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quarta-feira, 12 de março de 2014

Fraternidade e o Modelo de Paz para o Mundo



1. A serviço do Evangelho de Jesus Cristo
Os franciscanos e as franciscanas de ontem e de hoje se caracterizam por uma peculiar experiência vivencial e concreta do Evangelho, seja em nível de serviço dentro da fraternidade ou em nível de serviço fora dela, procurando assim responder aos diversos contextos do mundo. Foi desse modo que os fundadores da Família Franciscana entenderam, assimilaram e praticaram profundamente a proposta de Jesus Cristo. Cada aspecto das vidas de São Francisco e Santa Clara reflete a capacidade que tiveram de ir alem das letras e das palavras escritas. Podemos lembrar, por exemplo, a superação de Santo Pai quanto ao “nojo” de leprosos (Test 1). Da Mãe Clara, recordamos a ousadia que teve de abandonar as comodidades familiares e fugir de casa pela “porta dos mortos” (LSC 7-8). Foi dessa maneira que os dois se deixaram contagiar por Jesus Cristo e, nesse entusiasmo, encantaram muita gente.

1.1 A Regra franciscana: “observar o Evangelho”
Sabemos muito bem e vale a pena acentuar, que as Regras de São Francisco, de Santa Clara e da Ordem Franciscana Secular têm como núcleo o Evangelho de Jesus Cristo com suas reais consequências para a vida cotidiana, seja na dimensão religiosa ou leiga. Embora canonizadas, isto é, reconhecidas pela Igreja, essas regras não podem ser vistas e tomadas como normas jurídicas em si, mas como um conjunto de princípios vitais que dão sentido à vocação de cada pessoa inspirada a abraçar o ideal de vida franciscano.
A Regra não Bulada (1221) de São Francisco, em duas passagens, enfatiza o conteúdo da vocação evangélica dos frades menores com os seguintes termos: “Esta é a vida do Evangelho de Jesus Cristo, que Frei Francisco pediu que lhe fosse concedida e confirmada pelo senhor Papa. E ele o concedeu e confirmou para si e seus irmãos, presentes e futuros.” (RNB prol. 2). E continua mais adiante: “A regra e vida destes irmãos é esta, a saber, viver em obediência, em castidade e sem nada de próprio, e seguir a doutrina e as pegadas de nosso Senhor Jesus Cristo…” (RNB 1,1).

Por sua vez, de forma mais sintética, a Regra Bulada (1223) retoma e reitera o mesmo teor evangélico da regra anterior: “A Regra e a vida dos Frades Menores é esta: observar o santo Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo, vivendo em obediência, sem nada de próprio e em castidade.” (RB 1,1).

Santa Clara, fiel companheira do Santo de Assis, introduziu em sua Regra, aprovada depois de muitas lutas em 1253, o mesmo propósito evangélico dos frades menores: “A forma de vida da Ordem das Irmãs Pobres, que o bem-aventurado Francisco instituiu, é esta: observar o santo Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo, vivendo em obediência, sem nada de próprio e em castidade.” (RSC 1,1).

A Regra da Ordem Franciscana Secular, após referir-se sobre a pertença desse ramo à Família Franciscana, afirma que os irmãos e as irmãs seculares estão comprometidos pela Profissão, a partir da convivência fraterna, a viver o Evangelho, espelhando-se na experiência do Seráfico Pai: “Nelas [nas fraternidades], os irmãos e as irmãs, impulsionados pelo Espírito a atingir a perfeição da caridade no próprio estado secular, são empenhados pela Profissão a viver o Evangelho à maneira de São Francisco e mediante esta Regra confirmada pela Igreja.” (RegOFS 2). Mais adiante, no capítulo II, encontramos a caracterização da forma de vida desses irmãos e irmãs: “A Regra e a vida dos franciscanos seculares é esta: observar o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo o exemplo de São Francisco de Assis, que fez do Cristo o inspirador e o centro da sua vida com Deus e com os homens.” (RegOFS 4). Todavia, conforme o mesmo texto, essa proposta só será eficaz a partir do momento que se realizar a passagem do “Evangelho à vida e da vida ao Evangelho” (RegOFS 4).

Baseados nas fontes acima, percebemos que a Regra franciscana é a mesma para todos: “observar o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo”. Nesta perspectiva das três regras, o que significa observar ? Esse termo, aqui empregado, não é simplesmente uma questão de olhar ou prestar atenção em algo que foi feito ou se faz, como se viveu ou se vive. Expressa, sobretudo, envolvimento e participação nos acontecimentos atuais. E mais, tem a acepção de colocar em prática aquilo que é inerente à identidade do projeto que uma pessoa ou um grupo abraçou. Em outras palavras, na ótica franciscana, observar implica seguimento de uma proposta de vida, obediência a princípios fundamentais, vivência de valores essenciais, comprometimento com as situações concretas da comunidade, inserção no mundo e serviço à vida dos seres humanos e de todas as criaturas através do anúncio de Jesus Cristo e pelo testemunho do amor fraterno.

