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sábado, 27 de dezembro de 2014

Santos Inocentes


Somente a monstruosidade de uma mente assassina, cruel e desumana, poderia conceber o plano executado pelo sanguinário rei Herodes: eliminar todas os meninos nascidos no mesmo período do nascimento de Jesus para evitar que vivesse o rei dos judeus. Pois foi isso que esse tirano arquitetou e fez. 

Impossível calcular o número de crianças arrancadas dos braços maternos e depois trucidadas. Todos esses pequeninos se tornaram os "santos inocentes", cultuados e venerados pelo Povo de Deus. Eles tiveram seu sangue derramado em nome de Cristo, sem nem mesmo poderem "confessar" sua crença. 

Quem narrou para a história foi o apóstolo Mateus, em seu Evangelho. Os reis magos procuraram Herodes, perguntando onde poderiam encontrar o recém-nascido rei dos judeus para saudá-lo. O rei consultou, então, os sacerdotes e sábios do reino, obtendo a resposta de que ele teria nascido em Belém de Judá, Palestina. 

Herodes, fingindo apoiar os magos em sua missão, pediu-lhes que, depois de encontrarem o "tal rei dos judeus", voltassem e lhe dessem notícias confirmando o fato e o local onde poderia ser encontrado, pois "também queria adorá-lo". 

Claro que os reis do Oriente não traíram Jesus. Depois de visitá-lo na manjedoura, um anjo os visitou em sonho avisando que o Menino-Deus corria perigo de vida e que deveriam voltar para suas terras por outro caminho. O encontro com o rei Herodes devia ser evitado. 

Eles ouviram e obedeceram. Mas o tirano, ao perceber que havia sido enganado, decretou a morte de todos os meninos com menos de dois anos de idade nascidos na região. O decreto foi executado à risca pelos soldados do seu exército. 

A festa aos Santos Inocentes acontece desde o século IV. O culto foi confirmado pelo papa Pio V, agora santo, para marcar o cumprimento de uma das mais antigas profecias, revelada pelo profeta Jeremias: a de que "Raquel choraria a morte de seus filhos" quando o Messias chegasse. 

Esses pequeninos inocentes de tenra idade, de alma pura, escreveram a primeira página do álbum de ouro dos mártires cristãos e mereceram a glória eterna, segundo a promessa de Jesus. A Igreja preferiu indicar a festa dos Santos Inocentes para o dia 28 de dezembro por ser uma data próxima à Natividade de Jesus, uma vez que tudo aconteceu após a visita dos reis magos. A escolha foi proposital, pois quis que os Santinhos Inocentes alegrassem, com sua presença, a manjedoura do Menino Jesus.

São João Evangelista


João quer dizer “graça de Deus”, ou “em quem está a graça”, ou “ao qual foi dada a graça”, ou “aquele que recebeu um dom de Deus”. É muito difícil imaginar que esse autor do quarto evangelho e do Apocalipse tenha sido considerado inculto e não douto. Mas foi dessa forma que o sinédrio classificou João, o apóstolo e evangelista, conhecido como “o discípulo que Jesus amava”. Ele foi o único apóstolo que esteve com Jesus até a sua morte na cruz.

João, filho de Zebedeu e de Salomé, irmão de Tiago Maior, de profissão pescador, originário de Betsaida, como Pedro e André, ocupa um lugar de primeiro plano no elenco dos apóstolos. O autor do quarto Evangelho e do Apocalipse, será classificado pelo Sinédrio como indouto e inculto. No entanto, o leitor, mesmo que leia superficialmente os seus escritos, percebe não só o arrojo do pensamento, mas também a capacidade de revestir com criativas imagens literárias os sublimes pensamentos de Deus. A voz do juiz divino é como o mugido de muitas águas.

João é sempre o homem da elevação espiritual, mais inclinado à contemplação que à ação. É a águia que desde o primeiro bater das asas se eleva às vertiginosas alturas do mistério trinitário: “No princípio de tudo, aquele que é a Palavra já existia. Ele estava com Deus e ele mesmo era Deus.”

Ele está entre os mais íntimos de Jesus e nas horas mais solenes de sua vida João está perto. Está a seu lado na hora da ceia, durante o processo, e único entre os apóstolos, assiste à sua morte junto com Maria. Mas contrariamente a tudo o que possam fazer pensar as representações da arte, João não era um homem fantasioso e delicado. Bastaria o apelido humorista que o Mestre impôs a ele e a seu irmão Tiago: “Filhos do trovão” para nos indicar um temperamento vivaz e impulsivo, alheio a compromissos e hesitações, até aparecendo intolerante e cáustico.

No seu Evangelho designa a si mesmo simplesmente como “o discípulo a quem Jesus amava.” Também se não nos é dado indagar sobre o segredo desta inefável amizade, podemos adivinhar uma certa analogia entre a alma do Filho do homem e a do filho do trovão, pois Jesus veio à terra não só trazer a paz mas também o fogo. Após a ressurreição, João está quase constantemente ao lado de Pedro. Paulo, na epístola aos Gálatas, fala de Pedro, Tiago e João como colunas na Igreja.

No Apocalipse, João diz que foi perseguido e degredado para a ilha de Patmos “por causa da palavra de Deus e do testemunho de Jesus Cristo”. Conforme uma tradição unânime ele viveu em Éfeso em companhia de Maria e sob o imperador Domiciano foi colocado dentro de uma caldeira com óleo a ferver, mas saiu ileso e, todavia, com a glória de ter dado testemunho. Depois do exílio de Patmos voltou definitivamente para Éfeso, onde exortava continuamente os fiéis ao amor fraterno, resultando em três cartas, acolhidas entre os textos sagrados, assim como o Apocalipse e o Evangelho. Morreu em Éfeso durante o império de Trajano (98-117), onde foi sepultado.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Festa da Sagrada Família


O evangelho lembra a frase de Kahlil Gibran, em O Profeta: “Vossos filhos não são os vossos filhos”. Quando os pais apresentam o sacrifício de resgate do primogênito, este, na realidade, não é resgatado: Deus o guarda para si! As palavras de Simeão revelam que ele é o enviado de Deus, e Maria aprende a difícil missão de ser mãe de um “sinal de contradição”.

Vivemos num mundo cheio de contradições. Há jovens que são “luzes” expondo ao claro essas contradições. Muitas vezes, seus pais não os entendem, ficam preocupados, frustrados até. Em tais momentos lembrem-se do que aconteceu com Jesus: Deus o guardou para si. Os filhos que Deus dá não são propriedade dos pais. Os pais são como a escora que sustenta a árvore nova para que ela “cresça e se fortaleça”(cf. Lc 2,40); depois, devem tornar-se supérfluos. A mãe não guarda o filho em si, mas o dá à luz!

Maria e José apresentam seu filho a Deus. Esse gesto nos ajuda a compreender o sentido do batismo das crianças: são entregues a Deus para participar da missão profética da Igreja, que o Concílio Vaticano II caracterizou como “Luz das Nações” (evangelho, Lc 2,32; cf. Is 42,6; 49,6).

Como compreender então a família? Muitos pais consideram sua família “modelo”na medida em que for fechada e auto-suficiente. Mas o ideal da família cristã é ser evangelizadora. Essa missão poderá provocar separações dolorosas, ou até atitudes aparentemente incompreensíveis – como eram as palavras de Simeão (Lc 2,23). Mas a unidade da família está naquele que a todos envia: o Pai celeste.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

Santo Estêvão


Depois do Pentecostes, os apóstolos dirigiam o anúncio da mensagem cristã aos mais próximos, aos hebreus, aguçando o conflito apenas acalmado da parte das autoridades religiosas do judaísmo. Como Cristo, os apóstolos conheceram logo as humilhações dos flagelos e da prisão, mas apenas libertados das correntes retomam a pregação do Evangelho. A primeira comunidade cristã, para viver integralmente o preceito da caridade fraterna, colocou tudo em comum, repartindo diariamente o que era suficiente para o seu sustento. Com o crescimento da comunidade, os apóstolos confiaram o serviço da assistência diária a sete ministros da caridade, chamados diáconos.

Entre eles sobressaía o jovem Estêvão, que em grego quer dizer “coroa”, em hebraico “regra”. Ele foi a coroa, isto é, o líder dos mártires do novo testamento, assim como Abel foi do Antigo.

Estevão, além de exercer as funções de administrador dos bens comuns, não renunciava ao anúncio da Boa Nova, e o fez com tanto sucesso que os judeus “apareceram de surpresa, agarraram Estêvão e levaram-no ao tribunal. Apresentaram falsas testemunhas, que declararam: “Este homem não faz outra coisa senão falar contra o nosso santo templo e contra a Lei de Moisés. Nós até o ouvimos afirmar que esse Jesus de Nazaré vai destruir o templo e mudar as tradições que Moisés nos deixou”.

Estêvão, como se lê nos Atos dos Apóstolos, cheio de graça e de força, como pretexto de sua autodefesa, aproveitou para iluminar as mentes de seus adversários. Primeiro, resumiu a história hebraica de Abraão até Salomão, em seguida afirmou não ter falado contra Deus, nem contra Moisés, nem contra a Lei, nem fora do Templo. Demonstrou, de fato, que Deus se revelava também fora do Templo e se propunha a revelar a doutrina universal de Jesus como última manifestação de Deus, mas os seus adversários não o deixaram prosseguir no discurso, “taparam os ouvidos e atiraram-se todos contra ele, em altos gritos. Expulsaram-no da cidade e apedrejaram-no.”

Dobrando os joelhos debaixo de uma tremenda chuva de pedra, o primeiro mártir cristão repetiu as mesmas palavras de perdão pronunciadas por Cristo sobre a Cruz: “Senhor, não os condenes por causa deste pecado.”

Estêvão foi lapidado no ano da ascensão do Senhor, no começo do mês de agosto, na manhã do terceiro dia. Os santos Gamaliel e Nicodemos, que defendiam os cristãos em todos os conselhos dos judeus, sepultaram-no num terreno pertencente a Gamaliel e realizaram seus funerais com grande reverência. O bem-aventurado Estêvão era um dos principais cristãos de Jerusalém, e após sua morte começou uma onda de perseguição a eles que, excetuados os apóstolos, que eram os mais corajosos, os cristãos dispersaram-se por toda a província da Judeia, conforme o Senhor havia recomendado: “Se forem perseguidos numa cidade, fujam para outra”.

