PESQUISAR TEMAS E ARQUIVOS DO BLOG

terça-feira, 26 de março de 2013

Jesus Cristo, O Ressuscitado


Quando se aproximam estes tempos de festa, de celebrações, de lojas abarrotadas de produtos a serem vendidos, de pessoas em um número maior caminhando nas ruas para fazerem suas compras, de igrejas enfeitadas ou com um colorido diferente, a gente percebe que algo diverso está acontecendo. É assim no Natal, no Ano Novo, é assim na Páscoa.
Por mais que os tempos sejam outros e que os símbolos religiosos vão pouco a pouco perdendo seu espaço para os “símbolos comerciais”, estas épocas são sempre tempo de reflexão, de questionamentos e até mesmo de tomada de decisões.
Aproxima-se a festa da Páscoa, para nós cristãos, uma festa cheia de significados, aliás, a Páscoa é a certeza definitiva que temos de uma vida que jamais passa, de uma Luz que supera as trevas, de uma Vitória sobre o medo, a injustiça, a dor e a morte.
Não vou me alongar em discursos sobre cada dia desta semana, já estamos bem acostumados a ouvir falar sobre o significado dos Ramos, do Lava-pés, da Ceia, do Aleluia e assim por diante.
Contudo, parece-me que a vida, toda ela, é uma constante “semana santa”, começa numa aclamação gloriosa e conclui-se na Páscoa definitiva de cada um.
De fato, um dia, todos nós entramos na Jerusalém deste mundo, aclamados por pais felizes, por amigos, vizinhos, ou mesmo, aqueles que nos hospitais nos receberam nos braços, fato é que, um dia, os ramos e os panos nos foram estendidos neste mundo…entramos na vida, na “Jerusalém da vida” e então começamos a caminhar…
Ah, e esse caminhar é um constante cair e reerguer-se! Em alguns momentos a cruz parece por demais pesada, no decorrer da “semana santa da vida” encontramos amigos, “ceamos” com eles, alguns sorriem para nós, outros nos traem, alguns reclinam o rosto sobre o nosso peito, outros nos negam três vezes, lavamos os pés, deixamos lavar os nossos pés, choramos com aqueles que choram, deixamos até mesmo enxugarem nosso rosto. E quando encontramos nossa aflita mãe? Quantas lágrimas, de alegria ou tristeza, imaginando que ela vai um dia também partir, afinal ela também tem seu caminho. Enfim, neste constante caminhar muitas são as quedas, algumas são as dores, poucos são os Cirineus… contudo, é preciso caminhar, é preciso carregar a nossa cruz.
E a “via” segue, dia após dia, para uns ela dura pouco tempo, chega ao fim na mocidade, na vida adulta, para outros é um pouco mais longa, o que é comum para todos é que subir o monte não é mesmo fácil. Por mais que os discursos modernos insistam em reafirmar o “viva o hoje”, “curta ao máximo”, “não perca seu tempo com discursos de cruz”, jamais conseguimos percorrer o caminho diferente daquele que foi o caminho de Cristo.
Contudo, a grande certeza, a maior alegria, é saber que um dia, novamente aclamados com ramos, panos, festa, entraremos na “Jerusalém celeste”, chegaremos na Páscoa definitiva, simplesmente porque Ele, o Nazareno, nos abriu as portas dela. É tão reconfortante saber que Ele venceu o drama da escuridão, do abandono, da dor… e garantiu com tudo isso, a certeza de que nós também seremos herdeiros da Páscoa definitiva.
Queridos amigos, que possamos fazer desta semana, um tempo favorável para o nosso encontro com a expressão máxima da Doação, jamais passará o sacrifício de uma vida doada por todas as “vidas”.
Desejo a cada um, uma Semana Santa especial e uma Feliz Páscoa.
Frei Alvaci Mendes da Luz, OFM

segunda-feira, 18 de março de 2013

Primeiro "Angelus" Viva Papa Francisco!