Nesta dimensão da observância do Evangelho, tão fundamental para São Francisco e Santa Clara, cada franciscano e franciscana, subjetiva e objetivamente, terá uma definição plausível da vocação e da caminhada quando projetar essas no horizonte da experiência e vivência profundas dos valores que significam o jeito de ser e agir, aqui e agora, no chão da história.

2. A serviço dos irmãos e da Fraternidade
Não há fraternidade sem irmãos e tampouco estes sem aquela. Ambos são indispensáveis para que o serviço ao Evangelho seja eficazmente situado. Tanto São Francisco, como Santa Clara, apreenderam o verdadeiro sentido da fraternidade e, principalmente, aprenderam a ser irmão e irmã na relação fraterna e no empenho das obrigações cotidianas. O itinerário dos dois compreendia as diferentes dimensões da vida religiosa: oração, formação, relação fraterna, trabalho manual, cuidado dos irmãos e irmãs sadios e doentes, comunhão eclesial, missão, etc . Assim, a fraternidade primitiva franciscana pode ser vista e entendida sob vários ângulos: reconhecimento e valorização das qualidades uns dos outros, intensidade das relações afetivas, interesse e cuidado uns com os outros, disponibilidade para os trabalhos internos e externos e, naturalmente, enfrentamento de desafios e dificuldades.

2.1 Uma “fraternidade perfeita”
De modo absoluto, não há nenhuma sociedade humana perfeita, terminada e pronta, de forma que não necessite mais de mudanças e renovação no tempo e no espaço. O que existe, de fato, é um processo dinâmico, porque o ser humano caminha e se transforma no curso da história, da qual ele é o protagonista. Neste mesmo sentido, a primitiva fraternidade estava em vias de construção paulatina. Quem ingressava nela tinha a grave tarefa de fazer parte desse processo de crescimento.

A fraternidade franciscana estava (e está) no rumo da perfeição. São Francisco tinha uma visão muito nítida das capacidades de cada um dos companheiros. Acolhia indistintamente a todos como “dom” de Deus (Test 14) e com eles queria fazer a singular experiência evangélica. Nessa atmosfera, o Santo de Assis havia aprendido que a “fraternidade perfeita” correspondia à soma qualitativa dos dons e virtudes dos irmãos. Assim, depois de uma percepção profunda dos próprios valores, destacou de cada um deles os aspectos de significativa importância para o amadurecimento pessoal e fraterno.

A biografia Espelho da Perfeição apresenta uma bela lista de nove frades com suas virtudes, que segue: 1- Frei Bernardo com sua ardente fé e seu amor à pobreza; 2- Frei Ângelo com sua simplicidade, pureza, grande cortesia e gentileza; 3- Frei Masseo e sua distinção e o bom senso natural, sua bela e piedosa eloquência; 4- Frei Gil e seu espírito elevado à contemplação; 5- Frei Rufino e sua prece virtuosa e constante; 6- Frei Junípero, sua paciência e ardente desejo de imitar a Cristo; 7- Frei João das Laudes e seu vigor corporal e espiritual; 8- Frei Rogério e sua ardente caridade; e, por fim, 9- Frei Lúcio e sua inquietação, que não queria ficar em um mesmo lugar mais que um mês, dizendo: “Não temos morada aqui, mas no céu” .

Pela exposição acima, o frade tem seu valor não pelo número de qualidades que possui, mas pela relevância da virtude dele, mesmo que seja só uma. Além disso, o elencamento dos dons aponta para dimensões específicas da vocação franciscana: seguimento de Jesus Cristo, vida de oração, contemplação, pobreza, simplicidade, cortesia (gentileza e acolhida), paciência, piedade, caridade fraterna, dom da pregação (eloquência), itinerância (inquietação). A fraternidade é servida no compartilhamento dos talentos de todos e se expande no serviço ao Reino através dos dons colocados em prática.

