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sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Nós carregamos a semente da fé - 27º domingo do Tempo Comum


Lc 17,5-10

5 Os apóstolos disseram ao Senhor: «Aumenta a nossa fé!» 6 O Senhor respondeu: «Se vocês tivessem fé do tamanho de uma semente de mostarda, poderiam dizer a esta amoreira: ‘Arranque-se daí, e plante-se no mar’. E ela obedeceria a vocês.

7 Se alguém de vocês tem um empregado que trabalha a terra ou cuida dos animais, por acaso vai dizer-lhe, quando ele volta do campo: ‘Venha depressa para a mesa’? 8 Pelo contrário, não vai dizer ao empregado: ‘Prepare-me o jantar, cinja-se e sirva-me, enquanto eu como e bebo; depois disso você vai comer e beber’? 9 Será que vai agradecer ao empregado, porque este fez o que lhe havia mandado? 10 Assim também vocês: quando tiverem cumprido tudo o que lhes mandarem fazer, digam: ‘Somos empregados inúteis; fizemos o que devíamos fazer’.»

* 17,1-10: Lucas reúne aqui sentenças de Jesus sobre o escândalo, a correção fraterna, o perdão, o poder da fé e a necessidade de estar desinteressadamente a serviço de Deus. São atitudes fundamentais para a vida do discípulo de Jesus.

Bíblia Sagrada - Edição Pastoral

 Nós carregamos a semente da fé – Pe. João Batista Libânio, sj

O evangelho de Lucas tem duas partes independentes: uma metáfora da natureza, que Jesus tira da experiência de camponês que Ele era, e uma estrutura social, típica da sociedade em que vivia. Hoje sabemos que a grande diferença entre natureza e cultura é uma das categorias mais trabalhadas pela filosofia e teologia. Quando falamos de natureza, sabemos que falamos de uma árvore.

Quando a transformamos em alguma coisa diferente, já é cultura. Se plantarmos várias árvores e fizermos um jardim, já não podemos falar de natureza, pois já é cultura. Se formos para a Amazônia e encontrarmos árvores crescendo por todas as partes, teremos natureza. Mas se chegarmos como ecologistas que cuidam, é cultura. Nós, seres humanos, culturalizamos tudo. Tudo o que tocamos vira cultura. Não comemos arroz como um cavalo. Colocamos no prato, e isso é cultura. Água é natureza, mas nós a tomamos em copos, em garrafas, e isso é cultura.

Também Jesus, apesar de não ter cursado sociologia na USP ou na UFMG (*), sabia bem distinguir natureza e cultura. Toma um exemplo da natureza: a semente, e um exemplo de cultura: um costume da época. A partir dessas duas realidades, tira sua lição.

Hoje, com a biotecnologia, com a botânica, o exemplo de Jesus se torna muito mais rico do que Ele poderia imaginar. Quando diz que a nossa fé é como uma semente, até então, achava-se que uma semente não fosse nada mais do que substâncias químicas que, depois de degradadas, fariam uma árvore. Mas hoje, os biólogos, através da biotecnologia, sabem muito bem que uma semente carrega milhares e milhões de informações. Isso é o fantástico das ciências modernas. As sementes carregam essas informações de milhões de anos. São como os cd’s que os jovens carregam o dia todo, sem se dar conta de que naquela plaquinha metálica tem milhares de notas musicais, que um olhinho de luz pode transformar em sons. Portanto, a semente não é algo assim tão simples. Dentro dela estão milhões de anos de informações. Por isso, nela está tudo marcado: para nascer determinada árvore, com as folhas com o mesmo desenho, com um tronco que cresce com maior ou menor densidade. Tudo isso é guardado como informação dentro dela.

Quando leio algum livro de biologia moderno, realmente fico parado, abismado. Como pode uma coisa tão pequena carregar tantas informações?!

