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segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

A ação inclusiva da Pastoral dos Surdos no Brasil

Ampliar o protagonismo dos surdos na Igreja foi a proposta central do 16º Encontro Nacional da Pastoral dos Surdos (ENAPAS) e do 6º Encontro Nacional dos Intérpretes Católicos (ENCICAT), que aconteceu em Porto Alegre, de 7 a 11 de janeiro. Com o tema 'Fé, dom e serviço na Igreja e para a Sociedade' e lema 'A Fé sem obras é morta', o evento organizado pela Coordenação Nacional de Pastoral dos Surdos e Intérpretes e pela comunidade local dos surdos de Porto Alegre reuniu membros de todo o país.
O A12.com convidou o professor César Bacchim, que é assessor do Bispo Referencial para a Pastoral dos Surdos, Dom Celso Antonio Marchiori, e secretário nacional, para falar sobre o trabalho realizado pela pastoral em vista da inclusão social e eclesial dos surdos e os encaminhamentos dos dois encontros.

Professor César recordou a história da pastoral, que surgiu na  década de 50, a partir do dinamismo de dois padres: monsenhor Vicente de Paulo Penido Brunir, que foi o primeiro padre surdo brasileiro, e o missionário redentorista padre Eugênio Oates, ouvinte, ambos falecidos. Ao falar sobre a participação dos surdos na vida comunitária, enfatizou que "o testemunho das comunidades de surdos é também meio de evangelização para toda a Igreja".

Conheça mais sobre o trabalho silencioso e eficaz realizado pela Pastoral dos Surdos e pelos intérpretes católicos.  

. Qual a análise que o senhor faz das ações da Igreja para a inclusão dos surdos na vivência da fé e vida de comunidade? 
Professor César Bacchim - A Igreja, Mãe e Mestra, desde suas origens, nos primeiros séculos teve e tem como missão acolher e anunciar a Boa Notícia a todos, sem exceção. Já naquele início, Pedro e Paulo travaram uma questão sobre o acolhimento de judeus convertidos ou não convertidos ao Cristianismo, ou ainda, com pagãos e judeus circuncidados ou não. A conclusão foi definida com o 1º Concílio de Jerusalém por volta dos anos 48. Essa referência, o faço apenas para afirmar da coexistência permanente desses temas que a sociedade e a Igreja enfrentam no decorrer do seu anúncio aos povos: acolher as minorias, o pequeno rebanho, “os pastores”, o resto de Israel ...

A Pastoral dos Surdos no Brasil pode ser definida como tal no começo dos anos 50, com a evangelização e presença do saudoso Monsenhor Vicente de Paulo Penido Brunir, primeiro sacerdote surdo brasileiro. Ele e seu companheiro, também sacerdote redentorista, Padre Eugênio Oates, ambos falecidos, deram as suas vidas pelos surdos. A memória dos nossos antepassados não pode jamais ser esquecida. Daquele período até os dias de hoje, buscamos e estamos incluindo os surdos na Comunidade de Jesus Cristo. Eles iniciaram!
Falar de inclusão, requer-nos outras habilidades, além da virtude ou da ação gentil do acolhimento. Durante aquele período, os dois sacerdotes semearam a doutrina e a Palavra Viva do Evangelho por meios de gestos e mímicas, como era entendido e aceito na época.

Já nas décadas de 80 e 90, as escolas católicas e afins, acolhiam e aceitavam os surdos, foram as que iniciaram o Projeto de Evangelização, bem como algumas Associações de surdos pelo Brasil. Precisamente em 1992, foi realizado um importante Encontro em nível de Brasil, com uma significativa presença de surdos e de agentes de pastoral, professores e amigos dos surdos em Campinas, interior de São Paulo, na Casa de Betânia. Foi então, nessa data criada uma estrutura que fosse capaz de abarcar os desafios, os sonhos, as necessidades de uma catequese específica, de uma evangelização voltada para os surdos e de um espaço físico na Igreja. A CNBB desde então já estava presente, na pessoa do saudoso Frei Bernardo Kamsi, da Dimensão Bíblico-Catequética, que tanto bem fez às comunidades e às lideranças.

Ao longo desse tempo, as lideranças não perderam a esperança. Eram encaminhadas listas das instituições e de organismos para que a CNBB declarasse uma Campanha da Fraternidade às pessoas com deficiência. E, assim, o ano de 2006 foi um marco, especialmente na história dos surdos católicos. Não podemos nos esquecer dos cegos, dos cadeirantes e das pessoas com deficiência intelectual, pois, eles também vêm conseguindo espaço e feito um trabalho de inclusão na Igreja.

Nova equipe da Pastoral dos Surdos e dos Intérpretes eleita em Porto Alegre, junto a dom Celso. 
Foi de fato, a partir desse ano que a Igreja no Brasil assume de forma mais respeitosa e corajosa os surdos em seu seio: cede-se espaço que facilita a comunicação dos surdos, os intérpretes são reconhecidos e os surdos sentem-se mais perto de Deus, acolhidos e amados.

Sacerdotes, religiosas, seminaristas e pessoas com habilidades e sensibilidade começam a somar em número e em qualidade para que o Evangelho chegue ao coração e à vida dos surdos.

Bispos também se sentem tocados, com vontade de conhecer mais a cultura desta parcela da Igreja, embora não identificada à priori por um simples olhar, mas quando se inicia um diálogo, se vê outra língua sendo usada. Os surdos não se apresentam em estereótipos!

A Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) é a língua dos surdos. Com ela, eles rezam e celebram os Sacramentos, com ela, eles entendem as Sagradas Escrituras e estão incluídos no coração do Pai. Uma dimensão humana fundamental é a convivência e o encontro. Há necessidade de realizá-los. Isso nos humaniza ainda mais!

Hoje perdura a realização dos Encontros Nacionais dos Surdos e dos Intérpretes de dois em dois anos, nos quais, se registra processos contínuos de exaltação das metas atingidas, também, às vezes, o lamento e dor de um olhar pouco acolhedor ou mesmo de atitudes preconceituosas por parte das famílias e às vezes de certos membros da Igreja. Mas a esperança cristã não os deixa desistir. A Igreja, Mãe e Mestra, também vive o seu processo de permanente conversão, também para buscar sempre acolher melhor os surdos e entender a sua existência nos contextos históricos. 

. Quais os encaminhamentos para a ação da Pastoral dos Surdos depois dos encontros, 16º ENAPAS e 6º ENCICAT, ocorridos em Porto Alegre, no início deste mês? 
Professor César Bacchim - Havia uma grande expectativa para o Encontro na Cidade de Porto Alegre. Depois de quatro anos, sem a realização de um Encontro Nacional, as lideranças, os Coordenadores Regionais e Locais das Comunidades aguardavam o mês de janeiro com ansiedade e vislumbramento!
Foto: Coordenação Nacional.

"O testemunho das comunidades de surdos é também meio de evangelização para toda a Igreja".

A grande preocupação da Coordenação Nacional e de alguns Coordenadores Regionais tem sido a ausência dos jovens surdos em suas comunidades em geral.
Nesse item, Porto Alegre superou as expectativas com a participação de um número muito grande de jovens dos quatro cantos do Brasil.
O nosso território pela sua dimensão exige tempo, dinheiro e disposição para estar no Norte ao Sul do Brasil. A Equipe de Coordenação até então formada por seis membros, sendo dois Coordenadores, uma para a Pastoral dos Surdos e outro para os Intérpretes, dois Assessores, um secretário e um bispo referencial, passou a ser composta por 10 membros. A partir da reestruturação no Encontro em Porto Alegre. A Nova Equipe ficou composta por dois Coordenadores: o dos Surdos e o dos Intérpretes, dois vices e dois assessores, respectivamente, o 1º secretário e o 2º secretário, um assessor para o Bispo referencial e o próprio Dom Celso Antonio Marchiori.

Nova equipe da Pastoral dos Surdos e dos Intérpretes eleita em Porto Alegre, junto a dom Celso. 

A representação desses membros oriundos de regiões diversos do Brasil, certamente ampliará a rede de atuação, de presença e de assessoria nos Regionais.
Além disso, duas cidades - sedes foram escolhidas para os dois próximos Encontros: 2016 em Belo Horizonte (MG) e, em 2018, Teresina (PI). Há uma preocupação de se realizar, alternadamente, os Encontros nas regiões Norte e Sul a fim de haver maior participação dos surdos e demais agentes da pastoral.

Outros encaminhamentos foram feitos em nível organizacional: uma reunião para o segundo semestre com a nova equipe de coordenação nacional na cidade de Apucarana (PR), onde reside o bispo referencial e a preparação para o 2º Encontro Nacional da Coordenação Nacional, dos Coordenadores Regionais da Pastoral e dos Intérpretes – ENACORPI a se realizar na cidade do Rio de Janeiro, em 2015, em janeiro.

. Quais os desafios e esperanças dos agentes da pastoral e dos Coordenadores Regionais? 
Professor César Bacchim - A Pastoral dos Surdos exige dedicação contínua, aprimoramento e convivência dos surdos.
Essas três atitudes são fundamentais para que haja um verdadeiro trabalho inclusivo e eclesial com e para os surdos.
Os ouvintes, em geral, ficam admirados com os sinais e mesmo com a participação dos surdos nas Missas e demais eventos. Isso é o primeiro passo: sensibilizar-se e admira-se. Entretanto, não basta, é preciso dar prosseguimento aos passos seguintes. A aprendizagem de LIBRAS aos que estão interessados exige esforço e perseverança. LIBRAS é uma língua com suas peculiaridades linguísticas e gramaticais.
Outras demandas estão em ordem teórica: a concepção da pessoa surda. A deficiência não diminuiu ou acrescenta em nada na dignidade da pessoa humana.
Pode-se pensar erroneamente que um ouvinte, seja superior a um surdo e consequentemente na relação interna da pastoral, pode-se se incorrer na supremacia deste em detrimento ao surdo. O surdo perde a dignidade e as relações se tornam em atitude de comandos, e até em autoritarismo. Na Igreja, isso deve ser eliminado!
Essas concepções ou mitos são construções a partir de preconceitos e de atitudes que denigrem a pessoa e não a eleva em dignidade, promoção ou a uma verdadeira inclusão.
Essa concepção não é verdadeira e nem a que comungamos dentro das orientações da própria Igreja de Jesus Cristo.

O surdo, com todos os seus direitos e deveres de cidadão e cristão busca a sua conversão, vida de santidade em comunhão com a Igreja. O testemunho das comunidades de surdos é também meio de evangelização para toda a Igreja. O surdo vive contextos sócio-políticos e é chamado a dar testemunho de sua fé em diversos meios.
Os desafios são possibilidades que a história nos apresenta e são dados como motivações de superação.

Os surdos e os intérpretes estão juntos, numa simbiose de prece, testemunho, ação e transformação.

Acreditamos que a Pastoral ajude o surdo a encontrar-se com Deus e como o irmão. A Pastoral não tem um fim em si mesmo, mas é instrumento, ponte para o Transcendente.