Em 415 a descoberta das suas relíquias suscitou grande emoção na cristandade. A festa do primeiro mártir foi sempre celebrada imediatamente após a festividade do Natal.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Natal de Jesus



A encarnação do Verbo de Deus assinala o início dos “últimos tempos”, isto é, a redenção da humanidade por parte de Deus. Cega e afastada de Deus, a humanidade viu nascer a luz que mudou o rumo da sua história. O nascimento de Jesus é um fato real que marca a participação direta do ser humano na vida divina. Esta comemoração é a demonstração maior do amor misericordioso de Deus sobre cada um de nós, pois concedeu-nos a alegria de compartilhar com ele a encarnação de seu Filho Jesus, que se tornou um entre nós. Ele veio mostrar o caminho, a verdade e a vida, e vida eterna. A simbologia da festa do Natal é o nascimento do Menino-Deus.

No início, o nascimento de Jesus era festejado em 6 de janeiro, especialmente no Oriente, com o nome de Epifania, ou seja, manifestação. Os cristãos comemoravam o natalício de Jesus junto com a chegada dos reis magos, mas sabiam que nessa data o Cristo já havia nascido havia alguns dias. Isso porque a data exata é um dado que não existe no Evangelho, que indica com precisão apenas o lugar do acontecimento, a cidade de Belém, na Palestina. Assim, aquele dia da Epifania também era o mais provável em conformidade com os acontecimentos bíblicos e por razões tradicionais do povo cristão dos primeiros tempos.

Entretanto, antes de Cristo, em Roma, a partir do imperador Júlio César, o 25 de dezembro era destinado aos pagãos para as comemorações do solstício de inverno, o “dia do sol invencível”, como atestam antigos documentos. Era uma festa tradicional para celebrar o nascimento do Sol após a noite mais longa do ano no hemisfério Norte. Para eles, o sol era o deus do tempo e o seu nascimento nesse dia significava ter vencido a deusa das trevas, que era a noite.

Era, também, um dia de descanso para os escravos, quando os senhores se sentavam às mesas com eles e lhes davam presentes. Tudo para agradar o deus sol.

No século IV da era cristã, com a conversão do imperador Constantino, a celebração da vitória do sol sobre as trevas não fazia sentido. O único acontecimento importante que merecia ser recordado como a maior festividade era o nascimento do Filho de Deus, cerne da nossa redenção. Mas os cristãos já vinham, ao longo dos anos, aproveitando o dia da festa do “sol invencível” para celebrar o nascimento do único e verdadeiro sol dos cristãos: Jesus Cristo. De tal modo que, em 354, o papa Libério decretou, por lei eclesiástica, a data de 25 de dezembro como o Natal de Jesus Cristo.

A transferência da celebração motivou duas festas distintas para o povo cristão, a do nascimento de Jesus e a da Epifania. Com a mudança, veio, também, a tradição de presentear as crianças no Natal cristão, uma alusão às oferendas dos reis magos ao Menino Jesus na gruta de Belém. Aos poucos, o Oriente passou a comemorar o Natal também em 25 de dezembro.

Passados mais de dois milênios, a Noite de Natal é mais que uma festa cristã, é um símbolo universal celebrado por todas as famílias do mundo, até as não-cristãs. A humanidade fica tomada pelo supremo sentimento de amor ao próximo e a Terra fica impregnada do espírito sereno da paz de Cristo, que só existe entre os seres humanos de boa vontade. Portanto, hoje é dia de alegria, nasceu o Menino-Deus, nasceu o Salvador.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Pelo Natal de Jesus, celebremos a jubilosa esperança da Salvação!


Pe. José Adalberto Salvini (publicado no site da CNBB)

As celebrações do Natal sempre reacendem a jubilosa esperança da Salvação, prometida pelo Pai e realizada em Jesus Cristo. Estas celebrações levam os fiéis a se prostrarem na contemplação do Mistério da Encarnação do Verbo Eterno, o Filho de Deus, que por obra e poder do Espírito Santo, se fez Homem no ventre da Virgem Maria.

O nascimento de Jesus em Belém de Judá já realiza, de forma plena, o mistério da Salvação humana, cuja esperança foi alimentada desde Abraão até que se completou no mistério de sua Paixão, Morte e Ressurreição e se destina à plenitude no céu, quando Ele vier como Senhor e Juiz da história, pois “Aquele” que assumiu a nossa humanidade, nos faz participantes de sua divindade que será manifestada em todo o seu esplendor no dia final.
As celebrações do Natal fazem brotar um profundo sentimento de alegria e paz, pois este é um tempo em que se afloram as disposições de reconciliação entre as pessoas e destas com Deus, o empenho solidário em fazer acontecer um mundo novo, onde não haja necessitados, onde a justiça e a paz possam se abraçar.

Contemplando o Menino nascido na “Casa do Pão”, naquela Noite Feliz e Santa, vislumbramos uma luz diferente que ilumina os olhos de nossa fé. Não é a luz de algum astro brilhante em meio às trevas do firmamento, mas a Verdadeira Luz, que procede do próprio Menino, Deus que se fez Humano. Esta luz invade os corações e o que pela fé brilha nas mentes precisa se manifestar em ações (Cf. Oração Coleta da Missa da Aurora do Natal).

O Divino e Eterno Pai nos criou por amor. Porém, o pecado nos fez morrer. Perdemos a graça exatamente porque nos desviamos da vontade do Pai e não correspondemos ao seu inefável amor. Mas, em sua benevolência Ele mandou ao mundo o seu Filho, para restabelecer a dignidade humana. O nascimento de Jesus dá início ao cumprimento da promessa salvífica. A partir de então já estamos reconciliados para vivermos uma vida nova e alcançarmos a imortalidade pela redenção oferecida na Cruz libertadora.

Contudo, diante do sublime mistério que celebramos no Natal, ainda nos inquieta tanto desamor e tantas vidas submersas na desgraça. É chocante saber que a vida de crianças é interrompida violentamente, muitas são assassinadas pelos próprios pais! Causa-nos horror saber que a violência, a exploração do trabalho infantil, o abuso sexual de menores e a prostituição infantil, crianças na guerra, a influência do narcotráfico, entre outros problemas gravíssimos, ceifam a vida de nossas crianças e ferem sua dignidade. O dom da vida é freqüentemente renegado e novos “Herodes” insistem em exterminar a vida de inocentes.

Diante desta realidade que ignora o Deus da Vida só nos resta clamar pela misericórdia do Senhor e nos comprometer de modo decisivo na luta pela defesa da vida, desde a sua concepção no ventre materno. Podemos, sim, assumir ações concretas a partir de uma educação que gere a “cultura da vida”, cuidando de colocar em prática os direitos das crianças e dos adolescentes, gerando ações políticas que se coloquem efetivamente a favor do desenvolvimento e da dignidade humana em todas as circunstâncias onde imperam o poder das trevas e da exclusão, a fim de que resplandeça em cada aurora a autêntica luz do Natal.

Nas orações que proclamamos em nossas liturgias recordamos que “agora e em todos os tempos” o Cristo “vem ao nosso encontro, presente em cada pessoa humana, para que o acolhamos na fé e o testemunhemos na caridade” (Prefácio do Advento I A). É preciso acolher este Cristo Real, que não é uma simples imagem de presépio, mas o Verdadeiro Ícone no qual Deus revela a humanidade de sua Divina Face, a sua “Imagem e Semelhança” visível em suas criaturas, pela graça batismal feitas filhas no Filho Unigênito.

Neste contexto, a Sagrada Família é o modelo a ser continuamente imitado. Mesmo entre provações e sofrimentos o casal de Nazaré permaneceu com abnegada fidelidade na parceria com Deus, correspondendo ao seu projeto e aceitando com amor a sua divina vontade. Neles a graça foi fecundamente acolhida e vivida. Tenhamos, pois, também nós, a prontidão do Justo José e da Virgem Mãe e seja nossa existência um constante Sim à vontade do Pai.

Assim como na noite jubilosa do nascimento do Salvador Deus revelou sua glória aos Pastores e, depois, aos Magos do Oriente, que simbolizam respectivamente o Povo Eleito e todas as Nações do Universo, hoje, nos é revelada a Boa Notícia de sua presença Salvadora no Mundo. Tal e qual os magos, somos convidados a percorrer um caminho diferente: o caminho da justiça e da liberdade, o caminho da verdade e da vida, o caminho da Cruz, pelo qual chegaremos ao céu e alcançaremos a paz definitiva.

De fato, precisamos ter coragem para romper com as arcaicas estruturas de morte e opressão, acolhendo na manjedoura de nosso coração o Filho Deus Encarnado, fazendo-nos seus discípulos missionários, percorrendo com Ele o caminho que vai para Jerusalém. Deste modo, caminhando na estrada com Jesus, iremos anunciando ao mundo sua presença Salvadora e proclamando a todos que sobre nós já brilha a sua luz!

Que a “Estrela-Guia” também nos conduza à presença de Jesus e a Ele possamos adorar e ofertar não apenas ouro, incenso e mirra, mas o dom total de nosso ser, feito hóstia-comunhão, nos dons eucarísticos que antecipam o penhor da glória futura, do mundo que há de vir.
Então, enfim, poderemos cantar jubilosos a alegria de nossa Salvação, pois “nasceu-nos hoje um menino, um Filho nos foi dado! (Is 9,6).

Fonte: Site da CNBB

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

A Mensagem Franciscana do Presépio


A Mensagem Franciscana do Presépio - Por Frei Vitório Mazzuco, OFM

Segundo a tradição, a primeira representação visualizada, teatralizada e celebrada de um presépio aconteceu no ano de 1223, num bosque próximo de Greccio, na Úmbria, região italiana. Quem tomou esta iniciativa foi Francisco de Assis, e ,com isso, ele passa a ser o primeiro a organizar de um modo plástico a cena da Encarnação do Filho de Deus. 