2.2 Fraternidade e relações afetivas sinceras
O que mais nos chama a atenção nas primeiras gerações franciscanas é a forma como se dava o cultivo das relações fraternas. Conforme Tomás de Celano, quando se encontravam, em algum lugar, para celebrar momentos importantes, por ocasião de capítulos ou por outras razões, os frades tratavam-se de forma calorosa. Os irmãos se portavam do mesmo jeito ad intra e ad extra, isto é, agiam igualmente dentro e fora da fraternidade (espaço físico). Esse modo de relacionar-se deixava impressões positivas no meio do povo, que passava a estimar e admirar os frades.
Apresentamos a seguir três sucintos textos que caracterizam o clima afetivo que existia entre os irmãos menores das primeiras gerações, a solicitude de um para com o outro e o impacto que isso suscitava nas pessoas.

O primeiro texto, de Celano, retrata o intenso amor fraterno que aquecia a vida daqueles frades: “Quando se reuniam em algum lugar, ou quando se encontravam na estrada, reacendia-se o fogo do amor espiritual, espargindo suas sementes de amizade verdadeira sobre todo o amor. E como? Com castos abraços, com terno afeto, com ósculos santos, uma conversa amiga, sorrisos modestos, semblante alegre, olhar simples, ânimo suplicante, língua moderada, respostas afáveis, o mesmo desejo, pronto obséquio e disponibilidade incansável.” (1Cel 38).

O segunda texto, da Legenda dos Três Companheiros, destaca sobretudo a dedicação e empenho dos irmãos na oração e no trabalho, e a solicitude fraterna que tomava conta de todos: “Todos os dias eram solícitos para rezar e trabalhar com as próprias mãos para afastar absolutamente toda ociosidade, inimiga da alma… Amavam-se com entranhado amor e cada qual servia e nutria o outro como uma mãe com seu filho único e dileto. ”(LTC 41).

Por fim, o terceiro texto, do Anônimo Perusino, chama a atenção para o impacto que o testemunho de vida dos irmãos provocava no meio do povo: “O povo, vendo-os serenos em meio aos sofrimentos aceitos pacientemente pelo Senhor, e sempre esforçados para rezar com devoção, recusando receber e ter consigo dinheiro, como o faziam os outros pobres, e eles querendo bem um ao outro, sinal de que eram discípulos de Cristo: muitos ficaram comovidos e arrependidos, e foram pedir-lhes desculpas pelos maus tratos… Alguns até acabavam pedindo para serem recebidos em seu grupo…” (AP 24; cf. Tb LTC 41).

2.3 Fraternidade e desafios cotidianos
Enquanto realidade mutável, sujeita às vicissitudes históricas, a fraternidade franciscana se deparou (e ainda se depara) com situações concretas de diferentes naturezas: humana, formativa, estrutural, econômica, administrativa, social etc. Paulatinamente, depois de identificados, os desafios eram superados dentro do tempo certo.
São Francisco não era alheio a nenhuma dessas situações. Estava atento a tudo que se passava ao seu redor. Acompanhava todos os passos da fraternidade em todas as dimensões. Conhecia as necessidades pessoais e básicas dos irmãos. Procurava servi-los com esmero e especial cuidado, pois o confrade lhe era muito caro.

2.3.1 Serviço gratuito ao irmão: amor caritativo
O amor caritativo é aquele amor fraterno desinteressado, isto é, aquela expressão de compaixão incondicional que se dobra diante das necessidades do próximo. Ademais, significa um modo informal, espontâneo e gratuito, sempre disponível para ajudar e servir o outro sem medir esforços ou impor barreiras. Trata-se de uma experiência vital que transcende os limites pessoais, sociais, religiosos e culturais. Sem dúvida, é algo que revela também a capacidade que o ser humano tem de sair de si mesmo e ir ao encontro do semelhante (o/a leproso/a e o/a samaritano/a).

A espiritualidade franciscana está marcada profundamente por esse amor entranhado. As Fontes Franciscanas e, de forma mais direta, os Escritos de São Francisco, sublinham, com relevância, a experiência desse amor-serviço caritativo. O Santo de Assis, durante a sua vida, soube cuidar do irmão sem reservas ou medo de perder alguma coisa. Foi alguém todo comprometido com a caminhada pessoal, vocacional e espiritual dos companheiros(irmãos).

