povo de Cafarnaum. A paixão de Jesus é deixar efluir de si o poder benfazejo de Deus. Ele não pensa em si mesmo, não se protege, não se poupa. Ele assume, sem limites, o sofrimento do povo. Ele tem consciência de ser isso a sua missão: “Foi para isso que eu vim”. Ele não pode recusar a Deus esse serviço.

Nosso povo, muitas vezes, vê nas doenças e no sofrimento um castigo de Deus. Mas quando o enviado de Deus mesmo se esgota em aliviar as dores do povo, como essas doenças poderiam ser um castigo de Deus? Não serão sinal de outra coisa? Há muito sofrimento que não é castigo de quem sofre. Que é simplesmente condição humana, condição da criatura, porém, também ocasião para Deus manifestar seu amor ao ser humano. O evangelista João dirá que a doença é uma oportunidade para Deus manifestar sua glória (Jô 9,3; 11,4).

Por mais que o homem consiga dominar os problemas de saúde, não consegue excluir o sofrimento, pois esse tem outra fonte. No mais perfeito dos mundos – como o descreve um romance dos anos 1930 – no mundo sem doenças, os humanos sofrem pelo desamor, pela mútua manipulação, pela desconfiança, pela insignificância, pelo mal que o ser humano causa ao seu semelhante. Por isso, o relato bíblico do pecado atribui o sofrimento fundamentalmente ao pecado; porém, não ao pecado individual – o livro de Jó contesta com força tal atribuição (e também Jo 9,3, cf. acima) – mas ao pecado instalado na humanidade, o pecado das origens (Gn 3,15-19).

Que Jesus apaixonadamente se entrega à cura de todos os males, inclusive em outras cidades, é uma manifestação do Espírito de Deus, que está sobre Jesus, e que renova o mundo (cf. Sl 104 [103], 30). O evangelista Mateus (Mt 8,17) compreendeu isso muito bem, quando acrescentou ao texto de Mc 1,34 a citação de Is 53,4 (do Servo Sofredor): “Ele assumiu nossas dores e carregou nossas enfermidades”. Ora, se é pelo pecado do mundo que as dores se transformaram num mal que oprime a alma, logo mais Jesus terá de se revelar como aquele que perdoa o pecado (cf. 7º domingo). Também se hoje acontecem curas e outros sinais do amor apaixonado de Deus que se manifesta em Jesus Cristo, é preciso que reconheçamos nisso os sinais do Reino que Jesus vem trazer presente.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes.