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terça-feira, 26 de abril de 2011

Os Cristãos...


Os cristãos não são diferentes dos outros homens nem pelo território, nem pela língua, nem pelo modo de viver.
Eles não moram numa cidade exclusivamente sua, não usam uma língua própria, nem levam um género de vida especial.
A sua doutrina não é conquista do pensamento e do esforço dos homens estudiosos, nem professam, como fazem alguns, um sistema filosófico humano.
Moram em cidades gregas ou bárbaras, como coube em sorte a cada um, e, adaptando-se aos costumes de vestir, de comer e em todo o resto de vida, dão exemplo de uma forma de vida social maravilhosa que, segundo todos confessam, é inacreditável.
Habitam na respectiva pátria, mas como estrangeiros; participam em todas as honras como cidadãos e suportam tudo como estrangeiros. (...)
Todas as terras estrangeiras são uma pátria para eles e todas as pátrias são terras estrangeiras...
Vivem da carne, mas não são segundo a carne. Moram na terra, mas são cidadãos do céu. Obedecem às leis estabelecidas, mas através do seu teor de vida superam as leis.
Amam a todos e por todos são perseguidos. Não os conhecem e condenam-nos; dão-lhes a morte e eles recebem a vida.
São mendigos e enriquecem a muitos; encontram-se privados de tudo e tudo têm em abundância.
São desprezados e no desprezo encontram glória; difamam-nos e é reconhecida a sua inocência.
São injuriados e abençoam; são tratados de modo insolente e eles tratam com reverência.
Fazem o bem e são punidos como malfeitores; e, embora punidos, alegram-se quase como se lhes dessem a vida.
Mas os que odeiam não sabem dizer o motivo do seu ódio.
Numa palavra, os cristãos são no mundo o que a alma é no corpo.

Este texto é intitulado “Carta a Diogneto”, documento do século II que relata o lugar dos cristãos no mundo. Tão belas são as palavras do autor que podem ser lidas através dos tempos.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Juventude da Paróquia São Francisco realiza 1ª "Via Sacra da Juventude"

Por Alex Bastos
Ocorreu neste sábado a 1ª Via Sacra da juventude na Paróquia São Francisco, organizada pela Fraternidade JUFRA das Chagas e pelo Grupo de Jovens São Francisco de Assis. A Via-Sacra teve início com a celebração eucarística de Domingo de Ramos e a abertura da Semana Santa, tudo ocorreu num clima orante e reflexivo, a cada estação ao contemplar as dores e passos da Paixão de Jesus Cristo, se refletia também um pouco sobre as diversas dores e quedas da juventude e da sociedade atual, houve a participação da catequese, jovens de diversas regiões e paróquias da cidade, assim como paroquianos da igreja de São Francisco.

Para auxiliar nas reflexões das estações foram utilizados vídeos, músicas, reflexões preparadas pelos jovens, e encenações teatrais, nas estações nas quais se refletem as quedas de Jesus foram feitas analogias às quedas dos jovens e das dificuldades da atualidade em sintonia também com a proposta da Campanha da Fraternidade 2011. A via sacra foi dirigida por frei Alvaci Mendes da Luz, assistente espiritual da JUFRA das Chagas.

O objetivo da mesma foi trazer presente a pessoa do Cristo, vivente e operante também na figura dos homens e mulheres de hoje que sofrem na busca de melhores condições de vida, de trabalho digno, estudo e tempos melhores e de uma sociedade justa e fraterna. Foi bastante recordada a figura de Maria mãe de Jesus, presente também em tantas mulheres dos nossos dias, que se deparam diante de seu filho, vítima de injustiças, do álcool, das drogas e conseqüentemente da morte prematura.

“Os jovens são os maiores evangelizadores dos outros jovens” embasados nesta mensagem do Papa João Paulo II esta via sacra também foi um momento forte de evangelização para a juventude das diversas regiões de São Paulo, houve vasta divulgação pelos meios de comunicação, convidando os jovens a participação deste momento, o que o tornou não só uma reflexão orante mas também um momento de apostolado.

