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sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

A Amizade

1. Introdução
Em uma consideração sobre a castidade e o amor fraterno, é fundamental refletirmos sobre a Amizade. Embora seja o verdadeiro fundamento da vida fraterna, a amizade foi muitas vezes vista, especialmente na vida religiosa, como perigo ou ameaça. Nos ambientes religiosos foi comum matar toda amizade na raiz, condenando-a como "amizade particular", nociva à abertura para com todos, ou mesmo como indício de algum desvio afetivo.
Muitas idéias que apresento neste capítulo são dos livros de Santo Aelred de Rievaulx, abade cisterciense inglês que viveu de 1110 a 1175, isto é, quase um século antes de São Francisco e Santa Clara. O que ele ensinou continua atual.
Talvez seja bom recordar que, enquanto a própria Bíblia diz: "quem encontrou um amigo encontrou um tesouro" (Cf Eclo 6,14), pois só é possível encontrar um entre mil (Cf Eclo 6,6) os sábios das mais diversas culturas sempre exaltaram o valor da amizade como algo que supera o próprio amor entre pais e filhos e até o amor entre o homem e a mulher. Só para dar alguns exemplos, Aristóteles escreveu páginas admiráveis sobre a amizade em seu livro "Ética a Nicômaco", e Cícero deixou uma obra prima no seu "Lélio", ou "Diálogo sobre a Amizade". Também encontramos páginas interessantes em Santo Agostinho e em Santo Tomás de Aquino.

2. Sinal da presença de Deus
Aelred ensinou que o amor e a amizade são a maior alegria da vida, são o sinal mais evidente da presença de Deus neste mundo, são a própria essência do mundo que há de vir. De fato, se é verdade que "Deus é Amor" (1Jo 4,8.16), todo verdadeiro amor mostra que Deus está presente.
Como Deus é Amor, quando Jesus diz que o seu jugo é suave está falando da caridade; quando diz que seu peso é leve está falando do amor fraterno.
Aelred acha que o Amor é não somente a nossa vocação mas também o remédio para curar nossa vontade doente e para restaurar em nós a imagem de Deus. Essa imagem consiste em sermos uma pequena "trindade" criada, feita de 1) memória, 2) conhecimento e 3) amor/vontade. Mas para ele é na vontade que nasce a imagem de Deus, é no amor que a restauramos e é na amizade que experimentamos o gosto da bem-aventurança, ou felicidade eterna.
Para explicar melhor, Aelred achava que, por natureza (isto é, sem o pecado), os humanos sempre tinham Deus na memória, sempre sabiam reconhecê-lo em tudo e sempre o abraçavam no amor sem precisar cobiçar mais nenhuma outra coisa.

3. O bom Amor e o mau Amor
Aelred também mostra o contraste entre o amor, a caridade e a cobiça. Depois de lembrar que só os humanos têm a capacidade de amar, diz que a caridade é um tipo de amor, mas que nem todo amor é caridade. Explica dizendo que o amor é uma capacidade de que Deus dotou as criaturas racionais: quando nós o usamos bem, nasce a caridade; quando nós o usamos mal, nasce a cobiça, que é o desejo de se apropriar. Caridade é amar dando-se; cobiça é amar querendo levar vantagens no amor.
Foi por amar de modo pervertido (com desejos de possuir) que o homem perdeu tanto a si mesmo quanto a Deus. Mas Jesus Cristo, encarnando-se, dá nos a oportunidade de restaurar a imagem perdida.
A gente restaura a imagem vivendo o Amor. Tem que começar descobrindo como amar a si mesmo e depois amando o próximo como a si mesmo na amizade. Amar significa ser feliz.
Amar a si mesmo tem dois aspectos fundamentais. Em primeiro lugar, quem ama a si mesmo não exige de si mesmo nem impõe a si mesmo nada que seja inconveniente. Em segundo lugar, quem ama a si mesmo aprende a se purificar: nunca cedendo a nada que seja indecoroso e não perdendo nada que seja útil. Quem se ama assim, também deve amar ao próximo do mesmo jeito.
Os próximos são muitos e devemos amar a todos, mas precisamos escolher uma ou poucas pessoas que vamos amar com Amizade. Ter uma amizade quer dizer acolher alguém com um vínculo mais familiar para poder entregar abundantemente a essa pessoa o nosso afeto, abrindo completamente o coração para comunicar até os pensamentos e desejos mais profundos.
Neste ponto, quero lembrar que, para Cícero, um pagão que viveu antes de Cristo, a amizade era "uma comunhão entre duas ou mais pessoas, com caridade e benevolência, nas coisas divinas e nas humanas". Para ele, caridade (ele usou essa palavra mesmo) queria dizer acolher, e benevolência queria dizer darse, entregar-se. Cícero também lembrou que não existe amizade entre pessoas más, ou que se unem para fazer o mal.