Não é de se discutir se o fato é verídico ou legendário, pois Francisco de Assis foi um apaixonado pelo modo como Deus fez morada no mundo dos humanos, e certamente, mais do que palavras quis mostrar o maior evento de todos os tempos: na carne de um Menino, Deus está para sempre no meio de nós. Vejamos o texto das Fontes Franciscanas:

“A mais sublime vontade, o principal desejo e supremo propósito dele era observar em tudo e por tudo o Santo Evangelho, seguir perfeitamente a doutrina, imitar e seguir os passos de Nosso Senhor Jesus Cristo com toda a vigilância, com todo o empenho, com todo o desejo da mente e com todo o fervor do coração. Recordava-se em assídua meditação das palavras e com penetrante consideração rememorava as obras dele. Principalmente a humildade da encarnação e a caridade da paixão de tal modo ocupavam a sua memória que mal queria pensar outra coisa. Deve-se, por isso, recordar e cultivar em reverente memória o que ele fez no dia do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo, no terceiro ano antes do dia de sua gloriosa morte, na aldeia que se chama Greccio. Havia naquela terra um homem de nome João, de boa fama, mas de vida melhor, a quem o bem-aventurado Francisco amava com especial afeição, porque, como fosse muito nobre e louvável em sua terra, tendo desprezado a nobreza da carne, seguiu a nobreza do espírito. E o bem-aventurado Francisco, como muitas vezes acontecia, quase quinze dias antes do Natal do Senhor, mandou que ele fosse chamado e disse-lhe: ‘Se desejas que celebremos, em Greccio, a presente festividade do Senhor, apressa-te e prepara diligentemente as coisas que te digo. Pois quero celebrar a memória daquele Menino que nasceu em Belém e ver de algum modo, com os olhos corporais, os apuros e necessidades da infância dele, como foi reclinado no presépio e como, estando presentes o boi e o burro, foi colocado sobre o feno’. O bom e fiel homem, ouvindo isto, correu mais apressadamente e preparou no predito lugar tudo o que o santo dissera.

E aproximou-se o dia da alegria, chegou o tempo da exultação. Os irmãos foram chamados de muitos lugares; homens e mulheres daquela terra, com ânimos exultantes, preparam, segundo suas possibilidades, velas e tochas para iluminar a noite que com o astro cintilante iluminou todos os dias e anos. Veio finalmente o santo de Deus e, encontrando tudo preparado, viu e alegrou-se. E, de fato, prepara-se o presépio, traz-se o feno, são conduzidos o boi e o burro. Ali se honra a simplicidade, se exalta a pobreza, se elogia a humildade; e de Greccio se fez com que uma nova Belém. Ilumina-se a noite como o dia e torna-se deliciosa para os homens e animais. As pessoas chegam ao novo mistério e alegram-se com novas alegrias. O bosque faz ressoar as vozes, e as rochas respondem aos que se rejubilam. Os irmãos cantam, rendendo os devidos louvores ao Senhor, e toda a noite dança de júbilo. O santo de Deus está de pé diante do presépio, cheio de suspiros, contrito de piedade e transbordante de admirável alegria.” (Cel 30,4).

Sob a inspiração deste fluo, baseando-se nas Fontes Franciscanas, toda a celebração de Natal ganha um novo vigor interpretativo e celebrativo em toda Itália, da Itália para a Europa e da Europa para o mundo. A cidade de Nápoles transforma a cena de Natal num movimento artístico, e a partir dali e dos anos 1700, o presépio é pura arte. 

Unindo a Palavra de Deus, a representação artesanal e o folclore, os presépios vão destacando as típicas figuras regionais, e unem fé e beleza estética. As missões franciscanas levam o presépio para o mundo, e assim, cultura local e tradição cristã mostram o maior feito histórico da cristandade.

O presépio tem a forma dos momentos culturais: barroco, colonial, rococó, renascentista, moderno, vanguardista, arte popular, oriental, latino-americano, indiano e africano. O Deus Menino está no campo, na cidade, nas tendas, favelas e arranha-céu; está no centro urbano e na periferia. Une a força do sinal, do sacramental, do sagrado, da teologia da imagem, a fala da fé.

Nos presépios temos a harmonia das diferenças. O mundo do divino encontra-se com o mundo do humano. A grandeza, a onipotência de um Deus revela-se na fragilidade de uma criança. Ali o mundo animal, ovelhas, boi, burro, queda-se contemplativo abraçado pelo silêncio do mundo mineral: pedras e presentes. Há também o toque brilhante daquela Estrela Guia aproximando o mundo sideral.

As plantas formam o colorido arranjo do mundo vegetal. Anjos e pastores, um pai sonhador e uma mãe silente que guarda tudo no coração; afinal todos são conduzidos pelo mesmo mistério. O curioso e controlador mundo do poder representado pelos Reis Magos vem conferir. Fazer presépios é unir mundos! Aquele Menino fez-se Filho do Humano: veio experimentar a nossa cultura, o nosso jeito, a nossa consangüinidade.

Num presépio cabe todos os rostos! É o grande encontro dos simples, dos normais, dos marginais, dos ternos, fraternos, sofridos e excluídos. Quando o diferente se encontra temos a mais bela paisagem do mundo. Tudo se torna transparente na unidade das diferenças. Num presépio não existe preconceito, existe sim aquela silenciosa e calma contemplação da beleza de cada um, de cada uma. Encarnar-se é morar junto e respeitar o diferente! Paz na Terra aos Humanos de vontade boa e bem trabalhada! Isso é que encantou Francisco de Assis!

O presépio nos lembra que Deus não está no mercado das crenças, nem no apelo abusivo do comércio natalino que faz uma profanização deste universo de símbolos: pinheiros e estrelas, animais e pastores, presépios variados. Deus nem sempre está nas igrejas e nem nas bibliotecas; mas Ele está num coração que pulsa de Amor. Esta é a sacralidade inviolável do Natal: Deus está no seu grande projeto, que é Humanizar-se, fazer valer o Amor, Encarnar o Amor!

Deus não está na violência e nem onde se atenta contra a vida. Deus não está no orgulho dos poderosos nem entre os caçadores de privilégios hierárquicos. Mas Ele está na leveza deste Menino, Filho do Pai Eterno, a grande síntese das naturezas humana e divina.

Ele está aqui na mais bela doação do Sim de José e de Maria. Quando há disponibilidade, todo sonho é fecundo. Ele está onde se faz um presépio: lugar do Bem e da Beleza. É o grande momento de refletir este presente que ele nos dá. Isso é que encantou Francisco de Assis!

O Amor tem que ser Amado! A Verdade e a Beleza têm que ser apreciadas. Este é o lugar de Luz no meio das sombras humanas. A luz vale mais do que todas as trevas. Deus está ali com você e com Francisco diante do presépio, e abraçando você com silêncio, paz, harmonia, serenidade; acolhendo você e passando-lhe Onipresença, Onipotência eterna para a fragilidade da criatura. No presépio, Deus olha você, pessoa humana, contemplando a suprema humildade da Pessoa Divina.

Artigo: "A Mensagem Franciscana do Presépio", da Revista Franciscana, uma publicação da FFB, por Frei Vitório Mazzuco, OFM.

Santa Francisca Xavier Cabrini



Filha de família pobre, cresceu em meio à miséria que pairava, em meados do século XIX, no norte da Itália. Franzina, de saúde fraca, não conseguiu ser aceita nos conventos. Apesar disso, era dona de uma alma grandiosa, digna de figurar entre os santos. Assim pode ser definida santa Francisca Cabrini, com sua vida voltada somente para a caridade e o bem do próximo.

Francisca Cabrini foi a penúltima de quinze filhos de Antônio e Estela, camponeses muito pobres na pequena Santo Ângelo Lodigiano, região da Lombardia. Nascida em 15 de julho de 1850, desde pequena se entusiasmava ao ler a vida dos santos. A preferida era a de são Francisco Xavier, a quem venerou tanto que assumiu seu sobrenome, se auto-intitulando Xavier. Sua infância e adolescência foram tristes e simples, cheia de sacrifícios e pesares. 

Francisca, porém, gostava tanto de ler e se aplicava de tal forma nos estudos que seus pais fizeram o possível para que ela pudesse tornar-se professora.

Mal se viu formada, porém, encontrou-se órfã. No prazo de um ano perdeu o pai e a mãe. Enquanto lecionava e atuava em obras de caridade em sua cidade, acalentava o sonho de entregar-se de vez à vida religiosa. Aos poucos, foi criando coragem e, por fim, pediu admissão em dois conventos, mas não foi aceita em nenhum. A causa era a sua fragilidade física. Mas também influiu a displicência e o egoísmo do padre da paróquia, que a queria trabalhando junto dele nas obras de caridade da comunidade.

Francisca, embora decepcionada, nunca desistiu do sonho. Passado o tempo, quando já tinha trinta anos de idade, desabafou com um bispo o quanto desejava abraçar uma obra missionária e esse a aconselhou: "Quer ser missionária? Pois se não existe ainda um instituto feminino para esse fim, funde um". Foi, exatamente, o que ela fez.

Com o auxílio do vigário, em 1877 fundou o Instituto das Irmãs Missionárias do Sagrado Coração de Jesus, que colocou sob a proteção de são Francisco Xavier. Ainda: obteve o apoio do papa Leão XIII, que apontou o alvo para as missões de Francisca: "O Ocidente, não o Oriente, como fez são Francisco". Era o período das grandes migrações rumo às Américas por causa das guerras que assolavam a Itália. As pessoas chegavam aos cais do Novo Mundo desorientadas, necessitadas de apoio, solidariedade e, sobretudo, orientação espiritual. Francisca preparou missionárias dispostas e plenas de fé, como ela, para acompanhar os imigrantes em sua nova jornada. 

Tinham o objetivo de fundar, nas terras aonde chegavam, hospitais, asilos e escolas que lhes possibilitassem calor humano, amparo e conforto.

Em trinta anos de intensa atividade, Francisca Cabrini fundou sessenta e sete Casas na Itália, França e nas Américas, no Brasil inclusive. Mais de trinta vezes cruzou os oceanos aquela "pequena e fraca professora lombarda", que enfrentava, destemida, as autoridades políticas em defesa dos direitos de seus imigrantes nos novos lares.

Madre Cabrini, como era popularmente chamada, morreu em Chicago, Estados Unidos, em 22 de dezembro de 1917. Solenemente, seu corpo foi transportado para New York, onde o sepultaram na capela anexa à Escola Madre Cabrini, para ficar mais próxima dos imigrantes. Canonizada em 1946, santa Francisca Xavier Cabrini é festejada no mundo todo, no dia de sua morte, como padroeira dos imigrantes.

domingo, 21 de dezembro de 2014

São Pedro Canísio


A catequese sempre exerceu um fascínio tão grande sobre Pedro Canísio que, quando tinha menos de treze anos, ele já reunia meninos e meninas à sua volta para ensinar passagens da Bíblia, orações e detalhes da doutrina da Igreja. Mais tarde, seria autor de um catecismo que, publicado pela primeira vez em 1554, teve mais de duzentas edições e foi traduzido em quinze línguas. Mas teve também grande atuação no campo teológico, combatendo os protestantes.