Dessa forma, orante-refexiva e evangelizadora os jovens do largo São Francisco iniciaram a semana santa, também convidando a comunidade paroquial a não se esquecerem de que Jesus se faz presente na Juventude e da importância de todos unirem forças para rezar com eles e por eles, visando não só um futuro melhor, mas, um presente onde a igreja possa sempre contemplar o rosto de Deus que se desenha nela através da Juventude.

“Vós, jovens, não sois apenas o futuro da Igreja e da humanidade, como uma espécie de fuga do presente. Pelo contrário: vós sois o presente jovem da Igreja e da humanidade. Sois seu rosto jovem. A Igreja precisa de vós, como jovens, para manifestar ao mundo o rosto de Jesus Cristo, que se desenha na comunidade cristã. Sem o rosto jovem a Igreja se apresentaria desfigurada.” (Bento XVI – Aos jovens brasileiros no estádio do Pacaembu).



Conheça mais sobre a Juventude Franciscana em: http://www.jufrabrasil.org

"Os últimos momentos de Jesus no alto da cruz" 2ª parte

4. Palavras de Jesus e intervenção do soldado!

Apenas Marcos e Mateus dizem que Jesus, com voz forte gritou: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?" O grito de Jesus, citando o Sl 22,1, expressa a radical solidão do sofrimento e morte de Jesus. Não se trata de um grito de desespero de um moribundo, mas inclui também uma expressão radical de entrega a Deus, como se expressa na ação de graças e certeza da proteção divina da parte final do Sl 22,22-31. Neste sentido, alguns pensam que Jesus estivesse rezando o Salmo 22. Talvez para ressaltar o aspecto positivo e confiante Lucas, omite este grito. O grito de Jesus chamou a atenção dos soldados e um deles, entendo mal a expressão "meu Deus" (Eli ou Eloí), disse: "Vede! Ele está chamando Elias". Elias era considerado o precursor do Messias (cf. Ml 3,23; Mc 9,11-13). Foi arrebatado ao céu num carro de fogo (2Rs 2,11-14) e se acreditava que, ao ser invocado, viria resgatar o justo necessitado. Com Lucas, João omite o grito de abandono do Sl 22,1; em vez disso, mostra que nem todos abandonaram o Mestre: Junto à cruz "estavam de pé, sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria de Cléofas e Maria Madalena", além do discípulo amado (Jo 19,25-27). João, em vez de um Jesus abandonado pelo Pai, mostra um Jesus preocupado com o possível abandono de sua mãe, após sua morte. Por isso, com as palavras "mulher, aí está o teu filho" e "aí está tua mãe", confia-a aos cuidados do discípulo amado.


5. A morte de Jesus e repercussões!

Depois desta cena, Marcos e Mateus lembram que Jesus deu mais um forte grito e expirou. Em Lucas, que omitiu o Sl 22,1 ("meu Deus, meu Deus por que me abandonaste?"), antes de expirar, Jesus diz: "Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito", citando o Sl 31,6. Como nos salmos, Jesus aparece como o justo que sofre, mas se entrega confiante a Deus e é reabilitado. João mostra um Jesus consciente até o fim; por isso, "para cumprir plenamente a Escritura", diz: "Tenho sede". Neste momento, um dos soldados, molha em vinagre a esponja presa numa vara e a aproxima da boca de Jesus. Ao contrário de Mc 15,23 e Mt 27,34, Jesus provou o vinagre: "Depois de provar o vinagre, Jesus disse: 'tudo está consumado'. E, inclinando a cabeça, entregou o espírito" (Jo 19,28-30). A expressão "tenho sede", no contexto do vinagre servido, lembra o lamento do justo sofredor do Sl 69,22: "Puseram veneno no meu alimento, em minha sede deram-me a beber vinagre". A palavra "tudo está consumado" expressa o desejo profundo de Jesus de cumprir a vontade do Pai. A cena de Jesus e a samaritana junto ao poço de Jacó já expressava muito bem este desejo. De fato, embora Jesus tenha pedido água para a samaritana acabou não bebendo água; e, quando os discípulos lhe oferecem pão, Jesus diz: "Meu alimento é completar é fazer a vontade daquele que me enviou e completar a sua obra" (Jo 4,34). Do mesmo modo, na hora da prisão, Jesus manda Pedro recolher a sua espada e diz: "Será que não devo beber o cálice que o Pai me deu?" (Jo 18,11). Por outro lado, como em Lc 23,46, em João ninguém tira a vida de Jesus. É ele que "entrega" o seu espírito: "O Pai me ama porque dou minha vida para de novo a retomar. Ninguém a tira de mim. Sou eu mesmo que a dou" (Jo 10,17-18).