Uma multidão de mais de 150 mil pessoas lotou a Praça São Pedro e todas as ruas vizinhas, para assistir e rezar junto com o Papa a sua primeira oração do Angelus, neste domingo, 17 de março. Francisco apareceu na janela de seu apartamento para rezar e abençoar os fiéis, turistas e romanos.
Desde as primeiras horas do dia, o movimento já era grande. Toda a área foi interditada ao tráfico e ao estacionamento. Francisco fez um discurso informal, falando de improviso e apenas em italiano.
Ele saudou com as mãos e com um grande sorriso, recebendo em troca aplausos e muito entusiasmo. A popularidade de Francisco tem aumentado a cada dia desde que se tornou, quarta-feira passada, o primeiro Papa latino-americano da história. Chegou ao balcão com o seu modo simples, os braços ao longo do corpo e a mão direita ao alto, saudando o povo. “Bom dia!” – foram as suas primeiras palavras.
Lembrando o episódio da mulher adúltera que Jesus salva da condenação, Francisco ressaltou o valor e a importância da misericórdia e do perdão nos dias de hoje: “Deus jamais se cansa de nos perdoar. Nós é que nos cansamos de pedir perdão. Temos de aprender a ser misericordiosos com todos”, afirmou.
Antes disso, Francisco disse que estava contente de estar com os fiéis domingo, “dia do Senhor, dia de se cumprimentar, de se encontrar e conversar, como aqui, agora, nesta Praça, uma praça que graças à mídia, é do tamanho do mundo!”.
A propósito da leitura evangélica, Francisco encorajou os fiéis citou a atitude de Jesus, que não desprezou nem condenou a adúltera, mas disse apenas palavras de amor e misericórdia, que convidavam à conversão.
“Vocês já pensaram na paciência que Deus tem com cada um de nós? É a sua misericórdia: Ele nos compreende, nos recebe, não se cansa de nos perdoar se soubermos voltar a Ele com o coração arrependido. É grande a misericórdia do Senhor!”.
Dando andamento ao discurso, o Papa citou um livro lido nestes dias sobre a misericórdia, de autoria do Cardeal Walter Kasper, “um ótimo teólogo”. “O livro faz entender que a palavra ‘misericórdia’ muda tudo; torna o mundo menos frio e mais justo” – disse, ressalvando que com isso “não quer fazer publicidade ao livro do cardeal”. Depois, completou lembrando o Profeta Isaias, que afirma que “se nossos pecados fossem vermelho escarlate, o amor de Deus os tornaria brancos, como a neve”.
Sem ler um texto preparado, Francisco contou à multidão um fato de quando era bispo, em 1992, e uma senhora de mais de 80 anos, muito simples (uma ‘vovó’, ele disse, ndr) quis se confessar com ele. Diante de sua surpresa, a idosa lhe disse “Nós todos temos pecados! Se Deus não perdoasse tudo, o mundo não existiria…!”. De seu balcão, Francisco brincou com os fiéis arriscando que a senhora “havia estudado na Universidade Gregoriana de Roma”.
Telões foram montados em toda a área para transmitir as imagens do Papa, enquanto helicópteros sobrevoavam o centro de Roma, e o Papa continuava seu discurso:
“É, o problema é que nós nos cansamos de pedir perdão a Deus. Invoquemos a intercessão de Nossa Senhora, que teve em seus braços a misericórdia de Deus em pessoa, no menino Jesus”.
O bispo de Roma, que é argentino, lembrou ainda que as origens da sua família são italianas, sublinhando, no entanto, que “nós fazemos parte de uma família maior, a família da Igreja, que caminha unida no Evangelho”.
Despedindo-se dos fiéis, Francisco disse palavras ainda mais simples: “Bom domingo e bom almoço!”.
 

quinta-feira, 14 de março de 2013

A hora impossível de um Papa Francisco



Os quartos de Bento XVI estão vazios: com que o nome irá responder ao Escrutinador o próximo papa que irá dormir no seu leito? Após o anúncio do conclave, o pontífice pré-escolhido tem "um minuto inteiro" para pensar a respeito. O primeiro sinal da Igreja que muda poderia ser o nome do sucessor de Ratzinger. Da sacada, ninguém nunca anunciou "eis Francisco", Francisco I, para reiterar o compromisso do santo que protege a Itália, mas sempre esquecido pelos descendentes de Pedro. 