4. A Escolha
Voltando ao ensinamento de Santo Aelred, para escolher os amigos ou amigas (amizade não faz distinção de sexos), a gente não pode se deixar levar só pelo sentimento, que nos engana mais facilmente. Precisa saber usar também a razão, buscando uma semelhança de temperamentos e levando em consideração as virtudes da outra pessoa.
Para trabalhar uma boa amizade, há diversas coisas importantes: 1) não deixar que ela caia em futilidades; 2) fazer com que tudo seja sempre vivido na maior alegria; 3) nunca deixar faltar uma ajuda e um respeito muito gentis.
Mas também não se entra em nenhuma amizade mais profunda sem antes pôr à prova a fidelidade, a honestidade e a paciência da outra pessoa. Se tudo isso for vencido, vamos passando devagar para uma comunhão de pensamentos, para um esforço constante em desenvolver interesses comuns, chegando assim até a uma sensibilidade que nos faz perceber logo se o outro está triste ou alegre, entristecendo-nos ou nos alegrando com ele.
Ainda assim é preciso continuar a pôr à prova a amizade. É preciso certificar-se de que a pessoa nem vai pedir alguma coisa que não seja conveniente nem vai dá-la se você a pedir. Também é preciso verificar se essa amizade é uma virtude e não um negócio lucrativo, isto é, que esteja sendo buscado por alguma outra vantagem. É preciso certificar-se de que a pessoa não gosta de adulações nem de manhas, se é franca e ao mesmo tempo discreta no que fala, se é firme no bem querer.
Para julgar se estamos indo bem na amizade, Aelred ensinava que temos que examinar três etapas: a escolha, a decisão e o gozo. Na primeira, tem que prevalecer a razão, para avaliar bem a pessoa a quem estamos dando preferência; na segunda, tem que prevalecer a vontade, que vai à luta sustentada pelo desejo, pois os bons amigos têm que ser conquistados; na terceira, basta aproveitar com alegria o que já se conseguiu. Ele explica que é pelo desejo da alegria que a gente percebe que tem que sair de si, porque só o que temos dentro não basta.
Mas é também nessa busca de alegria que, às vezes, em vez de ir pelo caminho da caridade, que nos leva ao que é necessário, vamos pelo caminho da cobiça, procurando apropria-nos dos outros.
Se cuidarmos disso tudo, vamos saborear o que diz o Salmo 132: "Como é bonito, que alegria viverem juntos os irmãos!". Vamos poder perceber quanto se ganha sofrendo um pelo outro, cansando-se um pelo outro, carregando cada um o que é pesado para o outro. Quando cada um acha que é bom esquecer de si mesmo em favor do outro, preferir a vontade do outro em vez da própria, ir ao encontro das necessidades do outro antes de pensar nas próprias, expor-se à dificuldade para poupar a pessoa amiga, então a gente vai ver como é gostoso poder conversar juntos, contar os projetos e pensamentos, examinando tudo junto, buscando um modo comum de ver tudo.