6. Ocorrências após a morte de Jesus!

Marcos mostra um duplo significado da morte de Jesus. A ruptura do véu (v. 38) tem um significado em relação ao povo judeu e a confissão do oficial romano (v. 39) se relaciona com os gentios. Em Mateus e Marcos o véu do Templo se rompe após a morte de Jesus, enquanto em Lucas, antes da morte. No Templo havia dois véus. Um véu exterior, que separava o Santo do pátio exterior (Ex 26,37; 38,18) e um véu interior, que separava o Santo do Santíssimo2 . Em qualquer caso, se os evangelhos sinóticos mencionam a ruptura do véu (interior ou exterior) no contexto do momento da morte de Jesus é porque isso tinha um significado simbólico mais profundo. Poderia significar que, com a morte de Jesus, o serviço do Templo fica abolido e sua destruição está próxima. Outros vêem na ruptura o fim da barreira entre Deus e o homem (cf. Hb 9,1-12.24-28; 10,19-25). Outra possibilidade seria que, com a morte de Jesus, acaba a separação entre judeus e gentios (cf. Ef 2,11-22). Em suma, a morte de Jesus marca o fim da economia do Antigo Testamento e abre o caminho da salvação para todos os povos. Segundo Mateus, a ruptura do véu foi acompanhada de outros fenômenos cósmicos: "A terra tremeu e fenderam-se as rochas. Os túmulos se abriram e muitos corpos de santos ressuscitaram. Eles saíram dos túmulos, depois da ressurreição d'Ele, entraram na Cidade Santa e apareceram a muitos" (27,51b-3). A descrição se inspira no motivo apocalíptico da ressurreição, prevista para a era messiânica (cf. Ez 37,1-14). Na linguagem apocalíptica o terremoto acompanha a descrição de teofanias, ou manifestações divinas, como sinal de uma nova ação salvífica (cf. Jl 2,10; Ag 2,6.21). Por outro lado, a ruptura de rochas também acompanha a própria ação divina (Is 48,21; Na 1,5-6). Tumbas que se abrem marcam a descrição da ressurreição do povo em Ez 37,12s. "Santos" no Sl 34,9 é sinônimo de fiéis. Os rabinos chamam "santos" os que observam os mandamentos divinos. Em Mt 27,52 talvez se refira a personagens importantes do Antigo Testamento. A ressurreição dos mortos é o ato salvífico escatológico de Deus por excelência. Jerusalém com seu templo era o lugar da presença de Deus. Aqui, a expressão "Cidade Santa" indica a Jerusalém celeste (Hb 11,10.16; 12,22; Ap 21,2.10; 22,19. Enfim, todos estes sinais não devem ser entendidos literalmente, mas são afirmações teológicas para expor o significado da morte de Jesus. "Depois da ressurreição d'Ele", talvez seja um acréscimo para deixar claro que "Cristo ressuscitou dos mortos como o primeiro dos que morreram" (1Cor 15,20) e na sua ressurreição se baseia a fé na ressurreição dos mortos (1Cor 15,12-19). À vista destes fenômenos cósmicos, Marcos e Mateus trazem a confissão do centurião romano: "Verdadeiramente, este homem era Filho de Deus". Marcos põe na boca do centurião aquilo que mais tarde faria parte da confissão cristã a respeito de Jesus. Com esta frase o centurião caracteriza a vida inteira de Jesus, até sua morte, como a de filho de Deus (cf.Mc 1,1 e 15,39). A expressão "filho de Deus" ainda não é o que entendemos por " segunda pessoa da Trindade", definição que foi feita apenas em 325 dC, no Concílio de Nicéia. No Antigo Testamento o povo de Israel era chamado filho de