Peter Kanijs para os latinos, Pedro Canísio nasceu em 8 de maio 1521, no ducado de Geldern, atual Holanda. Ao contrário dos demais garotos, preferia os livros de oração às brincadeiras. Muito estudioso, com quinze anos seu pai o mandou estudar em Colônia e, com dezenove, recebeu o título de doutor em filosofia. Mas não aprendeu somente as ciências terrenas. Com um mestre profundamente católico, Pedro também mergulhou, prazerosamente, nos estudos da doutrina de Cristo, fazendo despertar a vocação que se adivinhava desde a infância.

No ano seguinte ao da sua formatura, os pais, que planejaram um belo futuro financeiro para a família, lhe arranjaram um bom casamento. Mas Pedro Canísio recusou. Não só recusou como aproveitou e fez voto eterno de castidade. Foi para Mainz, dedicar-se apenas ao estudo da religião. Orientado pelo padre Faber, célebre discípulo do futuro santo Inácio de Loyola, em 1543 ingressou na recém-fundada Companhia de Jesus. Três anos depois, ordenado padre jesuíta, recebeu a incumbência de voltar para Colônia e fundar uma nova Casa para a Ordem. Assim começou sua luta contra um cisma que abalou e dividiu a Igreja: o protestantismo.

Quando era professor de teologia em Colônia, sendo respeitado até pelo imperador, Pedro Canísio conseguiu a deposição do arcebispo local, que era abertamente favorável aos protestantes. Depois, participou do Concílio de Trento, representando o cardeal Oto de Augsburg. Pregou e combateu o cisma, ainda, em Roma e Messina, onde lecionou teologia. Mas teve de voltar à Alemanha, pois sua presença se fazia necessária em Viena, onde o protestantismo fazia enormes estragos.

Foi nesse período que sua luta incansável trouxe mais frutos e que também escreveu a maior parte de suas obras literárias. Fundou colégios católicos em Viena, Praga, Baviera, Colônia, Innsbruck e Dillingen. Foi nomeado pelo próprio fundador, Inácio de Loyola, provincial da Ordem para a Alemanha e a Áustria. Pregou em Strasburg, Friburg e até na Polônia, sempre denunciando os seguidores do sacerdote Lutero, pai do protestantismo.

Admirado pelos pontífices e governantes do seu tempo, respeitado como primeiro jesuíta de nacionalidade alemã, Pedro Canísio morreu em 21 de dezembro de 1597, em Friburg, atual Suíça, após cinqüenta e quatro anos de dedicação à Companhia de Jesus e à Igreja. Foi canonizado por Pio XI, em 1925, para ser festejado, no dia de sua morte, como são Pedro Canísio, doutor da Igreja, título que também recebeu nessa ocasião.

“Persevera diante de qualquer situação, por mais difícil que seja, persevera na confiança e na fé em Deus”.

sábado, 20 de dezembro de 2014

Dia da bondade


Em que posso servir?

Esta era a frase que Dom Luciano Mendes de Almeida dizia diariamente, a todos que encontrava. Fosse um cardeal, um político importante, ou um sofredor de rua. A simplicidade e a bondade deste bispo jesuíta não tinha limites.

Para nós, cristãos, a bondade tem um valor inestimável. Tendo como maior exemplo Jesus Cristo, é necessário que nos configuremos a ele, em todos os aspectos. Jesus era um homem bom. Ele agia misericórdia com as pessoas, sobretudo com os mais necessitados.

Você se recorda da parábola do Bom Samaritano? Ela é um bom exemplo de bondade e compaixão.

“Um homem ia descendo de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos de assaltantes, que lhe arrancaram tudo, e o espancaram. Depois foram embora, e o deixaram quase morto. Por acaso um sacerdote estava descendo por aquele caminho; quando viu o homem, passou adiante, pelo outro lado. O mesmo aconteceu com um levita: chegou ao lugar, viu, e passou adiante, pelo outro lado. Mas um samaritano, que estava viajando, chegou perto dele, viu, e teve compaixão. Aproximou-se dele e fez curativos, derramando óleo e vinho nas feridas. Depois colocou o homem em seu próprio animal, e o levou a uma pensão, onde cuidou dele. No dia seguinte, pegou duas moedas de prata, e as entregou ao dono da pensão, recomendando: ‘Tome conta dele. Quando eu voltar, vou pagar o que ele tiver gasto a mais’.”

Entre os três personagens, aquele que agiu com bondade era o mais simples, de onde menos se esperava ajuda. Muitas vezes em nossas vidas é necessário ser o bom samaritano. Agir com bondade, sem esperar recompensas.

Em nosso cotidiano, muitas vezes conturbado, não é difícil mantermos nossos corações fechados. Passamos pela rua e sequer damos bom dia àqueles que encontramos, estamos sempre preocupados com nossas tarefas, nossos compromissos, passamos por pessoas que sofrem e não damos um olhar, uma palavra de conforto. Cada vez mais encontramos pessoas que falam apenas de si, não conseguem manter um diálogo, pois a vida do outro não a interessa.

Ser bom não significa fazer grandes ações. A bondade é cultivada a cada gesto, a cada palavra, a cada momento. A transformação que a sociedade precisa só acontecerá quando cada um fizer a sua parte. Assim, unindo nossas boas ações, construiremos um mundo melhor, mais justo, fraterno e humano.
“Em que posso servir?” – que esta frase de Dom Luciano possa estar em nosso coração e em nossos lábios neste dia 20 de dezembro, dia da bondade.

Paz e Bem!

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

4º domingo do Advento


Primeira leitura: 2Sm 7,1-5.8b-12.14a16
Salmo responsorial: (Sl 89[88],2-3,4-5.27+29)
Segunda leitura: Rm 16,25-27 
Evangelho: Lc 1,25-38

Alegria: o Senhor está no meio de nós

Com o 4° domingo, o Advento chega ao auge. O evangelho traz o pleno cumprimento de todos os sinais que anunciam a vinda do Salvador. A promessa feita a Davi, de que sua descendência teria seu trono firmado para sempre (2Sm 7; cf. 1ª leitura), realiza-se no filho de Maria, juridicamente inserida, através de seu noivo José (o noivado tinha força jurídica), na descendência de Davi (Lc 1,27). A este filho, Deus dará – embora não do modo que se esperava – o trono de Davi, o governo da casa de Jacó (Israel) para sempre (cf. 2Sm 7,16). Já aprendemos, por estas últimas palavras, que as profecias se cumprem de um modo que a inteligência humana desconhece (1). O modo de Jesus ser o Cristo que reinará para sempre, e o modo em que a casa de Israel se tomará um povo universal, nenhum contemporâneo de Maria o podia imaginar, e mesmo Maria só o vislumbrava como Mistério de Deus. As profecias não são programas a serem executados. São sinais da obra inesperada que Deus está realizando, sinais que a gente só entende plenamente depois da obra realizada.

Outro sinal que a gente reconhece ao reler o A.T. à luz do Evento de Jesus Cristo é a profecia de Is 7,14. Embora o rei Acaz não gostasse de que Deus se intrometesse nos seus negócios políticos, Deus lhe deu um sinal: o nascimento de um filho de uma mulher nova (“virgem”, traduz a versão grega do A.T., usada pelos primeiros cristãos). Esse filho seria chamado Emanuel, “Deus conosco” (cf. Mt 1,23; 4° dom. Adv. A). No tempo de Is, isso significava: nos dias de catástrofe que hão de vir (722 a.C.: destruição do Norte e invasão do Sul pelos assírios), este rapaz de nome Emanuel, nascido como que por ordem de Deus, lembrará que Deus está com o povo. Mas, para quem conhece a história de Jesus, esse sinal reveste um sentido novo. Prefigura o mistério de Deus, a obra de seu “sopro” ou “espírito” vivificador (cf. Gn 2,7; Ez 37,9; Sl 104[l03],29-30) em Maria, suscitando nela um filho que não é fruto da geração humana (Lc 1,34; cf. Mt 1,18-24), mas um presente de Deus à humanidade: sendo obra do Espírito Santo, que veio sobre Maria, este filho é chamado “Santo” e “filho do Altíssimo” (Lc 1,36; cf. as atribuições do filho real em Is 9,5-6; 11,1-5), o filho em que Deus investe todo seu bem-querer (Lc 3,22), enviado e ungido com seu Espírito (4,18). É o verdadeiro e definitivo “Deus conosco”.

Mas o sinal por excelência da realização da promessa é o próprio nascimento do precursor de Cristo, do seio de Isabel, que tinha a fama de ser estéril (1,36). João Batista é “sinal” no sentido mais pleno imaginável: seu nascimento mostra a força do Altíssimo gerando o Salvador; sua missão prepara o caminho para este Salvador; sua pregação anuncia o Reino que o Cristo inaugura.

Ora, a obra de Deus através da História, assinalada pelos referidos sinais, anunciada como plenificando-se na alegre saudação do Anjo, que proclama a plenitude da graça de Deus em Maria (Lc 1,28-30; cf. Sf3,14-15; Zc 2,14 etc.), só se toma fecunda para o homem se este o quiser. Daí, a importância de dizer: “Sim”. Maria, respondendo ao Anjo (representando Deus mesmo) seu Fiat (“Faça-se em mim segundo a tua palavra”; Lc 1,38), colocando-se, como serva, a serviço do Senhor, é a primeira de todos os que, pela adesão da fé, “dão chances” à obra definitiva de Deus em Jesus Cristo. O Fiat de Maria representa a fé da humanidade e a disponibilidade com que a Igreja quer assumir o Mistério de Natal (cf. oração final).

Diante de todos esses sinais, na história de Israel e de Maria, devemos afirmar o que Paulo nos diz na 2ª leitura: em Cristo se toma manifesto o que, desde séculos, as Escrituras, ao mesmo tempo que o assinalavam, escondiam: o Mistério de Deus (Rm 1,25-26; cf. Mt 13,35). Os autores escriturísticos vislumbravam uma presença fiel de Deus nos fatos provisórios da História. Vistos a partir de Jesus Cristo, estes fatos tornam-se indícios do que se manifesta, em plena clareza, nele mesmo, e isto, para todos os povos, ao menos, quando conduzidos pela auscultação da fé (Rm 1,26) Por isso, podemos louvar e agradecer (1,27).

