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quarta-feira, 19 de junho de 2013

O gigante acordou!



Certamente, na noite do dia 17 de junho, o Brasil todo pode acompanhar um dos mais belos atos de manifestação popular dos últimos tempos. Não eram somente os 20 centavos que causavam tamanha mobilização popular, mas era a consciência de que os problemas e as causas são muito maiores e de que a mudança deve ser política e estrutural, pois infelizmente os partidos políticos já não representam os anseios e as lutas da sociedade.

Assim, se a cabeça pensa a partir de onde os pés pisam, não bastaria apenas acompanhar tudo pela televisão ou pela internet, mas era necessário estar lá, junto com o povo. E assim o foi. Depois de uma rápida articulação ao longo da tarde de ontem, alguns frades daqui de São Paulo, juntamente com um grupo de colaboradores do SEFRAS (Serviço Franciscano de Solidariedade), se reuniram e foram também para as ruas de São Paulo para tomar parte naquela caminhada.

Embora, num primeiro momento, meio receosos pela grande concentração de pessoas, aos poucos fomos percebendo que tudo aquilo tinha um porquê, que a maioria das pessoas ali presentes tinha algo em comum pelo qual lutar e protestar, tinha uma meta. Não era uma simples massa manipulada, nem tampouco estava ali para lutar contra a polícia, mas era para gritar por salários e condições de vida melhores (inclusive para os policiais), maior investimento na educação e na saúde pública, melhores condições de transporte, rejeição da corrupção instaurada em nossos governos, desaprovação da PEC 37, etc. Enfim, estavam ali para assumir a própria identidade de brasileiros e lutar por um país melhor. E lutar de maneira organizada, democrática e pacífica. E nós, como franciscanos, que acreditamos que a nossa melhor forma de evangelizar é sermos arautos da paz no meio do povo, não poderíamos deixar de estar lá e dar também o nosso testemunho, juntando nossa voz à voz de tantos que imploram por melhores condições de vida.

Caminhamos por mais de quatro horas, juntamente com uma multidão estimada em mais 65 mil pessoas. Salvo raras exceções, a maioria não portava nenhuma bandeira de partido político, deixando claro de que aquele ato era expressão de uma manifestação muito mais ampla do que se imaginava, não facilmente manipulada por certos setores ou segmentos da sociedade. Na sua grande maioria eram jovens, que cantando, batendo palmas, caminhando e distribuindo flores e sorrisos, alegres e convictos do que estavam fazendo, mostraram que a mudança e a transformação podem ser alcançadas pacificamente. Ao longo do caminho vimos pouquíssimos policiais, o que, paradoxalmente, nos dava mais segurança, pois praticamente não houve depredação, enfrentamento ou violência. Quando, ainda que poucas vezes, surgiam tentativas de violência ou vandalismo, automaticamente a multidão se manifestava com vaias e reprovação. Apenas estavam caminhando, tomando as ruas da movimentada cidade de São Paulo para mostrar ao país que “O gigante acordou”.

Foi bonito, emocionante e edificante ver aquela juventude toda caminhando pacífica e organizadamente. As pessoas dos prédios com toalhas brancas acenando para a multidão. Os carros, mesmo parados no caótico trânsito que se criou, buzinavam e davam sinal de que também aprovavam aquela caminhada. Enfim, era uma juventude que estava ali como verdadeiro sacramento de que o Reino de Deus pode e deve ser construído desde já.

Assim, tenho certeza de que esse movimento que está sendo protagonizado por jovens, alguns deles católicos, outros protestantes, agnósticos ou ateus, justamente nesse ano em que a Campanha da Fraternidade fala sobre a juventude, ano em que temos uma enorme mobilização em função da Jornada Mundial da Juventude, preparada por tantos “Bote fé” e pela peregrinação da Cruz e do ícone, é sinal de que “Evangelizar, hoje, é uma via de mão dupla, onde saem de cena os ‘públicos’ ou ‘destinatários’ da evangelização para dar lugar aos ‘interlocutores’. É escutando e compreendendo os gritos e clamores dos jovens que a Igreja é chamada não somente a evangelizar, mas também a ser evangelizada na atualidade” (3ª proposta da CF 2013).

De fato foi com essa consciência que retornamos para nossas casas ontem. Muito mais do que Evangelizar fomos evangelizados. O gigante que acordou talvez não tenha sido somente a massa brasileira que foi para as ruas, mas trata-se de uma confiança interior de que temos uma força e uma capacidade de transformação que não pode ficar sufocada dentro de nós. A manifestação de ontem não terminou. Tenho certeza de que ainda irá continuar repercutindo concretamente, chegando até às próximas eleições, onde diante das urnas, a juventude e toda a sociedade brasileira poderá mostrar realmente que além de uma democracia, temos que formar uma verdadeira república.

Frei Diego Atalino de Melo, OFM