Deus: "Quando Israel era menino, eu o amei e do Egito chamei o meu filho" (Os 11,1). O rei, como representante do povo, era também chamado "filho" de Deus (2Sm 7,12-16). À luz do Sl 2,7, 'filho de Deus" pode ser entendido mais em sentido messiânico. A confissão do centurião, de qualquer forma, vai mais longe que a de Pedro, que reconhece em Jesus apenas o Cristo (Mc 8,29) e afirma o que o sumo sacerdote considerou como blasfêmia (Mc 14,64). Em João, o próprio Jesus, ao discutir com os judeus, diz: "Se a Lei chama deuses àqueles a quem se dirigiu a palavra de Deus - e a Escritura não pode falhar - como podeis dizer que blasfema aquele que o Pai santificou e enviou ao mundo só porque eu disse: 'Sou Filho de Deus'" (Jo 10,35-36). Marcos quer deixar claro à comunidade cristã que somente quando Jesus é visto como aquele que sofreu, morreu, ressuscitou e há de vir de novo, é que pode ser chamado filho de Deus em sentido próprio (Hendrickx: 1986, p. 130-131). Mateus coloca o reconhecimento de que Jesus era filho de Deus na boca do centurião e dos guardas que com ele estavam. Esta confissão é acompanhada pelo temor diante de uma manifestação divina: "ficaram com muito medo" (27,54: 9,8; 17,6). Em Mateus Jesus é reconhecido como "filho de Deus" já antes pelos discípulos, quando Jesus caminha sobre as águas ao encontro dos discípulos em meio ao mar agitado (Mt 14,33). Em Cesaréia de Filipe, Pedro também confessa que Jesus é "o Cristo, o Filho do Deus vivo" (16,16). E agora, junto à cruz, ao reconhecer que Jesus era filho de Deus, enquanto os chefes do povo o rejeitavam, o centurião romano torna-se um exemplo de profissão de fé para a comunidade cristã de Mateus. Jesus já havia elogiado esta fé num centurião romano que pedia a cura de seu servo: "Em ninguém de Israel encontrei tanta fé" (Mt 8,10-12). Em Lucas o centurião diz: "Realmente, este homem era um justo". Pilatos e o criminoso declararam que Jesus era inocente. O texto de Lucas parece sugerir que o centurião, tendo acompanhado todo o processo diante de Pilatos (23,2-25) e vendo a acontecido, reconhece que Jesus não tinha ambições políticas de que era acusado, mas era um justo. Em Lucas, o centurião reconhece que Jesus era um justo enquanto "glorificava" a Deus. Em outras ocasiões, em Lucas, o "louvor" ou a "glorificação" é a resposta cristã diante de palavras e gestos de Jesus. A glorificação é a resposta de quem crê que Deus interveio de modo decisivo na história da salvação (Lc 1,42.64; 2,20.28; 17,15, etc.). O título "justo" lembra o sofredor que é reabilitado como justo (Sl 31,19). Para Lucas "justo" é um título messiânico (At 3,14-15; 3,14; 7,52; 22,14) e lembra o servo sofredor de Isaías: "O justo, meu servo, justificará a muitos e tomará sobre si as suas iniqüidades" (Is 53,11). Além das palavras do centurião, Lucas acrescenta que a multidão, testemunha do que aconteceu, volta arrependida, "batendo no peito". Pode ser uma alusão a Zc 12,1.10 onde, diante do "transpassado" que morre, o povo se arrepende e faz lamentação. Pode-se também ver uma antecipação do dom do Espírito e do perdão, conforme At 2,38: "Arrependei-vos e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para o perdão dos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo".