(1.) 0 “recado” de Natã a Davi, de que sua descendência estaria firme para sempre (2Sm 7,16), foi entendido, originariamente, como a certeza de que Israel sempre teria um rei da dinastia davídica, e o nascimento de um filho real é saudado, em Is 9,6, como sendo a confirmação desta promessa. Depois que o Exílio (586-535 a.C.) abolira o reinado, o “para sempre” foi interpretado como significando “de novo”. Israel (reduzido a um pequeno resto, ou seja, a população de Judá, no sul do pais) teria um novo rei (davídico), um novo “ungido” (Messias ou Cristo). Mas o que é anunciado a Maria ultrapassa de longe o que os judeus depois do exílio esperavam.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Audiência Geral desta quarta-feira, 17 de dezembro



Na audiência geral o Papa rezou pelas vítimas de um terrorismo que não se detém nem diante das crianças

«Atos desumanos que não se detêm nem diante das crianças». O Papa Francisco definiu assim os ataque terroristas dos últimos dias na Austrália, no Paquistão e no Iémen. Dirigindo-se na manhã de quarta-feira, 17 de Dezembro, às dezenas de milhares de fiéis presentes na praça de São Pedro para a audiência geral, o Pontífice pediu para rezar a fim de que «o Senhor acolha na sua paz os defuntos, conforte os familiares e converta os corações dos violentos». Uma oração que o Papa quis concretizar com «um momento de silêncio» e depois com o canto do Pai-Nosso.

Imediatamente depois, na habitual trocas de saudações com alguns grupos das primeiras filas, Francisco recebeu uma homenagem floreal para o seu septuagésimo oitavo aniversário: um ramo de girassóis que lhe foi oferecido por oito pobres de Roma, cinco sem abrigo que perambulam à volta do dormitório das irmãs de madre Teresa de Calcutá na estação Termini e três idosas assistidas na Casa dom de Maria no Vaticano.

Entre as felicitações enviadas hoje ao Pontífice havia também as do presidente Giorgio Napolitano, que em nome do povo italiano agradeceu a Francisco por ter transmitido «uma mensagem de paz e esperança universal que encontrou amplo eco no nosso país e no mundo inteiro, deixando um sinal profundo nas consciências de crentes e não-crentes». E recordando o seu recente encontro, frisou como «permitiu, mais uma vez, que se reafirmasse uma sintonia de fundo entre o Estado italiano e a Igreja católica no compromisso para com as camadas mais débeis da sociedade, os imigrantes, os pobres e os marginalizados».

Durante a audiência geral, prosseguindo as reflexões sobre a família, o Papa tinha indicado como modelo a normalidade da vida de Jesus com os pais em Nazaré, a «longínqua aldeia da periferia do Império romano» onde Deus abriu «um novo início da história universal».

Fonte: News.VA

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Vocacionados encerram o ano com passeio a São Sebastião


Nos dias 12, 13 e 14 de dezembro, vocacionados e frades do Convento São Francisco, em São Paulo, realizaram o já tradicional passeio a São Sebastião. Mais de 20 jovens, entre frades, formandos e vocacionados participaram deste encontro no Convento Nossa Senhora do Amparo.

Apesar do tempo chuvoso, todos os momentos foram marcados por uma profunda alegria, proveniente da convivência fraterna, onde um demonstrou ao outro, por palavras e gestos, o quão importante estava sendo este momento. Todos se ajudaram, da cozinha à organização do encontro, das confraternizações ao futebol na praia, não houve nada além de uma nova e pura felicidade, própria de quem, pouco a pouco, está começando a palmilhar os passos de Cristo, a exemplo de Francisco e Clara de Assis.


De uma forma simples e livre, pontos importantes e marcantes da vida religiosa franciscana foram cultivados – a alegria de viver e proclamar o Evangelho enquanto dom recebido do Criador, de compartilhar a vida, histórias e sorrisos, de colocar tudo o que se é e tem a serviço de uma causa maior, o próprio Reino, foi viva e clara a todos do grupo. Deus chama, acolhe, capacita e envia, afinal o Evangelho precisa de novas mãos, novos rostos e pessoas corajosas, que estejam dispostas a iniciar este longo caminho de penitência e conversão de vida.


Ao final deste encontro, resta-nos agradecer ao bom Deus por tudo o que este grande e abençoado grupo viveu ao longo deste ano de 2014. Resta-nos agradecer à Fraternidade de Nossa Senhora do Amparo e também a cada irmão que, de um jeito único e especial, tornou possível este encontro abençoado. Por um longo período fomos trabalhados, gradativamente assumimos um novo jeito de ser e estar no mundo, assim como aconteceu com o nosso Pai Francisco. Agora, cada um é enviado. É preciso mergulhar em mares mais profundos, ir além e dizer sim Àquele que, antes mesmo de existirmos, nos escolheu e amou.


Kaynan Cappucci, especial para o site Franciscanos


sábado, 13 de dezembro de 2014

Santa Luzia


Somente em 1894 o martírio da jovem Luzia, também chamada Lúcia, foi devidamente confirmado, quando se descobriu uma inscrição escrita em grego antigo sobre o seu sepulcro, em Siracusa, Nápoles. A inscrição trazia o nome da mártir e confirmava a tradição oral cristã sobre sua morte no início do século IV.

Mas a devoção à santa, cujo próprio nome está ligado à visão ("Luzia" deriva de "luz"), já era exaltada desde o século V. Além disso, o papa Gregório Magno, passado mais um século, a incluiu com todo respeito para ser citada no cânone da missa. Os milagres atribuídos à sua intercessão a transformaram numa das santas auxiliadoras da população, que a invocam, principalmente, nas orações para obter cura nas doenças dos olhos ou da cegueira.

Diz a antiga tradição oral que essa proteção, pedida a santa Luzia, se deve ao fato de que ela teria arrancado os próprios olhos, entregando-os ao carrasco, preferindo isso a renegar a fé em Cristo. A arte perpetuou seu ato extremo de fidelidade cristã através da pintura e da literatura. Foi enaltecida pelo magnífico escritor Dante Alighieri, na obra "A Divina Comédia", que atribuiu a santa Luzia a função da graça iluminadora. Assim, essa tradição se espalhou através dos séculos, ganhando o mundo inteiro, permanecendo até hoje.

Luzia pertencia a uma rica família napolitana de Siracusa. Sua mãe, Eutíquia, ao ficar viúva, prometeu dar a filha como esposa a um jovem da Corte local. Mas a moça havia feito voto de virgindade eterna e pediu que o matrimônio fosse adiado. Isso aconteceu porque uma terrível doença acometeu sua mãe. Luzia, então, conseguiu convencer Eutíquia a segui-la em peregrinação até o túmulo de santa Águeda ou Ágata. A mulher voltou curada da viagem e permitiu que a filha mantivesse sua castidade. Além disso, também consentiu que dividisse seu dote milionário com os pobres, como era seu desejo.

Entretanto quem não se conformou foi o ex-noivo. Cancelado o casamento, foi denunciar Luzia como cristã ao governador romano. Era o período da perseguição religiosa imposta pelo cruel imperador Diocleciano; assim, a jovem foi levada a julgamento. Como dava extrema importância à virgindade, o governante mandou que a carregassem à força a um prostíbulo, para servir à prostituição. Conta a tradição que, embora Luzia não movesse um dedo, nem dez homens juntos conseguiram levantá-la do chão. Foi, então, condenada a morrer ali mesmo. Os carrascos jogaram sobre seu corpo resina e azeite ferventes, mas ela continuava viva. Somente um golpe de espada em sua garganta conseguiu tirar-lhe a vida. Era o ano 304.

Para proteger as relíquias de Santa Luzia dos invasores árabes muçulmanos, em 1039, um general bizantino as enviou para Constantinopla, atual território da Turquia. Elas voltaram ao Ocidente por obra de um rico veneziano, seu devoto, que pagou aos soldados da cruzada de 1204 para trazerem sua urna funerária. Santa Luzia é celebrada no dia 13 de dezembro e seu corpo está guardado na Catedral de Veneza, embora algumas pequenas relíquias tenham seguido para a igreja de Siracusa, que a venera no mês de maio também.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

3º domingo do Advento


A testemunha não é o Salvador

Primeira leitura: Is 61,1-2a.10-11
Salmo responsorial: (Lc 1,46-48.49-50.53-54) - O Magnificat
Segunda leitura: 1Ts 5,16-24
 Evangelho: Jo 1,5-8.19-28

No domingo anterior vimos a figura de João Batista, como a apresenta o evangelho de Mc. Hoje, no evangelho, podemos ver como o evangelista João interpreta a figura do Batista, não mais caracterizada pelo tema da conversão, mas pelo do testemunho. No evangelho de Mc, centrado sobre Jesus que proclama a chegada do Reino de Deus, o Batista é o profeta escatológico, o novo Elias, que deve preparar os corações para que, mediante a conversão, participem do Reino.

A visão do evangelho de João é um tanto diferente. O conceito do “Reino” falta praticamente em Jo (é substituído pelo de “vida eterna”). Jo evita a historização do Reino; o Reino (de Jesus) não é deste mundo (Jo 18,36). Deus não se manifesta naquilo que o mundo chama de “reino”, mas em Jesus mesmo (14,9). Escrevendo num outro contexto, Jo evita os tradicionais conceitos apocalípticos: o reino, o profeta do Fim etc. Por isso, em Jo 1,19-21, o Batista recusa os traços de sabor apocalíptico, por exemplo, do novo Elias, que os outros evangelhos lhe atribuem. Ele não é um personagem apocalíptico, ele é a “voz de quem grita no deserto” (cf. Is 40,3; Jo 1,22-23), uma testemunha (lo 1,6-8.19.34; 3,26; 5,33).

Ele não é a luz do mundo, que é Jesus (1,6-8 8,12; 9,5), mas apenas uma lâmpada provisória (5,35). Seu batismo não é propriamente uma atuação escatológica, mas um sinal que aponta para o Enviado de Deus, o qual está, desconhecido, no meio do mundo (1,26). E, de fato, na continuação do texto, o Batista vai mostrar a seus discípulos Jesus como o Cordeiro de Deus (1,29.36, cf. 3,30).