O caso típico que ilustra a disposição do Poverello para apoiar o outro é o do Frei Leão que precisou da ajuda e foi benevolamente atendido, conforme o texto da singela carta que o Seráfico Pai lhe enviou, que aqui transcrevemos: “1 Frei Leão, teu irmão Francisco deseja-te saúde e paz. 2 Assim te digo, meu filho, como uma mãe: coloco brevemente nesta frase todas as palavras que falamos pelo caminho e [te] aconselho; e, se depois precisares por motivo de conselho vir a mim, assim te aconselho: 3 qualquer que seja o modo que te pareça melhor agradar ao Senhor Deus (cf. 1Cor 7,32) e seguir seus passos (cf. 1Pd 2,21) e pobreza, faze-o com a bênção do Senhor Deus e com minha obediência. 4 E, se te for necessário outra consolação para tua alma e quiseres vir a mim, Frei Leão, vem!”
De igual modo, todos os irmãos eram educados a manifestar uns aos outros as próprias necessidades e a ter aquele amor sincero e prestativo de mãe pelo confrade em todas as circunstâncias da vida (RNB 9,10-11) . Portanto, acreditamos que esta orientação pedagógica, quando posta em prática, fortalece os vínculos fraternos, estimula a convivência nas diferenças e sustenta, hoje também, os passos dos franciscanos e franciscanas.

Outrossim, na mesma dimensão do amor-doação, o Papa Bento XVI, na sua primeira carta encíclica, Deus Caritas Est (2005), ao citar alguns Santos, menciona também o nome de São Francisco de Assis que, entre tantos homens e mulheres suscitados por Deus, procurou servir ao Senhor na pessoa do próximo, respondendo às situações prementes do seu tempo (cf. n. 40). Portanto, o Santo de Assis não foi alguém surdo e indiferente aos gritos e necessidades do irmão, tanto dentro como fora da comunidade. O Evangelho se encarnava em São Francisco através de sua experiência(vivência) cotidiana.

2.3.2 Trabalho e serviço: compromisso fraterno
Quando olhamos e sentimos de perto as situações concretas da primitiva fraternidade franciscana, descobrimos muitos outros aspectos que nos levam a compreender a dinâmica de vida de São Francisco e seus companheiros. Acima já constatamos alguns. Mas, outro elemento caro ao Santo Pai era a questão do trabalho . Este era (e ainda o é hoje) um meio pelo qual o irmão dava significado ao seu sentido de pertença à fraternidade e colaborava com o seu suor para o bem de todos.

Ele, o próprio Poverello, dava testemunho com o trabalho manual que fazia e queria realizar em todo tempo (Test. 20), pois tinha-o como graça recebida de Deus: “Os irmãos a quem o Senhor deu a graça de trabalhar, trabalhem fiel e devotamente.”(RB V,1). É nesse entendimento que Insistia para que todos os frades trabalhassem e se não soubessem, procurassem aprender, não por interesses particulares, mas para descruzar os braços e fugir das acomodações (Test. 21).
Em síntese, podemos afirmar que o trabalho era (e continua sendo) uma das maneiras de colocar em prática aquilo que se aprendia na escola franciscana. Além do mais, sob essa ótica, pelo trabalho e como assalariados, os frades davam testemunho do estilo de vida que haviam assumido e, através desse instrumento de subsistência, podiam exercer sua missão de evangelizadores. Sendo assim, o trabalho adquiria um significado mais amplo, isto é, não visava apenas o provimento das necessidades básicas, mas também o anúncio do Reino de Deus e sua justiça.

CONCLUSÃO 

O Evangelho é a força vital que ontem deu sentido à vocação de São Francisco e de Santa Clara e hoje dinamiza e revigora a própria essência do Carisma Franciscano. A observância dos princípios e valores evangélicos por parte dos irmãos e irmãs franciscanos significa manter viva a chama do propósito assumido. Como vimos acima, a vida fraterna compreende um conjunto de componentes ou forças que solidificam a caminhada pessoal e comunitária. 

Os membros da Família Franciscana são os personagens principais para a construção da Fraternidade, em sentido mais amplo, sem fronteiras, aqui e agora. Para tanto, faz-se necessária a participação, o compromisso e a colaboração de cada um e de todos para a eficácia do “projeto de vida franciscano”, servindo ao Evangelho e à Fraternidade, como bem entendeu e viveu o Pobrezinho de Assis, quando disse: “Como sou servo de todos, a todos estou obrigado a servir e a prestar-lhes em serviço as odorosas palavras de meu Senhor”(2CtaFi 2). 

De tudo isso, podemos afirmar que a fidelidade ao Evangelho ou à forma vitae (forma de vida) alcançará a sua significação à medida que forem contemplados os diversos componentes que caracterizam a fisionomia do itinerário franciscano, enquanto realidade dinâmica e prenhe de vitalidade. Ou seja, aqueles aspectos que conhecemos – relações fraterno-afetivas, formação, oração, trabalho e serviço, missão e evangelização, responsabilidade com a vida do ser humano e das criaturas e outros – são exigências fundamentais que garantem a permanência do Evangelho na atuação e itinerância dos franciscanos e das franciscanas de todos os tempos e em todos os lugares.