quinta-feira, 14 de abril de 2011

"Os últimos momentos de Jesus no alto da cruz"

Apresentamos a partir de hoje, aqui no blog, um estudo detalhado dos últimos momentos de Jesus na cruz, feito pelo professor de exegese bíblica do Instituto Teológico Francisco de Petrópolis, Frei Ludovico Garmus, vale a pena ler visto que estamos bem próximos da Semana Santa e de tudo o que ela nos representa.
Para maiores detalhes sobre o professor frei Ludovico, acesse:

http://www.franciscanos.org.br/itf

Saudações aos leitores do blog e bom estudo!



1. A crucifixão


Marcos, na cena da crucifixão menciona o local (Gólgota), a oferta de vinho com mirra, a repartição das vestes por sorteio, a inscrição sobre a cruz e, por fim, os dois bandidos que com Jesus foram crucificados. Mateus menciona os mesmos fatos, precisando que o vinho foi misturado com fel e que havia ali guardas sentados, vigiando Jesus. Algumas mulheres, que seguiram Jesus desde a Galileia (cf. Mc 15,41), provavelmente, prepararam uma bebida que causava torpor, como era costume oferecer aos condenados. Em Pr 31,4-6 se aconselha que os governantes se abstenham de vinho e licores, "para não esquecer as leis e descuidar do direito de todos os pobres", mas recomenda: "Que se dê licor ao que vai morrer e vinho aos amargurados". Jesus, porém, se nega a beber, para enfrentar o sofrimento e a morte conscientemente. No Getsêmani, Jesus estava disposto a beber o cálice do sofrimento até o fim (Mc 14,36).
A repartição das vestes dos condenados à morte entre os que executavam a sentença estava prevista nas leis romanas. Mas a Igreja primitiva, que lia o Sl 22 para expressar a paixão de Jesus, viu no sorteio das vestes o cumprimento de uma profecia: "Repartem entre si minhas vestes e sobre minha túnica lançam a sorte" (Sl 22,19). João diz que as vestes foram divididas em quatro partes pelos soldados e somente a túnica sem costura foi sorteada.
Lucas omite na cena da crucifixão a oferta da bebida e a inscrição sobre a cruz, definindo o motivo da condenação. Lembra, porém, que junto com Jesus foram crucificados dois "criminosos" (em vez de bandidos de Mt e Mc), talvez relendo Is 53,12: "entregou sua vida à morte e se deixou contar entre os criminosos". Lucas é o único a citar, no contexto da crucifixão, uma oração de Jesus pedindo perdão: "Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem" (23,34). "A primeira palavra de Jesus na cruz foi uma palavra de perdão" (Lagrange). Este pedido de perdão poderia se referir aos soldados romanos. Mas, à luz de At 3,17.19 e da oração de Santo Estevão (At 7,59-60), é mais provável que Jesus estivesse pensando nas autoridades judaicas que causaram sua condenação. No momento supremo de sua vida e missão, Jesus dá o exemplo do perdão do qual falava (Lc 6,27-36; 17,3; cf. Is 53,12) e incluiu na oração do Pai Nosso (11,4).
João cita a oferta da bebida só mais tarde (19,29), mas insiste na inscrição "Jesus Nazareno, o rei dos judeus", escrita em hebraico, grego e latim. Os sumos sacerdotes reclamaram com Pilatos e queriam que a inscrição fosse modificada: em vez de "Jesus Nazareno, rei dos judeus" para "eu sou o rei dos judeus". Mas Pilatos respondeu com a famosa frase: "O que escrevi, está escrito". Jesus foi acusado de pretender ser um messias, rei dos judeus. Mas já no processo João rebate esta acusação: o reino de Jesus não é deste mundo (Jo 18,33-38; cf. Mc 15,2 e paralelos)].

