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sábado, 11 de junho de 2011

Pentecostes

Pentecostes
A nova lei do Espírito!
Passaram-se cinqüenta dias desde que celebramos como igreja a festa da Páscoa, a festa das festas, a manhã resplandecente da vida. O ressuscitado deu a seus discípulos a certeza de que a vida vence a morte, e, que nada daquilo que eles haviam passado juntos tinha sido em vão. Até conversou e reanimou durante o caminho aqueles dois que voltavam para casa, para a “Emaús” de seus corações: desanimados, inconformados e tristes. “Porque sois tão lentos para entender tudo o que as escrituras dizem a meu respeito?”, indagou Ele. E por fim, sobre os “seguidores do caminho” de Jerusalém, de Emaús e do mundo inteiro, soprou o seu Espírito.
A festa que celebramos hoje tem caráter tão singular e especial que merece destaque na liturgia, na preparação e na celebração em si. Visto que, é em Pentecostes que a igreja se mostra ao mundo, que ela assume sua missão de testemunhar a todos os povos a alegria da ressurreição e a certeza da vitória. É a hora de o Espírito Santo tomar posse dos discípulos, das comunidades, da igreja como um todo.
Vamos prestar atenção em alguns detalhes que nos apresentam as leituras e o evangelho desta solenidade.
Comecemos pela primeira leitura, tirada do livro dos Atos dos Apóstolos, na qual Lucas nos apresenta a vinda do Espírito, ocorrida cinqüenta dias depois da Páscoa, coincidentemente no mesmo dia da festa dos judeus chamada Pentecostes. Qual seria a intenção de Lucas, em colocar a vinda do Espírito Santo no mesmo dia desta festa dos judeus?
Pentecostes era a festa que relembrava a subida de Moisés ao monte Sinai, quando na ocasião ele havia recebido as tábuas contendo a Lei de Deus. Considerando-se um povo privilegiado por este fato, os judeus, relembravam-no festivamente em Pentecostes. Contudo, como bem sabemos nós, a Lei de Deus, a muito havia sido desviada pelo seu povo, e muito mais por aqueles que Jesus combateu veementemente: fariseus, saduceus, mestres da Lei! Por fora, obedeciam, jejuavam e se mostravam para os outros, mas por dentro eram como que “sepulcros caiados”.
É justamente neste ponto, leis externas que não modificam por dentro, que Lucas vai colocar uma nova Lei: a Lei do Espírito, esta sim, modifica a partir de dentro, age no coração e a qual, faz do velho homem, homem novo. Uma Lei que dada ao povo pelo ressuscitado, não precisa mais de prescrições externas, porque está dentro, vai ao coração dos homens e modifica-os.
Para ficar mais claro, vamos tentar entender a partir de um exemplo:
Supomos que um agricultor, queira produzir laranjas a partir de um pé de jabuticaba. Todos conhecemos estas duas frutas e sabemos que naturalmente falando, é impossível que uma jabuticabeira dê laranjas. E se o agricultor resolver cavar ao redor, colocar adubo, regá-la três vezes ao dia, conversar com ela simpaticamente pedindo que dê laranjas, será que ele consegue? Creio que não, no máximo o que ele vai conseguir é que a jabuticabeira produza boas e bonitas jabuticabas. Agora suponhamos que, utilizando as técnicas modernas de fertilização, e consultando alguns cientistas que implantem dentro da árvore genes de algum tipo de laranja, conseguindo assim modificar a genética da planta, ele irá conseguir produzir laranjas? Talvez sim!
A questão aqui não é genética, mesmo porque, sou sacerdote e não cientista. O que quero dizer é que, o Espírito é como este gene, que entra em nós e muda o nosso ser como um todo. Que faz com que produzamos verdadeiros frutos, de lugares onde antes não se podia produzir. A lei do Espírito muda a partir de dentro, e então, não precisamos mais de leis externas, porque dentro, estamos mudados. O cristão passa a viver segundo uma única e nova Lei: a Lei do Espírito Santo.
Sendo assim, é claro que todos podem os entender falando em suas próprias línguas, como relata a leitura, afinal de contas, a partir de agora esta Lei é universal, atinge todos os povos, raças, culturas e línguas. Ao contrário de Babel, onde a arrogância dos homens e o desamor trouxeram a confusão, a Lei do Espírito inicia um processo contrário: todos passam a se entender a partir do amor. As portas do Cenáculo se abrem, as correntes dos medos desabam. Todos se enchem da vontade de “encher o mundo com o evangelho de Cristo”. Começa a missão. Quando o homem fica inundado pelo Espírito, nele acontece algo incrível: ama com o mesmo amor de Deus.
Por fim, se lermos o Evangelho com atenção, vamos ver que João, apresenta a vinda do Espírito no mesmo dia da ressurreição. Teriam, portanto, Lucas ou João cometido algum equívoco referente as datas?
Para João, paixão, morte, ressurreição, ascensão e vinda do Espírito ocorreram todos conseqüentemente e no mesmo dia. Afinal de contas, como relata o Evangelho de hoje, na primeira aparição de Jesus aos discípulos ele soprou sobre eles o Espírito Santo e os enviou em missão. De fato, em ambos os evangelistas, a intenção é mostrar justamente o que falamos anteriormente: com o Espírito, dados a partir do amor do Pai e do Filho, os discípulos são impelidos em direção aos irmãos e ao mundo todo. São libertados das amarras dos seus medos e fazem a igreja crescer. O sopro de vida do novo Adão, Jesus, dá aos seus filhos vida nova. Como o sopro divino havia animado o homem retirado do barro, o sopro do filho, retira os discípulos de seus medos e os faz homens novos.
Enfim, fica para nós, no mundo de hoje, muitos questionamentos referente ao mesmo sopro, ao mesmo Espírito, a nova Lei que recebemos do Mestre.
Será que estamos abertos a ação de construirmos juntos um mundo novo? Para onde nos impele o Espírito? O que Ele pede de nós nos “novos areópagos” do mundo moderno? Será que estamos dispostos a escancarar as “janelas dos nossos Cenáculos”?
Parece-me que vivemos uma apatia, uma inércia em relação ao Espírito que habita em nós. É certo que alguns até se dispõe, mas onde está a audácia e a coragem de um Paulo de Tarso, de um Francisco de Assis, de uma Teresa de Calcutá? Fechar-se a ação do Espírito é voltar às leis externas, é deixar abafar o sopro, o enterrar o tesouro. Não podemos deixar que a apatia do mundo tome nosso coração e que o desanimo faça querermos “voltar para Emaús”. O tempo é agora, o dia é hoje, o batismo nos confirmou em nossa missão.
Que possamos abrir nossos corações e deixa-nos inebriar deste Espírito de vida, desta nova Lei. Só um coração aberto e generoso é capaz de entender a vontade de Deus para a vida do mundo.
“Vinde Espírito Santo, enchei os coração de vossos fiéis e acendei neles o fogo do Vosso amor! Enviai Senhor o Vosso Espírito e tudo será criado e renovareis a face da terra!”