A Luz que o Batista aponta está no mundo, mas o mundo não a quer conhecer (1,5.9-11). A parcela incrédula do mundo gosta de ficar nas trevas (3,19-20), cega (9,39-41). Se, portanto, o Batista aponta essa Luz como estando presente, desconhecida, no meio de nós (1,26), ele não apenas quer dizer que (ainda) não tivemos a chance de descobri-la, mas sugere que é preciso querer descobri-la. Para poder ver é preciso querer ver. Assim, o evangelho de hoje desperta em nós a necessidade de uma decisão pelas palavras do Batista: “No meio de vós está quem vós não conheceis”, somos convidados a querer descobri-lo, dilatando nosso coração em alegria.

A liturgia de hoje está banhada na alegria (é o antigo domingo “Gaudete”). Alegria do antigo povo de Israel, que, de volta do exílio, mas ainda não bem estabelecido, espera dias melhores para breve; pois o profeta lhe é enviado com uma missão particular do Senhor (isto significa sua unção, Is 61,1) anunciar a boa-nova da perfeita restauração da paz e justiça, ao povo oprimido: os pobres, os cativos, os sofridos; proclamar um ano de graça, isto é, um ano sabático ou um jubileu, instituições de Israel para restabelecer, na sociedade, chances iguais para cada um (devolução das terras hipotecadas, libertação dos escravos etc.). A perspectiva de tal restauração da harmonia (não temos conhecimento de que ela foi jamais realizada) provoca no profeta um grito de júbilo, como de um noivo ou noiva preparando-se para as núpcias. A justiça de Deus (a ordem sonhada por Deus) tornar-se-á coisa tão natural e cotidiana, tão vital e promissora quanto o germinar das frutas da terra. A liturgia completa este “Magnificat do Antigo Testamento” (Is 61,10-11; 1ª leitura) com o do N.T., que é o canto responsorial de hoje. Surge, destes textos, a imagem do Deus Libertador, que se dirige, em primeiro lugar, aos que mais esperam: os pobres e humildes. Nestes vive o desejo que permite reconhecer as maravilhas do Senhor.

Também na 2ª leitura vibra a alegria, por uma razão mais profunda ainda: o que Deus quis, afinal, com Jesus Cristo e sua obra, é que sempre possamos estar alegres e agradecer-lhe (1Ts 5,16). Ver-nos felizes, eis o desejo de Deus, ao qual nós respondemos por nosso desejo de vê-lo. Por isso, devemos deixar-nos animar sem cessar por seu Espírito. Na Igreja de Paulo, este Espírito era visível nos carismas. “Não apagar o Espírito” não significa, apenas, guardar vivo o fogo interior, mas também respeitar e incentivar a ação visível do Espírito na atuação carismática dos fiéis. Daí: não desprezar as profecias; antes, ponderar a avaliar tudo e ficar com aquilo que serve. E conservar sua integridade, sua “inteireza”, pois tudo em nós deve ser santo quando vier o Senhor. Ele, por sua parte, não falhará; ele é fiel.

A oração do dia pede que possamos chegar às alegrias (eternas) da salvação e também celebrá-las, desde já, na liturgia. Ora, a liturgia é o momento de moldar a espiritualidade de nossa vida cotidiana. A alegria que ela celebra não é um parêntese em nossa vida, e sim, a manifestação do tom fundamental, o “baixo contínuo” de nossa vida. Articulando em hino e louvor o que vive no fundo de nosso coração e de nossa comunidade, a liturgia nos chama a uma autêntica vivência daquilo que ela articula. Se não formos capazes de participar do “Gaudete” de hoje, esticando nosso pescoço no alegre desejo de ver Aquele que está no meio de nós, alguma coisa não está certa em nós.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

Fonte: Site dos Franciscanos

São João da Cruz

Seu nome de batismo era Juan de Yepes. Nasceu em Fontivaros, na província de Ávila, Espanha, em 1542, talvez em 24 de junho. Ainda na infância, ficou órfão de pai, Gonzalo de Yepes, descendente de uma família rica e tradicional de Toledo. Mas, devido ao casamento, foi deserdado da herança. A jovem, Catarina Alvarez, sua mãe, era de família humilde, considerada de classe "inferior". Assim, com a morte do marido, que a obrigou a trabalhar, mudou-se para Medina, com os filhos.

Naquela cidade, João tentou várias profissões. Foi ajudante num hospital, enquanto estudava gramática à noite num colégio jesuíta. Então, sua espiritualidade aflorou, levando-o a entrar na Ordem Carmelita, aos vinte e um anos. Foi enviado para a Universidade de Salamanca a fim de completar seus estudos de filosofia e teologia. Mesmo dedicando-se totalmente aos estudos, encontrava tempo para visitar doentes em hospitais ou em suas casas, prestando serviço como enfermeiro.

Ordenou-se sacerdote aos vinte e cinco anos, mudando o nome. Na época, pensou em procurar uma Ordem mais austera e rígida, por achar a Ordem Carmelita muito branda. Foi então que a futura santa Tereza de Ávila cruzou seu caminho. Com autorização para promover, na Espanha, a fundação de conventos reformados, ela também tinha carta branca dos superiores gerais para fazer o mesmo com conventos masculinos. Tamanho era seu entusiasmo que atraiu o sacerdote João da Cruz para esse trabalho. Ao invés de sair da Ordem, ele passou a trabalhar em sua reforma, recuperando os princípios e a disciplina.

João da Cruz encarregou-se de formar os noviços, assumindo o cargo de reitor de uma casa de formação e estudos, reformando, assim, vários conventos. Reformar uma Ordem, porém, é muito mais difícil que fundá-la, e João enfrentou dificuldades e sofrimentos incríveis, para muitos, insuportáveis. Chegou a ser preso por nove meses num convento que se opunha à reforma. Os escritos sobre sua vida dão conta de que abraçou a cruz dos sofrimentos e contrariedades com prazer, o que é só compreensível aos santos. Aliás, esse foi o aspecto da personalidade de João da Cruz que mais se evidenciou no fim de sua vida.

Conta-se que ele pedia, insistentemente, três coisas a Deus. Primeiro, dar-lhe forças para trabalhar e sofrer muito. Segundo, não deixá-lo sair desse mundo como superior de uma Ordem ou comunidade. Terceiro, e mais surpreendente, que o deixasse morrer desprezado e humilhado pelos seres humanos. Para ele, fazia parte de sua religiosidade mística enfrentar os sofrimentos da Paixão de Jesus, pois lhe proporcionava êxtases e visões. Seu misticismo era a inspiração para seus escritos, que foram muitos e o colocam ao lado de santa Tereza de Ávila, outra grande mística do seu tempo. Assim, foi atendido nos três pedidos.

Pouco antes de sua morte, João da Cruz teve graves dissabores por causa das incompreensões e calúnias. Foi exonerado de todos os cargos da comunidade, passando os últimos meses na solidão e no abandono. Faleceu após uma penosa doença, em 14 de dezembro de 1591, com apenas quarenta e nove anos de idade, no Convento de Ubeda, Espanha.

Deixou como legado sua volumosa obra escrita, de importante valor humanístico e teológico. E sua relevante e incansável participação como reformador da Ordem Carmelita Descalça. Foi canonizado em 1726 e teve sua festa marcada para o dia de sua morte. São João da Cruz foi proclamado doutor da Igreja em 1926, pelo papa Pio XI. Mais tarde, em 1952, foi declarado o padroeiro dos poetas espanhóis.

Santo do dia - Nossa Senhora de Guadalupe


Como toda aparição de Nossa Senhora, a que é venerada hoje é emocionante também. Talvez esta seja uma das mais comoventes, pelo milagre operado no episódio e pela dúvida lançada por um bispo sobre sua aparição a um simples índio mexicano.

Tudo se passou em 1531, no México, quando os missionários espanhóis já haviam aprendido a língua dos indígenas. A fé se espalhava lentamente por essas terras mexicanas, cujos rituais astecas eram muito enraizados. O índio João Diogo havia se convertido e era devoto fervoroso da Virgem Maria. Assim, foi o escolhido para ser o portador de sua mensagem às nações indígenas. Nossa Senhora apareceu a ele várias vezes.

A primeira vez, quando o índio passava pela colina de Tepyac, próxima da Cidade do México, atual capital, a caminho da igreja. Maria lhe pediu que levasse uma mensagem ao bispo. Ela queria que naquele local fosse erguida uma capela em sua honra. Emocionado, o índio procurou o bispo, João de Zumárraga, e contou-lhe o ocorrido. Mas o sacerdote não deu muito crédito à sua narração, não dando resposta se iria, ou não, iniciar a construção.

Passados uns dias, Maria apareceu novamente a João Diogo, que desta vez procurou o bispo com lágrimas nos olhos, renovando o pedido. Nem as lágrimas comoveram o bispo, que exigiu do piedoso homem uma prova de que a ordem partia mesmo de Nossa Senhora.

Deu-se, então, o milagre. João Diogo caminhava em direção à capital por um caminho distante da colina onde, anteriormente, as duas visões aconteceram. O índio, aflito, ia à procura de um sacerdote que desse a unção dos enfermos a um tio seu, que agonizava. De repente, Maria apareceu à sua frente, numa visão belíssima. Tranqüilizou-o quanto à saúde do tio, pois avisou que naquele mesmo instante ele já estava curado. Quanto ao bispo, pediu a João Diogo que colhesse rosas no alto da colina e as entregasse ao religioso. João ficou surpreso com o pedido, porque a região era inóspita e a terra estéril, além de o país atravessar um rigoroso inverno. Mas obedeceu e, novamente surpreso, encontrou muitas rosas, recém-desabrochadas. João colocou-as no seu manto e, como a Senhora ordenara, foi entrega-las ao bispo como prova de sua presença.

E assim fez o fiel índio. Ao abrir o manto cheio de rosas, o bispo viu formar-se, impressa, uma linda imagem da Virgem, tal qual o índio a descrevera antes, mestiça. Espantado, o bispo seguiu João até a casa do tio moribundo e este já estava de pé, forte e saudável. Contou que Nossa Senhora "morena" lhe aparecera também, o teria curado e renovado o pedido. Queria um santuário na colina de Tepyac, onde sua imagem seria chamada de Santa Maria de Guadalupe. Mas não explicou o porquê do nome.