2. Os insultos e os dois bandidos


Marcos e Mateus dividem os que insultam Jesus na cruz em três grupos: os que passavam perto do Gólgota, os sumos sacerdotes, escribas e anciãos e, finalmente, os dois bandidos crucificados. Em Marcos, os insultos giram em torno do título Messias-Rei. Os passantes retomam a falsa acusação feita contra Jesus de que Jesus prometeu destruir o Templo e desafiam-no a descer da cruz, salvando-se a si mesmo (Mc 14,58; 15,19), já que é tão poderoso; ao dizer isso eles "movem a cabeça", como no Sl 22,8 e em Lm 2,15. De fato, Jesus havia salvado muitas pessoas, curando-as. Mas também havia dito: "Quem quiser salvar sua vida vai perdê-la..." (Mc 8,35). Os escribas e sumos sacerdotes repetem o insulto e acrescentam que, se o "Cristo, rei de Israel", descesse da cruz, até eles haveriam de crer nele (Mc 15,32; Mt 27,42b). Lucas afirma que os soldados, ao oferecerem vinagre a Jesus, diziam: "Se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo", lembrando que acima da cabeça de Jesus estava escrito: "Este é o rei dos judeus" (Lc 23,36-38).
Os insultos dirigidos a Jesus na cruz lembram Sb 2,17-20 e Sl 22,7-9. Mesmo desafiado, Jesus nega-se a usar de seu poder para descer da cruz. Já na tentação do deserto (Lc 4,3.9) "Jesus havia feito sua opção definitiva entre demonstrar seu poder e entregar-se totalmente em obediência ao Pai" (Hendrickx: 1986, p. 155).
Marcos e Mateus dizem que também os dois bandidos crucificados participavam dos insultos. Lucas distingue: Apenas um dos criminosos blasfemava, dizendo: "Não és tu o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós" (Lc 23,39). O outro, porém, o repreendeu, dizendo que, se eles mereceram o castigo, Jesus era inocente e lhe fez um pedido: "Jesus, lembra-te de mim quando vieres como rei". E Jesus respondeu: "Ainda hoje estarás comigo no paraíso". O criminoso pensa, como os judeus em geral, na felicidade futura. Para Jesus, porém, a esperança da salvação futura é uma salvação que já se experimenta hoje (cf. Lc 2,11; 4,21; 19,9). No Antigo e no Novo Testamento, a essência da felicidade é estar com Deus.

3. Os sinais precursores da morte de Jesus


Marcos e Mateus citam dois sinais precursores: as trevas e o véu do Templo que se rasga. As trevas teriam coberto sobre toda a terra desde a hora sexta, meio-dia, até a hora nona, três da tarde. Não se trata de procurar uma explicação natural, como um eclipse ou o vento siroco, que pode trazer tanta poeira do deserto a ponto de fazer escurecer o céu. O fenômeno sugere um efeito cósmico da morte de Jesus e faz parte da linguagem escatológica do dia do Senhor e do julgamento divino, por ocasião da vinda do Filho do Homem: "Naqueles dias... o sol escurecerá" (Mc 13,24). Ou como diz Amós: "Acontecerá naquele dia que farei o sol se pôr em pleno meio-dia e escurecerei a terra em um dia de luz" (Am 8,9). Em João a paixão é também entendida como um julgamento divino: "Agora é o julgamento do mundo" (Jo 12,31).


Em breve, postaremos a continuação deste estudo...

terça-feira, 12 de abril de 2011

"Semana das semanas"!

Jesus Cristo – O dom universal do amor divino - Duns Scotus



Que nós homens neste santo vínculo de amor entre Deus e nós possamos ser companheiros de Deus, é um dom da graça diante ao qual qualquer nosso espanto ainda é pouco.


Podemos colocar aqui a pergunta: como foi possível que Deus, no seu infinito amor, criou um mundo finito, que Ele supera infinitamente?


Quando um ser humano ama outro, mas não encontra o amor recíproco correspondente, se diz que é um amor insatisfeito, infeliz. Mas isto para Deus é impensável. Assim, permanece a interrogação: como pode Deus, o Deus infinito, criar um mundo finito? Com este seu divino amor Ele quase não se perdeu na criação infinitamente a Ele subjugada?


A resposta de Duns Scotus a esta pergunta representa o centro de toda a sua teologia. Querendo Deus alargar o seu amor para além de si (esta era uma vontade Sua totalmente livre, não uma prescrição) e querendo Deus a criação, na sua vontade criativa, coloca à frente de toda criatura, em primeiro lugar a Encarnação de seu filho.


O filho de Deus feito homem realiza já em si, na sua dignidade e valor, o inteiro plano divino da Criação. Jesus Cristo, o Homem-Deus, é síntese e realização, princípio e fim de toda a criação. E assim como toda a criação se funda e converge no filho de Deus umanado, resulta – precisamente em Cristo e mediante Cristo – digno fruto do amor de Deus.


