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terça-feira, 12 de abril de 2011

"Semana das semanas"!

Jesus Cristo – O dom universal do amor divino - Duns Scotus



Que nós homens neste santo vínculo de amor entre Deus e nós possamos ser companheiros de Deus, é um dom da graça diante ao qual qualquer nosso espanto ainda é pouco.


Podemos colocar aqui a pergunta: como foi possível que Deus, no seu infinito amor, criou um mundo finito, que Ele supera infinitamente?


Quando um ser humano ama outro, mas não encontra o amor recíproco correspondente, se diz que é um amor insatisfeito, infeliz. Mas isto para Deus é impensável. Assim, permanece a interrogação: como pode Deus, o Deus infinito, criar um mundo finito? Com este seu divino amor Ele quase não se perdeu na criação infinitamente a Ele subjugada?


A resposta de Duns Scotus a esta pergunta representa o centro de toda a sua teologia. Querendo Deus alargar o seu amor para além de si (esta era uma vontade Sua totalmente livre, não uma prescrição) e querendo Deus a criação, na sua vontade criativa, coloca à frente de toda criatura, em primeiro lugar a Encarnação de seu filho.


O filho de Deus feito homem realiza já em si, na sua dignidade e valor, o inteiro plano divino da Criação. Jesus Cristo, o Homem-Deus, é síntese e realização, princípio e fim de toda a criação. E assim como toda a criação se funda e converge no filho de Deus umanado, resulta – precisamente em Cristo e mediante Cristo – digno fruto do amor de Deus.


A doutrina de Cristo como cabeça e centro, origem e fundamento de toda a criação, não era nova. Esta já foi afirmada nas Sagradas Escrituras, como na carta de São Paulo aos Colossenses (1, 15-17): “Ele é imagem do Deus invisível, gerado antes de toda criatura, pois por meio dele foram criadas todas as coisas, as do céu e as da terra, as visíveis e as invisíveis: tronos, dominações, principados e potestades. Todas as coisas foram criadas por meio dele e em vista dele. Ele é antes de todas as coisas e todas subsistem nele”.


Scotus deixa muito evidente de modo plástico a relação entre Cristo e Adão. Adão é o primeiro homem, o progenitor de todos os homens, portanto também o progenitor de Jesus, quanto o que diz respeito a sua natureza humana, que se manifestou no tempo e viveu em um determinado período e época. Mas no eterno plano de Deus, que está fora e para além do tempo, Cristo existe antes de todo tempo, portanto antes mesmo de Adão, e Adão foi criado segundo o protótipo de todos os homens: Jesus Cristo. Duns Scotus fez ressurgir esta visão do primado de Jesus no mundo e a aperfeiçoou com novo esplendor.


Mais tarde, até nossa época, esta determinante, importante e ampla concepção de Jesus Cristo na visão de fé dos cristãos ganhou novamente vigor de forma notável. Nós conhecemos Cristo como o Redentor da alienação causada pelo pecado. Certo, Cristo é o Redentor do homens, e sua obra redentora é uma obra inefável e totalmente gratuita de amor divino. Mas a Redenção alcança quase como que uma nova ação da graça de Deus, se assim se pode dizer em termos humanos. Depois que os homens com o pecado se separaram de seu divino fundamento Jesus Cristo, este Cristo, tornando-se igual a nós até na morte, na nossa humanidade, marcada e assinalada pelo pecado, restabeleceu a nossa união com Deus.


Assim a Redenção vem a ser um ato do amor divino, pois o fundamento da existência doada em Cristo havia perdido seu significado. A tese de fé a respeito da posição universal de Jesus Cristo, Scotus fundamenta em uma exposição acessível mesmo as concepções de hoje. Por isso ele é para o nosso tempo, como mestre e arauto da fé, de atual importância e significado; o é porque a confusão na teologia de hoje se reaviva, sobretudo no que diz respeito à pessoa e missão de Jesus Cristo. Cristo é, portanto plenamente Deus e plenamente homem – totalmente Deus, pois só assim pode realizar o plano da criação de Deus e junto a ela nossa redenção, e totalmente homem, pois só como um de nós, como nosso mestre, ele pode incluir os homens na sua vida e na sua obra.


Se relembrarmos que se trata definitivamente e em tudo do amor: o amor de Deus motivo e sentido da nossa vida – o nosso amor a Deus como realização de nossa vida – ambas as duas realizadas no Homem-Deus Jesus Cristo, então compreenderemos o autêntico significado do culto ao Sagrado Coração de Jesus. No coração, motor da vida, nós vemos surgir espontâneo a sede do amor. Do mesmo modo, no coração de Jesus nos torna claro e evidente o amor de Deus, e o coração de Jesus é assim o canal através do qual o nosso amor pode chegar ao Pai celeste.


Assim é compreensível que entre os discípulos de Scotus, na escola franciscana, a veneração ao Coração de Jesus pode efetivamente florescer. Para reavivar de novo a consciência do posto universal de Jesus Cristo no povo cristão, foi introduzida em nossos tempos a festa de Cristo Rei. A imagem de Cristo, Rei do universo, percorre assim o ano litúrgico e recebe relevância em festas importantes e em particulares períodos: advento e natal com a epifania, isto é, a manifestação do Deus soberano – a coração do Rei, através da sexta-feira santa, a Páscoa e a ascensão – e continua na igreja viva através do mistério da santíssima eucaristia.


Quando o significado de Jesus Cristo como rei de toda a criação, havia perdido significado, a igreja o restabelece com a solenidade de Cristo Rei. Como Jesus Cristo é a mediação entre Deus e nós, que dá para toda a criação sentido e valor, assim (e estes são impulsos que vem da visão de fé de Scotus a respeito de Cristo) Jesus Cristo deveria ser o centro determinante, sempre mais vivente e atual, mesmo em nossas concepções de fé e mais ainda em nossas relações interiores com Deus, em nossa oração, no nosso amor a Deus.