A reportagem é de Maurizio Chierici, publicada no jornal Il Fatto Quotidiano, 08-03-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Ele morreu há quase oito séculos, mas ninguém se sentiu disposto a abraçar a sua espiritualidade e a sua dedicação absoluta à vida dos outros. "Francisco é um nome impossível para a carga de poderes com os quais, ao longo dos séculos, foi construído o papado: infalibilidade, soberania, controle na forma de todo serviço, autoridade sobre milhões de fiéis, responsabilidade de propostas. Não é uma questão de humildade pessoal. Francisco impõe uma pobreza difícil a qualquer soberano vaticano". 

Raniero La Valle não imagina que o próximo papa possa se lembrar disso. O que o conforta é a renúncia de Bento XVI, que restitui ao pontífice a fragilidade humana. Reevocada por Paulo VI no seu único discurso de improviso depois do Concílio: ele pediu que a Igreja se tornasse pobre "não só no ser, mas também no aparecer", palavras que se esvaíram com o tempo. 

Diretor e testemunho para o jornal Avvenire, dos bispos italianos, nos anos do Concílio Vaticano II, La Valle hoje gira o mundo pela Rai em busca dos últimos. Entre os livros Dalla parte di Abele, Pacem in Terris, La teologia della liberazione e a belíssima memória Il mio Novecento. Ele lidera os Comitês Dossetti para a Defesa da Constituição. A separação da Igreja da gestão dos bens é um tormento que atravessa os anos: quem também o invoca é Heinrich Böll, prêmio Nobel de Literatura que cresceu no pacifismo católico da Alemanha ano zero. 

"Será sempre tarde demais quando a Igreja e a aristocracia se separarem das suas imensas propriedades, dos seus tesouros, das ridículas e pomposas ninharias com as quais elas continuam se adornando. Um aspecto do mundo ocidental são, justamente, as propriedades das Igrejas. Terrível fardo que pesa sobre o atormentado e sofredor líder daquela que é ainda hoje a mais poderosa das Igrejas. Quem poderia renunciar à propriedade? Quem, senão essa Igreja que não tem descendentes? Torna-se cada vez mais tarde". 

Era 1969. Em Castel Gandolfo, o Papa Montini repetia as mesmas palavras: "Com este Vaticano, nunca haverá um papa chamado Francisco, porque Francisco destruía as regras humanas apenas na obediência ao Evangelho. Nenhuma estrutura piramidal, nenhuma burocracia, nenhum privilégio". Quando ele descobriu que um irmão da Ordem construiu para si uma pequena casa, ele subiu ao telhado e, uma a uma, arrancou as suas telhas: que pobreza é essa se muitos irmãos se refugiam nas grutas da campanha? Quem o lembra é Ettore Masina, vaticanista e escritor que relatou o Concílio.

Francisco vinha da riqueza do pai, do qual se separou despojando-se das roupas diante do bispo e de uma multidão de curiosos. A pobreza é a vocação que o fez passar por louco. "Portanto, é impossível, nos nossos anos, que um pontífice chamado Francisco possa habitar no Vaticano. Ele deveria viver na última paróquia de Roma". 

O padre Paolo Farinella, pároco no centro de Gênova de uma paróquia sem paroquianos, viveu em Jerusalém nos anos do cardeal Martini. Estudou hebraico, aramaico e grego. Tem duas graduações em teologia bíblica, sobretudo a análise religiosa e política da Terra Santa devastada por repressões e intifadas. Os seus livros são publicadas pela editora Gabrielli. Em 2000, publicou o romance Habemus Papam, Francesco I. Dez anos depois, ele o reescreveu com o título Habemus papam. La leggenda del papa che abolì il Vaticano [A lenda do papa que aboliu o Vaticano], mas a história não muda.

Ele conta a história de um pároco genovês chamado a Roma, onde os Padres do conclave não chegam a um acordo, e um cardeal que conhece as virtudes do pequeno padre faz a excêntrica proposta: e se escolhêssemos alguém assim? Pároco desarmado nos círculos da burocracia vaticana. Papa ideal nas mãos dos manipuladores. Eis a surpresa: assim que o Escrutinador se dirige a ele para perguntar-lhe "quomodo vocaberis?", como você quer se chamar, o velho padre responde: "Francisco I". 

E, quando, do trono, se dirige ao povo, a voz não treme: "Escolhi o nome de Francisco não por um capricho político, mas sim para que ele permaneça como marca de fogo na minha carne. Deve ser um lembrete constante a levar a sério o Evangelho: a caridade como lei, a pobreza como estilo, a comunhão como método".

