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domingo, 9 de setembro de 2012

Celebrar a criação!



O início de setembro é consagrado por algumas Igrejas ortodoxas para celebrar a natureza como criação divina. As Igrejas antigas celebram a história das manifestações divinas no mundo durante o ciclo anual chamado “ano litúrgico”. As memórias dos acontecimentos da fé se centram na vida de Jesus, desde o seu nascimento (o Natal) até sua ressurreição (Páscoa) e a vinda do Espírito dado à humanidade (Pentecostes).
Há algumas décadas, por uma proposta do patriarca de Constantinopla, várias Igrejas orientais consagram o primeiro dia desse mês ou o primeiro domingo de setembro como “dia da criação”. Não se trata de uma memória do que teria sido o começo do universo ou do planeta terra. Os livros bíblicos que falam da criação não têm a finalidade de descrever a história. Relatam mitos e poemas comuns a vários povos antigos para revelar que Deus tem um projeto para esse mundo e confia esse plano ao ser humano como seu guardião e zelador. Por isso, o início de setembro, celebrado a cada ano pelos ortodoxos, não visa lembrar a origem do mundo, nem menos ainda contrapor a visão bíblica com teorias científicas atuais. Nem é questão de optar pelo criacionismo contra a teoria hoje comprovada do evolucionismo.
Cada vez mais compreendemos que não compete à fé ou a livros sagrados substituir a investigação científica. Seria como quem acredita em milagre condenar a medicina. O objetivo de celebrar a criação é convidar toda a humanidade a olhar a natureza como expressão do amor divino e lugar onde sempre podemos encontrar o Espírito e servi-lo no cuidado uns com os outros e com todos os outros seres do universo.
“A Cosmologia é a ciência cujo objetivo é descrever e tornar compreensível, de acordo com as leis da física, as propriedades típicas do Universo, considerado como um todo”, diz Mário Novello, cosmólogo brasileiro. Ele explica que o Universo se identifica com a totalidade do espaço, do tempo, da matéria e da energia. Hoje, essa ciência nos mostra que o universo continua em expansão e cada vez mais rápida. A Criação está incompleta. É um processo e este processo está se acelerando. Esta aceleração do universo é associada a uma substância estranha que se convencionou chamar de “energia escura”, por enquanto, indetectável.
Ninguém sabe bem o que é exatamente essa energia escura, de que é feita e quais suas leis. Se há cem anos, a ciência se julgava dona de todos os enigmas e com resposta para tudo, hoje, deve ser humilde e reconhecer essa parte de desconhecido que alguns cosmólogos não hesitam em chamar de “mistério”, linguagem que, na história, se tornou um termo teológico e comum ao universo religioso. Aí é a ciência que também tem de se reconhecer incompleta e aberta para aprender. Dizer que o universo contém mistérios, não quer dizer que tais elementos são de natureza incompreensível, nem que a ciência abra mão de penetrá-los. Apenas que, atualmente, não os domina.
Para a fé judaico-cristã, Deus se manifesta à medida que revela o seu projeto de vida e amor para o mundo. Ao propor sua aliança ou como mais tarde os evangelhos chamarão “o seu reino” é que passamos a conhecer alguma coisa sobre Deus. “Eu sou quem serei”. Dá-se a conhecer presente e atuante no meio das ambiguidades da história e dos fenômenos da natureza.
Nem tudo o que acontece é vontade de Deus e nem se pode dizer que todos os fenômenos da natureza vêm de Deus. Muitos são provocados pela intervenção humana. Mas, é possível sim escutarmos como uma profecia a própria voz do universo e dos novos processos da ciência e da cultura. O salmo bíblico já dizia isso em um poema que podemos retraduzir assim: “Os céus cantam a presença misteriosa divina (a glória de Deus) e o universo inteiro revela sua permanente e amorosa ação criadora” (Sl 19, 1). Somos chamados/as a testemunhar isso pelo nosso cuidado com a natureza e pela nossa comunhão com todo ser vivo. 

Marcelo Barros é monge católico da Ordem de São Bento.