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quinta-feira, 14 de abril de 2011

"Os últimos momentos de Jesus no alto da cruz"

Apresentamos a partir de hoje, aqui no blog, um estudo detalhado dos últimos momentos de Jesus na cruz, feito pelo professor de exegese bíblica do Instituto Teológico Francisco de Petrópolis, Frei Ludovico Garmus, vale a pena ler visto que estamos bem próximos da Semana Santa e de tudo o que ela nos representa.
Para maiores detalhes sobre o professor frei Ludovico, acesse:

http://www.franciscanos.org.br/itf

Saudações aos leitores do blog e bom estudo!



1. A crucifixão


Marcos, na cena da crucifixão menciona o local (Gólgota), a oferta de vinho com mirra, a repartição das vestes por sorteio, a inscrição sobre a cruz e, por fim, os dois bandidos que com Jesus foram crucificados. Mateus menciona os mesmos fatos, precisando que o vinho foi misturado com fel e que havia ali guardas sentados, vigiando Jesus. Algumas mulheres, que seguiram Jesus desde a Galileia (cf. Mc 15,41), provavelmente, prepararam uma bebida que causava torpor, como era costume oferecer aos condenados. Em Pr 31,4-6 se aconselha que os governantes se abstenham de vinho e licores, "para não esquecer as leis e descuidar do direito de todos os pobres", mas recomenda: "Que se dê licor ao que vai morrer e vinho aos amargurados". Jesus, porém, se nega a beber, para enfrentar o sofrimento e a morte conscientemente. No Getsêmani, Jesus estava disposto a beber o cálice do sofrimento até o fim (Mc 14,36).
A repartição das vestes dos condenados à morte entre os que executavam a sentença estava prevista nas leis romanas. Mas a Igreja primitiva, que lia o Sl 22 para expressar a paixão de Jesus, viu no sorteio das vestes o cumprimento de uma profecia: "Repartem entre si minhas vestes e sobre minha túnica lançam a sorte" (Sl 22,19). João diz que as vestes foram divididas em quatro partes pelos soldados e somente a túnica sem costura foi sorteada.
Lucas omite na cena da crucifixão a oferta da bebida e a inscrição sobre a cruz, definindo o motivo da condenação. Lembra, porém, que junto com Jesus foram crucificados dois "criminosos" (em vez de bandidos de Mt e Mc), talvez relendo Is 53,12: "entregou sua vida à morte e se deixou contar entre os criminosos". Lucas é o único a citar, no contexto da crucifixão, uma oração de Jesus pedindo perdão: "Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem" (23,34). "A primeira palavra de Jesus na cruz foi uma palavra de perdão" (Lagrange). Este pedido de perdão poderia se referir aos soldados romanos. Mas, à luz de At 3,17.19 e da oração de Santo Estevão (At 7,59-60), é mais provável que Jesus estivesse pensando nas autoridades judaicas que causaram sua condenação. No momento supremo de sua vida e missão, Jesus dá o exemplo do perdão do qual falava (Lc 6,27-36; 17,3; cf. Is 53,12) e incluiu na oração do Pai Nosso (11,4).
João cita a oferta da bebida só mais tarde (19,29), mas insiste na inscrição "Jesus Nazareno, o rei dos judeus", escrita em hebraico, grego e latim. Os sumos sacerdotes reclamaram com Pilatos e queriam que a inscrição fosse modificada: em vez de "Jesus Nazareno, rei dos judeus" para "eu sou o rei dos judeus". Mas Pilatos respondeu com a famosa frase: "O que escrevi, está escrito". Jesus foi acusado de pretender ser um messias, rei dos judeus. Mas já no processo João rebate esta acusação: o reino de Jesus não é deste mundo (Jo 18,33-38; cf. Mc 15,2 e paralelos)].

2. Os insultos e os dois bandidos


Marcos e Mateus dividem os que insultam Jesus na cruz em três grupos: os que passavam perto do Gólgota, os sumos sacerdotes, escribas e anciãos e, finalmente, os dois bandidos crucificados. Em Marcos, os insultos giram em torno do título Messias-Rei. Os passantes retomam a falsa acusação feita contra Jesus de que Jesus prometeu destruir o Templo e desafiam-no a descer da cruz, salvando-se a si mesmo (Mc 14,58; 15,19), já que é tão poderoso; ao dizer isso eles "movem a cabeça", como no Sl 22,8 e em Lm 2,15. De fato, Jesus havia salvado muitas pessoas, curando-as. Mas também havia dito: "Quem quiser salvar sua vida vai perdê-la..." (Mc 8,35). Os escribas e sumos sacerdotes repetem o insulto e acrescentam que, se o "Cristo, rei de Israel", descesse da cruz, até eles haveriam de crer nele (Mc 15,32; Mt 27,42b). Lucas afirma que os soldados, ao oferecerem vinagre a Jesus, diziam: "Se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo", lembrando que acima da cabeça de Jesus estava escrito: "Este é o rei dos judeus" (Lc 23,36-38).
Os insultos dirigidos a Jesus na cruz lembram Sb 2,17-20 e Sl 22,7-9. Mesmo desafiado, Jesus nega-se a usar de seu poder para descer da cruz. Já na tentação do deserto (Lc 4,3.9) "Jesus havia feito sua opção definitiva entre demonstrar seu poder e entregar-se totalmente em obediência ao Pai" (Hendrickx: 1986, p. 155).
Marcos e Mateus dizem que também os dois bandidos crucificados participavam dos insultos. Lucas distingue: Apenas um dos criminosos blasfemava, dizendo: "Não és tu o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós" (Lc 23,39). O outro, porém, o repreendeu, dizendo que, se eles mereceram o castigo, Jesus era inocente e lhe fez um pedido: "Jesus, lembra-te de mim quando vieres como rei". E Jesus respondeu: "Ainda hoje estarás comigo no paraíso". O criminoso pensa, como os judeus em geral, na felicidade futura. Para Jesus, porém, a esperança da salvação futura é uma salvação que já se experimenta hoje (cf. Lc 2,11; 4,21; 19,9). No Antigo e no Novo Testamento, a essência da felicidade é estar com Deus.

3. Os sinais precursores da morte de Jesus


Marcos e Mateus citam dois sinais precursores: as trevas e o véu do Templo que se rasga. As trevas teriam coberto sobre toda a terra desde a hora sexta, meio-dia, até a hora nona, três da tarde. Não se trata de procurar uma explicação natural, como um eclipse ou o vento siroco, que pode trazer tanta poeira do deserto a ponto de fazer escurecer o céu. O fenômeno sugere um efeito cósmico da morte de Jesus e faz parte da linguagem escatológica do dia do Senhor e do julgamento divino, por ocasião da vinda do Filho do Homem: "Naqueles dias... o sol escurecerá" (Mc 13,24). Ou como diz Amós: "Acontecerá naquele dia que farei o sol se pôr em pleno meio-dia e escurecerei a terra em um dia de luz" (Am 8,9). Em João a paixão é também entendida como um julgamento divino: "Agora é o julgamento do mundo" (Jo 12,31).


Em breve, postaremos a continuação deste estudo...