A multidão observa, perplexa, os paramentos que brilham. "Eu sei perfeitamente o que vocês estão pensando: prega bem, mas pratica mal". Com lentidão exasperada, começa a se despojar. "Deponho esta férula de prata: como diz Marcos, não levem para a viagem nada mais do que um bastão. Deponho este chapéu anacrônico: mais do que um pastor, ele me mostra como um sátrapa oriental". Ele se desfolha como uma cebola: do anel de zafira, da cruz de ouro maciço, dos paramentos "luxuosos que deveriam render glória a Deus e se tornam ofensa para os pobres". 

Ele fica com uma túnica branca. "E, por um momento, bispos e cardeais se envergonharam por não estarem nus como Adão e, olhando-se adornados pelos mantos no espelho da sua alma, se reconheceram ridículos".

segunda-feira, 11 de março de 2013

Sem fé não sei para onde ir!

Na primeira reflexão que fizemos aqui nesta série especial sobre vocação, fizemos uma afirmação ousada: assim como o batismo é a única porta de entrada para a vida cristã, a convicção teórica e prática de que eu sou o único responsável pelo êxito ou fracasso de minha vocação, responsabilidade pessoal e intransferível, é a única porta de entrada para uma vida sadia e feliz. Sem esta consciência de minha responsabilidade intransferível, frustra-se qualquer tipo de carisma e qualquer rumo a que o Espírito queira nos levar.

O campo de pouso e de partida do Espírito Santo está dentro de mim. Fora de mim estão os vastos horizontes do mundo moderno, cada vez mais necessitado de sentido e alicerces. É certo que os horizontes de 2013 são diferentes daqueles dos tempos de Abraão, de Pedro, Tiago e João, dos tempos de Francisco e Clara de Assis, ou diferentes ainda dos tempos de Madre Teresa de Calcutá, de Irmã Dulce dos pobres e tantos outros. 

Os tempos são diferentes, os desafios são outros, mas o Espírito que nos move é sempre o mesmo, não está ligado a horizontes, nem a mudanças de tempo e de espaço. Meu ser humano em 2013 não difere em nada do ser humano de todos estes citados acima, ou seja, sou composto de corpo e alma, inteligência e vontade, sentimentos e circunstâncias. Francisco de Assis, por exemplo, reuniu milhares de contemporâneos e converteu outros milhares ao Evangelho. Eu tenho a mesma missão.

Contudo, faz-se necessário nos perguntarmos de onde vem a energia, força e vitalidade que moveram estas pessoas. Mais ainda, será que sozinhos eles conseguiriam ter realizado tão grandes coisas? Não existe será uma condição anterior, cuja fraqueza ou ausência diminui e até anula todas as iniciativas de se viver bem a nossa vocação? 

Façamos uma comparação: escavo uma piscina, construo as bases, alicerces, azulejos. Mas que faço com uma piscina sem água? É da água que eu quero falar. Que água é essa? Construo um avião belíssimo, capaz de levantar voo e me levar para longe. Mas para onde 
me levará se não tenho combustível? É do combustível que eu quero falar. Que combustível é esse? Ouso dizer: se eu não tenho esse combustível, o Espírito Santo não me levará a lugar nenhum. Se eu não tenho a fonte de água, minha linda piscina azul continuará vazia.

Chama-nos muito a atenção nos evangelhos algumas expressões em que Jesus questiona os seus, dá aquele leve “puxão de orelha” e os interroga: Onde está a vossa fé? (Lc 8, 25) Pedro, cadê a tua fé, porque duvidaste? (Mt 14, 31) Gente de pouca fé (Mt 6, 20), enfim, inúmeras vezes o Mestre pergunta a respeito do combustível da alma. 

Nossa fé é o combustível do Espírito Santo. Aqui quero falar de uma fé viva, que dá sentido, que pede força, renúncia diária, que não tem definição nem é limitada por dogmas. Ela é mais forte do que a esterilidade de Isabel e a velhice de Zacarias: ela pode gerar um João Batista. Ela é mais forte do que a morte sepultada em túmulo de pedra, porque tem o poder de ressuscitar quem a possui. Ela é capaz, afirma Jesus, de enraizar e fazer florir uma amoreira nas ondas do mar. Ela é capaz de fazer de um jovem que procurava o máximo de glória mundana e de vaidade um Francisco de Assis. Ela é capaz de reunir milhares de vocacionados aos pés do crucificado.