5. A Amizade e a Oração
O mais importante é que um amigo reza pelo outro. A oração de um amigo é muito eficaz, porque sobe a Deus carregada de afeto e muitas vezes reforçada pelas lágrimas, que podem ser provocadas pelo temor do que possa estar acontecendo com o outro, simplesmente pelo bem querer ou mesmo causadas pela dor.
Como um amigo reza pelo outro a Jesus Cristo e deseja ser ouvido por Jesus Cristo por causa do outro, acaba dirigindo ao próprio Jesus Cristo seu amor e seu desejo. Então, muito depressa e sem a gente nem perceber, está passando de um afeto para o outro, dando a sensação de que estamos tocando de perto a doçura do próprio Cristo. O amigo começa a saborear como Jesus é doce e a experimentar como ele é suave (Cf Salmos 33 e 99).
Desse modo, partindo do amor santo com que se abraça o amigo, sobese ao amor com que abraçamos o próprio Jesus Cristo: assim, com alegria, enchemos a boca com o fruto da amizade espiritual, na espera da plenitude que se realizará no tempo futuro quando já não vai haver mais temor nenhum desses que agora nos deixam ansiosos e nos levam a nos preocuparmos um pelo outro, quando tiverem sido vencidas todas as adversidades que agora temos que enfrentar, quando tiverem sido destruídos a morte e seu aguilhão, que agora nos atormentam tantas vezes e nos obrigam a sofrer um pelo outro.
Quando tivermos alcançado a segurança, gozaremos eternamente do sumo bem: então a amizade, em que agora só admitimos alguns poucos, vai ser derramada sobre todos e de todos vai refluir para Deus, porque "Deus será tudo em todos" (1Cor 15,28).

6. Dificuldades na Amizade
Um dos aspectos mais interessantes do ensino do Aelred é que a amizade nos conduz para a paz e o repouso. Ele explica que não temos paz nem repouso por causa do pecado, que, fazendo-nos perder alguma coisa da imagem de Deus, nos deixou caracterizados por três elementos: 1) o conflito, 2) a mutabilidade e 3) a ambiguidade.
A situação de conflito perene vem do fato de existirem em nós tanto um resto da antiga cobiça quanto a novidade da caridade trazida por Cristo. A mutabilidade (ou inconstância) nasce justamente desse conflito e pode ser ligada ao fato de ainda estarmos nos seis primeiros dias da criação, nós e toda a natureza. Nem sempre conseguimos nos manter firmes no que começamos. Por essa situação de conflito e mutabilidade, temos também a ambiguidade: o bem e alegria sempre se apresentam de modo confuso, no meio de muita mistura, levando-nos a confundir e a procurar coisas que parecem boas mas são más ou a não perceber que o bem muitas vezes está na pobreza, na dor, no sofrimento.
Toda essa visão é muito importante para ele, porque tudo nos leva a esperar o sétimo dia da criação, ou o dia do repouso final, quando estaremos aquietados em Deus. Os animais e as outras criaturas se aquietam logo que satisfazem suas necessidades, mas os humanos só quando conseguem descansar em Deus.

