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sexta-feira, 8 de março de 2013

Clara, o 8 de Março e o Dia das Mulheres

Segundo a tradição, em 8 de março de 1857, as operárias têxteis de uma indústria de Nova Iorque entraram em greve, ocupando uma fábrica para reivindicarem a redução da jonada de trabalho , bem como para pleitear melhores salários, pois recebiam menos de um terço do soldo dos homens. Foram trancadas na fábrica, onde se declarara um suspeito incêndio, e cerca de 130 mulheres morreram . No entanto, este episódio não possui registros históricos confiáveis, acreditando-se, então, tratar-se de uma legenda com forte e significativa simbologia.
Ao que tudo indica, a referência histórica principal da origem do Dia Internacional da Mulher é a II Conferência Internacional das Mulheres Socialistas em 1910, realizada em Copenhague, Dinamarca; quando a operária Clara Zetkin propôs que se instaurasse um dia internacional das mulheres. Nessa proposta, não se faz nenhuma alusão ao dia 8 de março. Zetkin apenas menciona “seguir o exemplo das trabalhadoras progressistas americanas, que no período que vai do final do século XIX até 1908, travaram grandes batalhas contra as desigualdades sociais”.
É certo que a partir daí, as comemorações começaram a ter um caráter internacionalista, expandindo-se pelo mundo. Por fim, em 1922, a ONU declara que o Dia Internacional da Mulher é celebrado oficialmente em 8 de março. Logo, neste dia de exaltação das conquistas igualitárias das mulheres, é preciso recordar um dos maiores arquétipos femininos da história do Ocidente : a Bem-aventurada Santa Clara de Assis. Contudo, muitos podem indagar-se: O que há de comum entre as mulheres trabalhadoras dos tempos modernos e esta terna santa do século XII/XIII. Certamente, a propensão libertária da alma feminina.
Se nos idos de 1908 as operárias de vários países lutavam por um mundo mais justo e equânime , onde a partilha e solidariedade poderiam dar a todos “a vida em abundância”(Jo 10-10) ; na Idade Média, na região da Úmbria, a jovem Clara Offedrucci, oriunda de família nobre, sendo seu pai o Conde de Sassorosso; numa ruptura total com as questões mundanas,no dia 28 de março de 1211(Domingo de Ramos) abandona seu lar e parentes para viver sua única e inexorável paixão: seguir a Jesus Cristo Crucificado, à maneira de seu seráfico pai Francisco, ou seja, na contemplação, fraternismo e minorismo.
Para que tenhamos uma idéia da importância de Clara para a Igreja e para Ordem Franciscana, lembraremos de acontecimentos que constam das fontes históricas. Em 1221, por exemplo, o pobrezinho de Assis estava decepcionado com o fato de a Fraternidade se afastar, pouco a pouco, do espírito original de simplicidade . Querendo voltar ao convívio com os pobres e leprosos, e a estes pregar o Santo Evangelho; Francisco confia a direção da OFM a Frei Elias. No entanto, o frade Elias distancia a Ordem mais ainda do Cristo pobre, suavizando as regras e aceitando benefícios papais; construindo, inclusive, a suntuosa Basílica de São Francisco de Assis. Eis que contra ele insurge-se a mais devota e rigorosa componente da Ordem, a líder das Damas da Pobreza, a intransponível e humilde serva Clara de Assis; firme como uma rocha na defesa de sua fé no Jesus Ressuscitado.
Muito amada e respeitada pelos contemporâneos de Francisco, que falecera em 1226, a plantinha do menor dos menores teve vital influência na deposição de Frei Elias , ocorrida no ano de 1239; colaborando, assim, para que a Ordem continuasse a ajudar à Igreja e suas ovelhas a seguirem o Caminho da simplicdade, na fidelidade a Santa Pobreza.
Cabe também dizer, que Clara foi a primeira mulher a elaborar uma Regra que depois veio a ter a aprovação Pontifícia. E, solicitando que fosse concedido às Clarissas o Privilégio da Pobreza, onde estabelecia que ela e suas irmãs jamais possuiriam bem algum, deu esta resposta ao Santo Papa Gregório, que preocupado com as condições das Damianitas, gostaria que elas aceitassem algumas propriedades e moderassem nas duras práticas de penitência: ” Santo Padre, por nenhum trato e jamais, eternamente , desejo ser dispensada da sequela de seguir Cristo”.
Sabemos que Clara e suas filhas espirituais viveram na mais absoluta clausura, na adoração do“…Santíssimo menino envolto em pobres paninhos…..” .No entanto, houve uma ocasião em que nossa eterna Abadessa quis deixar São Damião: quando soube do martírio dos cinco primeiros frades que foram pregar no Marrocos, Clara quis enveredar pela via do sacrifício, pois acreditava que morrer por Ele era a maior prova de amor ao Redentor.
Estes e os outros acontecimentos aqui narrados, nos demonstram como Clara, no seguimento de Maria, Nossa Mãe Santíssima, estava sempre pronta a dizer ‘SIM’ ao Senhor Deus. E por ser tão importante no projeto salvífico, luz que iluminou a estrada de um povo a caminho do Reino dos Céus, Santa Clara de Assis merece ser exemplo para todos os cristãos, principalmente para as mulheres que, à semelhança da menina Clara, se enamoraram pelo Cristo .
Atualmente, os franciscanólogos têm se utilizado de um neologismo para ser referir ao carisma que nós, cristãos menores, buscamos viver: é o chamado carisma francisco-clariano. Justíssima homenagem a nossa irmã lua , pois se Francisco não tivesse a retargua espiritual que Clara lhe dava, talvez não estivéssemos hoje por todo o mundo , com o sagrado Tau sobre nossos corações.
Thiago Damato é membro professo da Juventude Franciscana do Brasil