Alguém poderia ler estas linhas e dizer: tudo isso é muito bonito, mas quem é capaz de ter uma fé como essas? Uma fé assim só pode ser obra de Deus. É exatamente sobre isso que gostaria que refletíssemos. É obra de Deus, porque Deus encontrou fé em Zacarias, encontrou fé em Isabel, em Francisco e Clara de Assis. E qual o tamanho da nossa fé? Os seminários estão vazios? Vazia e em ruínas estava a pequena capela de São Damião. Vazia e abandonada estava a pequena igrejinha de Nossa Senhora dos Anjos. Encheu-se de consagrados São Damião. Encheu-se de consagrados Santa Maria dos Anjos. Obra de Deus. Sim, obra de Deus, que não teria acontecido sem a fé firme, crescente e até enlouquecida de Francisco de Assis.

Foi o Espírito Santo de Deus que guiou estes homens e mulheres através da história, que construiu neles e com eles bases sólidas. Contudo, este mesmo Espírito teria permanecido pairando sobre Assis se não tivesse encontrado na fé dinâmica de Francisco, na fé decidida de Clara, o combustível para descer no coração de seus contemporâneos e revitalizar a fé que adormecia dentro deles. Como posso falar do evangelho de Jesus, de minha religião e vocação, se tenho fé menor do que um grão de mostarda?

Talvez esteja justamente aí o segredo de uma pastoral vocacional que dê certo. Responder 
a estas perguntas fundamentais em relação à fé que nos move deve ser uma exigência de alguém que busca ser testemunho vocacional. Por fim, perguntaria: os jovens de hoje, encontram nos consagrados a fé sem condições de Abraão? A fé encantadora de Maria aos pés da cruz, quando as promessas do anjo se iam como as águas de um rio? A fé íntegra, sem recuos, sem interpretações de um Francisco de Assis? 
Sem fé, não tenham dúvidas disso, não sabemos para onde ir.

Reflexão elaborada a partir da pregação de Frei Clarêncio Neotti em um retiro para freis franciscanos.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Clara, o 8 de Março e o Dia das Mulheres