Passemos para a outra metáfora de Jesus. Vocês acham que a fé, que, como Jesus diz, é um grão de mostarda, também é alguma coisa que nasce agora? Também ela tem milhares de anos de informações. Pra começar, tem dois mil anos de cristianismo. Se quisermos ir mais longe, podemos ir até Abrão, até Noé, ou mesmo até Adão e Eva. Hoje, através da ciência, sabemos que o ser humano tem de um a dois milhões de anos, e tudo isso passa e chega a cada um de nós. Carregamos uma história gigantesca e podemos ter a certeza de que pelas nossas veias corre sangue com quinze bilhões de anos, porque as substâncias que estão em nosso corpo foram geradas no mesmo instante do big-bang. A nossa fé carrega tudo isso, para nos alimentar, nos fazer viver, nos fazer felizes, mais humanos, mais comunitários, responsáveis, solidários. Tudo isso está nessa pequenina informação. Quando andamos por uma rua e encontramos uma pessoa necessitada, uma criancinha sofrendo, nos comovemos, porque trazemos essa informação de fé, de milhares de anos e de milhões de pessoas que um dia também se comoveram e passaram para nós. Recebemos tudo isso de uma herança gigantesca, de bem e, infelizmente, também de mal.

Hoje Jesus quer falar do bem, portanto, da fé. Cada um de nós deveria olhar para a semente de sua própria fé, sabendo quanta história ela carrega. É como um acumular de experiências, tradições, vivências colhidas de nossos pais, avós, parentes que nem chegamos a conhecer, vindos de outros países, de outras etnias.

Tudo isso chegou a cada um de nós. As mulheres casadas carregam a história de seus maridos e filhos. A mãe pensa que faz a história do filho, mas o filho também faz a história da mãe. Ela carrega o futuro do filho dentro de si. São coisas assim que nos deixam pasmos! Quanto mais a ciência avança, mais pensamos em quão gigantesca é a inteligência de quem criou uma coisa tão pequenina quanto uma semente. Nós somos essa semente de fé! Se tivéssemos certeza e confiança dessa grandeza, nossa cidade não seria o que é. Poderíamos chegar para uma árvore e mandar que ela se jogasse no oceano. Mas não é no sentido físico que Jesus diz. Ele quer nos lembrar a força espiritual que carregamos.

Podemos dizer aos jovens que se arranquem da inércia e se lancem. Que acordem dentro deles a força interior que a semente guarda. Temos que nos preocupar em arrancar as árvores, diria mais, os espinhos, todos os arbustos secos que estão nos corações das pessoas. Temos que arrancá-los através da nossa fé e jogar lá dentro alguma árvore mais frutífera, bela, estética, perfumada, mais cheia de vida. Isso é uma tarefa muito mais difícil do que arrancar uma amoreira e lançá-la ao mar. Um trator pode fazer isso, mas arrancar de um coração humano a força viva, não há trator que consiga, não há grua que arranque. Mas a nossa palavra, nosso desejo, nosso olhar, nosso coração pode conseguir.

O mundo de hoje sofre demais! As pessoas sofrem solidão, tristeza, anonimato. Elas riem com sorriso de plástico, midiáticos, vazios, cosméticos. Não têm sorriso de alma, de coração e precisam desse sorriso, dessa vida. Mas somente pode dá-lo quem o tem, quem vive, quem espera, quem ama, quem acredita. Temos esse imenso patrimônio de experiência de vida e não o passamos. Guardamos para nós, no silêncio, na timidez, no medo, no acanhamento, na inércia que não nos deixa mover. Precisaríamos descobrir um pouco mais da energia que o Senhor diz que cada semente tem.

Sobre a cultura, o Senhor também tem o que nos dizer. O exemplo que Ele quer que sigamos é a gratuidade que deve nascer dentro de nós. Quando fizermos alguma coisa para os outros, não marquemos na lista das cobranças. Há uma palavra que sempre ouvimos neste país diuturnamente: cobrança. Que palavra feia, semântica e sonoramente! Os credores cobram, os chefes, os gerentes dos bancos, os comerciantes, os professores cobram. Todos cobram de todos. Jesus veio trazer uma realidade diferente, de gratuidade. Olhemos para nós: como nos cobramos mutuamente em nossas relações de homem e mulher. Eu lhe dei dez anos, você só me deu nove! Vivemos nesse jogo. Onde fica a gratuidade? Ela não olha, não mede, não calcula. É como uma água que brota de uma mina, límpida, ainda não contaminada, como a que deve brotar de nossos corações.

Quando encontramos pessoas gratuitas, ressuscitamos. Como o olhar da pessoa gratuita é diferente! Há olhares anzóis, cobrantes, sagazes, mais ainda: eu diria sugazes, pois querem sugar tudo que os rodeia. Não querem devolver, nem comunicar, não fazem fluir de dentro. Jesus está nos dizendo isso há mais de dois mil anos, e ainda não aprendemos. Queremos tudo voltado para nós, e isso faz parte de nossa natureza animal, de quem só pensa em si mesmo, do mais forte que sempre devora tudo. Carregamos um traço muito importante que se chama liberdade. Podemos deixar que o outro chegue antes de nós e também se beneficie, pois somos mais que animais.

De tudo isso que o Senhor nos diz, podemos tirar duas ideias: a fé tem força, a gratuidade comove, toca, converte e muda o mundo. Jesus quer acordar em nós o sentido de humanidade, de disponibilidade. Ele nos propõe uma abertura fundamental para os outros. Amém. (07/10/07 - 27º domingo comum)

(*) referência a duas grandes universidades, de São Paulo e de Minas Gerais.


Santo do dia: São Jerônimo


Ó Deus, que destes ao presbítero São Jerônimo profundo amor pela Sagrada Escritura, concedei ao vosso povo alimentar-se cada vez mais da vossa palavra e nela encontrar a fonte da vida. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

É incontestável o grande débito que a cultura e os cristãos de todos os tempos têm com este santo de inteligência brilhante e temperamento intratável. Jerônimo nasceu em uma família muito rica na Dalmácia, hoje Croácia, no ano 347. Com a morte dos pais, herdou uma boa fortuna, que aplicou na realização de sua vocação para os estudos, pois tinha uma inteligência privilegiada. Viajou para Roma, onde procurou os melhores mestres de retórica e desfrutou a juventude com uma certa liberdade. Jerônimo estudou por toda a vida, viajando da Europa ao Oriente com sua biblioteca dos clássicos antigos, nos quais era formado e graduado doutor.

Ele foi batizado pelo papa Libério, já com 25 anos de idade. Passando pela França, conheceu um monastério e decidiu retirar-se para vivenciar a experiência espiritual. Uma de suas características era o gosto pelas entregas radicais. Ficou muitos anos no deserto da Síria, praticando rigorosos jejuns e penitências, que quase o levaram à morte. Em 375, depois de uma doença, Jerônimo passou ao estudo da Bíblia com renovada paixão. Foi ordenado sacerdote pelo bispo Paulino, na Antioquia, em 379. Mas Jerônimo não tinha vocação pastoral e decidiu que seria um monge dedicado à reflexão, ao estudo e divulgação do cristianismo.

Voltou para Roma em 382, chamado pelo papa Dâmaso, para ser seu secretário particular. Jerônimo foi incumbido de traduzir a Bíblia, do grego e do hebraico, para o latim. Nesse trabalho, dedicou quase toda a sua vida. O conjunto final de sua tradução da Bíblia em latim chamou-se "Vulgata" e tornou-se oficial no Concílio de Trento.

Romano de formação, Jerônimo era um enciclopédico. Sua obra literária revelou o filósofo, o retórico, o gramático, o dialético, capaz de escrever e pensar em latim, grego e hebraico, escritor de estilo rico, puro e, ao mesmo tempo, eloquente. Dono de personalidade e temperamento fortíssimos, sua passagem despertava polêmicas ou entusiasmos.

Devido a certas intrigas do meio romano, retirou-se para Belém, onde viveu como um monge, continuando seus estudos e trabalhos bíblicos. Para não ser esquecido, reaparecia, de vez em quando, com um novo livro. Suas violências verbais não perdoavam ninguém. Teve palavras duras para Ambrósio, Basílio e para com o próprio Agostinho. Mas sempre amenizava as intemperanças do seu caráter para que prevalecesse o direito espiritual.

Jerônimo era fantástico, consciente de suas próprias culpas e de seus limites, tinha total clareza de seus merecimentos. Ao escrever o livro "Homens ilustres", concluiu-o com um capítulo dedicado a ele mesmo. Morreu de velhice no ano 420, em 30 de setembro, em Belém. Foi declarado padroeiro dos estudos bíblicos e é celebrado no dia de sua morte.

Fonte: Paulinas

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Santo do dia: Santos Anjos


Arcanjos São Miguel, São Gabriel e São Rafael

O novo calendário reúne em celebração única os três arcanjos que eram comemorados em dia diferentes. Este dia seria a festa do arcanjo São Miguel, o antigo padroeiro da sinagoga e agora padroeiro universal da Igreja. São Gabriel é o anjo da Anunciação, enquanto São Rafael é invocado como guia dos que viajam.

