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quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

A riqueza que endurece

“A insensibilidade pelo sofrimento do pobre é o tema inicial da parábola do rico e Lázaro. As sobras da mesa do rico não vão para o pobre, mas para o cachorro. Parece atualidade. 

Porém, vem a morte igual para os dois. O quadro se inverte. Lázaro vai ao seio de Abraão, o rico vai para o inferno. Há entre os dois um abismo intransponível, de modo que Lázaro nem poderia dar-lhe um dedinho de água para aliviar o calor infernal. Esse abismo já existia, no fundo, antes da morte, mas com a morte se tornou intransponível. Então, o rico pede que seus irmãos sejam avisados por Lázaro. Mas Abraão responde: “ Eles têm Moisés e os profetas. 

Nem mesmo em alguém voltando dos mortos acreditarão”: alusão a Cristo. Dureza, isolamento, incredulidade: eis as consequências de viver para o dinheiro. Podemos verificar esse diagnóstico em redor de nós, cada dia, e, provavelmente, também em nós mesmos. . 

Porque a pessoa só tem um coração; se ele se afeiçoa ao dinheiro, fecha-se ao irmão. Os ricos são infelizes porque se rodeiam de bens como de uma fortaleza (cf. os condomínios fechados). São “incomunicáveis”. Vivem defendendo-se a si e suas riquezas. Os pobres não têm nada a perder. Por isso, “as mãos dos mais pobres são as que mais se abrem para tudo dar. Em nosso mundo de competição, a riqueza transforma as pessoas em concorrentes. A riqueza não é vista como “gerência” daquilo que deve servir para todos, mas como conquista e expressão destatus. Tal atitude marca a riqueza financeira (capitalização sem distribuição), a riqueza cultural (saber não para servir, mas para sobrepujar) e riqueza afetiva (possessividade, sem verdadeira comunhão). Considera-se a riqueza recebida como posse em vez de “economia” (palavra grega que significa gerência da casa). Não se imagina o tamanho deste mal numa sociedade que proclamou o lucro e a competição como seus dinamismos fundamentais. Até a afetividade transforma-se em posse. 

As pessoas não se sentem satisfeitas enquanto não possuem o objeto de seu desejo, e, quando o possuem, não sabem o que fazer com ele, passando a desejar outro… Pois não sabem entrar em comunhão. Assim, a parábola de hoje é um comentário do “ai de vós, ricos”.


Frei Almir Ribeiro Guimarães
fonte: franciscanos.org.br