Segundo a tradição, em 8 de março de 1857, as operárias têxteis de uma indústria de Nova Iorque entraram em greve, ocupando uma fábrica para reivindicarem a redução da jonada de trabalho , bem como para pleitear melhores salários, pois recebiam menos de um terço do soldo dos homens. Foram trancadas na fábrica, onde se declarara um suspeito incêndio, e cerca de 130 mulheres morreram . No entanto, este episódio não possui registros históricos confiáveis, acreditando-se, então, tratar-se de uma legenda com forte e significativa simbologia.
Ao que tudo indica, a referência histórica principal da origem do Dia Internacional da Mulher é a II Conferência Internacional das Mulheres Socialistas em 1910, realizada em Copenhague, Dinamarca; quando a operária Clara Zetkin propôs que se instaurasse um dia internacional das mulheres. Nessa proposta, não se faz nenhuma alusão ao dia 8 de março. Zetkin apenas menciona “seguir o exemplo das trabalhadoras progressistas americanas, que no período que vai do final do século XIX até 1908, travaram grandes batalhas contra as desigualdades sociais”.
É certo que a partir daí, as comemorações começaram a ter um caráter internacionalista, expandindo-se pelo mundo. Por fim, em 1922, a ONU declara que o Dia Internacional da Mulher é celebrado oficialmente em 8 de março. Logo, neste dia de exaltação das conquistas igualitárias das mulheres, é preciso recordar um dos maiores arquétipos femininos da história do Ocidente : a Bem-aventurada Santa Clara de Assis. Contudo, muitos podem indagar-se: O que há de comum entre as mulheres trabalhadoras dos tempos modernos e esta terna santa do século XII/XIII. Certamente, a propensão libertária da alma feminina.
Se nos idos de 1908 as operárias de vários países lutavam por um mundo mais justo e equânime , onde a partilha e solidariedade poderiam dar a todos “a vida em abundância”(Jo 10-10) ; na Idade Média, na região da Úmbria, a jovem Clara Offedrucci, oriunda de família nobre, sendo seu pai o Conde de Sassorosso; numa ruptura total com as questões mundanas,no dia 28 de março de 1211(Domingo de Ramos) abandona seu lar e parentes para viver sua única e inexorável paixão: seguir a Jesus Cristo Crucificado, à maneira de seu seráfico pai Francisco, ou seja, na contemplação, fraternismo e minorismo.
Para que tenhamos uma idéia da importância de Clara para a Igreja e para Ordem Franciscana, lembraremos de acontecimentos que constam das fontes históricas. Em 1221, por exemplo, o pobrezinho de Assis estava decepcionado com o fato de a Fraternidade se afastar, pouco a pouco, do espírito original de simplicidade . Querendo voltar ao convívio com os pobres e leprosos, e a estes pregar o Santo Evangelho; Francisco confia a direção da OFM a Frei Elias. No entanto, o frade Elias distancia a Ordem mais ainda do Cristo pobre, suavizando as regras e aceitando benefícios papais; construindo, inclusive, a suntuosa Basílica de São Francisco de Assis. Eis que contra ele insurge-se a mais devota e rigorosa componente da Ordem, a líder das Damas da Pobreza, a intransponível e humilde serva Clara de Assis; firme como uma rocha na defesa de sua fé no Jesus Ressuscitado.
Muito amada e respeitada pelos contemporâneos de Francisco, que falecera em 1226, a plantinha do menor dos menores teve vital influência na deposição de Frei Elias , ocorrida no ano de 1239; colaborando, assim, para que a Ordem continuasse a ajudar à Igreja e suas ovelhas a seguirem o Caminho da simplicdade, na fidelidade a Santa Pobreza.
Cabe também dizer, que Clara foi a primeira mulher a elaborar uma Regra que depois veio a ter a aprovação Pontifícia. E, solicitando que fosse concedido às Clarissas o Privilégio da Pobreza, onde estabelecia que ela e suas irmãs jamais possuiriam bem algum, deu esta resposta ao Santo Papa Gregório, que preocupado com as condições das Damianitas, gostaria que elas aceitassem algumas propriedades e moderassem nas duras práticas de penitência: ” Santo Padre, por nenhum trato e jamais, eternamente , desejo ser dispensada da sequela de seguir Cristo”.
Sabemos que Clara e suas filhas espirituais viveram na mais absoluta clausura, na adoração do“…Santíssimo menino envolto em pobres paninhos…..” .No entanto, houve uma ocasião em que nossa eterna Abadessa quis deixar São Damião: quando soube do martírio dos cinco primeiros frades que foram pregar no Marrocos, Clara quis enveredar pela via do sacrifício, pois acreditava que morrer por Ele era a maior prova de amor ao Redentor.
Estes e os outros acontecimentos aqui narrados, nos demonstram como Clara, no seguimento de Maria, Nossa Mãe Santíssima, estava sempre pronta a dizer ‘SIM’ ao Senhor Deus. E por ser tão importante no projeto salvífico, luz que iluminou a estrada de um povo a caminho do Reino dos Céus, Santa Clara de Assis merece ser exemplo para todos os cristãos, principalmente para as mulheres que, à semelhança da menina Clara, se enamoraram pelo Cristo .
Atualmente, os franciscanólogos têm se utilizado de um neologismo para ser referir ao carisma que nós, cristãos menores, buscamos viver: é o chamado carisma francisco-clariano. Justíssima homenagem a nossa irmã lua , pois se Francisco não tivesse a retargua espiritual que Clara lhe dava, talvez não estivéssemos hoje por todo o mundo , com o sagrado Tau sobre nossos corações.
Thiago Damato é membro professo da Juventude Franciscana do Brasil

terça-feira, 5 de março de 2013

Um conclave inusitado!



O papa Bento XVI, ao renunciar ao trono de Pedro a 28 de fevereiro, deu sinal verde à abertura do novo conclave, que em março reunirá o Colégio de Cardeais para eleger seu sucessor.