A doutrina de Cristo como cabeça e centro, origem e fundamento de toda a criação, não era nova. Esta já foi afirmada nas Sagradas Escrituras, como na carta de São Paulo aos Colossenses (1, 15-17): “Ele é imagem do Deus invisível, gerado antes de toda criatura, pois por meio dele foram criadas todas as coisas, as do céu e as da terra, as visíveis e as invisíveis: tronos, dominações, principados e potestades. Todas as coisas foram criadas por meio dele e em vista dele. Ele é antes de todas as coisas e todas subsistem nele”.


Scotus deixa muito evidente de modo plástico a relação entre Cristo e Adão. Adão é o primeiro homem, o progenitor de todos os homens, portanto também o progenitor de Jesus, quanto o que diz respeito a sua natureza humana, que se manifestou no tempo e viveu em um determinado período e época. Mas no eterno plano de Deus, que está fora e para além do tempo, Cristo existe antes de todo tempo, portanto antes mesmo de Adão, e Adão foi criado segundo o protótipo de todos os homens: Jesus Cristo. Duns Scotus fez ressurgir esta visão do primado de Jesus no mundo e a aperfeiçoou com novo esplendor.


Mais tarde, até nossa época, esta determinante, importante e ampla concepção de Jesus Cristo na visão de fé dos cristãos ganhou novamente vigor de forma notável. Nós conhecemos Cristo como o Redentor da alienação causada pelo pecado. Certo, Cristo é o Redentor do homens, e sua obra redentora é uma obra inefável e totalmente gratuita de amor divino. Mas a Redenção alcança quase como que uma nova ação da graça de Deus, se assim se pode dizer em termos humanos. Depois que os homens com o pecado se separaram de seu divino fundamento Jesus Cristo, este Cristo, tornando-se igual a nós até na morte, na nossa humanidade, marcada e assinalada pelo pecado, restabeleceu a nossa união com Deus.


Assim a Redenção vem a ser um ato do amor divino, pois o fundamento da existência doada em Cristo havia perdido seu significado. A tese de fé a respeito da posição universal de Jesus Cristo, Scotus fundamenta em uma exposição acessível mesmo as concepções de hoje. Por isso ele é para o nosso tempo, como mestre e arauto da fé, de atual importância e significado; o é porque a confusão na teologia de hoje se reaviva, sobretudo no que diz respeito à pessoa e missão de Jesus Cristo. Cristo é, portanto plenamente Deus e plenamente homem – totalmente Deus, pois só assim pode realizar o plano da criação de Deus e junto a ela nossa redenção, e totalmente homem, pois só como um de nós, como nosso mestre, ele pode incluir os homens na sua vida e na sua obra.


Se relembrarmos que se trata definitivamente e em tudo do amor: o amor de Deus motivo e sentido da nossa vida – o nosso amor a Deus como realização de nossa vida – ambas as duas realizadas no Homem-Deus Jesus Cristo, então compreenderemos o autêntico significado do culto ao Sagrado Coração de Jesus. No coração, motor da vida, nós vemos surgir espontâneo a sede do amor. Do mesmo modo, no coração de Jesus nos torna claro e evidente o amor de Deus, e o coração de Jesus é assim o canal através do qual o nosso amor pode chegar ao Pai celeste.


Assim é compreensível que entre os discípulos de Scotus, na escola franciscana, a veneração ao Coração de Jesus pode efetivamente florescer. Para reavivar de novo a consciência do posto universal de Jesus Cristo no povo cristão, foi introduzida em nossos tempos a festa de Cristo Rei. A imagem de Cristo, Rei do universo, percorre assim o ano litúrgico e recebe relevância em festas importantes e em particulares períodos: advento e natal com a epifania, isto é, a manifestação do Deus soberano – a coração do Rei, através da sexta-feira santa, a Páscoa e a ascensão – e continua na igreja viva através do mistério da santíssima eucaristia.


Quando o significado de Jesus Cristo como rei de toda a criação, havia perdido significado, a igreja o restabelece com a solenidade de Cristo Rei. Como Jesus Cristo é a mediação entre Deus e nós, que dá para toda a criação sentido e valor, assim (e estes são impulsos que vem da visão de fé de Scotus a respeito de Cristo) Jesus Cristo deveria ser o centro determinante, sempre mais vivente e atual, mesmo em nossas concepções de fé e mais ainda em nossas relações interiores com Deus, em nossa oração, no nosso amor a Deus.