A fama do milagre se espalhou. Enquanto o templo era construído, o manto com a imagem impressa ficou guardado na capela do paço episcopal. Várias construções se sucederam na colina, ampliando templo após templo, pois as romarias e peregrinações só aumentaram com o passar dos anos e dos séculos.

O local se tornou um enorme santuário, que abriga a imagem de Nossa Senhora na famosa colina, e ainda se discute o significado da palavra Guadalupe. Nele, está guardado o manto de são João Diego, em perfeito estado, apesar de passados tantos séculos. Nossa Senhora de Guadalupe é a única a ser representada como mestiça, com o tom de pele semelhante ao das populações indígenas. Por isso o povo a chama, carinhosamente, de "La Morenita", quando a celebra no dia 12 de dezembro, data da última aparição.

Foi declarada padroeira das Américas, em 1945, pelo papa Pio XII. Em 1979, como extremado devoto mariano, o papa João Paulo II visitou o santuário e consagrou, solenemente, toda a América Latina a Nossa Senhora de Guadalupe.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Pontífice fala sobre Sínodo das Famílias


Começamos hoje um novo ciclo de catequeses, dedicado à família. Sobre ela – mais concretamente sobre «os desafios pastorais da família, no contexto da nova evangelização» – se debruçou a Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos, que teve lugar no passado mês de Outubro, «cum Petro et sub Petro», isto é, com a presença do Papa, que é garantia para todos de liberdade e confiança e garantia de ortodoxia. Logo ao início, pedi aos Padres Sinodais que falassem com franqueza e coragem e ouvissem com humildade. Todos puderam falar com grande liberdade e as suas intervenções foram escutadas e recolhidas numa Síntese, a qual foi objecto de debate nos grupos linguísticos do Sínodo e completada, dando origem à Relação Final. Esta constitui um ponto de chegada de toda a reflexão, tendo agora sido enviada às Conferências Episcopais para se pronunciarem sobre ela e enviarem as suas propostas ao Sínodo Ordinário dos Bispos sobre a família em Outubro do ano 2015. Nenhuma intervenção pôs em discussão as verdades fundamentais do sacramento do Matrimônio: a indissolubilidade, a unidade, a fidelidade e a abertura à vida. O Sínodo não é um Parlamento, mas um espaço protegido para o Espírito Santo poder agir no coração de todos. Lá não há facções em liça, mas um confronto entre o sentir íntimo dos Padres Sinodais. Agora o trabalho continua nas dioceses através da oração, da reflexão e do debate fraterno, tendo em vista o bem das famílias, da Igreja e da sociedade.

Fonte: Site do Vaticano

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

O Natal de Gabriel e Rafael


Nós do Pró-Vocações e Missões Franciscanas estamos fazendo uma campanha neste Natal. Um gesto concreto, para ajudar uma família que está passando por dificuldades.

Os pequenos Gabriel e Rafael estão com 10 meses, mas nasceram prematuros, e um deles teve muitas complicações pós-parto, e necessita de cuidados especiais. Estamos arrecadando na sede do Pró-Vocações doações. Fraldas descartáveis (tamanho G), lenços umedecidos, e outros itens para crianças.

Para os que gostariam de ajudar, criamos uma vaquinha virtual, uma forma de contribuir financeiramente com esta campanha. Você ajuda com o quanto puder, através de boleto bancário ou cartão de crédito. Para ter acesso a esta vaquinha, acesse o link: http://goo.gl/9kMdNl

Para doar pessoalmente, venha até o PVF: Largo São Francisco, 133, Centro, São Paulo, SP.

Procure pelo Pró-Vocações.

Que Deus abençoe você e sua família!

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Igreja das Chagas recebe concerto de música clássica


Neste sábado, dia 13 de dezembro, às 13 horas, haverá concerto de música clássica na Igreja das Chagas do Seráfico Pai São Francisco, no Largo São Francisco, em São Paulo.

O grupo Musicaplena apresenta “Música no Teatro Inglês: de Shakespeare a Handel” e o grupo Brassuka apresenta “Música para metais da Renascença ao Barroco”.

Saiba mais no site do Centro Cultural Banco do Brasil.

Profissão solene em Petrópolis


Por Moacir Beggo

Petrópolis (RJ) – Quando São Francisco de Assis iniciou a sua caminhada de conversão, ele não pensava em fundar nenhum movimento, mas vieram seguidores e ele alimentou isso como uma graça de Deus: “O Senhor me deu irmãos!”, disse no seu Testamento. Neste sábado, 6 de dezembro, Frei Antônio Michels explicou no comentário inicial que, com a graça de Deus, hoje novos irmãos se juntavam a São Francisco de Assis para seguir Jesus Cristo. Foi assim, com muita alegria, que Frei Camilo Donizete Evaristo Martins; Frei Alan Maia de França Victor; Frei Clovis Pasinato; Frei Edvaldo Batista Soares; Frei Jean Carlos Ajlouni Oliveira; Frei Vanderlei da Silva Neves; Frei Fábio Gomes; Frei Marcos Vinícius Brügger; e Frei Evaldo Ludwig ingressaram definitivamente na Ordem dos Frades Menores.

A profissão solene foi feita nas mãos do Ministro Provincial Frei Fidêncio Vanboemmel, durante celebração Eucarística às 16h15 na Igreja do Sagrado Coração de Jesus de Petrópolis (RJ), que lotou para ver os neoprofessos da Província Franciscana da Imaculada Conceição. Além dos concelebrantes, Frei César Küllkamp, guardião da Fraternidade do Sagrado, e do Definidor Frei Evaristo Spengler, o presbitério ficou lotado de frades que vieram de toda a Província, além de religiosos e sacerdotes diocesanos.

O rito da profissão solene começou depois da leitura do Evangelho. O mestre Frei Marcos Andrade chamou  cada um dos professandos pelo nome. Em pé, diante do Ministro Provincial, eles responderam: “Aqui estou!”. O mestre, então, fez um breve resumo da vida de cada professando. Depois, juntos, eles fizeram o pedido para serem admitidos definitivamente na Ordem dos Frades Menores.

Na sua homilia, em seguida, Frei Fidêncio brindou os novos consagrados com a mensagem mais recente do Papa Francisco para o Ano da Vida Religiosa Consagrada. Ao falar dos fundadores das Ordens, disse que eles viveram apaixonadamente o Evangelho, onde os “votos têm sentido apenas para implementar este seu amor apaixonado”. Nessa paixão por Jesus Cristo, o Ministro Provincial elencou cinco grandes expectativas que o Papa Francisco tem para os religiosos e religiosas neste ano:

– Alegria: Onde estão os religiosos, há alegria;

– Profecia: despertar o mundo, característica da profecia;

– Comunhão: Religiosos chamados a serem peritos em comunhão, espiritualidade da comunhão, fazer da Igreja a casa e a escola da comunhão;

– Sair de si mesmo e para ir às periferias existenciais (ide pelo mundo inteiro);

– Cada forma de vida consagrada se interrogue sobre o que pedem Deus e a humanidade de hoje.

Dessas cinco dimensões, Frei Fidêncio destacou especialmente duas: profecia e sair de si mesmo. “Profetas são mensageiros que o Senhor envia para preparar o Caminho do Senhor”, disse lembrando o tempo do Advento. E por último, no sair de si mesmo, destacou um belo texto do Papa: “Não vos fecheis em vós mesmos, não vos deixeis asfixiar por pequenas brigas de casa, não fiqueis prisioneiros dos vossos problemas. Estes se resolverão se sairdes para ajudar os outros a resolverem os seus problemas, anunciando-lhes a Boa Nova. Encontrareis a vida dando a vida, a esperança dando esperança, o amor amando”. No final da homilia, exortou os neoprofessos para abraçarem a vida religiosa com alegria: “Não tenhais medo!”, disse.

Em seguida à homilia, os pais se aproximaram da pia batismal, onde está o Círio Pascal, acenderam uma vela e entregaram aos professandos para recordar a vocação batismal que neles está se desabrochando como vocação religiosa franciscana. Depois, Frei Fidêncio perguntou aos professandos pelas motivações que eles trouxeram ao pedir a admissão definitiva na Ordem dos Frades Menores. Em seguida, ele pediu a intercessão de todos os Santos da Ordem para os novos irmãos.

Terminada a Ladainha de todos os Santos, os professandos se prostraram de joelhos diante do Ministro Provincial, colocaram as suas mãos nas mãos do Ministro, num gesto de entrega, de obediência, e leram a fórmula de profissão definitiva na Ordem dos Frades Menores. Em seguida, cada um deles assinou dois documentos: um de confirmação dos votos emitidos e o outro de renúncia a todos os bens, para se tornarem mais livres no seguimento com gratuidade de Jesus. Cada neoprofesso recebeu do Ministro a Regra de Vida e o rito terminou com o abraço caloroso dos confrades.

A liturgia continuou solenemente até o final da comunhão. No momento de agradecimento falou em nome do grupo Frei Evaldo, que fez calorosos agradecimentos aos frades, especialmente aos que os acompanharam até agora na formação, especialmente o Ministro Provincial, que foi o mestre deles quando vestiram o hábito franciscano.

No final, o Ministro Provincial se dirigiu até os familiares nos bancos e fez um agradecimento emocionado a eles.  “Vocês geraram para nós, como sempre digo, irmãos muito importantes. Companheiros na fé, na luta, na missão e na evangelização. Muito obrigado a vocês!”, disse agradecendo também a Fraternidade do Sagrado e o Instituto Teológico Franciscano.

Fonte: Site dos Franciscanos










Santo do dia: São João Diego Cuauhtlatoatzin


Os registros oficiais narram que Juan Diego, para nós João Diego, nasceu em 1474 na calpulli, ou melhor, no bairro de Tlayacac ao norte da atual Cidade do México. Era um índio nativo, que antes de ser batizado tinha o nome de Cuauhtlatoatzin, traduzido como "águia que fala" ou "aquele que fala como águia".

Era um índio pobre, pertencia à mais baixa casta do Império Azteca, sem ser, entretanto, um escravo. Dedicava-se ao difícil trabalho no campo e à fabricação de esteiras. Possuía um pedaço de terra, onde vivia feliz com a esposa, numa pequena casa, mas não tinha filhos.