Serão 115 cardeais com menos de 80 anos a participar da eleição em Roma, mesmo que estejam sob censura ou tenham sido excomungados. Durante o tempo que durar a reunião ficarão isolados do mundo, recolhidos em aposentos especiais, próximos à famosa Capela Sistina, onde ocorrerá o processo eleitoral.

O conclave é aberto com missa solene celebrada na Basílica de São Pedro. Cada cardeal faz o voto de manter a eleição em segredo, e todos rezam para que o Espírito Santo inspire suas escolhas. Em seguida, se recolhem.

O verdadeiro motivo do isolamento dos cardeais, ocorrido pela primeira vez em 1268, por ocasião da morte de Clemente IV, é apressar a decisão. Aquele conclave esteve reunido durante quase quatro anos, sem que as divergências políticas abrissem caminho às luzes do Espírito Santo. Para apressar os cardeais a votar, foi preciso destelhar a sala em que se reuniam. Suas eminências temeram mais os rigores do frio que a claustrofobia. Por fim, em 1271, o conclave elegeu Teobaldo Visconti, que, aliás, era monge, mas não sacerdote. Adotou o nome de Gregório X.

Antes de os cardeais se recolherem, as salas e os apartamentos são examinados para detectar possíveis microfones; as entradas são seladas, as janelas vedadas, as cortinas, fechadas.

Na Capela Sistina, seis velas são acesas no altar, onde está o cálice sagrado. Nele serão colocados os votos. Os cardeais adentram à capela sem chapéu. As cabeças descobertas e os baldaquinos simbolizam que a autoridade suprema nasce apenas dessa reunião, e não pertence a nenhum deles, individualmente.

O voto é secreto. Duas sessões de votação são realizadas a cada dia, uma pela manhã e outra à tarde.

Cada cardeal deposita seu voto no cálice sobre o altar. Após cada sessão, os papéis da votação são queimados. Se a votação não foi conclusiva, uma substância química é adicionada aos papéis, para que produzam fumaça preta ao queimar. A fumaça que sai pela chaminé, no telhado do Palácio do Vaticano, é o sinal para a multidão que espera na Praça de São Pedro. Enquanto for preta, significa que a Igreja permanece sem a sua principal figura.

Eleito o novo pontífice, com 2/3 dos votos, o decano ou o mais velho dos cardeais pergunta ao novo papa se aceita a eleição e por qual nome deseja se tornar conhecido. Esse costume vem desde o século X. É uma lembrança de que Jesus mudou o nome daquele que viria a ser o primeiro chefe da Igreja, de Simão para Pedro.

Nesse momento, todos os baldaquinos cor púrpura são levantados, menos o que cobre o assento do escolhido. Os papéis da votação são queimados e a fumaça branca avisa ao povo na praça e ao mundo que um novo papa foi eleito.

O escolhido, conduzido a um quarto ao lado, veste as roupas de papa (os alfaiates as deixam prontas em três tamanhos). Os cardeais prestam a ele sua primeira homenagem. O decano vai até o balcão e proclama: "Habemus papam!" (Temos papa). E o novo pontífice aparece no balcão para abençoar a multidão.

Como o conclave que se aproxima é inusitado, pois corre paralelo a um papa renunciante que continuará morando no Vaticano, não se sabe ainda em que momento o pontífice que se afastou saudará o eleito. O cerimonial da Santa Sé quebra a cabeça para criar rubricas que respondam a inúmeras questões: é o papa renunciante que deverá ir ao encontro do eleito ou o contrário? Os dois permanecem dotados de infalibilidade em questões de fé e moral ou apenas o novo pontífice? Já se sabe, porém, que Bento XVI perde o Anel do Pescador e os sapatos vermelhos, embora permaneça com direito às vestes brancas, adotadas desde o pontificado de Pio V, entre 1566 e 1572, e inspiradas no hábito dos frades dominicanos, a cuja família religiosa ele pertenceu antes de ser ordenado bispo.

Enfim, com dois papas vivos, a Igreja Católica será, agora, foco das atenções por muito tempo. Tomara que saiba aproveitar para fazer transparecer melhor a mensagem de Jesus.



[Frei Betto é escritor, autor de "Conversa sobre fé e ciência” (Agir), em parceria com Marcelo Gleiser e Waldemar Falcão, entre outros livros. http://www.freibetto.org/- twitter:@freibetto.