7. Francisco e Clara
É evidente que a amizade entre Francisco e Clara se envolveu profundamente com o amor que os dois tinham por Jesus Cristo antes mesmo de se conhecerem. É uma amizade que fica demonstrada especialmente pelo fato de os dois terem fundado juntos o movimento franciscano e terem escrito tantas idéias ao mesmo tempo originais e expressas por cada um do seu jeito pessoal. Foi por isso que a sensibilidade popular criou tantas lendas sobre o seu amor, desde o seu tempo. É nos nossos dias que podemos ter uma sensibilidade mais livre para perceber que se tratou de uma verdadeira amizade que, na terra, supera todo outro amor entre as pessoas.
É bom lembrar sempre o que foi dito inspiradamente pelo Papa João Paulo II em Assis, no centenário de São Francisco:
O binômio Francisco-Clara é uma realidade que só se entende com categorias cristãs, espirituais, do céu. Tudo tomou corpo aqui. Não se trata só de espírito; não são nem eram puros espíritos; eram corpos, pessoas, espíritos... Ficou o modo como Francisco via sua irmã, o modo como ele se desposou com Cristo, em que via retratada a santidade que devia imitar; via a si mesmo como um irmão, um pobrezinho à imagem da santidade desta esposa autêntica de Cristo em que encontrava a imagem da Esposa perfeitíssima do Espírito Santo, Maria Santíssima. Não é só uma lenda humana, mas uma lenda divina digna de ser contemplada com categorias diferentes, de se contemplar na oração... Urge redescobrir a lenda divina de Francisco e Clara (L’Osservatore Romano, 14 de março de 1982, p. 3; Fontes Clarianas, p. 228-9).
Em todo caso, Clara e Francisco não foram um exemplo isolado. A própria história dos santos apresenta outras grandes amizades, como já o tinha feito a literatura clássica de diversos povos.
A amizade entre Clara e Inês de Praga está excelentemente expressa nas cartas da Santa que nos sobraram e que fazem até adivinhar o que Inês poderia ter escrito para ela. Pode ser confrontada com o carinho que Clara demonstrava pelas outras Irmãs, como lemos no Processo de Canonização. Mas tem um ponto muito especial: as duas sempre moraram muito longe, nunca se viram pessoalmente, e mantiveram uma excelente amizade, através de cartas, por dezenove anos.
Precisamos recordar que Santo Aelred tratou amplamente o tema da amizade para cultivar o amor fraterno entre os seus monges. Achava que só assim eles cresceriam na vida espiritual e contemplativa.
Neste ponto, é bom lembrar que, em tempos passados, nós não acreditávamos, na Igreja do Ocidente, que alguém pudesse santificar-se sem um bom diretor ou orientador espiritual. Na Igreja Oriental sempre se manteve a tradição da "mistagogia", entendida como um caminho místico, em que duas pessoas progrediam para Deus como amigas, sem a conotação de diretor e dirigidos.
Jesus disse que não há maior prova de amor do que dar a vida pelo amigo (Jo 15,13) e que ele chamava os apóstolos de amigos porque lhes tinha comunicado tudo que ouvira do Pai (cf Jo 15,15). Ele nos abriu o caminho.

8. Novos Tempos
Graças a Deus, vivemos um tempo novo, em que também já é possível viver sem desconfiar do sexo e da amizade, mesmo sabendo que sempre as pessoas podem usar mal esses dons de Deus. Mesmo a vida religiosa, hoje muito mais aberta, chega a proclamar o valor da amizade. Só como um exemplo, parece-me interessante citar o que dizem as Constituições dos Frades Menores Capuchinhos (n. 171 e 172)::
O empenho fraterno requer que se supere ao amor de si mesmo e que se dedique aos outros, favorecendo assim as autênticas e profundas amizades, que ajudam uma vida afetiva completa.
A amizade é um grande dom em quanto favorece o crescimento humano e espiritual. Em força de nossa consagração e por respeito à vocação dos que vivem conosco, evitemos prende-los a nós; demo-nos, antes, nós mesmos a eles. Cria-se assim aquela amizade que salva e não destrói a fraternidade.
Mas são numerosas as Constituições de Religiosos e Religiosas de hoje que se lembram de valorizar a amizade.

Pontos para a Reflexão
  1. Você tem medo de amizades? Algumas pessoas tiveram experiências negativas, outras foram marcadas por uma mentalidade reinante que temia qualquer tipo de amizade. Se você estiver em algum desses casos, tente recuperar-se. Procure ajuda. Nós começamos a viver a vida eterna na medida em que começamos a viver o amor.
  2. Você está abusando de suas amizades? É uma pergunta que sempre temos que fazer. Nós temos que estar sempre a serviço, mas não podemos exigir de ninguém que seja nosso servidor. Quando pedimos demais, podemos estar matando a amizade.
  3. Suas amizades são livres e libertadoras? Uma amizade verdadeira tende a crescer e pode durar a vida toda. Mas nunca deve prender, porque Amor e Liberdade nunca sobrevivem um sem o outro.Não deixe que suas amizades criem nenhum tipo de dependência.
  4. Você consegue cultivar amizades com as pessoas mais próximas? Muitas vezes é mais fácil nos iludirmos pensando que estamos vivendo grandes amizades com pessoas que não participam do nosso dia-a-dia, porque elas não chegam a nos conhecer nos detalhes. Mesmo que as maiores amizades possam ser vividas com pessoas de fora de nossa família ou de nosso grupo, podemos avaliar sempre sua legitimidade pela nossa capacidade de viver algum grau de amizade com quem está sempre junto.