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terça-feira, 8 de abril de 2014

São Francisco de Assis e o trabalho humano



Vi esta foto "pixada" (o que é errado) no banco do ônibus, mas senti como se fosse um desabafo e pensei... eis o motivo da reflexão abaixo: 

Tu não acha que todo mundo é doido? Que um só deixa de doido ser é em horas de sentir a completa coragem ou o amor? Ou em horas em que consegue rezar? 

Guimarães Rosa

Francisco e seus amigos não quiseram se deixar limitar espiritual e geograficamente por Assis. Esse o sentido de sua decisão de deixar tudo em vista do seguimento de Jesus Cristo. Foram pelo mundo afora. Tiveram essa mobilidade desde o começo. (FLOOD, 1983, p.73-4). 


Mas um outro fato realça de forma vigorosa o entrelaçamento dos Irmãos Menores e o mundo profano: a relação da Ordem com o trabalho. O trabalho é uma das atividades humanas que mais aproxima a pessoa do aspecto material da vida, ocupa seu tempo e dela pode exigir muito. Francisco não se afastou desse aspecto da vida. Pelo contrário, desde o início, nas Regras da Ordem, até bem próximo de sua morte, em seu Testamento, Francisco chamou a atenção de seus companheiros de jornada para a importância do trabalho humano e de que forma ele deveria ser executado para que não se afastasse dos ideais que deram origem a Ordem. 


Francisco afirmou em seu Testamento: 

E eu trabalhava com as minhas mãos e quero trabalhar. E quero firmemente que todos os outros irmãos se ocupem de um trabalho honesto. E os que não souberem trabalhar o aprendam, não por interesse de receber o salário do trabalho, mas por causa do bom exemplo e para afastar a ociosidade. E se caso não nos pagarem pelo trabalho vamos recorrer à mesa do Senhor e pedir esmola de porta em porta. (FRANCISCO, p.168).


Nesse tópico de seu Testamento, Francisco resume vários aspectos da visão tradicional do trabalho humano: o mestre (no caso Francisco) ensina porque realiza o trabalho em conjunto com os companheiros. Ele não manda, não vigia, ele trabalha junto. O exemplo é um dos principais instrumentos desse modo de ensinar. 

Francisco relembra que o critério de avaliação de um trabalho para quem o executa não é o salário recebido. Se o salário é o único avaliador do trabalho realizado, isto significa que há uma única relação de causa e efeito entre a pessoa que o faz e todo o processo de execução. É reduzir o trabalho a um fato apenas técnico. É tirar a própria característica humana que o trabalho tem. É aceitar o mote moderno de que, quem ganha bem tem um bom emprego. 

Por último, Francisco assume sua cotidiana atitude radical frente aos valores da nova sociedade, ao apontar o caminho da humildade sempre que o trabalho realizado não for acompanhado do salário correspondente: o pedir esmolas de porta em porta. 
Entregar nas mãos de Deus o problema da subsistência do próprio corpo. 
Francisco queria que o trabalho fosse na vida das pessoas um elemento de alegria, de união. 

O que ele procurou foi criar uma nova atitude em face do trabalho, foi infundir em todo o trabalho o espírito comunitário, de camaradagem, de companheirismo, foi criar um grupo de pessoas unidas pelos simples deveres decorrentes da aceitação da pobreza e do serviço num espírito de contente renúncia; gente que poderia mesmo continuar no seu ofício ou em sua casa, contanto que se desfizesse de arrimos materiais. (MUMFORD, 1944, p.142). 

A mensagem de Francisco era dirigida para todas as pessoas, mas tinha uma platéia cuja recepção tinha características especiais. Eram as pessoas que se sentiam atraídas pela riqueza material, que nessa época se desenvolvia celeremente, e eram tentadas pela cobiça. Daí sua indicação de que, sempre que possível fosse, o Irmão Menor não esmolasse para si próprio, mas para os outros. O hábito da esmola é para Francisco a forma cotidiana de se aproximar da pobreza espiritual: 

Por amar os pobres, ou dizer amá-los, é que eu, rico, me entreguei a pobreza. Vivi e fiz viver outros de esmolas, dei o que tive e o que me davam, fui ou quis ser, o mais pobre dos pobres. Não recebi a pobreza como uma herança, procurei-a, conquistei-a, devo-a ao fogo da vocação e ao gelo da vontade. (SARAMAGO, 1987, p.124). 