Atraído pela doutrina dos padres franciscanos que chegaram ao México em 1524, se converteu e foi batizado, junto como sua esposa. Receberam o nome cristão de João Diego e Maria Lúcia, respectivamente. Era um homem dedicado, religioso, que sempre se retirava para as orações contemplativas e penitências. Costumava caminhar de sua vila à Cidade do México, a quatorze milhas de distância, para aprender a Palavra de Cristo. Andava descalço e vestia, nas manhãs frias, uma roupa de tecido grosso de fibra de cactos como um manto, chamado tilma ou ayate, como todos de sua classe social.

A esposa, Maria Lúcia, ficou doente e faleceu em 1529. Ele, então, foi morar com seu tio, diminuindo a distância da igreja para nove milhas. Fazia esse percurso todo sábado e domingo, saindo bem cedo, antes do amanhecer. Durante uma de suas idas à igreja, no dia 9 de dezembro de 1531, por volta de três horas e meia, entre a vila e a montanha, ocorreu a primeira aparição de Nossa Senhora de Guadalupe, num lugar hoje chamado "Capela do Cerrinho", onde a Virgem Maria o chamou em sua língua nativa, nahuatl, dizendo: "Joãozinho, João Dieguito", "o mais humilde de meus filhos", "meu filho caçula", "meu queridinho".

A Virgem o encarregou de pedir ao bispo, o franciscano João de Zumárraga, para construir uma igreja no lugar da aparição. Como o bispo não se convenceu, ela sugeriu que João Diego insistisse. No dia seguinte, domingo, voltou a falar com o bispo, que pediu provas concretas sobre a aparição.

Na terça-feira, 12 de dezembro, João Diego estava indo à cidade quando a Virgem apareceu e o consolou. Em seguida, pediu que ele colhesse flores para ela no alto da colina de Tepeyac. Apesar do frio inverno, ele encontrou lindas flores, que colheu, colocou no seu manto e levou para Nossa Senhora. Ela disse que as entregasse ao bispo como prova da aparição. Diante do bispo, João Diego abriu sua túnica, as flores caíram e no tecido apareceu impressa a imagem de Nossa Senhora de Guadalupe. Tinha, então, cinqüenta e sete anos.

Após o milagre de Guadalupe, foi morar numa sala ao lado da capela que acolheu a sagrada imagem, depois de ter passado seus negócios e propriedades ao seu tio. Dedicou o resto de sua vida propagando as aparições aos seus conterrâneos nativos, que se convertiam. Ele amou, profundamente, a santa eucaristia, e obteve uma especial permissão do bispo para receber a comunhão três vezes na semana, um acontecimento bastante raro naqueles dias.

João Diego faleceu no dia 30 de maio de 1548, aos setenta e quatro anos, de morte natural.

O papa João Paulo II, durante sua canonização em 2002, designou a festa litúrgica para 9 de dezembro, dia da primeira aparição, e louvou são João Diego, pela sua simples fé nutrida pelo catecismo, como um modelo de humildade para todos nós.

CANONIZAÇÃO DE JUAN DIEGO CUAUHTLATOATZIN - HOMILIA DO PAPA SÃO JOÃO PAULO II

Basílica de Nossa Senhora de Guadalupe, Cidade do México  - 31 de Julho de 2002

1. "Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado!" (Mt 11, 25-26).

Queridos Irmãos e Irmãs, estas palavras de Jesus no Evangelho deste dia constituem, para nós, um convite especial para louvar e dar graças a Deus pela dádiva do primeiro Santo indígena do Continente americano.

É com grande alegria que fiz a peregrinação até esta Basílica de Nossa Senhora de Guadalupe, coração mariano do México e da América, para proclamar a santidade de Juan Diego Cuauhtlatoatzin, o índio simples e humilde que contemplou o rosto dócil e sereno da Virgem de Tepeyac, tão querido a todas as populações do México.

2. Agradeço as amáveis palavras que me foram dirigidas pelo Senhor Cardeal Norberto Rivera Carrera, Arcebispo da Cidade do México, assim como a calorosa hospitalidade dos homens e das mulheres desta Arquidiocese Primaz: dirijo-vos a todos a minha cordial saudação. Saúdo também com afeto o Senhor Cardeal Ernesto Corripio Ahumada, Arcebispo Emérito da Cidade do México, e os outros Purpurados, Bispos do México, da América, das Filipinas e de outras regiões do mundo. Agradeço igualmente, e de maneira particular, ao Senhor Presidente da República e às Autoridades civis a sua presença nesta celebração.

Hoje, dirijo uma saudação muito especial aos numerosos indígenas provenientes das diferentes regiões do País, representantes das diversas etnias que compõem a rica e multiforme realidade mexicana. O Papa manifesta-lhes a sua proximidade, o seu profundo respeito e admiração, enquanto os recebe fraternalmente em nome do Senhor.

3. Como era Juan Diego? Por que motivo Deus fixou o seu olhar nele? Como acabamos de escutar, o livro do Eclesiástico ensina-nos que somente "Deus é todo-poderoso e apenas os humildes o glorificam" (cf. 3, 19-20). Inclusivamente as palavras de São Paulo, também proclamadas durante esta celebração, iluminam esta maneira divina de realizar a salvação: "Deus escolheu aquilo que o mundo despreza [e que é insignificante]. Deste modo, nenhuma criatura se pode orgulhar na presença de Deus" (cf. 1 Cor 1, 28-29).

É comovedor ler as narrações guadalupanas, escritas com delicadeza e repletas de ternura. Nelas, a Virgem Maria, a escrava "que proclama a grandeza do Senhor" (Lc 1, 46), manifesta-se a Juan Diego como a Mãe do Deus verdadeiro. Ela entrega-lhe, como sinal, um ramalhete de rosas preciosas e ele, mostrando-as ao Bispo, descobre gravada no seu manto ("tilma") a imagem abençoada de Nossa Senhora.

"O acontecimento guadalupano como afirmaram os membros da Conferência Episcopal Mexicana significou o começo da evangelização, com uma vitalidade que ultrapassou qualquer expectativa. A mensagem de Cristo através da sua Mãe assumiu os elementos centrais da cultura indígena, purificou-os e atribuiu-lhes o definitivo sentido de salvação" (14 de Maio de 2002, n. 8). Desta maneira, Guadalupe e Juan Diego possuem um profundo sentido eclesial e missionário, e constituem um paradigma de evangelização perfeitamente inculturada.

4. Com o salmista, acabamos de recitar: "Do céu, o Senhor contempla e vê todos os homens" (Sl 33 [32], 13), professando uma vez mais a nossa fé em Deus, que não considera as diferenças de raça ou de cultura. Ao acolher a mensagem cristã, sem renunciar à sua identidade indígena, Juan Diego descobriu a profunda verdade da nova humanidade, em que todos são chamados a ser filhos de Deus em Cristo. Desta forma, facilitou o encontro fecundo de dois mundos e transformou-se num protagonista da nova identidade mexicana, intimamente vinculada a Nossa Senhora de Guadalupe, cujo rosto mestiço dá expressão da sua maternidade espiritual que abarca todos os mexicanos. Por isso, o testemunho da sua vida deve continuar a dar impulso à edificação da Nação mexicana, a promover a fraternidade entre todos os seus filhos e a favorecer cada vez mais a reconciliação do México com as suas origens, os seus valores e as suas tradições.

Esta nobre tarefa de edificar um México melhor, mais justo e mais solidário, exige a colaboração de todos. Em particular, hoje em dia é necessário apoiar os indígenas nas suas aspirações legítimas, respeitando e defendendo os valores autênticos de cada um dos grupos étnicos. O México tem necessidade dos seus indígenas e os seus indígenas precisam do México!

Amados Irmãos e Irmãs de todas as etnias do México e da América, ao exaltar neste dia a figura do índio Juan Diego, desejo expressar-vos a proximidade da Igreja e do Papa em relação a todos vós, enquanto vos abraço com amor e vos animo a ultrapassar com esperança as difíceis situações por que estais a passar.

5. Neste momento decisivo da história do México, tendo já passado o limiar do novo milênio, recomendo à valiosa intercessão de São Juan Diego as alegrias e as esperanças, os temores e as angústias do querido povo mexicano, que trago com muito afeto no íntimo do meu coração.

Ditoso Juan Diego, índio bondoso e cristão, em quem o povo simples sempre viu um homem santo! Nós te suplicamos que acompanhes a Igreja peregrina no México, para que seja cada dia mais evangelizadora e missionária. Encoraja os Bispos, sustenta os presbíteros, suscita novas e santas vocações, ajuda todas as pessoas que entregam a sua própria vida pela causa de Cristo e pela difusão do seu Reino.

Bem-aventurado Juan Diego, homem fiel e verdadeiro! Nós te recomendamos os nossos irmãos e as nossas irmãs leigos a fim de que, sentindo-se chamados à santidade, penetrem todos os âmbitos da vida social com o espírito evangélico. Abençoa as famílias, fortalece os esposos no seu matrimônio, apoia os desvelos dos pais, empenhados na educação cristã dos seus filhos. Olha com solicitude para a dor dos indivíduos que sofrem no corpo e no espírito, de quantos padecem em virtude da pobreza, da solidão, da marginalização ou da ignorância. Que todos, governantes e governados, trabalhem sempre em conformidade com as exigências da justiça e do respeito da dignidade de cada homem individualmente, para que desta forma a paz seja consolidada.

Amado Juan Diego, a "águia que fala"! Ensina-nos o caminho que conduz para a Virgem Morena de Tepeyac, para que Ela nos receba no íntimo do seu coração, dado que é a Mãe amorosa e misericordiosa que nos orienta para o Deus verdadeiro.

No final da celebração, antes de conceder a Bênção apostólica a todos os fiéis ali presentes, o Santo Padre disse:

Ao concluir esta Canonização de Juan Diego, desejo renovar a minha saudação a todos vós que nela pudestes participar, alguns nesta Basílica, outros nos arredores e muitos outros ainda através da rádio e da televisão. Agradeço de coração o afeto de todas as pessoas que encontrei pelas ruas que percorri. No novo Santo, encontrais o maravilhoso exemplo de um homem justo, de costumes rectos, leal filho da Igreja, dócil aos pastores, amante da Virgem e bom discípulo de Jesus. Ele seja um modelo para vós, que muito o amais, e oxalá interceda pelo México, a fim de que seja sempre fiel. Levai a todos quantos a mensagem desta celebração, além da saudação e do afeto do Papa a todos os mexicanos.