A existência dos seres incorpóreos, que as Sagradas Escrituras chamam habitualmente de anjos, é uma verdade de fé.

Mas quem são os anjos? Eis a resposta de Santo Agostinho: "Angelus officii nomen est, non naturae". Anjo é denominação de encargo, não de natureza.Se perguntares pela denominação de natureza, é um espírito; se perguntares pelo encargo, é um anjo: é espírito por aquilo que é, e é anjo por aquilo que faz. Os anjos são, pois, servidores e mensageiros de Deus. Pelo fato que "veem sempre a face do Pai que está no céu", como se lê no Evangelho de Mateus, "eles são executores poderosos de suas palavra, obedientes ao som da sua palavra"( Salmo 103,20).

São Miguel, como expressão da onipotência de Deus, recebeu, desde o começo da história do cristianismo, um culto particular. Constantino e Justiniano erigiram-lhe dois santuários nas duas extremidades do Bósforo.

Em Roma, o arcanjo domina a cidade do alto da Mole Adriana, a qual tomou o nome de Castelo Santo Anjo.

São Gabriel,"aquele que está diante de Deus", é o anunciador por excelência das divinas revelações: anuncia ao profeta Daniel o retorno do exílio do povo eleito; leva a Zacarias a notícia da iminente concepção do precursor do Messias. Depois, é-lhe confiada a missão mais alta que possa ser dada a uma criatura: o anúncio a Maria da Encarnação do Filho de Deus.

São Rafael é nomeado em um único livro das Escrituras: tem a missão de acompanhar o jovem Tobias para tornar-lhe seguro o caminho por estradas desconhecidas e lhe sugere a receita para curar o pai da cegueira temporária ("Rafael" significa, de fato, "Deus Cura"), sendo, por isso, invocado como protetor de quem se põe em viagem e como patrono de quem se dedica à cura dos doentes.

(Retirado do livro "Os Santos e os Beatos da Igreja do Ocidente e do Oriente", Paulinas Editora)

Das Homilias sobre os Evangelhos, de São Gregório Magno - A palavra anjo indica o ofício, não a natureza

É preciso saber que a palavra anjo indica o ofício, não a natureza. Pois estes santos espíritos da pátria celeste são sempre espíritos, mas nem sempre podem ser chamados anjos, porque somente são anjos quando por eles é feito algum anúncio. Aqueles que anunciam fatos menores são ditos anjos; os que levam as maiores notícias, arcanjos.

Foi por isto que à Virgem Maria não foi enviado um anjo qualquer, mas o arcanjo Gabriel; para esta missão, era justo que viesse o máximo anjo para anunciar a máxima notícia.

Por este motivo também a eles são dados nomes especiais para designar, pelo vocábulo, seu poder na ação. Naquela santa cidade, onde há plenitude da ciência pela visão do Deus onipotente, não precisam de nomes próprios para se distinguirem uns dos outros. Mas quando vêm até nós para cumprir uma missão, trazem também entre nós um nome derivado desta missão. Assim Miguel significa: “Quem como Deus?”; Gabriel, “Força de Deus”; e Rafael, “Deus cura”.

Todas as vezes que se trata de grandes feitos, diz-se que Miguel é enviado, porque pelo próprio nome e ação dá-se a entender que ninguém pode por si mesmo fazer o que Deus quer destacar. Por isto, o antigo inimigo, que por soberba cobiçou ser igual a Deus, dizendo: Subirei ao céu, acima dos astros do céu erguerei meu trono, serei semelhante ao Altíssimo ( cf. Is 14,13-14), no fim do mundo, quando será abandonado às próprias forças para ser destruído no extremo suplício, pelejará com o arcanjo Miguel, como diz João: Houve uma luta com Miguel arcanjo (Ap 12,7). A Maria é enviado Gabriel, que significa “Força de Deus”. Vinha anunciar aquele que se dignou aparecer humilde para combater as potestades do ar.Portanto devia ser anunciado pela força de Deus o Senhor dos exércitos que vinha poderoso no combate.

Rafael, como dissemos, significa “Deus cura”, porque ao tocar nos olhos de Tobias como que num ato de cura, lavou as trevas de sua cegueira. Quem foi enviado a curar, com justiça se chamou “Deus cura”.