O estudo da vida de São Francisco de Assis pode ajudar a entender porque o mundo do trabalho de hoje é tão carregado de problemas e representa um fardo para as trabalhadoras e trabalhadores, tanto do ponto de vista de desgaste físico, mental, como do desgaste psíquico. Mais do que isso, o fardo que a forma de se realizar o trabalho hoje representa é um vazio espiritual, porque o trabalho passa a ser apenas a maneira 
de se conseguir – na maioria dos casos, apenas parcialmente – o dinheiro para a própria subsistência e a dos familiares. O trabalho perde suas outras características, que possibilitam ligar a pessoa aos seus irmãos e ao Creador. 

Nas Regras, ditadas por Francisco, que a Ordem dos Frades Menores teve em seu início, vários são os tópicos que relembram a função salvadora do trabalho. 
Na Regra Não-Bulada de 1221, Francisco coloca, no item 7 “Do modo de servir e de trabalhar”, as principais características, do ponto de vista franciscano, do trabalho humano. 


Nenhum irmão, onde quer que esteja para servir ou trabalhar para outrem, jamais seja capataz, nem administrador, nem exerça cargo de direção na casa em que serve, nem aceite emprego que possa causar escândalo ou “perder sua alma”. Em vez disto sejam os menores e submissos a todos que moram na mesma casa. (FRANCISCO, p.146).

Neste tópico, Francisco chama a atenção para dois aspectos do trabalho bem realizado. O primeiro aponta para o malefício de existência de uma estrutura de poder que diferencie as pessoas dentro de um processo de produção. O trabalho é coletivo; é uma ação humana cooperativada e não deve ser fonte de ascendência de uma pessoa sobre outra. Num processo de trabalho, quando entendido espiritualmente, não há tarefa mais importante que outra, não há distinção entre trabalho manual e trabalho intelectual, uma vez que a visão tradicional do trabalho não separa ação da contemplação. Assim, um Irmão Menor não pode colocar-se hierarquicamente acima de outro. Se a condição social implica na existência de uma estrutura hierárquica dentro do mundo do trabalho, como era o caso da cidade de Assis, só restava ao frei franciscano colocar-se no último degrau dessa estrutura. Sua missão é servir a todos, sem distinção. E isso só pode ocorrer quando ele for o menor entre os menores, como ensinava Francisco. Esse posicionamento criava propícias condições para que o irmão franciscano exercitasse a humildade, com o objetivo de aproximação compreensiva aos companheiros de trabalho e de criar no seu coração o solo preparado para o encontro com Deus. 


Desenvolver uma atitude humilde pode transformar nossas tendências egoístas em generosidade, o que nos permite, então, descobrir a beleza do verdadeiro dar e compartilhar com os outros. Quando deixamos um profundo sentimento e interesse e de cuidado permear todas as nossas ações, compreendemos que o coração humilde é o maior de todos os corações. O respeito e a consideração que mostramos em relação às outras pessoas despertam nelas afetuosidade e reconhecimento recíprocos, de modo que todas as nossas interações ficam elevadas a um nível vital. (TULKU, 1978, p.162). 



Dicionário:
Significado de Trabalho


s.m. As atividades realizadas por alguém para alcançar um determinado fim ou propósito.
Os mecanismos mentais ou intelectuais utilizados na realização de alguma coisa.


Lugar em que são aplicados esses mecanismos: viver perto do seu trabalho. 


Atenção empregada na realização ou fabricação de alguma coisa; esmero.


A fabricação, o desenvolvimento ou a elaboração de algo: trabalho de marcenaria, trabalho de madeira.


Produto que foi realizado, desenvolvido ou elaborado: este bolo foi um belo trabalho de confeitaria.


Grande dificuldade; trabalheira: isso meu deu um enorme trabalho!


Lição ou exercício destinado à prática de: trabalho escolar; ordenou ao empregado que finalizasse seu trabalho.


Produto fabricado a partir do funcionamento de algo: o trabalho de um carro.


Ação intermitente de uma força vinda da natureza acrescida ao seu efeito: o trabalho excessivo da chuva atrapalha certas plantações.


Responsabilidade: seu trabalho é ajudar os jogadores de futebol.


Biologia. Quaisquer fenômenos realizados numa matéria ou substância, possibilitando uma 

alteração de seu aspecto ou forma.

Política. Economia. Exercício humano que configura um elemento fundamental na realização de bens e/ou serviços.


Política. Reunião dos indivíduos que fazem parte da vida econômica de uma nação.
Física. Grandeza obtida a partir da realização de uma força e a extensão percorrida pelo ponto de sua execução em direção a mesma.

Medicina. Processo orgânico de recuperação realizado no interior de certos tecidos: trabalho de cicatrização.


Religião. Aquilo que é oferecido para receber proteção dos orixás.
(Etm. Forma Regre. de trabalhar)